Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 17 de 90

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Par Perfeito

Alice

Alguém dissera a Alice uma vez que, para ser bonita, a mulher precisava sofrer. Na hora Alice achou aquilo ridículo. Ela era da escola de beleza que pregava Creme Nivea e dormir cedo. Todas aquelas mulheres que se sujeitavam a dolorosas depilações e peelings eram loucas. Mas agora, depois de passar seu domingo praticando andar em cima de um salto destruidor de dedos, entortar o arco do pé e realinhar a espinha dorsal (e ainda assim achá-los o máximo), Alice começava a entender o que a pessoa quisera dizer. E agora estava se recuperando, com a ajuda de seu foot spa e uma caneca de chá.

Ela suspirou e pensou — possivelmente pela milionésima vez naquele dia — no baile. Qualquer ideia que pudesse ter tido sobre implorar para que Audrey levasse Bianca em vez dela tinha desaparecido no exato minuto em que fora até o caixa da butique e entregara seu cartão de crédito. Agora que tinha a roupa para vestir — e não apenas uma roupa qualquer; a mais legal de sua vida inteira — estava, de fato, ansiosa para ir. Passara o dia inteiro abrindo o guarda-roupa só para olhar o vestido. Tirava-o e o segurava diante do corpo, tentando se lembrar de como ficara no espelho de corpo inteiro. Quando escurecera, ela tinha acendido as luzes e deixado as cortinas abertas de forma que pudesse ver seu reflexo na janela. Toda vez que via a si mesma, sua respiração acelerava. Será que realmente conseguiria dar conta daquilo?

Alice moveu gentilmente os pés na água, deixando as bolhas fazerem cócegas nas solas. Claro, também tivera pelo menos trinta fantasias, só naquela tarde, sobre o que iria acontecer se a noite do baile fosse também a noite em que seu Príncipe Encantado decidisse aparecer (bem, era isso o que eles supostamente deviam fazer nos bailes). Obviamente, todas no salão estariam clamando pela atenção dele. Mas ele só teria olhos para Alice, cuja mão ele tomaria e beijaria, antes de conduzi-la à pista de dança. Seria um completo momento Cinderela, exceto que nem morta ela deixaria um de seus sapatos novos para trás!

Mas havia uma falha óbvia nessa fantasia. Alice já conhecia os homens que estariam no baile; eram todos membros da ADAR e — se as reuniões pudessem ser consideradas parâmetro — todos passariam a noite absortos no decote de Sheryl Toogood. É claro que podia haver outros homens, mas eles seriam os acompanhantes de membros da ADAR e, portanto, não estariam disponíveis para casamenteiras de imaginação fértil e viciadas em romance, por melhores que fossem seus sapatos.

Assim, Alice tivera de se contentar com a fantasia mais problemática, que era a de encontrar o Príncipe Encantado a caminho do baile. Até agora, o melhor cenário que pudera imaginar era que ele fosse o motorista de seu ônibus, ou talvez um passageiro de bom coração que estivesse indo fazer trabalho voluntário numa instituição de caridade. Ele tiraria os olhos de seu livro surrado, ajustaria os óculos e se deslumbraria diante da visão de Alice em seu traje de gala. Seria um caso único de amor à primeira vista. Quase funcionava, pensou ela ao abraçar seus joelhos e remexer os dedos, já muito melhores, no foot spa. Até que ele olhasse para baixo. De jeito nenhum Alice conseguiria bambolear até o ponto de ônibus com seus saltos altos, e nem mesmo a sua imaginação tão poderosa conseguia conceber o herói tomando nos braços uma heroína de vestido com decote nas costas e tênis encardidos.

“Ah, paciência”, pensou ao desligar o foot spa e pegar uma toalha. Teria de encontrar o Príncipe Encantado outra noite. Era uma pena, no entanto. Agora que tinha se visto de salto alto e vestido elegante, sabia que ia ser muito mais difícil conseguir que o Príncipe Encantado se apaixonasse loucamente e prometesse amor eterno com ela vestindo um cardigã básico.