Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 35 de 90

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Par Perfeito

Alice

Quando Alice voltou ao escritório, a primeira coisa que viu foi o florista saindo.

— Oh, Audrey — ofegou Bianca. — Que flores fantásticas. São do John?

— Hum-hum. — Audrey nunca havia ficado tão desinteressada ao receber uma montanha de botões que requeriam ambos os braços para segurar.

— Não há muitos homens que ainda mandem buquês como este para a esposa, depois de vinte anos de casamento! — exclamou Bianca com doçura. — Não é seu aniversário de casamento, é?

— Não. — Audrey deixou o buquê na mesa de Hilary para que ela o arrumasse num vaso. O olhar de Audrey captou Alice enquanto esta esperava à porta. Ela pareceu estufar o peito. — São apenas por eu ser quem eu sou — disse ela com rigidez e se virou, voltando para seu escritório.

Alice foi rapidamente para sua mesa. Audrey estivera num humor estranhíssimo. Tinha aproveitado todas as oportunidades possíveis para colocar Alice em seu lugar. Tinha até mesmo mandado que ela saísse na chuva para comprar-lhe um almoço, coisa que normalmente não exigia de ninguém. Era provável que estivesse brava por ela não ter voltado à mesa na noite anterior. Com um surto rápido de vergonha, Alice se lembrou de como havia corrido para casa. Por que não tivera mais coragem? Podia ao menos ter dito adeus!

Mas Audrey não havia, de fato, dito que era isso que a estava incomodando. E ela tinha ficado bastante alta. Talvez não pudesse se lembrar, pensou Alice esperançosamente. Mas sua esperança logo se evaporou. Mais provável que ela pudesse se lembrar e que tivesse visto John segui-la e lhe dar seu lenço. Talvez fosse isso o que a estava irritando: que seu marido tivesse sido simpático com a ovelha negra da Mesa Para Dois.

Alice deu uma sacada disfarçada no buquê de Audrey enquanto Hilary tentava enfiá-lo num vaso. Era ainda mais enorme do que de costume. E era só por eu ser quem eu sou. Alice tinha de reconhecer: Audrey devia ter feito alguma coisa bem incrível depois que ela fora embora. John não tinha dado a impressão de um homem no clima de torrar cinquenta libras em flores para a esposa. Ele, na verdade, tinha se mostrado bem irritado.

Tentando parecer o mais invisível que pudesse, Alice foi de mansinho até Hilary, sob o pretexto de ajudá-la a arrumar as flores.

— Posso te perguntar uma coisa? — sussurrou ela. Olhou nervosamente na direção de Audrey, mas a chefe já estava fechada em seu aquário e franzia a testa diante do monitor.

— Eu tenho cara de florista, por acaso? — murmurou Hilary enquanto enfiava outro jacinto no vaso. — O Kevin nunca me manda flores. Você acha que ela faz isso só para me torturar?

— Você já trabalha aqui há um tempão… — começou Alice delicadamente.

— Tempo demais!

— Você conheceu os cinco primeiros clientes? Você sabe, aqueles que se casaram todos?

— Eu não tinha começado ainda quando Audrey os uniu — respondeu Hilary, empurrando um punhado de samambaia. — Ela me contratou alguns meses depois. Mas eu os conheci mais tarde; ela vivia convocando-os para sessões de fotografia para o jornal do bairro.

Alice lançou um olhar rápido para o escritório de Audrey para garantir que a porta estivesse firmemente fechada.

— Eles pareciam felizes?

— É claro que não… eles já estavam casados!

— O que quero dizer é… você acha que eles passaram no teste do tempo? Você acha que todos eles ainda estão casados?

— Duvido. Na verdade, pelo menos uma das clientes voltou aqui alguns anos depois. Ela queria ajuda para voltar a namorar, depois do divórcio.

— Divórcio?!? — Alice sentiu os cabelinhos da nuca se eriçarem.

— Audrey nunca menciona isso, é claro. Ela não queria aceitá-la de novo como cliente. Acho que ficou morrendo de medo que alguém se lembrasse dela, de toda a publicidade.

— Então só um casal se divorciou…? — sussurrou Alice, esperançosa.

— Ah, no mínimo! Houve também rumores sobre um dos outros casais. — Hilary fez uma pausa no seu arranjo de flores, tentando se lembrar. — Ela era africana; da Nigéria, acho. Poucos meses de visto.

