Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 11 de 90

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Par Perfeito

Kate

Kate estava tentando resistir à vontade de atacar seu KitKat de emergência.

 

Nunca acreditara no princípio de que regras existem para serem desobedecidas (a não ser que fossem regras de dieta; aí, minha amiga, vale tudo), mas enquanto labutava em seu formulário “Tudo Sobre Você” da Mesa Para Dois, começou a questionar se a honestidade realmente seria a melhor forma de conduta.

Kate sempre fora excelente para passar em testes. Tinha uma fórmula infalível: ralar muito, revisar com total atenção, tirar nota máxima no final. Mas aquilo ali já era outra história. Não havia cola de como passar num questionário de uma agência de relacionamentos, e cada pergunta levava a outras mil. Mesmo algo simples como “De que tipo de música você gosta?” podia ser um campo minado. Deveria confessar o gosto por uma lista de baladas românticas e demais breguices dos embalos de sábado à noite, ou optar por algo mais convincente, como um músico indicado para o Mercury Prize? O que pareceria melhor? Será que “divertida” se traduziria como “bonita e burra”, e “artística” como “chata”? De que tipo de música os homens queriam que ela gostasse? Aquilo não era um questionário; era um jogo mortal de roleta-russa amorosa.

Pegou o telefone.

— Eu sou espontânea? — inquiriu no momento em que Lou atendeu.

— Se estiver na programação… — rebateu Lou. Eram oito e meia da noite e o barulho do bar, ao fundo, parecia caótico.

— Eu sei ser impulsiva! Lembra aquela vez que a gente ficou bêbada no bar ao lado da estação e acabou indo parar em Edimburgo?

— Foi há dez anos; sem comentários. São seis libras e vinte, colega.

— E quanto ao meu livro predileto…? Você acha que fica melhor dizer Wolf Hall ou The Blair Years?

— Por acaso você está preenchendo o formulário da agência de relacionamentos? Jesus Cristo, coloca logo o Kama Sutra. Ninguém vai te rejeitar. Você quer com gelo, meu lindo, ou exatamente como a natureza inventou?

— É tão difícil! Quer dizer, o que será que os homens querem que você coloque?

— O Guia de Compras da Quatro Rodas? Sei lá, Kate. Foi você quem contratou a agência; você é que sabe.

Kate desligou o telefone e franziu a testa. Um dos motivos de ter contratado a Mesa Para Dois fora, justamente, evitar esse tipo de formulário. Detestava-os. Eles te encaixavam num molde e te forçavam a mentir. Ela nunca contara a Lou, mas já havia experimentado alguns sites de relacionamento antes — embora nunca fosse além dos questionários de perfil. Não eram só as perguntas limitantes de múltipla escolha; era para onde os formulários iam quando você os completava o que a desanimava. Não queria seu perfil num cadastro de indesejáveis no ciberespaço. Qualquer um poderia se conectar e julgá-la: clientes, ex-namorados, antigos colegas de escola… Julian. Era humilhante. E, além disso, havia os questionários em si. Já era ruim o suficiente ter de responder sobre sua renda e suas opiniões políticas… mas sobre a sua idade? Sua rotina de exercícios? Seu peso? Mesmo que ela tirasse cinco quilos e dissesse que tinha vinte e poucos anos, ainda assim teria de assinalar sua forma corporal. Ela era magra, atlética, curvilínea, fofinha? Magra e atlética estavam obviamente eliminadas; mas será que fofinha era só um apelido para obesa? E curvilínea, significaria voluptuosa à la Kelly Brook ou rolha de poço? Por que não podiam simplesmente colocar uma opção que dissesse: tamanho 42 em cima, mas precisando de um pouco de exercício na parte de baixo? Não sabiam que, ao assinalar curvilínea, ela poderia estar se limitando aos pesos pesados e aos fetichistas feeders?

A coisa toda fora suficiente para desanimá-la. O.K., tudo bem, o formulário “Tudo Sobre Você” da Mesa Para Dois não era exatamente moleza, mas pelo menos não era sobre seu corpo. E pelo menos seria confidencial.

Esforçou-se para responder às perguntas seguintes antes de pegar novamente o telefone.

— Tá, então para “Uma coisa sem a qual você não conseguiria viver” coloquei espressos matinais e meu iPad.

— Acho que tá mais para Zara e Reiss — zombou Lou.

— Por falar nisso… numa escala de um a dez, quão errado é colocar “fazer compras” como hobby?

— Erradíssimo.

— Então o que eu deveria colocar?

— Futebol de salão e ménage à trois? Desculpe, amiga, acabou o chopp aqui.

— Talvez eu devesse pôr cozinhar… os homens adoram mulheres que cozinham. É só olhar a Nigella…

— Puta que pariu, Kate. Por que você não se afunda de uma vez e responde logo cerzir meias e passar roupa?

Kate a ignorou. — Como você descreveria meu estilo?

— Piradinha?

— Coloquei: mistura de Katy Perry com Avril Lavigne. Você acha que os homens vão entender?

— Ah, sim, os gays vão. Olha, Kate, está bombando aqui hoje. Tá cheio de homem e estão todos bêbados e vulneráveis. Tenho de tudo aqui: de nerds charmosos a marombados. Esqueça essa bobagem de agência de relacionamentos. Venha já para cá e comece a bater as pestanas. Só uma freira com uma halitose braba não pegaria ninguém aqui hoje!

Kate franziu a testa, distraidamente, para seu monitor.

— Não, tenho que terminar esse formulário. Prometi a Alice que mandaria para ela amanhã cedo.

— Venha para cá e não precisará do formulário nem da Alice!

— Acho que vou colocar Ibiza como meu destino de férias favorito. Vai me fazer parecer divertida.

— Jesus, Kate, se você vai seguir em frente com essa bobajada de agência, é melhor dizer logo a verdade. Você não frequenta boates e nem sequer gosta de se divertir! Coloque fazer compras em Nova York; coloque fazer tratamentos faciais num spa nos Alpes; coloque passar 15 dias na maldita fábrica de chocolate da Cadbury! Assim pelo menos pode ser correspondida por alguém que realmente tenha a ver com você.

Kate desligou o telefone e pensou. Talvez Lou estivesse certa, uma vez na vida. Não sobre ir ao bar naquela noite, mas sobre dizer a verdade. Ser honesta era assustador, mas se iria pagar trezentas libras para contratar a agência e mais cem por mês, não deveria se assegurar de obter o que desejava? E, além disso, a razão toda de estar fazendo aquilo não era exatamente porque não tinha mais tempo a perder? Não podia se dar ao luxo de encontrar o tipo errado de homem. Cada dia que passava era outro dia mais perto de completar 35 anos.

Não tinha tempo para mentir.

Deletou suas respostas e começou de novo.