Par Perfeito
Alice
Alice ficou parada do lado de fora da loja de jardinagem Dedos Verdes, franzindo a testa enquanto esperava as portas abrirem. Sua ida ali normalmente se reservava aos domingos, mas depois dos estresses da noite anterior, sentia que precisava do bálsamo imediato das plantas.
— Problemas? — perguntou Dudley ao destrancar a porta e deixar os entusiastas madrugadores entrarem.
— Hein? Não, estou bem. Obrigada, Dudley. Como vai você?
Alice não tinha dormido muito na noite anterior. Não podia acreditar que o relacionamento de Ginny e Dan estivesse problemático. Sempre pensara neles como o casal perfeito. Com tristeza, ficara observando os números vermelhos de seu despertador se aproximarem das quatro da manhã.
Mas agora já era dia e o céu estava atipicamente ensolarado. Ela correu até a área externa e contemplou a cena. Sempre se demorava alguns segundos embebedando-se dos poderes restauradores da imagem tranquila e natural diante dela: os corredores de plantas lindamente saudáveis e o calmo e constante gorgolejar das fontes de água. Sua peregrinação nunca falhava em apagar os problemas da semana.
Hoje, porém, mesmo enquanto olhava para o pátio externo, sentia o corpo pesar. Juntando as acusações de Sheryl, seu pavor de ir ao baile e, posteriormente, a terrível realidade de estar lá, aquela semana tinha sido infernal. Todas as noites haviam sido insones. Mas a noite passada… a noite passada fora a pior delas. Sua própria infelicidade era uma coisa; a infelicidade de sua amiga era outra bem diferente.
Ela percorreu o primeiro corredor. As tulipas estavam começando a desabrochar, como gotas púrpuras gigantes, de cabeça para baixo, se equilibrando na extremidade dos caules robustos. Ela pegou uma, notando a sensação reconfortante do vaso com terra em sua mão; tão simples, comparada à sua cabeça que fervia e rodopiava.
Alice percorreu de cima a baixo os corredores de prímulas e violetas que se abriam em flor. Pouco a pouco, todos os pensamentos sobre Ginny, Audrey e Sheryl foram se esvaindo e ela iniciou uma descida deliciosa que a levaria a se perder completamente no mundo vegetal. Minúsculos veios de terra começaram a se formar na ponta de seus dedos conforme ela acariciava as plantas, verificando cuidadosamente os níveis de umidade na terra e afagando as folhas aveludadas. Era sua própria versão de terapia, e infinitamente mais barata. Lentamente, sem que ela se desse conta, sua tensão desapareceu, seus olhos ficaram mais brilhantes e tudo se encaixou no lugar. Vinte minutos depois, ela estava novamente ereta, os ombros direitos e o rosto mirando o sol.
Alice virou no último corredor, cantarolando baixinho consigo mesma enquanto abraçava várias plantas junto ao corpo. No final do corredor, notou um cúmplice madrugador curvado sobre o que parecia ser uma Stachys byzantina. Alice sorriu ao reconhecer uma mente afim, igualmente fanática por plantas. Era, com toda certeza um jardineiro, e não um mero amador. Acariciava delicadamente as folhas da planta entre o polegar e o indicador, saboreando o toque aveludado e dando toda a impressão de ajoelhar-se diante dela em estado reverente de adoração. Alice apertou ainda mais suas plantas, sentindo um repentino impulso de alegria. Era isso que importava. Não as políticas do escritório ou se preocupar com o que as pessoas pensavam dela. Era ali que Alice era apenas Alice e nada podia afetá-la. Era seu porto seguro. Ela sorriu e se virou para inspecionar o corredor. Estendeu a mão para tocar numa margarida rechonchuda.
— Alice?
Uma voz rompeu o silêncio tranquilo. Alice deu um pulo, como se a realidade voltasse com tudo. Relutante, ela se virou para ver quem era.
Era o jardineiro do final do corredor, que havia se virado para encará-la. Com um choque, percebeu que o conhecia.
Era John.
— Alice! Que bom te ver! — Ele sorria calorosamente para ela.
Seu cérebro zuniu à velocidade da luz. Era John Cracknell! O que ele estava fazendo ali? Ele gostava de jardinagem? Ele parecia diferente de antes — mais relaxado. E, nossa, ela tinha se esquecido de como ele era absurdamente bonito. Aqueles olhos! Rapidamente, desviou o olhar de seu rosto e, com surpresa, viu o jeans velho e desbotado com uma porção de terra seca em um joelho, as botas enlameadas e o blusão de lã, furado no cotovelo. Ele parecia um jardineiro. Era um jardineiro.
Mas, então, a mente de Alice se escureceu… Audrey estava com ele? E se sua chefe de repente surgisse em meio aos corredores de plantas, estragando seu lugar especial para sempre…? E se John estivesse — precisamente naquele instante — tendo um flashback mental de seu nariz escorrendo e suas lágrimas, no ponto de táxi? Mas quando olhou para ele algo se acendeu em grandes letras vermelhas em seu cérebro. “Ele é igualzinho a mim!”, dizia. E, então, desapareceu.
