Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 19 de 90

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Par Perfeito

Kate

Kate fechou com força a porta da frente de seu apartamento no centro da cidade e desceu correndo as escadas. Detestava se atrasar.

 

Embora tivesse planejado sair do trabalho às 18h, tomar um banho demorado e fazer a maquiagem com calma, houvera um cliente de última hora e ela só pudera sair quase às 19h30. Estava atrasada demais para pegar sua roupa cuidadosamente selecionada na lavanderia, então teria de se satisfazer com uma velha favorita de reserva. Tendo os preparativos fantasiados ido pelo ralo, ela tomou uma chuveirada rápida, polvilhou talco no cabelo e passou seus últimos e valiosos minutos virando o quarto de pernas pro ar à procura de sua calcinha modeladora. Não tinha sido um começo ideal para a noite.

Enquanto avançava na direção do The Privet, tentou não se prender ao fato de que aquele era seu primeiro encontro em quase dois anos. Sebastian era uma reintrodução assustadora ao mundo dos encontros: toda vez que pensava nele, seu estômago se revirava de medo. Quando abrira o e-mail de Alice mal pudera acreditar no que via. Sebastian não era um homem; era um deus! Sua fotografia tinha sido tirada por um profissional e ele estava olhando para a esquerda como se estivesse sendo chamado por um grupo de amigos glamorosos. O ângulo mostrava perfeitamente seu nariz reto, o queixo imaculado e o cabelo escuro e viçoso. Ele parecia ser o tipo de homem que namoraria uma estrela de cinema, e não que fosse perder tempo com uma tamanho 44 qualquer, cabelo cheio de talco e calcinha modeladora.

Ruborizando-se, Kate se lembrou da foto dela que Sebastian tinha recebido. Era uma foto instantânea tirada num pacote de viagem em que fora com Lou, cinco verões atrás. Tinha sido tirada meio de longe e estava um pouco borrada, mas ela a escolhera porque a distância e seu bronzeado a faziam parecer cinco quilos mais magra.

Kate virou apressadamente a última esquina e o The Privet surgiu, intimidante, à sua frente. Agora não havia mais volta. Este podia ser o momento, pensou ela, zonza; o fim de sua existência de solteira e o começo de sua nova vida! Uma vida começando num encontro no The Privet e terminando numa casa de quatro dormitórios, com um marido maravilhoso, dois filhos e um golden retriever!

— Fez reserva? — Uma mulher alta e metida examinou Kate com desconfiança.

Kate pigarreou e tentou falar com firmeza.

— Sim, vim me encontrar com Sebastian Lincoln.

A mulher ergueu uma sobrancelha.

— O Sr. Lincoln? — Ela examinou Kate de forma rápida, mas inconfundível. — Por aqui.

Docilmente, Kate a seguiu conforme ela atravessava a área de jantar e serpenteava habilmente entre as mesas. Kate olhou para os espaços mínimos entre as mesas e seu coração se apertou. Seus quadris eram largos demais para um lugar como aquele; estava fadada a derrubar alguma coisa. Mas a mulher já desaparecia rapidamente e não havia escolha. Então, respirou fundo e foi em frente, espremendo-se toda vez que se aproximava de uma mesa. Percebeu que alguns comensais afastavam a taça de vinho da borda conforme ela chegava perto.

De repente, a metidinha parou.

— Sua mesa, senhora.

A mulher sumiu e Kate se viu diante da realidade em carne e osso de Sebastian Lincoln.

— Katinha. — Sebastian assentiu brevemente para ela, mas não se levantou. Ele estudava a carta de vinhos. Kate fez uma pausa, cogitando se deveria ressaltar o fato de ele ter usado o diminutivo (agressivo demais, estranhou; não é legal). Rapidamente, sentou-se na cadeira vazia e fingiu olhar o cardápio. Tentou controlar a respiração. Sebastian era um modelo de perfeição física.

— Traga-nos o Chateauneuf-du-Pape 68 — ordenou Sebastian a um garçom expectante.

O garçom assentiu e se retirou antes que Kate pudesse pedir qualquer coisa. Ela quis se chutar por ter perdido a oportunidade. Com a caminhada rápida até o restaurante e a secura na boca por causa do nervosismo, ela estava desesperada por um copo d’água.

— A lagosta daqui é divina — sugeriu Sebastian, erguendo os olhos e analisando Kate como se estivesse decidindo se efetuava ou não a compra. Ela corou quando os olhos dele passearam abertamente por seu corpo. — É claro, o cervo também é delicioso, mas sempre achei a carne um pouco… pesada.

