Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 18 de 90

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Par Perfeito

Audrey

— Max, bom-dia! Como vai?

Audrey usava sua melhor voz de telefone enquanto sorria para o bocal.

Anos atrás ela havia pagado uma soma exorbitante por uma sessão com um life coach. Todos os demais donos de agência estavam fazendo e nem morta ela ficaria de fora. Tinha sido um completo desperdício de dinheiro e a única coisa de que podia se lembrar era a instrução que ele lhe dera para que sorrisse ao telefone. Sorrir relaxava as cordas vocais; as pessoas ficarão mais dispostas a fazer negócios com você, ele lhe prometera. Audrey não gostava de fazer aquilo se as garotas pudessem vê-la. Mas, nessa manhã, ela sorria de orelha a orelha para Max Higgert.

— Ah, Audrey. — A voz de Max parecia tensa. — Estou bem, obrigado. E você?

— Oh, maravilha. — Audrey sorriu, de forma afetada. Tão poucos clientes se importavam com as cortesias básicas. Ela, de alguma forma, sempre soubera que Max estava acima da média. — Só pensei em ligar para você para ver como foi seu almoço com Penelope Huffington ontem. Ela é um sonho, não é?

— Ela é… hã… uma mulher encantadora. Muito, hã…

— Preparada! — entusiasmou-se Audrey. Ela havia esquadrinhado os cadastros da agência para encontrar a mulher certa para Max, e Penelope era perfeita.

— Sim, muito preparada.

— E elegante!

— Ah, sim.

— E culta! — Audrey jogou seu ás. Homens como Max valorizavam uma mulher culta.

— Muito! Me senti um asno!

— Então você gostou dela? Vocês se conectaram? Eu sabia que iriam!

— É…

— Eu sabia que iriam se divertir muito!

— Foi muito agradável, Audrey, mas, é, bem, não foi exatamente o que eu estava esperando.

Audrey piscou. — Perdão? — Seu sorriso baixou um grau.

Max tossiu.

— Bem, como eu disse, ou você disse, ou um de nós disse — vacilou ele — … ela é encantadora e instruída, preparada e culta e provavelmente perfeita para muitas pessoas. Mas, ééé, não acho que eu seja o tipo dela, na verdade.

— Você está muito enganado. Já falei com ela pelo telefone. Pediu-me para organizar um segundo encontro.

— Ah, certo. Bem, me sinto lisonjeado. Que ela queira se encontrar novamente comigo, quero dizer. E, por favor, agradeça a ela, mas…

— Ela vem da família Whitting, sabe, os banqueiros? Eles são donos do Whitting Country Club. Pessoas adoráveis. Têm dinheiro há muitas gerações. E Penelope é uma grande apreciadora das artes, está sempre comparecendo a lançamentos e exposições. E ela ajuda a catedral com os concertos beneficentes. Ela faz tanto pela caridade, a Penelope. Uma mulher maravilhosa!

— Sim, certamente. Mas infelizmente não acho que sejamos certos um para o outro.

— Oh, não seja bobo! Vocês formam um par perfeito.

O sorriso de Audrey começava a provocar cãibras em seu maxilar. Que se danasse o sorriso; seus músculos já estavam doendo.

Max prosseguiu, com nervosismo. — Na verdade, eu estava pensando se você teria mais alguém em mente. Uma pessoa não tão preparada, culta e bem-sucedida.

— Hum…

— Uma pessoa carinhosa… e gentil. Um pouco mais… normal!

— Certo, entendo. — Audrey alisou o cabelo, perplexa. — Mas, bem-arrumada, no entanto? E elegante?

— Bem, realmente não me…

— Alguém que possa receber seus clientes e acompanhá-lo a jantares?

— Isso não é exatamente o qu…

— Claro, Penelope é um pouco rígida. Na verdade, sempre achei que ela fosse um tanto fria; um pouco ansiosa demais para falar sobre suas obras de caridade. Acaba até ficando um pouco vulgar, quando joga isso na cara das pessoas. Mas não se preocupe! Tenho a mulher certa para você! — Audrey recomeçou a girar objetivamente em sua cadeira. — Ela é uma combinação perfeita. Na verdade, é por isso que estou telefonando… para ver se posso marcar um almoço. O nome dela é Hermione Bolton King. Foi casada com um corretor da Bolsa de Valores fantasticamente bem-sucedido e se saiu muito bem no divórcio. Ela tem uma mansão de seis quartos na villa privativa Holly Bush. Você sabe, aquela com a fonte e os portões eletrônicos?

Alguns minutos depois, Audrey desligou o telefone tendo obtido a permissão de Max para propor um encontro com Hermione. Sinceramente, ele poderia ter ficado um pouco mais entusiasmado, pensou ela com amargura. Não conseguia imaginar por que ele não tinha gostado de Penelope Huffington. Ela havia se dedicado tanto a fazer aquela seleção; ele podia ao menos ter dado uma segunda chance. Mas tudo bem; Max iria adorar Hermione. E com a impressionante mansão que Hermione tinha, com aquela estufa feita inteiramente de vidros venezianos, Max certamente ficaria impressionado!

Olhou para seu relógio e franziu a testa. Eram 11h30. Onde diabos estariam suas flores? Normalmente chegavam às 11h.

Abriu sua porta e marchou para o escritório principal.

— Está tudo bem, Audrey? — perguntou Bianca com doçura.

Não havia flores em lugar algum.

