Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 58 de 90

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Par Perfeito

Lou

Quando Lou abriu a porta da frente, pôde ver Kate fazendo aquilo que sempre fazia: inspecionando seu apartamento zoneado e disfarçando rapidamente com um sorriso a expressão horrorizada em seu rosto.

 

— Oiê — cumprimentou Kate, animada, dando um abraço em Lou.

Lou se deixou abraçar sem nem sequer erguer os braços. Sabia que seu apartamento era um caos, mas gostava dele assim. Nunca entendera a razão de ser de um guarda-roupa se havia o chão onde podia deixar tudo. Arrumar as coisas era uma perda de tempo. O apartamento de Kate era tão limpo que Lou sempre se sentia prestes a tomar uma borrifada de desinfetante ou a ser pendurada num cabide. Os livros de Kate eram organizados em ordem alfabética nas estantes e, no armário da cozinha, todas as latas estavam viradas com a etiqueta no mesmo ângulo. Isso não era jeito de se viver. Isso era neurose.

— Uma taça de vinho? — ofereceu.

— Por que não? — respondeu Kate, por um milímetro não sentando no prato de comida pronta da noite anterior, ao se jogar no sofá.

Lou vasculhou a cozinha em busca dos últimos copos limpos.

— Na verdade, acho que devemos comemorar — confidenciou Kate, feliz. — Tive outro encontro com Tommy ontem à noite.

— Certo. — Lou fez o possível para parecer interessada. Havia algo muito irritante em Kate quando ela falava sobre Tommy, concluiu. Acendeu um cigarro para não ter que olhar para ela.

— Foi incrível! — contou Kate com entusiasmo. — Ele é fantástico. Tão engraçado e interessante e gentil e forte. E realmente confiante. E másculo. O tipo de homem que sabe instalar prateleiras, ou que consegue te carregar sem se preocupar em tirar a coluna do lugar.

— Humm — disse Lou com frieza e soprou a fumaça do cigarro numa longa coluna de névoa. Estava cheia daquele papo de agência de relacionamento.

Houve uma pausa constrangedora. Kate pareceu confusa.

— Achei que você fosse ficar feliz por mim — disse ela baixinho.

— Ué, só porque você decidiu que Tommy é a melhor coisa do mundo desde o pão de forma integral?

— Não seja assim. Eu gosto dele de verdade.

— Gosta? Sério, Kate, gosta mesmo? — Os olhos de Lou faiscaram com raiva. — Porque na semana passada você queria um Adônis bem-sucedido na carreira. Você fez a agência caçar por toda parte alguém endinheirado e de bom nível educacional. O Sr. Perfeito, com cadeira na diretoria e um salário de cinco dígitos!

— O Tommy tem um bom nível educacional — protestou Kate.

— Assim como o resto do mundo desenvolvido — respondeu Lou com sarcasmo.

— Mesmo assim — argumentou Kate, parecendo magoada —, não é melhor ter a mente aberta? Talvez todos aqueles pré-requisitos estivessem me impedindo de avançar. Quem sabe eu não devesse estar procurando o Sr. Perfeito, e sim o Sr. Perfeito Para Mim?

— Ah, tão doce! Tão autoajuda!

— Tommy é o que eu quero agora. — Kate empinou o queixo, desafiadora.

— Que seja! — Lou deu uma profunda tragada. Sabia que estava sendo cruel, mas não conseguia evitar. Estava cansada de ser legal. Cansada de ter de ouvir os supostos problemas de Kate com sua vida que, na verdade, era quase perfeita. — Desde que fomos àquela palestra sobre Encontrar o Par Perfeito você está estranha, desperdiçando todo esse dinheiro com aquela agência idiota.

— Você sabe por que eu contratei a agência — disse Kate pacientemente. — Quero encontrar alguém, me casar, ter filhos. É uma coisa bastante normal, sabia?

— Que bom para você, então. — Lou deu rédeas soltas ao sarcasmo. — Você baixou seu padrão e encontrou um Sr. Basicão para te levar ao altar e te emprenhar. Tão maravilhosamente normal!

— Não estou dizendo que vou me casar com ele! Ainda nem transamos — acrescentou Kate com um sorriso amarelo.

— Bem, pelo menos uma coisa continua igual.

— O que isso quer dizer, exatamente?

— Quer dizer que pelo menos você não mudou a ponto de ficar irreconhecível. Ainda está usando seu cinto de castidade e andando por aí como se acabasse de sair num dia de folga do convento.

Kate ofegou.

— Lou, qual é seu problema hoje? Parece que você tá procurando briga.

— Só estou cansada de ouvir sobre sua busca insólita por uma aliança no dedo.

— Eu não falo tanto assim sobre isso!

Lou deu uma fungada.

— Sei! Bom, pelo menos você parou de falar sobre trabalho. Cinco anos se obcecando pelo Julian é suficiente para o estômago de qualquer ser humano.

— Nunca fui obcecada pelo Julian! E, além disso, com quem mais eu devo conversar, além de você? Nenhuma de nós tem um namorado com quem falar sobre essas coisas.

— Ah, voltamos aos namorados, então?

Kate jogou as mãos para cima, exasperada.

— Talvez devêssemos encerrar por aqui hoje. — Ela se levantou do sofá. — Vou para casa.

— E fazer o quê, ligar para o Tommy? — zombou Lou. — Para choramingar sobre a amiga que agora você acha que está abaixo de você?

