Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 21 de 90

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Par Perfeito

Alice

Era sexta-feira à tarde e Alice estava mergulhada no trabalho, olhando pela janela da Mesa Para Dois. Devaneando.

Sexta era sempre o dia mais cheio da semana, quando a maioria dos clientes tinha seus encontros. A equipe da Mesa Para Dois ficava imersa em telefonemas, fazendo reservas de última hora em restaurantes e encorajando os clientes mais nervosos. O trabalho de Alice era ser em parte organizadora, em parte conselheira e em parte mãe, dando abraços verbais pelo telefone e aguardando nervosamente enquanto sua prole de clientes avançava com bravura para o mundo dos encontros.

Nessa sexta, em particular, todos os telefonemas de Alice já tinham sido dados, todos os planos completados para a miríade de jantares a ocorrer por toda a cidade ao longo do fim de semana. Todos estavam cientes de seus destinos e horários de encontro; todas as fotografias e históricos pessoais tinham sido enviados. Embora o resto da equipe da Mesa Para Dois ainda estivesse ocupada, o telefone de Alice estava em silêncio. Ela olhou para seu relógio; 15h30. Sorriu. Tinha algumas deliciosas horas para gastar formando pares. Respirou fundo e fechou os olhos.

Alice adorava formar pares. Em nível de igualdade com plantar flores em seu jardim, era quando sentia-se mais viva. Ela seguia uma rotina especial. Primeiro, limpava a mente e se isolava dos sons do escritório. Imaginava estar em seu jardim, o sol batendo no rosto, a grama sob os pés e o canto dos pássaros em seus ouvidos. Respirava fundo, deixando que o estresse do dia se esvaísse conforme os músculos liberavam a tensão. Sabia que devia parecer estranha; Audrey e as outras provavelmente achavam que ela estivesse dormindo. Mas ela não ligava, e, de qualquer maneira, nunca tinha ouvido nenhum comentário delas. Transportava-se para o mundo das uniões, um lugar silencioso, romântico, onde a negatividade não podia entrar.

Dentro de um ou dois minutos, estaria pronta. Às vezes, abria os olhos e olhava fixamente pela janela, sem realmente ver. Outras vezes se esquecia e ficava de olhos fechados. Alguém que a observasse jamais poderia adivinhar a atividade abundante e vívida em andamento dentro da cabeça de Alice. A magia das uniões fervilhava em sua mente.

Quando Alice formava pares, era como se conduzisse seus clientes a um filme de cores vivas onde tudo era melhor, mais interessante e mais romântico do que na vida real. Todo mundo tinha cabelos sedosos e roupas favorecedoras. Era um mundo próprio para que as pessoas se apaixonassem.

O processo de união de Alice começaria. Partiria pelo homem. Ela o imaginaria no restaurante, vestido com elegância e completamente à vontade. Ele estaria esperando ansiosamente por sua parceira.

Em seguida, Alice escolheria uma mulher que, segundo sua intuição, poderia ser uma companheira adequada. Ela a observaria entrando no restaurante e tirando o casaco. Ela estaria deslumbrante: em sua melhor forma.

O casal se cumprimentaria e ele puxaria a cadeira para ela se sentar. Eles sorririam um para o outro alegremente, ambos agradecendo sua sorte em ser compatibilizado com alguém tão atraente. E, então, eles começariam a conversar.

Essa era uma parte crucial do encontro. A conversa fluiria? Encontrariam assuntos em comum? Iriam mesmo precisar? Talvez ficassem encantados por serem totalmente opostos, fascinados por descobrir alguém cuja vida e interesses fossem tão diferentes dos seus. Algumas pessoas desejavam semelhanças; outras, diferenças. Somente quando Alice assistia ao desenrolar do encontro, nos recantos privados de sua mente, era que sabia se a união poderia dar certo.

Às vezes os encontros azedavam entre o prato principal e a sobremesa. Perguntas educadas, por si só, não faziam a magia florescer. Então, o casal agradeceria um ao outro por uma noite adorável e iria para casa. Alice os conduziria em segurança até a porta de seus respectivos lares e, então, voltaria ao restaurante, limpando a mesa e preparando a cena para um novo encontro e outro parceiro.

Mas às vezes — as melhores — o encontro na cabeça de Alice borbulharia e cintilaria de romantismo. As conversas encaixariam, os sorrisos durariam muito além e Alice despertaria de seu devaneio para, excitada, anotar o par combinado.

Era isso o que havia acontecido quando Alice imaginara o encontro entre Jason e Jennifer. Houvera tamanha química que ela praticamente sentira o ar transmutando em volta deles. E agora eles iriam se casar! Alice sentia algo mais profundo até do que orgulho. Era o sentimento de paternidade que um pintor tinha por sua obra de arte.