Alice ofegou. — Você está dizendo que Audrey arranjou um casamento de conveniência? — Não podia acreditar no que estava ouvindo. Era ainda pior do que Sheryl dissera. Desejou não ter começado a cavucar.

Hilary deu de ombros.

— Foi só um rumor; quem sabe? Não estou dizendo que ela teria feito isso deliberadamente. Conhecendo Audrey e sua capacidade de entender o ser humano, que é menos que zero, ela provavelmente nem se deu conta. Mas com certeza a chance de dar sorte ao fazer uma união se elevou mais, muito mais, com uma das partes querendo pôr um anel no dedo em 15 dias. — Hilary franziu a testa diante de seu arranjo floral tortuoso.

— Você não ouviu rumores sobre algum dos casais já estar namorando antes que ela promovesse o encontro deles, ouviu? — perguntou Alice inocentemente, mal conseguindo respirar.

Hilary disfarçou uma risada.

— Não, mas eu sempre achei que houvesse algo estranho com o primo de Audrey.

— Primo de Audrey? — ecoou Alice, desanimada, a cabeça começando a girar.

— É, ele era um primo de segundo grau, ou coisa parecida. Seja como for, ele nunca pareceu muito apaixonado pela esposa. Acho que nunca o vi trocar duas palavras com ela. Era um cara esquisito; parecia ter passado por maus bocados. Não acho que tivesse um tostão furado. Era o tipo de cara que você quer levar para casa e dar uma refeição decente. Acho que Audrey teve que comprar um terno para ele poder tirar as fotos. Eu costumava me perguntar se ela não teria pagado a ele para se casar; você sabe… para ajudar a elevar as estatísticas e colocá-la nos jornais. Suas quatro primeiras uniões dando em casamento não soa tão bem quanto as cinco primeiras, né?

Alice vacilou, chocada.

— Claro, provavelmente não é verdade — continuou Hilary ao pegar outro ramo de flores e olhar, exasperada, para o vaso completamente estufado. — Mais provável que os outros quatro casais estejam em estado de êxtase perene, todos vivendo na Avenida Utopia…

Alice voltou para sua mesa e se sentou, a sala girando ao seu redor. Então Sheryl estava certa sobre os divórcios. E se estava certa sobre aquilo, como ficava todo o resto do que ela tinha dito? Alice olhou para Audrey, que tentava raivosamente esmagar uma mosca em sua mesa com uma revista de vestidos de noiva. Será que Sheryl estava certa? Estaria Audrey também na fraude dos encontros-ruins-por-dinheiro?

Entorpecida, a mão de Alice havia mergulhado no bolso de seu cardigã. Seus dedos tocaram em algo macio. Era o lenço de John. Alice o lavara na noite anterior, pretendendo devolvê-lo hoje a Audrey. Mas alguma coisa a havia impedido — medo, provavelmente. Como uma mulher reagiria se sua funcionária lhe devolvesse o lenço de seu marido, ainda mais Audrey? E como Alice poderia explicar tê-lo sem admitir que estivera chorando? Podia imaginar o desprezo de Audrey. E, então, ela olharia nos olhos de Alice e notaria como estavam inchados. Não seria preciso ser um gênio para deduzir que Alice passara a maior parte da noite aos prantos.

O que Alice mais queria era apagar definitivamente aquela noite de sua memória — na verdade, apagar a semana toda! Depois que tomara aquele café com Sheryl, tudo tinha ido de mal a pior. Primeiro, Sheryl a fizera duvidar da integridade de sua profissão. Depois, o baile — supostamente a melhor noite de sua vida e o auge de sua carreira como casamenteira — havia terminado em humilhação. E agora Hilary havia, sem saber, virado seu mundo de cabeça para baixo, e tudo que ela pensou que soubesse sobre sua chefe, de repente, podia ser mentira.

Com isso, Alice não conseguiu se obrigar a devolver o lenço de John para Audrey. Ao invés, deixou-o aninhado e aconchegado no bolso de seu cardigã. A verdade era que estava começando a gostar de tê-lo ali. Em meio a toda confusão e tumulto, o lenço era algo macio, confortante e simples. Era a única coisa na qual podia pensar que, de fato, lhe dava uma sensação boa.