— Hã, oi — gaguejou ela, repentinamente ciente de que se esquecera de escovar os dentes aquela manhã.
— Eu só estava admirando essa Stachys byzantina. É maravilhoso vê-las novamente em flor.
Ela tinha consciência de que ele estava olhando para ela, à espera de que ela dissesse alguma coisa. Tentou não olhar para seu rosto; havia algo em olhá-lo diretamente que parecia fazê-la corar.
— Não sabia que você era jardineiro — soltou ela. — Quer dizer, Audrey nunca disse nada.
Ela percebeu uma expressão estranha passar pelo rosto dele e, então, desaparecer.
— Eu amo meu jardim — revelou ele. — É a parte mais importante da casa.
Alice assentiu. Que coisa perfeita de se dizer! Mas que estranho que fosse John Cracknell a dizê-la. E o que significava? Com certeza Audrey não era jardineira, ou era? Impossível! Alice tentou imaginá-la regando seu jardim, falando com as plantas ou ajoelhada diligentemente na terra enlameada, enquanto plantava carinhosamente uma frésia. Será que poderia ter interpretado Audrey tão erroneamente? Esperava que não. Não gostava de pensar em si mesma como sendo, em qualquer aspecto, semelhante à sua chefe.
— A… é… Audrey está com você? — Tentou manter a voz alegre.
John riu.
— Não.
Ele disse aquilo de uma forma muito enfática. Então, Audrey não era mesmo uma jardineira! Alice tentou não deixar seu alívio transparecer.
— Então, você está aqui nas primeiras horas de uma manhã de sábado, agarrando essas clemátis como se a sua vida dependesse disso — continuou John, com leveza. — Suponho que você seja uma jardineira, então?
— Sim, sim! Adoro. — Alice deu uma risada rápida e relaxou o aperto nas plantas.
— Que ótimo! — Ele sorriu. — Nunca conheci uma jardineira de que eu não gostasse.
Alice olhou para os próprios pés, o rosto novamente em brasa.
— O que eu quero dizer é… — acrescentou ele, depressa — que acho jardineiros pessoas calmas e generosas, só isso.
Alice ergueu os olhos e assentiu, muda. Sabia o que ele queria dizer, mas não sabia o que dizer. Esperava que ele não chegasse mais perto; não o queria à distância de seu hálito, só por precaução.
— Olha — John deu um passo na direção dela —, eu sei que não começamos da melhor maneira possível. Quinta-feira foi… bem, tenho certeza que nós dois já tivemos noites melhores…
Alice olhou mais uma vez para os pés. No entanto, poderia ter novamente se chutado por seu comportamento no baile. E que vergonha que John Cracknell tivesse testemunhado tudo.
— … mas eu gostaria muito de deixar isso para trás, começar de novo — ela o ouviu dizer.
Houve uma longa pausa enquanto Alice tentava pensar numa resposta.
— Olha, Alice, você tem de ir a algum lugar?
— Ir?
— Quer dizer, você está com pressa? Eu estava pensando se não poderíamos tomar um café. Quem sabe, bater papo sobre plantas perenes e a melhor época para a poda. — Ele deu uma risadinha sem jeito.
Alice respirou fundo.
— Não! — disse rapidamente. — Não acho que seria… apropriado, e você?
— Apropriado?
Alice ficou surpresa. Ele parecera ser um homem atencioso. É claro que não podia ir tomar café com ele! O que ele tinha na cabeça?
— Audrey! — disse Alice enfaticamente.
Ele a olhou sem qualquer expressão.
— Eu só me referia a um café. E Audrey não é problema, na verdade…
Alice agarrou suas plantas, empertigada. Não podia acreditar na forma desleixada como ele pusera de lado a esposa! Será que ele de fato achava que não tinha problema ir tomar um café com a funcionária de sua companheira, e que Audrey não se importaria? Ou talvez ele estivesse querendo alguma coisa…? Alguma coisa completamente diferente. Ficou óbvio que ela havia se equivocado sobre ele. Teve um raro rompante de raiva. Que tipo de homem dispensa a esposa como “não sendo problema”?
— Tenho que ir! — soltou. Ela girou nos calcanhares, abaixou a cabeça e acelerou o máximo que podia. Ouviu John chamar seu nome, mas continuou em frente, com pressa, rumo à saída. Ao se aproximar dos caixas, percebeu que ainda carregava as clemátis. Realmente queria levá-las, mas não podia se arriscar a parar para pagá-las. E se John a alcançasse e tentasse continuar a conversa? Rapidamente, deixou-as num expositor de anões de jardim e correu para a porta de saída.
— Tchau, Alice! — gritou Dudley quando ela passou voando por ele. Alice correu até sua bicicleta e pedalou para casa o mais rápido possível, xingando-se por não ter comprado as clemátis e questionando sem parar como podia ter se equivocado tanto com John e sua gentileza cavalheiresca.