Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 46 de 90

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Par Perfeito

Audrey

Audrey atravessou rapidamente as portas da Partridges, consultou o mapa de localização e se dirigiu para a escada rolante, rumo ao departamento de roupas íntimas no primeiro andar. Departamentos de roupas íntimas eram raramente visitados por Audrey. Ela preferia fazer suas compras por catálogo, escapando assim da infernal dose dupla: as luzes dos provadores e os esbarrões e as cotoveladas vingativas das shoppaholics.

Mas hoje era uma exceção. Nessa particular hora de almoço de sexta-feira, Audrey se aventurou desafiadoramente a penetrar na zona hostil do departamento de roupas íntimas da Partridges com apenas uma coisa em mente: calcinhas modeladoras.

Desde a noite do baile, Audrey vinha sendo torturada por duas imagens. A primeira era do corpo envolto em prata, imaculadamente apresentado e injustamente proporcional de Sheryl Toogood. E a outra era de seu próprio corpo, flácido e cheio de furinhos, no espelho do seu quarto. Toda vez que se lembrava de sua imagem, sentia um calafrio. Se estava decidida a reconquistar John, então precisaria dar um jeito em si mesma. E a roupa íntima correta, dizia-se, podia te fazer perder cinco quilos.

Quando Audrey saiu da escada rolante, armou-se de sua carranca mais não-desperdice-o-meu-tempo. Iria resolver aquilo o mais rápido possível.

Se não fosse pelo casamento de Jason e Jennifer no dia seguinte (como arquiteta da união, ela estava fadada a ser fotografada com o feliz casal para o jornal do bairro; o que não só era excelente publicidade para a Mesa Para Dois, mas também havia a chance de que John pudesse ver), então, provavelmente teria adiado a compra de roupas íntimas por mais algumas semanas. Mas a necessidade imperava, então, entrou afobadamente no primeiro corredor de calcinhas e sutiãs, analisando com desconfiança os frágeis fragmentos de cetim e renda.

Era assim a lingerie modeladora dos dias de hoje?, perguntou-se. A sua, comprada quando ela era vinte anos mais jovem e dois números menor, já estava em farrapos. Certamente, as lingeries modeladoras tinham evoluído muito desde então, não? Audrey tocou numa bonita calcinha azul-turquesa e se perguntou se seria aquilo.

— Posso ajudá-la, senhora? — perguntou uma voz.

Audrey deu um pulo, culpada.

— Sim! — vociferou, um tanto rude, fazendo o possível para não parecer perturbada. — Quero uma calcinha modeladora. Para me fazer parecer mais magra.

— Pois não, senhora — disse a vendedora com tranquilidade. — Por aqui.

Ela guiou Audrey pela loja, os tons delicados de rosa e amarelo gradualmente dando espaço para os negros e os beges mais robustos, ao passo que as cinturas ficavam mais altas e os reforços mais baixos. Finalmente, a vendedora parou diante de um mostrador de peças que mais pareciam culotes do que calcinhas. Aquilo não podia ser lingerie, pensou Audrey. Aquelas ali eram para velhas em asilos sem o mínimo controle da bexiga.

Porém, como previsto, a boca da vendedora estava se movendo e palavras como “linhas suaves” e “melhor que uma lipoaspiração” estavam penetrando nos ouvidos descrentes de Audrey. Ela olhou para as calcinhas com desânimo. Algumas eram tão compridas que você tinha de içá-las acima dos ombros. Será que realmente iriam ajudá-la a reconquistar John?

No entanto, lembrou a si mesma da importância de sua missão e dispensou a vendedora. Pegou rapidamente um culote bege e seguiu feito uma locomotiva para a fila.

Mas algo a deteve em pleno progresso.

Uma cachoeira loura estava na fila dos caixas. Sua dona vasculhava dentro de uma imensa bolsa de crocodilo, equilibrando-se num par de chamativos saltos agulha.

— Vem cá, querida. Quando vocês vão receber mais daquela calcinha fio dental de plumas roxas? — Uma voz rude e conhecida emanou de sob o cabelo. — Bem, vou ter que me virar com as rosa-choque até lá, então. Enfim, acho que não importa. Elas nem ficam no corpo por muito tempo mesmo!

A loura emitiu uma gargalhada estridente.

— Deixam os machos maluquinhos! — continuou a loura, grosseira. — Não sei se é porque são tão minúsculas, ou se é a sensação das plumas, mas assim que põem os olhos nelas, ficam indóceis para arrancá-las!

O estômago de Audrey se revirou de mal-estar e ela correu para trás de um mostrador de meias-calças. Sheryl Toogood! Sentiu uma camada de suor se formar em seu lábio superior. Será que ela a tinha visto? Certamente que não! Sheryl nunca perdia a oportunidade de tripudiar e se ela tivesse visto Audrey rondando as roupas íntimas de terceira idade, teria vindo direto enfiar a faca até o cabo.

Audrey se agachou, desajeitada, amassando a calcinha modeladora na mão.

— Estou te dizendo, mocinha — confidenciou Sheryl em voz alta para a vendedora —, você precisa comprar um daqueles sutiãs transparentes. Tão atrevido, ver os mamilos quando ainda se está com a lingerie! Meu macho fica doido com isso. Vira um verdadeiro animal. Quando saímos para jantar fora ele mal coloca o garfo na boca e já vai me perguntando se estou usando o sutiã. Vira fogo e paixão. Nem consegue comer. Você tem que comprar um. Jamais se arrependerá!

Audrey se sentiu nauseada. A última coisa que queria era uma imagem mental de Sheryl e Brad no quarto, ou na mesa de jantar, ou em qualquer lugar, para dizer a verdade. E, especialmente, não queria imaginar os mamilos de Sheryl. Será que John era o tipo de homem que se transformava num animal?, pensou, com repentino pânico. Será que ele era do tipo que gostava de sutiãs tão frágeis que pudesse ver através do tecido?

Finalmente, Sheryl pagou por sua mercadoria e foi para o piso térreo. Quando o último vislumbre de seu cabelo louro desfiado desapareceu escada abaixo, Audrey se arriscou a sair de seu esconderijo e foi depressa até os caixas. Empurrou o culote mole e úmido de suor sobre o balcão e começou a freneticamente tirar o dinheiro da bolsa. Dinheiro seria mais rápido do que o cartão de crédito, e quanto antes ela saísse dali, melhor, caso Sheryl voltasse para comprar mais alguma coisa pornográfica.

— Mulher desavergonhada! — murmurou consigo mesma. — Meretriz vulgar!

— Como? — A vendedora parecia afrontada.

— Não é com você! — disse Audrey bruscamente, ao agarrar sua compra e se dirigir à saída de emergência mais próxima. Desceria pela escada, muito obrigada. De jeito nenhum correria o risco de trombar com Sheryl. De jeito nenhum neste mundo de meu Deus.