Kate se deteve por completo.

— Lou! Por que cargas-d’água você acha isso?

Lou tragou com irritação.

— O mundo não anda girando em torno da sua coleção de caras ricos, ultimamente? Tomar uma bebida com sua amiga e deixar a vida te levar não ficou, de repente, meio “chato” pra você? — Sabia que estava sendo injusta, mas agora não podia parar.

— O que está realmente rolando, hein? — perguntou Kate. Lou deu de ombros e se concentrou em fumar.

— Olha, você é ótima, Lou, mas não está lá quando vou para a cama à noite ou quando acordo de manhã. Você não me faz uma xícara de chá após um dia difícil nem esfrega minhas costas no banho.

Lou bufou com desprezo.

— Estou cansada de ficar sozinha! — exclamou Kate, agoniada. — Isso é tão errado assim?

Houve um silêncio repentino. As palavras de Kate pareciam pairar entre elas.

— Você transou com o Julian, depois do evento da Kachorro Kente? — perguntou Kate, de repente.

— Isso importa? — respondeu Lou, surpresa.

— Você estava grudada nele feito herpes — disse Kate com acidez. — Foi constrangedor.

— Você sentada lá de braços cruzados e um bico enorme é que foi constrangedor. Foi como ter uma guardiã da moral e dos bons costumes à mesa. Todos os demais estavam conseguindo se divertir.

— Ah, sim, você quer dizer se divertindo em se roçar no meu chefe? Qual é a sua com os chefes, hein? Você tem que transar com todos eles? Bem, se você quer se punir dando pro Tony, ótimo, mas não venha arranjar merda com o Julian.

— Por que você é tão possessiva com relação ao Julian, Kate? — A voz de Lou parecia ácido congelado. — Você está a fim dele? Porque, se estiver, tenho novidades: você não é o tipo dele.

— Claro que não estou a fim dele. Não seja ridícula!

— Eu estou sendo ridícula? Não fui eu quem se transformou na polícia sexual. Cresça, Kate! Adultos transam. Engula isso!

— Eu tenho que trabalhar com ele! — exclamou Kate, indignada.

— E daí? Você não transou com ele. Qual é a porra do problema?

— O problema — respondeu Kate, a voz rígida de fúria — é que essa coisa de ser devoradora de homens era divertida quando você tinha vinte e poucos anos, mas agora está ficando patética. Você não tem respeito por si mesma, não tem ambição, amor-próprio. Seu único relacionamento significativo na última década tem sido com um homem casado. Você não quer ser amada? Não quer alguém que cuide de você, que de fato se importe se você teve um dia ruim ou não?

Kate fez uma pausa, pendendo entre a raiva e a pena. Olhou para Lou, esperando uma resposta. Lou estava tentando ocultar o fato de estar tremendo. Ela agarrou a garrafa de vinho e encheu seu copo.

Kate suspirou e, de repente, voltou a se sentar.

— Você é inteligente, Lou — disse, com gentileza. — O que você está fazendo trabalhando num bar? O que aconteceu com os planos de ter uma carreira? E se trabalhar num bar é sua carreira, por que você ainda não é dona do bar? Você tem 33 anos. Não devia ser subgerente; devia ser a proprietária!

— Estou feliz assim — resmungou Lou desafiadoramente.

— Não está, não — corrigiu Kate bem serena. — Se estivesse, não estaria vivendo de migalhas e tendo transas sem sentido com homens que não se importam com você.

— Ah, e você é tão perfeita, né! — retrucou Lou com maldade. — Que diabo você sabe sobre transar? Quando foi a última vez que você deu, Kate? Na verdade, quando foi a última vez que você foi comida? Sexo não é só flores e poesia e ser adorada numa porra de um pedestal, sabia? Sexo tem a ver com excitação, euforia e dor. É ser fodida até suas últimas forças e não se estagnar na posição papai e mamãe com as luzes apagadas! E relacionamentos? — Lou sentiu-se tremer ainda mais. — Não vou receber conselhos de alguém que precisa pagar uma profissional para organizar sua vida amorosa. É trágico! E trabalho? Você se transformou na pessoa mais ocupada do mundo ocidental, não porque a área de assessoria seja tão importante, mas porque te dá uma desculpa para não sair. Porque, quem sabe, se você saísse, você de fato poderia se divertir! Poderia de fato transar e se casar e ter filhos e ter todas essas coisas que você quer. Mas, se você quer tanto assim, por que não desliga seu computador às seis da tarde, como qualquer pessoa normal e, de fato, se embrenha no mundo? Você precisa sair e transar até ficar desnutrida, Kate! Precisa ser comida até acordar e ver no que você se transformou!

Um silêncio súbito recaiu sobre elas.

E, então, Kate apanhou sua bolsa e se dirigiu para a porta.

— Não temos mais 20 anos — disse ela, baixinho. — Não deveríamos mais viver tão grudadas. Preciso dar seguimento à próxima etapa da minha vida. Nós duas precisamos.

E saiu porta afora, fechando-a gentilmente atrás de si.

— Quanto antes você sumir com um marido chato e seus 2,4 filhos, melhor! — Lou gritou maldosamente às costas dela. — Acabe logo com o sofrimento de todos nós!

Ela ouviu os passos de Kate ecoarem pela escada. Tragou o cigarro. Seu apartamento ficara depressivamente silencioso.