Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 54 de 90

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Par Perfeito

Audrey

A tarde começara mal. Audrey estava na metade de um sanduíche de camarão com maionese da Marks & Spencer quando Cassandra gritou, do outro lado do escritório, que Sheryl Toogood estava na linha três. Audrey engoliu com dificuldade, lançando um olhar desaprovador para Cassandra. Por que ela não podia tirar aquele traseiro quadrado da cadeira, vir até ela e informar em voz baixa que Sheryl estava ao telefone? Passava tempo demais com os cavalos, aquela. Por isso era tão xucra.

Irritada, Audrey atendeu o telefone.

— Sheryl — atendeu com frieza, abandonando o sanduíche e sugando um pedaço de camarão dos dentes.

— Aaaaaaaaaudrey!

Aquele era o som da azia.

— Escute, querida, não vou tomar seu tempo. Estou terrivelmente ocupada e, pelo barulho, você está farejando atrás de trufas.

Audrey se enfureceu. Não sabia direito o que a ofendia mais: ser comparada com um porco fuçador, ou que Sheryl a chamasse de “querida”.

— Sei que você gosta de ser a primeira a saber das novidades, então achei melhor dar uma ligadinha para contar as últimas.

Audrey sentiu o sanduíche entalar no esôfago. Tentou parecer pouco interessada, mas sua mente já estava a mil por hora.

— Continue.

— Você está falando com a nova dona da Cabana do Cupido! — gralhou Sheryl, triunfante.

— Você comprou a Cabana do Cupido?

— Por uma ninharia!

— Mas eu não sabia que Nigel a tinha colocado à venda.

— Ele não colocou! Mas todo mundo sabia que ele não estava mais animado com a agência. “Leve Marjorie para fazer um cruzeiro”, eu disse a ele. “Esqueça toda essa bobagem de agenciar casamentos. Dedique-se ao seu próprio casamento.” Bem, Aaaaaaaudrey, deixe-me contar: ele avançou na oferta feito um cachorro esfomeado!

— Mas se ele houvesse anunciado para todo mundo… colocado a empresa no mercado… — protestou Audrey.

— Você teria feito uma oferta? — Sheryl deu uma risada longa e cética. — Empresárias não esperam que as situações se apresentem; nós vamos em frente e fazemos com que aconteçam. Além disso, todos sabemos que você já está ocupada demais tentando lidar com a sua agenciazinha. Como vai a Alice, a propósito?

— Bem — rebateu Audrey automaticamente.

— Não se esqueça de repassar minha novidade para ela, viu? Tenho certeza que ela vai ficar muito interessada em saber sobre a minha aquisição.

— Ã-hã. — Audrey não tinha palavras e seu sanduíche de camarão já estava se fazendo lembrar. Queria morrer por ter perdido uma oportunidade de negócio tão estupenda.

— Então, você não vai me dar os parabéns? — tripudiou Sheryl. — Quer dizer, não é todo dia que você tem a chance de falar com uma magnata, né?

Audrey desligou o telefone e fervilhou de indignação.

Por que Nigel não havia contado a ela que queria vender o negócio? Eles sempre se deram tão bem; não podia acreditar que ele não tinha vindo falar com ela primeiro. Mas, agora, Sheryl tinha colocado as mãos na Cabana do Cupido, o que significava que ela estava no comando das duas rivais mais próximas da Mesa Para Dois. Era uma notícia muito ruim, sem dúvida alguma.

Houve uma batida em sua porta. Bianca estava ali.

— Estou com Maurice Lazenby na linha um. Ele insiste em falar com você.

— Ah, pelo amor de Deus! — retrucou Audrey. — Passe-o para a Alice!

Ela viu Bianca empalidecer diante de seu tom.

— Alice saiu.

— Como assim, “saiu”? Foi aonde?

— Se encontrar com um cliente.

— Se livre dele, então! — ladrou, com raiva. — Estou com cara de quem quer falar com Maurice Lazenby?

Bianca recuou, pálida.

Onde diabos estava Alice? E qual era, exatamente, o propósito de Alice? Se ela não estava na rua aumentando as despesas da Mesa Para Dois com cafés desnecessários com clientes, então estava olhando pela janela de forma sonhadora, feito uma imprestável.

Uma lembrança repentina acometeu Audrey.

Por que Sheryl insistira tanto em que Alice soubesse sobre a compra da Cabana do Cupido? Será que Sheryl estava mais uma vez fazendo pouco caso de Audrey? Ela não a havia chamado de “solteirona” no baile? Será que era isso que as pessoas pensavam dela e de sua equipe na Mesa Para Dois… que eram um bando de solteironas?

Audrey olhou feio para o resto de seu sanduíche e, com raiva, jogou-o na lata de lixo.

