Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 59 de 90

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Par Perfeito

Alice

Alice estava tendo dificuldade para encontrar otimismo. Enquanto avançava a duras penas por sua lista de telefonemas de segunda-feira, ouvindo clientes relatarem os maravilhosos encontros que tiveram no fim de semana, pegouse divagando completamente.

Tinha sido um fim de semana horrível. A bomba de John a havia deixado sem saber o que pensar nem como se sentir. Seu instinto era ligar para Ginny, mas ela e Dan tinham tirado o fim de semana para “dar um tapa no relacionamento”. Normalmente, jardinagem desanuviava sua cabeça, mas nem aquilo ajudou. Nem mesmo pudera fazer sua peregrinação de costume à Dedos Verdes, temendo encontrar John. Além disso, mesmo que quisesse ir, não poderia. Alguém devia ter acidentalmente se chocado com sua bicicleta. Os raios da roda dianteira estavam amassados e não dava para andar direito.

Portanto, havia se instalado rigidamente no sofá e assistido, sem realmente prestar atenção, a alguns filmes em preto e branco; sem absorver nada, apenas repassando uma e outra vez as coisas em sua mente. Não iria chorar; se recusava a derramar uma só lágrima que fosse. Seu telefone tocava a cada trinta minutos, mas ela não moveu um músculo para atender. Sabia que era John, querendo se explicar. Mas o que ele poderia dizer?

O homem por quem ela estava se apaixonando era um prostituto.

Ela tinha sido tão idiota. Mais do que idiota: tola. Tinha realmente se atrevido a acreditar que um homem como John pudesse ter se interessado por uma garota como ela. O que ela tinha na cabeça? John era bonito, refinado, à vontade com tudo e todos. Ele era sexy; as mulheres queriam estar com ele. Ao passo que ela, por outro lado, era uma feiosa tímida e sem graça; a coisa mais emocionante que fazia era ir até a casa de Ginny uma ou outra noite. E estava tão longe de ser sexy que parecia piada. É claro que ele não teria se interessado por ela; qualquer um com meio cérebro podia ver isso. Como deixara que sua imaginação romântica fugisse tanto do controle? Será que estava tão ridiculamente desesperada para achar seu próprio Príncipe Encantado que não conseguia mais enxergar lógica nem razão?

Até se iludira o bastante a ponto de achar que John pudesse estar se apaixonando por ela! Mas, na verdade, o amor dele estava à venda; seus abraços podiam ser contratados por qualquer uma com cartão de crédito. Os beijos que tinham sido tão mágicos agora pareciam sujos. Ela fora apenas mais um par de lábios para ele, com o mesmo gosto que metade das outras mulheres da cidade. Por que cargas-d’água ela seria especial, quando ele tinha tantas outras mulheres — elegantes, sofisticadas, experientes — com quem compará-la? Como poderia competir com isso?

Sentindo-se um zero à esquerda, apertou mais seu cardigã junto ao corpo.

Mas o que John estivera tramando? O que ela tinha sido para ele, exatamente? Não conseguia parar de se torturar enquanto a trilha sonora do filme se elevava e o casal feliz caía nos braços um do outro. Uma distração agradável? Uma experiência estranha? Algum tipo de aposta depravada? Será que alguém — Sheryl, talvez — vinha pagando-o desde o início para que ele enrolasse a pobre solteirona e todo mundo pudesse rir no final? Ou, talvez, Ginny estivesse certa. Talvez ela tivesse algo em comum com Audrey… uma paixonite unilateral por um homem educado demais para explicar as coisas como elas realmente eram.

Qualquer que fosse a resposta, uma coisa estava clara: estava acabado. Ela e John tinham terminado. E, se Audrey o quisesse, que ficasse com ele.

Se aquilo estava resolvido, então outra coisa se tornava óbvia: terminar com John era péssimo. E, dentre todas as razões que faziam com que fosse péssimo, a principal era que ela tinha sido a grande otária. Tinha criado aquele problema para si mesma, deixando-se levar por sua própria imaginação açucarada, disse a si mesma com severidade enquanto mais uma série de créditos finais subia na TV. Ginny lhe dissera que era boba por pensar que um cavaleiro num cavalo branco resolveria tudo. Bem, precisava parar de sonhar, tirar a cabeça das nuvens e viver no mundo real. Que espécie de mulher adulta ainda acreditava em finais felizes? A vida não era assim. Ginny a advertira que poderia beijar o sapo só para acabar descobrindo que ele não passava disto mesmo: um sapo. Bem, tinha beijado o sapo e agora aprendera a lição. De agora em diante, ela, Alice Brown, iria ser prática. Toda aquela coisa de amor era para os outros, para seus clientes; não para ela. Ela, obviamente, não dava conta de lidar com aquilo.

