Par Perfeito
Audrey
Audrey olhava fixamente para a frente enquanto John guiava o Audi em direção à sua casa. O zumbido abafado do motor sugeria uma atmosfera enganosa de paz. Nenhum dos dois dissera uma palavra desde que entraram no carro, uns bons dez minutos antes. Só agora que a raiva provocada por Sheryl e a sensação de traição por parte do Presidente Ernie haviam se acalmado é que Audrey percebeu que John estava irritado. Não houve nada daquela sua conversa normal, tranquila. Em vez disso, ele dirigia num silêncio rígido, a testa franzida e o perfil sério. A raiva de Audrey se transformou instantaneamente em pânico. John não podia estar bravo com ela, podia? Ele nunca ficava bravo. Era sempre gentil e calmo. Sua boca ficou seca e seu estômago se revirou.
Ela pigarreou e tentou pensar em algo leve para dizer, mas nada lhe veio à mente. Em vez disso, observou com pesar enquanto as mãos dele giravam o volante, cada movimento levando-a mais perto de casa, cada mudança de marcha apressando o final da noite.
Audrey sentiu um mal-estar. Havia desejado — ansiado — aquela noite durante tanto tempo. Mas algo dera errado. E o que quer que fosse fora por culpa de Sheryl.
Rápido demais, eles chegaram à sua casa. Com uma sensação de tristeza, Audrey notou que John não desligou o carro, não soltou seu cinto de segurança nem se virou no banco para olhar para ela. Estava terminado, pensou ela com desespero; a noite estava terminada. Não havia mais nenhum minuto precioso a ser vivido. Não por vários meses, de qualquer forma. Não até que surgisse uma ocasião profissional adequada, o que poderia demorar séculos.
— Café? — sugeriu ela, em pânico.
— Não. — Ele suspirou pesadamente. Houve uma pausa constrangedora. — Você me surpreendeu esta noite, Audrey.
— Eu?
— Eu… não sabia que você era assim.
— Assim como? — inquiriu Audrey, sentindo-se de repente muito pequena. Os olhos de John estavam fixos num ponto no outro lado do para-brisa.
— Tão… dura. Tão desprovida de compaixão.
— Foi a Sheryl — justificou-se afobada. — Ela deliberadamente me provocou. Ela sempre faz isso.
— Não, não foi Sheryl. Olha, deixa pra lá. Não cabe a mim dizer.
— Não cabe a você dizer o quê?
Um silêncio pesado recaiu sobre eles.
— Por favor… eu quero saber. Preciso saber o que você está pensando! — Mas mesmo enquanto dizia as palavras, ela não tinha certeza se queria ouvir a resposta. Estava tudo errado. Não era assim que a história devia acontecer. Esperou, sem fôlego, pela resposta dele.
Mas John apenas olhou em frente, durante um longo tempo.
— Desculpe — pediu ele, por fim —, mas tenho que acordar bem cedo amanhã.
Audrey assentiu, muda. Fora dispensada.
Ela apalpou para abrir a porta, ainda esperando que ele mudasse de ideia e abrisse um de seus sorrisos típicos, que faziam seus olhos se enrugarem e o coração dar pulos. Mas os olhos dele estavam fixos no asfalto.
Audrey desceu do carro, murmurou um sentido “obrigada” e fechou a porta gentilmente. Caminhou devagar até sua entrada, demorando-se o máximo que podia com cada passo para dar a ele a chance de chamá-la de volta, alcançá-la, tocar a buzina, qualquer coisa. Mas antes que ela chegasse à porta da frente, ouviu o carro dele partir e só restou o discreto zumbido do motor na noite.
Com a mão trêmula, pegou as chaves de casa. E, então, estava lá dentro, a porta fechada e John em outro lugar qualquer.
Foi direto para o quarto. Pickles estava dormindo em sua cama e mal se mexeu quando ela entrou. Ela foi até o espelho de corpo inteiro e olhou. Queria ver a si mesma — não como normalmente fazia, verificando se a saia estava reta ou que não houvesse batom nos dentes. Queria ver o que John via. Queria ver a si mesma: Audrey Cracknell: a cliente, a mulher.
Olhou. Continuou olhando.
E, então, abriu o zíper do vestido e se despiu. Descalçou os sapatos e colocou os pés inchados no chão reto e acarpetado.
Estava de roupas íntimas, meia-calça e maquiagem. Olhou novamente.
Não gostou do que viu.
Sua barriga se elevava sobre a calcinha recatada e as coxas desciam bem juntas, do abdome até o joelho. Seus braços gorduchos se salientavam, mais largos que os ombros, fazendo com que sua silhueta fosse flácida e em formato oval. Não tinha nenhuma das linhas duras e malhadas de Sheryl. Até seu busto, certamente tão amplo quanto o de Sheryl, era flácido e disforme. O busto de Sheryl era atrevido e pneumático: um travesseiro sedutor que chamava os homens. O busto de Audrey era como duas batatas encaroçadas pendendo num par de meias.
Audrey olhou para seu rosto. O cabelo — imaculado quando saíra de casa no início da noite — estava crespo novamente; rebelde e mais alaranjado que nunca. Havia uma marquinha vermelha no meio de sua testa do encontrão desastroso com o cotovelo de John. Sua maquiagem parecia um guache seco, quebradiço, opaco, rachando nos cantos. A boca era pequena, tão pequena que ela mal podia vê-la. Minúscula e apertada demais para ser beijada.
É isso, pensou ela. Essa sou eu. De repente, sentiu-se oprimida. Não havia como fugir daquela mulher no espelho. Essa era ela, Audrey Bridget Cracknell. Cinquenta e um anos e 80 quilos; uma burra de carga, sustentada à força de muita determinação e lingerie modeladora. Seria esse um corpo capaz de usar um vestido prateado? Seria esse um corpo que incitaria homens a defendê-la? Não era de admirar que John houvesse dado aquelas desculpas. Ele podia ter qualquer mulher que quisesse. Por que escolheria isso?
Na cama, Pickles despertou momentaneamente, bocejou, lambeu suas patas e voltou a dormir.
Na frente do espelho, uma pequena lágrima cintilante brotou no canto do olho de Audrey. Mais tarde, muito tempo depois, quando o frio da noite finalmente penetrou em sua desgraça, ela vestiu a camisola e foi se deitar.