Alice adorava mergulhar em seu restaurante imaginário e formar pares, sempre que podia; em momentos tranquilos no trabalho, noites em que o escritório estava vazio, ou nos fins de semana, enquanto tirava o mato de seu jardim. Toda segunda-feira ela teria uma extensa lista de encontros a organizar, todos eles nascidos na sua imaginação. Era sua lista de fantasia, sua lista de esperança romântica. Naquele estágio, nenhum dos relacionamentos tinha ainda acontecido; eram apenas centelhas nos olhos de Alice. Mas em sua mente já floresciam. E quando os relacionamentos finalmente chegassem a brotar no mundo real, muitos de fato davam um belo jardim.

A consciência de Alice foi gradualmente penetrada por um ruído tilintante. Conforme o ruído se tornou mais insistente, o restaurante começou a desaparecer à sua volta. Ela afastou o olhar da janela. Estava de volta à terra do escritório e o telefone estava tocando. Os últimos vestígios do restaurante sumiram e ela, relutantemente, atendeu.

— Posso falar com Audrey Cracknell, por favor? — pediu uma voz masculina.

— Infelizmente, ela saiu — respondeu Alice. Todas ali haviam suspirado de alívio quando Audrey declarara que iria sair e não voltaria mais. Ela estivera num péssimo humor o dia todo. Alice se perguntara se teria alguma coisa a ver com a reunião da ADAR do dia anterior; tinha visto Audrey ir embora cedo, com o pescoço vermelho e o semblante fechado.

— Posso ajudar em alguma coisa? É a Alice.

— Oh, hã… Não tenho certeza. Ah. Bem, talvez. Humm. Na verdade, sim. Meu nome é Max, Max Higgert. É, ah, sobre os encontros que tive. Humm, bem, os encontros que Audrey organizou para mim.

Alice ouviu.

Vinte minutos depois, desligou o telefone. Queria ajudar, mas seria algo complicado.

O que Max finalmente lhe dissera era que ele não estava tendo encontros com o tipo de mulher que desejava. Ele queria uma mulher gentil, carinhosa; alguém caseira e despretensiosa com quem compartilhar noites na frente da TV. Mas Audrey continuava mandando-o para encontros com mulheres ricas, alpinistas sociais, peruas com roupas de grife; o tipo de mulher que seria uma esposa-troféu e que caçava implacavelmente um marido rico; o tipo de mulher que fazia Max ter vontade de fugir correndo.

Alice não conseguia se controlar. Sabia que era suicídio profissional se meter com as uniões feitas por Audrey. Não havia o menor problema que um membro da equipe mexesse na lista de clientes de outro, mas a lista de Audrey era sacrossanta. Mas Alice sabia que não iria conseguir dormir se simplesmente ficasse parada, vendo o caminho para o amor verdadeiro ser devastado por um trator. O real objetivo de seu trabalho não era formar pares perfeitos? O Cupido certamente não guardaria suas flechas só porque seu alvo não estava na lista certa, e tampouco ela deveria fazer isso. Olhou pela janela e começou a construir novamente o restaurante.

Alguns minutos depois, Alice voltou ao presente com um tranco enérgico. Eram 17h27. Correu até Bianca, que desligava seu computador.

— Bianca, por favor… posso te pedir uma coisa? — Suas palavras jorraram, apressadas. Bianca já abotoava o casaco. — É sobre um dos clientes de Audrey; Max, o arquiteto. Encontrei o par perfeito para ele e preciso que você o sugira para Audrey.

Bianca voltou os seus grandes olhos azuis para Alice e piscou, sem entender.

— Por que você mesma não sugere?

— Porque ela não vai ouvir, se vier de mim! Ela descartaria completamente, apesar de eu achar que eles são feitos um para o outro. Principalmente por eu achar que eles são feitos um para o outro!

— A Audrey não é assim! — disse Bianca, ofegando. — Se for uma boa ideia, ela vai ouvir.

Alice quase riu alto.

— Tenho certeza que você tem razão. Mas não posso arriscar. Max precisa conhecer essa mulher. Ela é o “felizes para sempre” dele!

As duas sorriram uma para a outra; casamenteiras não conseguiam deixar de se amolecer com a ideia do “felizes para sempre”. Alice deixou que a natureza romântica de Bianca a dominasse por um instante, e então se aproveitou da vantagem.

— A Audrey ouve você. Ela vai levar a sugestão a sério, se achar que é ideia sua.

— Mas não quero me apropriar da sua ideia…

— Aproprie-se! Por favor, pode usá-la!

— Bem, se é isso mesmo que você quer… E se vai fazer Max feliz… eu digo a ela. Vou sugerir essa união a Audrey.

Alice apertou Bianca num abraço enorme. — Obrigada! Você não vai se arrepender, prometo!

Alice só podia esperar que ela também não se arrependesse.