Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 83 de 90

Páginas do PDF

Par Perfeito

Audrey

Audrey estava tendo uma das coisas que mais detestava no mundo: tiques nervosos. Mas não conseguia evitar. O ônibus estava demorando uma eternidade e, conforme cada minuto ia se estendendo de forma interminável, ela tentava ignorar sua paranoia crescente.

Todo mundo sabia, disso tinha certeza. Todos os pares de olhos com quem havia cruzado desde que saíra de casa apontavam diretamente para Audrey. Numa manhã qualquer, ninguém olharia duas vezes para ela; era apenas uma das invisíveis mulheres de meia-idade. Mas hoje era diferente. Hoje ela tinha certeza de que todos os passageiros à espera do ônibus, assim como todos os motoristas que passavam, simplesmente sabiam que ela era o escândalo do mundo das agências de relacionamentos.

Finalmente, o ônibus chegou. Audrey foi com gratidão até os fundos do andar de baixo, pegou seu livro e fingiu mergulhar no enredo fraco.

Tentou ignorar o pânico crescente que apertava sua garganta. Agora que estava no ônibus, estava mais perto do que nunca do trabalho… e de Alice. Seu plano tinha sido chegar cedo e ir sorrateiramente para seu escritório envidraçado (por quê?, mas por que ela não tinha escolhido tijolo?). Quando as outras finalmente chegassem, podia fingir que estava atolada em papéis ou no meio de um telefonema importante.

Mas, agora, já não tinha tanta certeza. Talvez devesse falar com Alice e resolver tudo de uma vez por todas. Não que fosse mencionar as confusões da noite anterior, ou tampouco permitir que Alice o fizesse. Mas talvez pudesse lhe pedir um café, ou um relatório sobre um cliente: alguma coisinha qualquer para mostrar que não estava se escondendo.

É claro, não daria qualquer explicação a ninguém sobre a bomba da reunião da Associação das Agências de Relacionamentos. Precisava de tempo — de muito mais tempo. Apesar de ter passado a noite inteira matutando, só tinha conseguido abordar de leve o atentado contra Pickles, a dor de seu coração partido e a indignidade de quem tinha sido responsável por aquilo. As ruínas de sua reputação profissional tiveram de esperar. Portanto, a estratégia temporária era instruir as garotas a dizer para todo mundo que telefonasse que ela não estava disponível, dessa forma mantendo o mundo das agências de relacionamentos a distância mais um pouquinho. E se pudesse evitar o telefone por dois dias, então seria o fim de semana e ela teria tempo de sobra para planejar uma defesa. Se apenas conseguisse aguentar até lá…

— Audrey?

Audrey deu um pulo de seu livro, assustada.

— Pensei mesmo que fosse você! Me permite?

Um homem estava parado à sua frente, o corpo balançando em harmonia com os movimentos do ônibus. Era Maurice Lazenby. Se era possível que o coração de Audrey se apertasse ainda mais, foi o que aconteceu. Maurice indicou o banco vazio ao lado dela e ela assentiu, em cansada submissão. Talvez merecesse mesmo ser mauriciada.

— Fico tão feliz por ter te encontrado — declarou ele ao se acomodar no banco e ajeitar minuciosamente o casaco de chuva à sua volta. — Eu estava pensando em ligar para ver se poderíamos marcar uma reunião. Estou muito ansioso em saber sobre seus progressos para me achar um par. Espero que você não considere muito atrevimento da minha parte dizer como estou contente… animado, na verdade, por você ter assumido meu caso pessoalmente. Como venho dizendo todo este tempo, você é a única mulher para esse trabalho. Não que suas funcionárias não sejam excelentes, mas as suas habilidades são muito superiores.

A despeito do ambiente público, Audrey ficou surpresa ao sentir seus olhos se encherem de lágrimas. Por mais que Maurice fosse a última pessoa a quem quisesse ver naquela manhã — ou em qualquer manhã —, a fé cega que ele tinha nela e em sua capacidade como casamenteira penetrou sua frágil armadura. Ele acreditava nela. Achava que era boa em seu trabalho. Ele, ao menos, não sabia sobre a lista de indignidades do dia anterior nem sobre sua vergonha. As lágrimas subitamente cascatearam por seu rosto.

— Está tudo bem? Falei alguma coisa que não devia?

Audrey vasculhou a bolsa à procura de um lenço.

— Não, sério, estou bem. Só estou…

— Por favor, tome. — Um lenço branco grande e imaculadamente passado surgiu diante de sua vista.

— Obrigada. — Audrey aceitou e, depois de secar hesitantemente as lágrimas por um momento, ela cedeu e enterrou o rosto nas dobras reconfortantes.

— É só que eu… — arfou, entre respirações entrecortadas — recebi algumas más notícias. Um monte de más notícias, na verdade. E tenho sido uma tola.

— Duvido muito.

Audrey fungou ruidosamente e enxugou o rosto com o lenço.

— Não dormi nada.

— Que lástima!

— E estou tão preocupada em ir para o trabalho hoje. — Assim que as palavras saíram, ela sentiu uma nova onda de lágrimas. Dessa vez não se deu ao trabalho de secá-las; cobriu o rosto com o lenço novamente. De repente, sentiu o braço de Maurice passar de forma protetora por seus ombros. Ela se enrijeceu, chocada. Audrey nunca era tocada, a não ser por engano. E não podia se lembrar da última vez que alguém a havia tocado daquela forma. Ela estava sendo abraçada, percebeu subitamente… e pelo Maurice!