— Sim, sim. — Forçou-se a usar um tom civilizado, passando os olhos pelas mesas desprovidas de flores. — Certo, bem, estou muito ocupada.

Voltou a seu aquário e fechou a porta de vidro. Se as flores não chegassem até o meio-dia, aquele florista ia ouvir poucas e boas.

Decidiu se animar telefonando para o Presidente Ernie. Na opinião de Audrey, era um imperativo profissional manter um bom relacionamento pessoal com o presidente da Associação das Agências de Relacionamentos.

Audrey conhecera Ernie quando a Mesa Para Dois estava começando e ela ainda era uma casamenteira novata. Ernie já estava no ramo havia vinte anos, na época, e qualquer coisa que ele não soubesse, era porque não valia a pena saber. Com cabelo grisalho prateado e corpo firme, ele atraía todos os olhares nas reuniões da Associação, e vivia cheio de ideias inteligentes sobre formas de trabalharem em conjunto. Ele já estava chegando aos 60, e Audrey não queria nem pensar no dia em que ele decidisse que já era o suficiente e se aposentasse.

— Audrey, que maravilha ouvir notícias suas!

— Bom-dia, Sr. Presidente!

A despeito dos protestos de Ernie, Audrey insistia em chamá-lo daquela forma. Um mundo sem hierarquia era um mundo em vias de deteriorar-se.

— Então, você já está sabendo sobre Nigel, da Cabana do Cupido? — alcovitou ele, com ares importantes.

— Sabendo o quê, em particular? — Audrey tentou manter o tom leve. Detestava passar a impressão de não estar totalmente informada sobre as fofocas da indústria.

— Bem, você não ouviu da minha boca, mas sei que posso confiar em você. Nigel demitiu a Beverly!

Aquela notícia era mesmo excitante. Audrey ficou feliz por ter dado o telefonema.

— Ele tem tão poucos clientes no momento — continuou Ernie alegremente — e eles o estão desertando em bandos. A Sheryl da Pombinhos tem recebido vários ex-membros da Cabana do Cupido que vêm bater em suas portas todos os dias. Estou dizendo, Nigel está a perigo. E, até o baile, ele já estará fora do ramo.

— Minha nossa! — exclamou Audrey, zonza.

— Fico surpreso que você não tenha recebido nenhuma visita dos ex-Cabana do Cupido…

— Mas é claro que recebemos! — explodiu Audrey. — Eu só não queria esfregar na cara do pobre do Nigel. A última coisa que ele iria querer é todo mundo fofocando.

— Concordo.

— Mas não é terrível? Quem você acha que errou lá?

— Longe de mim especular, mas aposto que tem alguma coisa a ver com o que está acontecendo na casa dele. Nigel e Marjorie têm tido alguns problemas. Aparentemente, Marjorie desenvolveu uma tendência à infidelidade e Nigel tem ciúme de qualquer homem que tenha contato com ela. Ele só sai de casa de manhã depois que o carteiro vem e se vai. É claro que os negócios acabariam sofrendo!

— É claro! — concordou Audrey vigorosamente.

— Você sabe tão bem quanto eu, Audrey, não se pode trabalhar no ramo da criação de amor a não ser que você tenha amor em casa. Caso contrário, é como um vigário que não acredita em Deus, ou um policial que acorda um dia e decide ser um anarquista. Sem uma vida doméstica feliz, seu dom de fazer casamentos está perdido. Nós devemos aos nossos clientes garantir que nossa própria situação doméstica esteja em ordem. Um casamento feliz resulta num escritório feliz que resulta em clientes felizes; é o que eu digo!

— Verdade! Então, você acha que Nigel perdeu seu dom de construir casamentos?

— Eu apostaria meu dinheiro nisso!

— Céus!

— Mas onde há perdedores, também há ganhadores; Sheryl está fazendo a festa! Temos de admirá-la!

Audrey emitiu um ruído baixo de tosse que podia ser interpretado como uma ligeira concordância.

— Claro, teremos de ser absolutamente discretos na próxima reunião da Associação e fingir que não estamos sabendo de nada. Bico fechado, hein!

— Pode deixar, Sr. Presidente — soltou Audrey.

— De qualquer forma — prosseguiu Ernie, loquaz —, ouvi dizer que você vai trazer Alice Brown ao baile como sua “aprendiz de casamenteira”.

Os sentidos de Audrey entraram em alerta máximo. Ela se esforçou para ouvir a zombaria na voz dele.

— E faz muito bem! — continuou Ernie, enfaticamente. — Ouço falar maravilhas da jovem Alice. Ela é uma verdadeira estrela em ascensão!

Audrey olhou pelo escritório na direção de Alice. Ela usava outro de seus cardigãs cor de mingau, junto com o que parecia ser a blusa de sua mãe. Certamente Ernie não estava falando sério. Ele só podia estar brincando com a cara dela.

Audrey desligou o telefone, sentindo-se confusa. Houve uma batida em sua parede de vidro e Alice entrou de mansinho, carregando um buquê pesado.

Audrey levou a mão ao peito numa surpresa teatral.

— Ah, aquele bobo! — disse em sua voz mais palpitante. — Ele é tão perdidamente romântico. Vivo dizendo a ele para parar com isso, mas ele as continua mandando!

— São lindas. — Alice sorriu. — Seu marido deve te amar muito.

— Ele ama. — Audrey lhe dirigiu um olhar estranho e agarrou as flores de encontro ao peito. Dispensou-a com um aceno de mão. Precisava pensar, e aquele cardigã estava lhe dando outra de suas dores de cabeça.