Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 41 de 90

Páginas do PDF

Par Perfeito

Alice

Ouviu-se um suspiro irritado no outro lado do telefone.

 

— Não entendo qual é o objetivo real dessas análises posteriores — resmungou Maurice. — Ou dá certo, ou não dá, e nesse caso… assim como em todos os outros… não deu.

Ele estava começando a parecer furioso.

— De qualquer jeito, mesmo que eu responda às suas perguntas ridículas, você vai continuar me mandando exatamente o mesmo tipo de mulher nos meus próximos encontros; vocês sempre fazem isso. Cadê a sua imaginação? Eu contratei a Mesa Para Dois para conhecer mulheres diferentes… não essa fila tediosa de falsas loiras divorciadas e sem graça.

Alice abriu a boca para falar. Seus clientes normalmente ficavam satisfeitos, então ela não sabia o que fazer quando alguém não ficava; e Maurice, claramente, não estava satisfeito. Todas as garotas já tinham cuidado dele, em algum momento ao longo dos últimos anos, e todas o haviam passado adiante, exasperadas. Seus falatórios já tinham virado lenda no escritório. Até mesmo Audrey, que gostava de um bom confronto, apenas concordara em mantê-lo nos cadastros porque ele era um dos raríssimos clientes do sexo masculino e porque Alice prometera assumir seu caso. Alice não suportava a ideia de que a Mesa Para Dois falhasse com ele. Todos mereciam encontrar o amor… até o Maurice.

— Então — resumiu ela, cuidadosamente —, você está procurando alguém incomum… alguém que não se encaixe nos moldes.

— Até que enfim! — exclamou ele com sarcasmo.

— Alguém com um emprego interessante… com opiniões fortes ou um passatempo pouco comum… Alguém que não se intimide em ter uma boa discussão?

— Bem, isso me faria achar que as taxas exorbitantes que venho pagando nos últimos quatro anos não foram completamente desperdiçadas!

— Sinto muito pelas perguntas, mas acabei de assumir seu caso e quero ter certeza de que entendo perfeitamente que tipo de mulher você gostaria de conhecer.

— Sim, sim, mas já contei a tantas de vocês aí da Mesa Para Dois que me sinto um papagaio. Vocês não podem simplesmente conversar umas com as outras? Comunicar-se?

Não parecia fazer muito sentido explicar-lhe que, se todas as outras haviam se equivocado com relação à sua mulher ideal, então obter instruções delas não era uma boa ideia.

— Não vejo por que a Sra. Cracknell não pode cuidar do meu caso — resmungou Maurice. — Se as funcionárias dela não são capazes de achar um par para mim, então ela deveria fazê-lo.

— Tenho certeza de que ela adoraria — respondeu Alice com delicadeza. — Mas as listas de Audrey estão completas no momento.

— Foi mauriciada, é? — perguntou Hilary, com solidariedade, quando Alice finalmente conseguiu desligar o telefone.

Alice assentiu, cansada. A conversa difícil deixara sua boca completamente seca. Tomou um gole de água e mergulhou a mão no bolso do cardigã para pegar seu bálsamo labial. Estava aconchegado em algo macio e reconfortante: o lenço de John. Alice sentiu uma onda de excitação ao tocá-lo.

Tinha cogitado a possibilidade de ter exagerado um pouco, quando voltara da Dedos Verdes para casa. Ele tinha apenas sugerido um café, não um fim de semana sórdido em Amsterdã. E, provavelmente, ele queria, de fato, conversar sobre épocas ideais para a poda; afinal, não era sempre que se encontrava um colega jardineiro. Além disso, ele era um homem bem casado!

Quanto mais Alice pensava no assunto, mais certeza tinha de que havia errado feio. E o que ele devia ter pensado, então, quando ela saiu correndo daquele jeito? De novo! Ficou com vergonha só de pensar.

Alice sacudiu a cabeça. Precisava se concentrar; tinha que arrumar um par — um bom par — para Maurice. Acomodou-se confortavelmente, olhou pela janela e deixou sua mente devanear…

Quando Alice reemergiu, tinha vários nomes anotados em seu bloco: Felicity Dingle, Abigail Brookes e Rita Harrington.

Felicity era uma taxista espevitada, de cabelos negros como um corvo, cujo trabalho implicava não ter muito tempo livre para conhecer homens. O lado positivo, no entanto, era que ela podia conversar sobre qualquer coisa: de esportes, passando por política, a astronomia. Se ela tivesse as noites livres para se socializar mais, Alice não tinha dúvida de que seria garfada por um pretendente sortudo em menos de uma semana.

Abigail era uma artista cujo estilo desgrenhado Alice sempre admirara. Ela era uma loura falsa, mas sempre deixava cinco centímetros de raízes escuras desafiadoramente à mostra. Era uma loura irônica e cheia de atitude.

E Rita era uma diretora de escola e, anteriormente, fora líder estudantil na universidade. Se Rita não era capaz de tirar qualquer teia de aranha mental com uma discussão intelectual das boas, então ninguém mais poderia fazê-lo. Ela, com certeza, iria fazer Maurice ficar alerta.

