Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 51 de 90

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Par Perfeito

Alice

— Até que enfim! Estava superpreocupada com você! — Alice tinha finalmente conseguido entrar em contato com Ginny. Girou na cadeira, procurando bloquear o barulho do escritório. — Está tudo bem?

 

— Não exatamente — respondeu Ginny de forma lacônica. Algo em sua voz deixou Alice ainda mais preocupada. — Alguns dias depois que você veio aqui, Dan e eu tivemos uma briga terrível. Tudo veio à tona: todas as coisas ruins que venho pensando. Mal posso acreditar nas coisas horríveis que eu disse: que ele não era a pessoa pela qual eu havia me apaixonado, que eu o detestava por não se esforçar mais, por não me levar para sair, me dizer que ainda sou atraente… Eu disse até que só estava com ele por causa da Scarlet e que, na primeira oportunidade, seria capaz de fugir com o carteiro… ou com qualquer outro que se desse ao trabalho de me olhar duas vezes.

— Ai, meu Deus, Gin! — Alice estava estupefata. — Eu não fazia ideia que as coisas estivessem tão ruins assim. — No entanto, assim que as palavras saíram de sua boca, lembrou-se de alguns sinais que não percebera antes. Revendo agora, não tinham sido óbvios? Ginny estivera tão esquisita naquela noite, na cozinha. E há meses ela vinha fazendo comentários estranhos, sugerindo que nem tudo em sua casa eram rosas. Sentindo-se culpada, Alice compreendeu que havia desprezado os sinais de estresse da amiga, reduzindo tudo ao fato de Ginny não dormir direito por causa de Scarlet. Por que não pudera enxergar; por que não cutucara um pouco mais? Ginny era sua melhor amiga no mundo inteiro e Alice não tinha feito nada para ajudá-la. E, agora, seu casamento estava com problemas — problemas sérios.

— Mas você não faria mesmo isso, faria? — perguntou ela, hesitante, quase com medo de ouvir a resposta de Ginny. — Fugir com outro homem, digo…

— Claro que não! Só falei para machucá-lo. Eu fui uma verdadeira bruxa.

Era um pequeno alívio.

— O que Dan disse?

— Não muito, no início. Mas daí ele ficou bravo. Disse que também estava muito infeliz, que amava Scarlet e que achava que ainda me amava, mas que, às vezes, era difícil se lembrar por quê.

— Ui!

— Ele disse que eu tinha sido uma chata de galocha neste último ano. Que sabia que era porque eu estava esgotada e que Scarlet podia dar muito trabalho, mas que ele também estava cansado e que nem por isso descontava em mim. E aí ele disse que ficou indignado comigo por ameaçá-lo com uma traição… que ele pensava que eu fosse uma pessoa melhor.

— Ah, Ginny! — Algo se apertou no estômago de Alice, retorcendo-se de forma incômoda num nó cego e desagradável. Não era só a agonia de perceber que sua amiga se encontrava profunda e dolorosamente infeliz: era a forma como tudo aquilo estava errado. Ginny e Dan eram perfeitos um para o outro. Haviam se apaixonado à primeira vista e sido inseparáveis desde então. O relacionamento fazia todo sentido; formavam uma equipe e tanto. Não eram melosos um com o outro nem exageradamente sentimentais ou grudados a ponto de se sufocarem; tinham um amor duradouro e realista, baseado em amizade, respeito e em se gostar ao extremo. Sempre acreditara que o casamento deles fosse tão forte a ponto de colocá-lo num pedestal e transformá-lo no exemplo perfeito, sempre que tentava compatibilizar seus clientes. Ginny e Dan não podiam estar com problemas. Se eles estivessem, então qualquer um também poderia estar. De repente, o mundo parecia menos seguro.

— Isso me abalou muito — admitiu Ginny numa vozinha frágil. — Eu não tinha me dado conta de que ele também estava infeliz; pensei que fosse só eu. Mas, agora, sei que ele tem tido suas dúvidas… É assustador pra caramba, Alice. Não acredito que disse coisas tão horríveis para ele. Eu não falei a sério. Mas agora o estrago está feito e não sei como voltar atrás.

— O que eu posso fazer para ajudar? Posso ir até aí? — ofereceu Alice, séria.

— Obrigada, mas acho que precisamos passar um tempo sozinhos. Você sabe… sendo uma família.

— Sim, claro. Mas acho que você e Dan se beneficiariam muito com um tempinho juntos, só vocês dois. Sair uma noite dessas; ser “Ginny e Dan” só por algumas horas, e não “Ginny, Dan e Scarlet”. Se vocês quiserem sair, é só me dizer e eu vou direto para aí cuidar da Scarlet.