Kate ignorou a ênfase na palavra pesada — provavelmente estava sendo paranoica — e tentou sorrir. Seus lábios se esticaram secamente sobre os dentes. — Então, é lagosta! — Sempre quisera experimentar lagosta e, estando no The Privet com o homem mais bonito do mundo, aquela parecia ser uma oportunidade de ouro. Além disso, no cardápio dizia que vinha com batatas fritas.

O garçom reapareceu e serviu o vinho. Kate olhou para o seu com tristeza. Tinto não teria sido sua escolha. Sempre deixava um contorno preto em volta dos lábios, manchando os dentes de cinza e fazendo sua boca parecer podre. Dificilmente levaria a um beijo de fim de encontro (ela se ruborizou à ideia de que poderia estar beijando Sebastian dentro de algumas horas!). Mas não se atrevia a pedir vinho branco agora que ele já tinha pagado por uma garrafa. Teria de simplesmente escapulir para o banheiro feminino depois de cada copo e esfregar os lábios com as unhas.

— Você é muito maior do que na foto — observou Sebastian de repente. — Mais madura, inclusive.

Kate ofegou. Resmungou alguma coisa sobre ser uma foto antiga.

— Sim, esse tipo de coisa parece acontecer muito — discorreu Sebastian. — Todas as mulheres que conheci por meio da Mesa Para Dois são pelo menos cinco anos mais velhas e cinco quilos mais pesadas do que na foto.

As bochechas de Kate arderam como se ela tivesse levado um tapa.

— Todas gostamos de pensar que ainda temos 21 — brincou ela, meio desanimada.

— Humm. — Sebastian conseguiu parecer ao mesmo tempo cético e entediado. Felizmente, ele mudou de assunto. — Então você é a garota da assessoria de comunicação, não é?

— Sim — disse Kate, tomando um gole para estabilizar seus nervos e decidindo ignorar o uso condescendente da palavra “garota”. — Sou diretora de contas na Julian Marquis AC.

Sebastian ergueu a sobrancelha. — Julian Marquis? Julinho e eu nos conhecemos há séculos. Estudamos juntos em Oxford.

Kate gelou.

— Vamos esquiar todos os anos no Natal. Sempre ficamos num lodge fabuloso com uns vinte e poucos amigos de longa data e passamos os feriados por lá. A pista estava perfeita esse ano…

Mas Kate não estava mais ouvindo. Por trás do sorriso engessado, uma mulher agoniada. Esta noite estava rapidamente se transformando num desastre. Primeiro, não podia acreditar que ele tinha mencionado o tamanho dela. Será que era assim tão grande? Sabia que não era magricela, mas seria realmente tão gorda que isso era a primeira coisa que as pessoas notavam a seu respeito? E, depois, seria possível que Sebastian deixasse sua decepção mais óbvia? E, finalmente, para coroar tudo, Sebastian conhecia Julian. Eles poderiam conversar. Ela jamais seria capaz de esconder aquilo se Julian descobrisse que ela contratara uma agência de relacionamentos.

Tomou um grande gole de vinho e, então, seguiu-o com várias taças. Quanto mais Sebastian falava, mais ela bebia. Quando o garçom finalmente trouxe as lagostas — precisamente quando a história de Sebastian chegava ao clímax de como ele havia heroicamente descido a pista mais difícil meramente com seu segundo melhor par de esquis —, ela percebeu que já estava mais do que na hora de ir ao banheiro para limpar o círculo negro de seus lábios.

— Com licença. — Ela rapidamente seguiu para os toaletes, deixando Sebastian com sua história pela metade e sozinho com o crustáceo.

No santuário suavemente iluminado do banheiro feminino, Kate se contemplou no espelho. Como previsto, ela parecia ter comido terra. Seu olhar baixou um pouco e ela analisou tristemente seu vestido. Sabia que tinha feito tudo às pressas, mas por que cargas-d’água tinha decidido usar aquele ali? Não era de admirar que Sebastian estivesse decepcionado. Ela parecia enorme, como um saco de batatas de salto alto. Sentindo-se o cocô do cavalo do bandido, respirou fundo e retornou ao salão.

