Par Perfeito
Sheryl
Sheryl deslizou para dentro de seu conversível vermelho, checou o gloss no espelho retrovisor e ligou o motor, com um ostentoso e desnecessário ronco. Verificou o relógio. Ainda tinha tempo de sobra.
Começou a costurar entre o tráfego de início do rush, jogando o cabelo e fingindo ignorar as cabeças que sabia que estava fazendo virar entre os motoristas. Sheryl adorava a primavera. E o verão e o outono, a bem da verdade. O inverno era a única estação de que não gostava, com as saias mais compridas e as leis tácitas da moda de que os decotes deveriam ficar enterrados sob camadas repugnantes de lã. Mas, agora que o clima finalmente havia mudado, Sheryl aproveitava todas as oportunidades de baixar a capota de seu carro e se exibir para os demais motoristas, ainda que isso significasse ligar o aquecedor de seu carro no máximo.
Um entregador, de bicicleta, parou ao lado dela no semáforo e aproveitou a vantagem dada pela altura de sua bicicleta para espiar em seu decote. Sim, a primavera era definitivamente uma estação maravilhosa, pensou ela com um sorriso afetado.
Enquanto esperava que o sinal abrisse, seu olhar vagou pela paisagem dos motoristas, demorando-se numa van que continha três operários que suavam testosterona. Deliberadamente, deixou que seu olhar se demorasse o suficiente para que um deles se inclinasse para fora da janela e gritasse uma leve, mas elogiosa, obscenidade. Sheryl o recompensou com um sorriso sugestivo, justamente quando o sinal abriu. Seu conversível rugiu e ela acelerou depressa em direção ao próximo sinal vermelho.
A vida é boa, pensou ela, petulante. Os negócios estavam prosperando, os lucros aumentando e sua aquisição da Cabana do Cupido tinha corrido bem. Quando acrescentava à lista sua engenhosa revelação de Audrey Cracknell no dia anterior e sua mala cuidadosamente preparada que repousava ali no banco do passageiro, pronta para um encontro clandestino no White Hotel, a vida não podia ser muito melhor.
Quando se está vencendo… pensou Sheryl presunçosamente. Tudo estava se encaixando no lugar certo, como se fosse uma coreografia, inclusive com a Partridges adquirindo mais calcinhas fio dental de plumas roxas, bem a tempo para esta noite. Suas calcinhas de plumas (particularmente as roxas) sempre haviam enlouquecido Ernie, e Sheryl tentara disfarçar sua irritação quando ele guardara a última no bolso, após seu encontro anterior num hotel.
— Um suvenir — dissera ele com um sorriso que deixara sua coleção de pés de galinha visível sob a luz artificial.
Velho estúpido, ela havia pensado, perguntando-se se os homens um dia saíam de sua adolescência latente. No entanto, tinha que reconhecer que as calcinhas estavam cumprindo seu papel. Ernie já a estava tratando como sua vice na ADAR, acatando-a abertamente nas reuniões. E quando o bobalhão finalmente percebesse que estava na hora de se aposentar, Sheryl já o haveria deixado no ponto onde queria, para garantir que a sucessão à presidência fosse uma barbada.
Além disso, seus encontros extracurriculares com Ernie não eram apenas trabalho. Ela sempre fora uma defensora tenaz da variedade, e a idade e a gratidão de Ernie ofereciam um contraste revigorante à vaidade e às acrobacias de Brad. E, a despeito do que se dizia sobre ser impossível ensinar truques novos a cachorros velhos, Sheryl tinha feito Ernie latir de formas que nunca pensara que fossem possíveis.
Tamborilou com as garras vermelhas no volante e se virou preguiçosamente para dar uma olhada na vitrine da Partridges. Porém, antes que seu olhar chegasse aos manequins com roupas de estilistas famosos, sua atenção recaiu sobre uma figura conhecida no ponto de ônibus, carregando um cesto de transporte para gatos. Levou alguns segundos para Sheryl perceber que a mulher simplória, perdida numa introspecção emocional, era Audrey Cracknell. Ela parecia diferente, de certa forma. Bastante. Era como se a agressividade a houvesse abandonado. Seu queixo já não apontava para a frente, como o de um soldado na parada militar. Até mesmo seu cabelo já não parecia tão desafiadoramente laranja. Ela mal se parecia com a adversária de Sheryl.
Sheryl deu um sorriso afetado de vitória, acelerou propositalmente o motor do carro e adiantou-se através de uma repentina abertura no trânsito. Talvez devesse dar um telefonema no dia seguinte, pensou, sem piedade; ver se chegara o momento de que a Mesa Para Dois fosse vendida. Afinal, ponderou ela sem qualquer compaixão, negócios não eram apenas negócios. Eram guerra. E todo mundo sabe o que se diz sobre o amor e a guerra.