— Você ficaria de livre e espontânea vontade com a nossa capeta que berra o tempo inteiro? — perguntou Ginny, incrédula.

— Sem nem pestanejar.

— Você é uma mulher muito corajosa, e uma amiga incrível — elogiou Ginny, a garganta apertada de emoção. — Enfim… — Ela fez o possível para aliviar o clima. — Chega de falar de mim; estou cansada de pensar em mim. Me conte sobre você. Rolou alguma coisa com o Príncipe Encantado?

— Tem certeza que você quer saber? — perguntou Alice, em dúvida.

— Sim, cem por cento! Vamos lá, pode ir contando tudo. Estou mesmo precisando me animar um pouco.

— Bem… — Alice olhou rapidamente pelo escritório para ter certeza de que Audrey não estava por perto. E, então, da forma mais discreta possível, colocou Ginny a par da situação.

— Nós nos encontramos para almoçar ontem — terminou ela em voz baixa, mas com uma animação indisfarçável —, e ele vai me levar para jantar amanhã à noite.

— Eba! — animou-se Ginny, quase voltando a ser ela mesma, pela primeira vez durante a conversa. — Três encontros! É quase um relacionamento!

Alice sorriu, alegre.

— Então, como é sair com um homem mais velho?

— Ele não é velho! — protestou Alice. — Tem 41!

— São sete anos mais que você! E você não disse que ele é grisalhão?

— Um pouco do cabelo dele é grisalho. Assim como um pouco do cabelo do George Clooney é grisalho!

— Imagino que, aos 41, ele tenha sorte de ainda ter cabelo! — provocou Ginny.

— Eu gosto do fato de ele ser mais velho. — Alice mal podia pronunciar as palavras, com o sorriso enorme que se estampava em seu rosto. — Faz com que ele seja mais interessante. Ele não está tentando se mostrar nem provar nada. É confiante, maduro e inteligente, e sabe ouvir.

— Então, você não está preocupada com a Audrey?

— Como assim? — O sorriso de Alice congelou.

— Bem, você acredita que eles não sejam casados?

Houve uma pausa. Alice podia perceber que Ginny estava esperando atentamente pela resposta.

— Sim, acredito — sussurrou Alice. — Eu acredito nele. Mas, sim, estou preocupada com ela. Me sinto supermal pelo que estou fazendo.

— Vocês só fizeram um lanche e tomaram um café juntos! — zombou Ginny. — Não é exatamente Sodoma e Gomorra, né!

— Você sabe o que eu quero dizer.

— Ora, por quê? Se eles não são casados, você não está fazendo nada de errado!

— Tirando estar agindo pelas costas dela e partindo seu coração?

Ginny riu com deboche.

— Você não pode partir algo que não existe!

— Isso não é justo — disse Alice, baixinho.

— A Audrey nunca foi justa com você.

Um pouco depois, Alice desligou o telefone. A despeito de todas as suas preocupações, e a despeito de se sentir triste por Ginny, não podia se controlar: ela estava tão excitada com o jantar com John que mal conseguia se concentrar. Mas não era justo deixar a vida amorosa de seus clientes em suspenso só porque tinha um encontro naquela noite. Precisava trabalhar e muito. Seu olhar recaiu sobre uma pilha de papéis. Trabalho administrativo, pensou ela, decidida. Provavelmente, era só para aquilo que servia.

Começou a destrinchar a pilha de papéis, separando as faturas cuidadosamente a um lado, antes de levá-las até o escritório envidraçado de Audrey e colocá-las em sua bandeja. Quando deu meia-volta, sua visão foi atraída por uma foto emoldurada, ao lado do computador. Já a vira centenas de vezes, mas ainda era um choque. Era John, elegantemente vestido com seu smoking, igualzinho a quando o vira na noite do baile da ADAR. Alice parou. Ele estava tão bonito; sentiu seu gêiser interno de excitação começar a borbulhar novamente. Mas o que ele estava fazendo na mesa de Audrey? Por que ela mantinha uma foto dele ali, justamente onde podia vê-lo mil vezes por dia? Ela tinha que estar apaixonada por ele. John dissera que não nutria sentimento algum por ela, mas por que a levava ao baile todos os anos? Por que deixava todo mundo pensar que estavam juntos?

Alice voltou para sua mesa com a testa franzida. O que estava realmente acontecendo?, perguntou-se. O que havia naquela história que não tinham lhe contado?