Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 37 de 90

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Par Perfeito

Alice

Eram 23h30 e tanto as desgraças do baile quanto as provações do dia já estavam agradavelmente abafadas e adequadamente distantes. Os poderes restauradores de um belo jantar regado a vinho e boa companhia tinham feito maravilhas. A bebê Scarlet estava finalmente dormindo em paz lá em cima e Dan roncava em sua poltrona, com a lata de cerveja encaixada no colo.

 

Silenciosamente, Ginny acenou para que Alice a seguisse até a cozinha.

— Vamos deixá-lo em paz — sussurrou e procurou na geladeira por mais uma garrafa de vinho. — Pra fechar?

Ginny serviu o vinho.

— Então, agora que estamos só nós duas, você pode me contar sobre esse tal de John — disse ela, com um sorriso levado.

Alice sentiu o rosto avermelhar.

— Como assim?

— Ah, tenha dó! — Ginny riu baixinho para não acordar Dan. — Você não consegue me enganar. Você está gostando dele!

— Gostando dele? — repetiu Alice, surpresa, ciente de que Ginny a estava observando feito uma águia. Podia sentir seu rosto ficando ainda mais vermelho. — Ele é o marido da minha chefe!

Ginny fez uma expressão de e daí?.

— Bem, é claro que gostei dele — admitiu Alice. — Ele me defendeu e, depois, veio até o ponto de táxi para ver se eu estava bem. Ele é obviamente uma pessoa gostável. — Agora não parecia ser o momento certo para contar a Ginny como ele era lindo nem como ela ficara surpresa ao ver que ele era mais novo do que Audrey… pelo menos uns cinco anos, talvez até dez.

Ginny sorriu astuciosamente.

— Mas ele é casado — insistiu Alice com recato. — Não gosto dele desse jeito, se é isso que você está querendo saber.

— Ah, é?

— Não! — Alice teve de se virar; Ginny a estava enervando. — Além disso — acrescentou, indignada —, não sou o tipo de mulher que cobiça o marido alheio.

— Mesmo que a esposa seja Audrey Cracknell e que seja questionável o fato dela realmente ser qualificada como mulher?

— Principalmente se a esposa é Audrey Cracknell. Ela já é assustadora o bastante agora, sem ninguém querendo o marido dela. E ela é minha chefe, pelo amor de Deus. Seria suicídio profissional.

Alice pensou sobre aquilo racionalmente por um momento.

— Além disso, seria uma união totalmente implausível — argumentou. — Audrey e eu somos completos opostos, então, o que quer que um homem ame nela não vai encontrar em mim. Nós somos muito diferentes.

— São? — perguntou Ginny, travessa.

— Meu Deus, é claro! Audrey e eu não temos nada em comum. Nada mesmo!

— Exceto John.

— Gin! Para de botar pilha! Que infantilidade! Achei que era eu que tivesse a imaginação fértil!

— Então, você vai devolver o lenço dele a Audrey?

— Hã, bem. É complicado.

— Exatamente o que estou dizendo! — Ginny sorriu e completou sua taça de vinho. — Ah, preciso ser honesta com você; só estou com inveja.

— Inveja? — Alice pousou sua taça, surpresa.

— Ir a um baile, ter um bonitão saltando em sua defesa e, depois, perseguindo você para ver se está bem… para mim parece excitante. Mais excitante do que qualquer coisa que aconteça atualmente na minha vida.

— Não há nada de excitante em ser motivo de chacota e sair correndo para casa aos prantos.

— Sim, mas todas aquelas coisas que ele falou sobre você… sobre ter um bom coração e como algum homem teria sorte em conhecer você. Isso é romântico.

Alice analisou a amiga. Reparou que Ginny estava começando a parecer melancólica.

— Você tem romance na sua vida. Você vive com ele todos os dias. O Dan é fantástico.

— É mesmo? — perguntou Ginny.

A conversa, de repente, nublou.

— O que você está querendo dizer? O Dan é maravilhoso. Minhas clientes dariam qualquer coisa para ter um homem como ele.

— Humm. — Ginny pegou sua taça e olhou para ele, roncando na sala, com ceticismo.

— Como assim? Não estou entendendo mais nada.

— É claro que não está — disse Ginny, com repentina dureza. — Você acha que é Deus no céu e o Dan na Terra! Você acha que ele é um marido perfeito e um pai perfeito!

Alice recuou, chocada.

— Sim. Acho mesmo. Dan é um bom homem. E você o ama.

Houve uma longa pausa. Alice começou a sentir o pânico aumentando. Ginny olhava fixamente para a mesa. A frase de Alice pendia como uma bigorna entre elas.

— Gin, você o ama! — repetiu Alice com um pouco mais de ênfase.

— Amo?

— Sim!

— Será mesmo?

Aquilo não estava indo bem. Não estava indo nem um pouco bem.

— Amiga, qual é o problema? — perguntou Alice, baixinho. Imediatamente, começou a se censurar. Devia ter percebido que havia alguma coisa. Ginny não parecia estar muito feliz ultimamente. E, nesse momento, parecia arrasada.

— Provavelmente você só esteja passando por uma fase ruim, só isso — disse Alice com gentileza quando sua amiga não respondeu. — Você precisa conversar com ele sobre isso.

— É isso que eu tenho que fazer? — Ginny parecia estranha. — Sem querer te desrespeitar, Alice, mas você não sabe nada. Você acha que seu homem perfeito está logo ali, virando a esquina: um cavalheiro num cavalo branco. Você acha que o amor é um conto de fadas: vocês se conhecem, se apaixonam e vivem felizes para sempre. Bem, a vida não é assim. Contos de fadas não existem, ou não duram muito. Com o tempo, todos os Príncipes Encantados se transformam em grosseirões que coçam o saco, enchem a cara de cerveja e dão prioridade absoluta à TV.

Alice ficou muda de choque. Dan não era assim. Ele era uma graça!

— Cuidado com o que você deseja, Alice — advertiu Ginny, sombria. — Pode ser que você beije o sapo e descubra que ele não passa disto: um batráquio.

— Dan não é um sapo — disse Alice baixinho, sentindo-se atordoada pela explosão de Ginny. Que diabos estava acontecendo?

— Não. Não, ele não é — disse Ginny, com cansaço, perdendo de repente toda a agressividade. Ela suspirou. — Você está certa. Provavelmente, é só uma fase ruim. Estou cansada; acho que está na hora de ir para cama.

Alice assentiu, muda, e deu um abraço na amiga.

— Estou aqui se você precisar de mim — avisou, enquanto a apertava com força.

Ginny assentiu, deu um sorriso aguado e se dirigiu até a escada.

Alice foi sozinha até a porta e saiu. Profundamente perturbada, pegou a bicicleta e pedalou em disparada rumo a sua casa.