Mas, então, o agradável calor de um mero contato humano começou a atravessar seu casaco e a penetrar em seus ossos cansados e, pouco a pouco, ela se deixou descongelar até que sua cabeça pousou no ombro de Maurice e suas lágrimas se infiltraram na lapela de seu paletó feito sob medida.

Eles ficaram assim, em silêncio, por alguns minutos, Audrey sentindo dissipar, de repente, cada hora de sua exaustão e insônia ao se permitir alguns momentos na inesperada segurança do meio abraço de Maurice.

Conforme seu ponto se aproximava, ela começou a compor mentalmente um agradecimento. Mas o que poderia dizer? Estava agradecida pela bondade de Maurice — e pelo uso de seu lenço —, mas era tão constrangedor que ele a tivesse visto daquele jeito, tão fragilizada! Quais eram as probabilidades de que ela encontrasse com um cliente naquela manhã, ainda mais Maurice, o reclamão? Como é que iria trazer o relacionamento deles de volta ao nível profissional, depois disso?

E então seu ponto chegou. Não tinha mais como procrastinar. Levantou-se. Para sua surpresa, Maurice também ficou em pé.

— Vou acompanhá-la até sua mesa — explicou ele, galantemente.

— É muita gentileza sua, mas não é necessário.

— Bobagem — insistiu Maurice. — Eu nem sonharia em deixar você ir sozinha para o escritório.

Enquanto Audrey o seguia, não pôde deixar de se sentir profundamente comovida por ele se colocar à disposição dela. E, de fato, a sensação de passar pelas portas da Mesa Para Dois acompanhada foi melhor. Principalmente porque viu Alice já sentada em sua mesa. Audrey se enrijeceu. Enquanto Maurice a guiava de forma protetora pelo amplo escritório, ela se obrigou a encontrar brevemente o olhar de Alice e assentir rigidamente em cumprimento. O olhar dela a surpreendeu. Alice parecia quase tão arrasada quanto ela.

— Bom-dia, Srta. Brown — Maurice cumprimentou Alice educadamente. — Será que você poderia preparar uma xícara de chá para a Sra. Cracknell, por favor? Com açúcar extra.

— É claro! — respondeu Alice, surpresa, levantando-se imediatamente. Audrey pensou ter ouvido um toque de decepção em sua voz. O que ela estava fazendo no escritório tão cedo? Será que queria pegar Audrey sozinha?

Mas não havia tempo para pensar. Maurice a levou adiante, segurando a porta de seu enclave envidraçado aberta e, uma vez lá dentro, fechando-a suavemente atrás de si. Ciente de que Alice podia estar observando, Audrey tirou o casaco, constrangida, praguejando internamente quando um monte de lencinhos de papel úmidos e amassados caíram de dentro da manga e se espalharam pelo chão.

— Permita-me. — Maurice rapidamente os recolheu e jogou no cesto de lixo. Então, ele mergulhou a mão em seu próprio casaco e puxou um cartão de visita.

— Olha, tenho certeza de que você ficará perfeitamente bem — disse ele com gentileza. — E sei que você tem dezenas de amigos com quem preferiria conversar. Mas, às vezes, é bom desabafar com um estranho. Não que eu seja um completo estranho, mas talvez para esses propósitos, é praticamente como se fosse. O que quero dizer é que você pode ficar muito à vontade para desabafar comigo. Na verdade, eu gostaria muito. Seria uma honra ajudá-la.

Audrey pegou o cartão, hesitante. Não sabia o que dizer.

— Pode ser que não nos conheçamos muito bem — continuou Maurice formalmente —, mas quero que você saiba que tenho a mais extrema consideração por você como casamenteira, e também como executiva, e como mulher, e me magoa muito vê-la infeliz. Aqui estão meus números para contato. Estou à sua disposição, a qualquer hora do dia ou da noite. Portanto, se houver algo de que você precise, qualquer coisa, é só chamar.

Audrey sentiu outra vez a pontada quente das lágrimas em seus olhos diante daquelas palavras tão gentis e engoliu em seco. Esforçou-se para dar um sorriso de agradecimento.

Maurice assentiu levemente, inclinou-se um pouco e se afastou com a maior cortesia até a porta de vidro. Quando ele saiu, Alice entrou com uma xícara de chá.

— Obrigada, Alice — agradeceu Audrey, rouca, tentando abafar qualquer nota de emoção em sua voz. Estava ciente de Alice pairando ali, hesitante, mas não olhou para ela. Em vez disso, observou a figura de Maurice que se afastava. Quando o casaco dele desapareceu porta afora, ela, de repente, se sentiu muito menos segura.

— Audrey? — chamou Alice com hesitação.

— Agora não — respondeu baixinho, os olhos no ponto em que o casaco de Maurice havia desaparecido.

E, então, veio a distração misericordiosa. Por onde saiu Maurice, entraram Bianca e Cassandra. Quando Alice se virou para vê-las entrar, Audrey rapidamente pegou o telefone e digitou um número fictício, às cegas. Alice relutantemente saiu do escritório envidraçado e mergulhou na conversa ruidosa das garotas.

Soltando um suspiro de alívio, Audrey girou em sua cadeira e fingiu estar ocupada com um telefonema.