Levantou o queixo e tentou empiná-lo de forma desafiadora, assim como vira sua chefe fazer tantas vezes. Sim, precisava se tornar realista. Talvez Sheryl tivesse razão, afinal. Talvez o amor fosse realmente só um negócio e ela, apenas uma empresária. O amor não era algo a fazer no tempo livre, à noite e nos fins de semana. Se apenas pudesse aderir à forma de pensar de Sheryl, ficaria bem. John, seu coração partido e seus sonhos despedaçados não importariam. A vida seguiria e, dentro de algumas semanas, estaria perfeitamente bem. Afinal, estava bem antes — antes do baile, das flores e do café. Teria seus amigos, seu trabalho e seu jardim; era tudo de que precisava. A vida seria estável… segura. Tentou ignorar o fato de que o mundo fascinante e colorido que John abrira para ela havia, subitamente, voltado a ser cinza.

Após um fim de semana de autoflagelação e admoestações, tinha sido um alívio voltar a trabalhar. Mas, agora que ela estava ali, rodeada de esperança e romance, não parecia ser exatamente um refúgio.

E, então, Maurice Lazenby chegou, sem ter hora marcada.

A despeito do clima ameno naquele dia, Maurice estava vestido para o frio, com o casaco inteiramente abotoado e o cachecol dobrado primorosamente em volta do pescoço, como se ele tivesse sido vestido pela avó. Abaixo de seu imaculadamente penteado cabelo e da linha branca perfeita do repartido, seu rosto estava tão invernal quanto sua indumentária.

— Srta. Brown — queixou-se ele —, deixei meus receios de lado e compareci aos três almoços que você organizou para mim. Conheci aquela artista plástica desmazelada que parecia ter acabado de se levantar da cama. E a taxista grosseira que não parava de tentar me fazer falar sobre esportes. A diretora de escola era passável, mas não é o que estou procurando. Portanto, você falhou.

Já se sentindo fragilizada, Alice teve um choque. Tinha se sentido tão otimista de que um dos pares iria ser perfeito para Maurice; mas seu julgamento estava, obviamente, falhando em todos os sentidos. Pensou que entendesse de pessoas — tinha se orgulhado de sempre enxergar o verdadeiro caráter das pessoas, seu verdadeiro eu —, mas estava ficando claro que não sabia nada de nada.

— Não sei o que dizer. Você não gostou mesmo de nenhuma delas?

— Não.

— Mas elas eram diferentes das outras mulheres com quem você tinha se encontrado? Mais ímpares?

— Bem, sim. Mas ainda não eram certas e é só isso que importa.

— Claro. Mas eu achei… Eu tinha tanta certeza… É só que eu…

— Você errou! De novo!

— … sinto muito — terminou Alice acanhada, parecendo aflita.

— Olha — disse Maurice —, você parece ser uma boa garota e posso ver que me deu mais consideração do que a maioria. — Ele olhou criticamente pelo escritório. — Mas a questão é que você não encontrou a mulher que estou procurando e, portanto, me deixa sem alternativa.

— Ah, Maurice…

— Devo realmente insistir que meu caso seja cuidado pela Sra. Cracknell. É ela a especialista. Tenho que ser uma responsabilidade pessoal dela.

— Mas, por favor, eu…

— Não, é sério, Srta. Brown. O tempo dos “mas” se acabou. Ah, vejo que a Sra. Cracknell está em seu escritório. Bem, nesse caso, não há momento melhor do que o presente…

Como se fosse possível, o coração surrado de Alice se apertou ainda mais. Audrey, mesmo nos melhores momentos, já se irritava com interrupções. Porém, a irritação padrão se transformou num alarme mal-humorado quando ela viu Maurice entrando em seu escritório. Lançou um olhar assassino através do vidro para Alice. Mas, então, recuperou a compostura e Alice a ouviu dizer: “Maurice! Que maravilha vê-lo por aqui!”, num tom que parecia ligeiramente genuíno. E, então, Maurice fechou a porta de vidro atrás de si.

Alice abaixou a cabeça e os observou por entre os cílios. Aquilo era um desastre. Na verdade, sua vida inteira era um desastre. Tudo que ela pensava saber sobre todo mundo estava errado e, agora, para coroar, Maurice estava indo com força total para cima de Audrey. Se as circunstâncias não fossem tão ruins, poderia até ter achado graça em ver Audrey tão profundamente irritada; nunca antes vira Audrey incapaz de se expressar. Isso era ruim. Muito ruim. Audrey podia estar levando a pior agora, mas, no minuto em que Maurice fosse embora, ela com certeza castigaria Alice. Ficaria furiosa com ela por tê-la deixado ser abordada daquela forma e Alice não sabia se — hoje, dentre todos os dias — teria forças suficientes para suportar.

Pegou seu celular e mandou uma mensagem para Ginny.

Já voltou? Preciso muito conversar…

E, então, a porta de vidro de Audrey se abriu.

Alice se endireitou na cadeira, tentou forçar seu rosto a dar um sorriso alegre e profissional e ignorar a sensação ruim que queimava seu estômago.