De volta à mesa, Sebastian atacava sua lagosta com a precisão de um cirurgião esfomeado. Entre suas mãos cintilavam sinistramente utensílios de prata. Kate baixou os olhos para seu prato. Ao lado da lagosta havia um garfo, uma espécie de quebra-nozes e um tipo de forquilha longa de ponta fina. Não havia faca. Ela olhou para a lagosta, e vice-versa. Ainda estava na casca, cheia de olhos, garras e antenas. Com dó no coração, Kate se deu conta de que devia haver uma arte para comer lagostas, alguma forma secreta e chique para romper a casca. Começou a suar.

Mordiscou algumas batatas para ganhar tempo. Olhou disfarçadamente para Sebastian para ver o que ele estava fazendo, mas o que quer que fosse era rápido demais para que seu cérebro processasse.

Enquanto Sebastian quebrava, garfava e mastigava seu jantar, mantinha uma conversa unilateral infindável sobre a situação do mercado financeiro e a importância do trabalho dele. Não parecia necessário nenhum esforço coloquial por parte de Kate, portanto, ela se concentrou em descobrir um jeito de enfrentar seu jantar. Percebeu que os olhos de Sebastian estavam fixos em sua dissecação; ele não estava olhando para ela.

A barra estava limpa.

Agilmente, Kate pegou o quebra-nozes com uma das mãos, levantou a lagosta com a outra e, desajeitadamente, tentou enfiá-la entre os dentes do quebra-nozes. Mas onde trincar? Não na cabeça; era brutal demais. E a barriga era muito grande. Decidiu-se por uma pata. Ela a equilibrou dentro do quebra-nozes, prensou e apertou com o máximo de força que conseguia. Houve um ruído alto e um fragmento de lagosta saiu voando de seu prato, indo parar no carpete embaixo da mesa vizinha. Kate prendeu a respiração e olhou para Sebastian. Ele estava ocupado recalculando quanto dinheiro havia ganhado naquele dia e, misericordiosamente, não estava prestando atenção. Aliviada, Kate pegou sua forquilha, na esperança de espetar um pedaço de carne. Mas a fratura tinha salpicado sua lagosta com estilhaços de casca. Com cuidado, espetou um pedaço pequeno, levou à boca e mastigou. Era como comer uma alfineteira com gosto de peixe. Um dos fragmentos estalou ruidosamente entre seus dentes. Constrangida — não podia cuspi-lo, não no The Privet — tomou um golão de vinho e engoliu, sentindo a casca descer arranhando por sua garganta. Tentou desesperadamente cobrir a comida arruinada com as batatas.

— Madame não gostou da lagosta? — perguntou o garçom ao retirar os pratos. Kate se ruborizou.

— Estava deliciosa. Só que já estou… satisfeita. — Tocou rapidamente em seu estômago, esperando que ele não a entregasse, roncando naquele exato momento.

— Vocês gostariam de ver o cardápio de sobremesas?

Kate se endireitou na cadeira em expectativa. As sobremesas do The Privet eram lendárias. Sempre quisera experimentar o famoso bolo “Morte por Chocolate”, servido com sorvete de figo caramelizado. Mas Sebastian dispensou o garçom.

O coração de Kate murchou. A noite tinha sido um completo desastre. Pegou sua taça de vinho e a terminou. Que se danem as manchas pretas, pensou com descuido. As chances de Sebastian querer um beijo de boa noite eram zero.

Finalmente, chegou a conta. Graças a Deus pela convenção antiquada, pensou Kate, quando o garçom a entregou a Sebastian. De jeito nenhum ela iria pagar oitenta libras por quatro batatas fritas. Sebastian jogou, todo exibido, um cartão de crédito platinum sobre a mesa. E não deixou gorjeta.

Momentos depois, eles estavam no ar frio lá fora.

— Bem, foi muito… interessante… vê-la em carne e osso — disse Sebastian rigidamente. A palavra “carne” ficou no ar entre eles. Kate estremeceu. Lá se ia seu beijo de boa noite. Um táxi surgiu magicamente ao lado deles.

— Telefonarei para a Mesa Para Dois com meu feedback — murmurou ele ao entrar apressadamente no carro. — Seu sobrenome não é Biggs? — perguntou, da segurança do banco de trás. Kate o ouviu enfatizar o Biggs. Assentiu, quase em depressão.

Sebastian sorriu, como se confirmando algo para si mesmo. — Pode ir — instruiu o motorista. E numa nuvem de fumaça do escapamento, ele foi embora e Kate ficou sozinha na calçada.