A tarde se arrastou. A indigestão fez sua participação inevitável. Audrey tomou duas xícaras de chá de camomila e tentou alguns exercícios respiratórios. Mas só fizeram seu peito queimar ainda mais e a cabeça latejar. No final, decidiu deixar de lado as inconveniências do trabalho. Em vez disso, iria cuidar de um assunto pessoal muito mais alegre. Iria agendar um encontro com John sem ter em vista nenhum evento específico.

Audrey fechou cuidadosamente a porta de seu escritório, respirou fundo e ligou para o número de Geraldine.

— Como assim, você não pode aceitar minha reserva? — urrava Audrey, um minuto depois. — Isso é um ultraje!

— É como eu disse — explicou Geraldine com paciência. — Infelizmente, John Marlowe não está mais disponível para você. Sinto muito. Acontece, às vezes.

— Mas por quê? — retrucou Audrey, o pânico começando a dominá-la. — Por quê? Por quê!?!

— É uma decisão pessoal, tomada por John, e que ambas devemos respeitar — continuou Geraldine calmamente. — Sinto muito, meu amor. Mas ele achou que já tinha lhe prestado muitos anos de bons serviços e que estava na hora de vocês dois seguirem adiante.

— Não, não e não! — A voz de Audrey tremia.

— De verdade, Audrey, você deveria ficar agradecida por ter desfrutado a companhia dele por tanto tempo. Você foi a cliente mais duradoura dele, de longe.

— Mas eu não o reservo com frequência — apelou Audrey —, só algumas vezes por ano. Por que não podemos continuar assim?

As emoções de Audrey eram incoerentes; fúria, medo e incompreensão giravam à sua volta como as bolinhas da loteria. A bola da indignação foi sorteada e lançada pela abertura.

— Isso é uma completa loucura! — trovejou ela. — É totalmente inaceitável!

— Não obstante — continuou Geraldine, no mesmo tom —, é a decisão de John.

— Eu preciso dele!

— Tenho vários outros cavalheiros interessantes nos meus cadastros.

— Não! — gritou Audrey histericamente. — Outro homem não serve. Tem que ser o John!

Por que aquilo estava acontecendo? Por que John estava lhe dando as costas? Sentiu que não podia respirar, como se o aparelho de respiração artificial que a vinha mantendo viva há tanto tempo estivesse fora da tomada. Ela precisava se aferrar ao fio, lutar com unhas e dentes para ligar novamente sua vida.

— Mas eu preciso dele. Preciso! Você não entende. Todo mundo o conhece. Esperam vê-lo. Como posso fazer as coisas sem ele?

— Sinto muito, Audrey.

— Mas eu sou a cliente. O cliente sempre tem razão. Não fiz nada de errado. Não é justo. Tenho meus direitos!

Houve uma breve pausa antes que a voz serena de Geraldine voltasse na linha.

— Que tal você pensar um pouquinho no assunto? Dê um tempinho. Eu entendo que isso tenha sido uma surpresa. Deixe a novidade assentar por alguns dias e, aí, veja como você se sente. E nesse meio tempo, posso lhe enviar um link do nosso site para você dar uma olhada nos nossos outros cavalheiros. Acho que você terá uma surpresa agradável.

— Não quero ter uma surpresa agradável — retrucou Audrey. — Quero o John. O que devo fazer? Dizer a todo mundo que me divorciei?

Houve uma longa pausa.

Audrey soltou um gemido agonizante e bateu o telefone com força. As paredes de seu escritório pareceram se fechar ao redor dela, esmagando-a e fazendo com que fosse difícil respirar.

Ela vestiu o casaco, pegou a bolsa e saiu fumegando do escritório. Quando foi atingida pela tarde fria, ofegou, tentando recuperar o fôlego.

Gritou de angústia.

John estava se recusando a vê-la. Sua vida tinha virado de cabeça para baixo.

Puxou o casaco para junto do corpo e estava prestes a ir até o ponto de ônibus, ansiosa em colocar a porta de sua casa entre ela e o mundo. Mas, antes que desse um passo, seu olhar recaiu sobre algo encostado no gradil. Era a bicicleta de Alice.

Audrey sentiu um terrível surto de raiva, perverso e incontrolável. A bicicleta era um furúnculo, empoleirada ali como um fungo ao lado da entrada da Mesa Para Dois. Era nada mais, nada menos, que um insulto pessoal, um gesto obsceno feito a ela pela irmã Von Trapp. Bem, ela não iria mais aguentar aquilo.

Deu dois passos à frente, balançou a bolsa para trás e bateu com toda força nos raios da roda dianteira. Cinco quilos compostos por agenda, maquiagem e um livro capa dura da biblioteca atingiram o metal fino. O som foi estranhamente gratificante. Balançou a bolsa novamente e deu um segundo golpe. Bang. Os raios da bicicleta agora exibiam dois vincos característicos. Audrey teve uma violenta sensação de triunfo.