Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 79 de 90

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Par Perfeito

Audrey

Audrey cambaleava pelas ruas, as lágrimas rolando livremente. Andava às cegas, atravessando sem ligar para o sinal vermelho e cruzando parques perigosamente escuros. Não via nada, não ouvia nada, não sentia nada além da faca que John e Alice haviam enterrado em seu coração.

 

John e Alice.

Seu John e sua Alice.

Quando é que Alice tinha se tornado atraente? Quando, exatamente, o patinho feio se transformara em cisne? Seus encontros amorosos com John deviam estar acontecendo bem embaixo do nariz de Audrey. Suas entranhas se reviraram dolorosamente. Será que John tinha beijado Alice antes? Será que ele tinha tocado em seu rosto, passado a mão pela pele de veludo de suas costas, colocado as mãos sob as alças do vestido dela e o visto cair voluptuosamente no chão? Será que ele tinha…? Com Alice? A fria Alice, que vivia devaneando pela janela? A Alice que ela havia empregado, confiado, cuidado e treinado? A Alice que ela — por pura bondade — tinha levado ao baile? E como Alice havia retribuído? Enganando-a; mentindo. Escondendo-se em cardigãs durante o dia e se vestindo como uma loba à noite. Roubando o único e verdadeiro amor de Audrey e o exibindo na sua cara.

Quando Audrey estava se aproximando de casa, o veneno da raiva já corria por seu corpo inteiro. Como Alice se atrevia a fazer isso com ela? Como se atrevia a roubar John? Devia estar rindo dela há semanas. Provavelmente não passara um dia em que ela não houvesse se parabenizado presunçosamente por ter vencido a chefe, sorrindo secretamente na frente de Audrey enquanto afiava a adaga para enterrar em suas costas, passando os dedos de piranhuda pelo peito de John.

Audrey foi pisando duro pela calçada que atravessava seu jardim, bufando de ódio. Abriu a porta da frente com força e foi fumegando pelo corredor, os punhos apertados. Bem, ela iria mostrar a Alice uma coisa! Iria mostrar àquela meretriz calculista que com ela não se brincava. Iria demiti-la. Iria denunciá-la. Iria enforcá-la e expulsá-la da cidade. Iria…

… Iria destruir aquela cadela insidiosa. Iria arruiná-la. Iria fazer com que John se arrependesse do dia em que colocara os olhos naquela prostitutazinha enganadora e maquiavélica.

Audrey chutou, com fúria. Seu pé atingiu uma coisa macia. Houve um ganido de dor e, então, um silêncio repentino. Audrey ficou paralisada, apoiada num pé só, a outra perna ainda estendida, enquanto sua boca se enchia com o gosto da bile.

Então, olhou para baixo.

Pickles havia caído onde o piso se juntava ao rodapé. Sua caixa torácica arfava com a respiração entrecortada e difícil, uma das patas traseiras estava retorcida de forma pouco natural. Totalmente fraturada. Pickles estava quebrado.

Audrey deu um grito, um grito longo e angustiado que partiu do âmago do seu ser. Caiu de joelhos.

— Pickles! — exclamou, cheia de remorso. — Meu querido Pickles! Perdão! Só te peço perdão!

Tentou acariciá-lo, mas Pickles se retraiu, sentindo dor.

— Me perdoa, me perdoa, me perdoa — implorou ela. Lágrimas grandes pingavam de seu rosto sobre o pelo de Pickles, desaparecendo em sua pelagem viçosa.

— Me desculpe, me desculpe, me desculpe.

As lágrimas rolavam, sua raiva esquecida enquanto via o amigo lutar para respirar. Após vários minutos, Audrey se colocou em pé e vasculhou o armário do telefone, em pânico, tirando encartes e folhetos antigos ao procurar desesperadamente pelas Páginas Amarelas.

— Me desculpe, me desculpe — repetia sem parar, enquanto tentava focalizar as letrinhas minúsculas e encontrar um veterinário de emergência. Suas lágrimas caíram pesadamente nas páginas. O fino papel amarelo as absorveu como se fosse um mata-borrão, a umidade obscurecendo os números abaixo.