Nenhuma delas era divorciada e nenhuma poderia ser classificada como sem graça.

Alice apanhou o telefone para ligar para Maurice, mas algo atraiu sua atenção. Era mais um arranjo floral gigantesco que estava sendo entregue. Agora que Alice sabia quanto John amava seu jardim, a frequência das entregas de flores fazia sentido. No entanto, havia algo, naquela entrega em particular, que não fazia. Em vez de ser a costumeira coleção de rosas e lírios, era um buquê de exóticas aves-do-paraíso. Era selvagem e vibrante, e só podia ter sido escolhido por alguém que realmente conhecesse plantas. Instintivamente, Alice se levantou para admirar o buquê de perto. Estranhamente, ele parecia estar vindo na sua direção. Cada passo dado pelas pernas humanas sob o buquê o trazia mais perto da mesa dela.

— Alice Brown? — perguntaram as pernas.

Alice assentiu, muda.

— São para você.

— Obrigada. — Alice estava estupefata. O buquê foi empurrado para seus braços.

— Caramba! Quem mandou essas flores? — Hilary bateu o telefone com tudo e correu até ela o mais rápido que seu corpo grávido permitia.

Alice percebeu subitamente que Audrey a observava com atenção, do outro lado do escritório. Entorpecida, procurou pelo cartão.

Querida Alice .

De um amante das plantas para outra, com as intenções mais puras. Por favor, reconsidere aquele café.

Não havia assinatura, só um endereço de e-mail.

— Admirador secreto! — exclamou Hilary, excitada, lendo o cartão por cima do ombro de Alice.

Audrey ainda a observava como um falcão. Alice deliberadamente evitou trocar olhares. A entrega era obviamente de John. Mas e se Audrey descobrisse? Ela já era bruxa o bastante sem motivos para ficar brava.

— Você faz ideia de quem são? — inquiriu Hilary.

Alice fez o possível para parecer casual.

— Ninguém especial. É só um amigo fazendo uma brincadeira, só isso.

Ela colocou o buquê no chão ao lado de sua mesa, sentou-se e tentou parecer absorta na papelada. Decepcionadas, as garotas voltaram a suas mesas. O trabalho normal foi retomado e Alice sentiu o peso do olhar de Audrey se desviar dela. Mas, por dentro, seu coração estava aos saltos. John havia lhe mandado flores! Ele não a achava uma idiota por ter fugido dele no centro de jardinagem. Ou por ter assoado o nariz em seu lenço. Ele não ligava que Sheryl a tivesse humilhado, que ela fosse uma casamenteira sem namorado ou que tivesse se esquecido de escovar os dentes antes de ir a Dedos Verdes.

John queria se encontrar com ela!

Obrigou-se a respirar fundo. Precisava pôr de lado todos aqueles pensamentos sobre olhos sorridentes e pele bronzeada. Tinha de ser sensata.

Não era John quem queria tomar um café com ela; era John Cracknell — o marido de Audrey — e isso era uma história completamente diferente. Ou ele era um homem casado a fim de ter um caso tórrido, ou era um homem casado querendo uma amizade inocente com uma colega jardineira, para discutir técnicas de drenagem ou a melhor forma de se livrar dos caramujos. Nenhuma das opções era algo com que se animar.

Alice queria ler o cartão de novo, mas não se atrevia, com medo de que alguém visse. Então, tentou se lembrar das palavras e decifrar seu significado. Ele dissera que suas intenções eram puras, mas será que ela podia acreditar nele? Só havia uma maneira de descobrir.

Embora… como diabos iria explicar para Audrey que estava marcando um encontro com seu marido?

Talvez Audrey já soubesse. Talvez ela e John tivessem rido durante todo o seu almoço de domingo da cena de Alice saindo correndo, aterrorizada pela proposta de um cafezinho. Talvez fosse por isso que Audrey a estivera observando de forma tão estranha quando o buquê chegou.

A cabeça de Alice estava começando a doer. E o tempo estava passando. Ela ainda precisava falar com Maurice sobre suas sugestões de pretendentes. E, depois, havia a ronda de telefonemas de segunda-feira de manhã, para ver como foram os encontros do fim de semana. Não tinha tempo para ficar devaneando.

Alice pegou o telefone novamente e ligou para o número de Maurice. Havia chegado a uma decisão. Era de bom tom agradecer alguém quando te mandavam um presente, então ela escreveria um e-mail rápido para John. Não mencionaria o café, mas tampouco deletaria a assinatura que aparecia automaticamente no final de seus e-mails e que incluía o número de seu celular. Se John ligasse para ela naquele número, não seria culpa sua. Seria tudo muito inocente e claro: de intenções totalmente puras! Além do mais, ela nunca tivera um colega jardineiro e ele poderia ter alguma sugestão para ajudá-la a salvar seus gerânios dos pulgões.

O telefone foi atendido por Maurice, que já parecia mais calmo. Alice abriu a boca e, com confiança, começou a falar sobre os possíveis pares.