Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 25 de 90

Páginas do PDF

Par Perfeito

Audrey

— Hayley? — repetiu Audrey com incredulidade. — A enfermeira veterinária? A do dedo esquisito?

No outro lado da mesa de Audrey, Bianca mudou de um pé para o outro e assentiu com nervosismo.

— O que é que te faz pensar que eles seriam um bom par?

Bianca olhou rapidamente pela divisória de vidro, na direção do escritório, como se em busca de uma resposta.

— Instinto — respondeu. — Simplesmente sei que eles darão um par perfeito.

— Bem — disse Audrey, surpresa, enquanto tirava os óculos. — Um par perfeito? Bianca, devo dizer, você me surpreende. Você obviamente pode ver algo que o resto de nós não vê. Mas o que uma mulher como Hayley pode oferecer a um homem como Max Higgert?

Bianca vacilou por um momento, como se tentando se lembrar de algo.

— Suavidade. Max trabalha duro o dia inteiro, lidando com clientes e com a peãozada. Todos exigem alguma coisa dele. Mas quando ele chega em casa à noite quer alguém diferente. Alguém gentil e atencioso. Alguém que não seja exigente.

Audrey bufou.

— Hayley é muito atenciosa — acrescentou Bianca rapidamente. — Ela cuida de animais doentes!

Audrey olhou para ela com ceticismo.

— Mas ela é uma reles enfermeira veterinária. Max é um profissional de alto gabarito. Não, simplesmente não consigo ver como isso poderia funcionar. Sinto muito, Bianca, mas você está indo pelo caminho errado.

— Mas talvez possa funcionar exatamente por isso. Se Max quisesse uma profissional de alto gabarito, já não teria arrumado? Ele deve conhecer dúzias todos os dias! Talvez ele queira o oposto.

— O quê, uma profissional do baixo escalão? — zombou Audrey. — Bem, Hayley é certamente adequada, então!

Bianca olhou na direção do escritório. Com sua visão periférica, Audrey notou Alice sorrindo feito uma maluca.

— Por favor, Audrey. Estou com um feeling muito bom nesse caso. Se estiver errada, estou errada. Mas Max parece um cara legal; não acho que ele nos culparia por um erro.

Audrey olhou para ela com olhos penetrantes.

— Me culparia — consertou Bianca, penitente.

Audrey deu um suspiro profundo.

— Bem, está certo — cedeu. — Mas só porque é você. Vou ligar para ele num minuto.

— Obrigada, Audrey! — Bianca soltou um sorriso de gratidão.

— De nada. Agora, volte a seu trabalho, por favor. Tenho coisas a fazer. Ah, e mande Alice vir aqui. — Ela a dispensou com um aceno monárquico. Não viu o gesto clandestino de assentimento que Bianca deu a Alice enquanto fechava a porta.

Hayley Clarke! Bem, ou Bianca era um gênio dos relacionamentos ou estava perdendo o juízo. Mas se a garota queria tanto assim promover aquele encontro, não seria ela a ficar no caminho. Além disso, já estava ficando sem mulheres com quem unir Max.

Houve um toque tímido à porta e Alice entrou, sorrateira como um camundongo e vestindo o conjunto de tricô descolorido do dia. Ela olhou para Audrey, toda expectativa.

— Então. — Audrey alisou o cabelo enquanto retomava os pensamentos. — Como você sem dúvida já sabe, o baile anual da Associação das Agências de Relacionamentos será na quinta-feira.

Alice sorriu e assentiu com a cabeça.

— Você comprou um vestido novo, não comprou? — perguntou Audrey incisivamente.

— Ah, sim; é lindo!

— E é novo? Não me apareça com roupa de brechó!

Alice pareceu confusa.

— Comprei-o numa butique nova na King Street. Aquela que Lucy Lucinda abriu.

— Maravilha — disse Audrey com um tom inegável de alívio. Ela remexeu seus papéis com atenção. — Agora, eu só queria repassar algumas coisas que você deve e não deve fazer nesta ocasião. Obviamente, chegarei com John, então me encontrarei com você lá dentro. Você sabe que é no Town and Country Golf Club, não sabe? Devo insistir para que você vá de táxi até lá.

— Oh, Audrey, é muita gentileza, mas totalmente desnecessário.

— É muito necessário. Eu insisto.

— Bem, muito obrigada entã…

Audrey levantou a mão para silenciá-la. Não estava sendo benevolente. Não queria que Alice a humilhasse chegando de bicicleta.

— Apenas se lembre de guardar o recibo. E se quiser dar gorjeta para o motorista, faça-o com seu próprio dinheiro. Não sou uma instituição de caridade.

Alice assentiu avidamente.

Audrey prosseguiu. — Então, você irá se sentar na mesa principal comigo e com John, com o Presidente Ernie e sua esposa Patricia, com Barry Chambers da Um Lindo Romance e sua esposa Eileen, e a Srta. Toogood da Pombinhos e seu parceiro, Brad. Você não acha que deveria estar anotando tudo isso? Não quero que você me envergonhe se esquecendo do nome do cônjuge de alguém.

Alice vasculhou nos bolsos de seu suéter e sacou um caderno cheio de orelhas, uma esferográfica e escreveu com empenho.

— Ah, e aquele garoto novo da Pombinhos estará lá também, para completar os pares. Não me lembro do nome dele. Matos? Algo assim.

— Matteus?

— Sim, sim. E não quero você se derretendo toda pra cima dele. Vi a reação que ele provocou na reunião da semana passada. Desagradabilíssimo. Nunca vi tamanha exposição de hormônios.

Alice riu.

— Não se preocupe; ele não é meu tipo.

Audrey olhou para Alice. Até mesmo ela notara como Matteus era bonito. Um pouco pegajoso, e bem exagerado com a loção pós-barba, mas definitivamente o tipo que algumas mulheres pareciam apreciar. Alice, por outro lado, era totalmente sem sal, o tipo de garota que se mimetizaria numa parede bege. — Não, imagino que não seja mesmo — disse secamente.

— Não se discutirá sobre clientes — continuou, de forma autoritária. — Lembre-se… não existe isso de amizade entre agências. Todo mundo deve ser tratado com desconfiança.

Alice assentiu.

— Preciso te lembrar da cláusula de confidencialidade no seu contrato? Em boca fechada não entra mosca, mocinha.

Alice piscou e assentiu novamente.

— Com isso em mente, é bom que você se modere com a bebida. Eu ficaria muito aborrecida de vê-la bêbada. Sugiro uma de água para cada uma de álcool. Você sabe como é isso?

Alice assentiu.

— Quer dizer um copo de água para cada copo de bebida alcoólica consumida — prosseguiu Audrey. — Assim, você permanece no controle de suas faculdades e nós permanecemos no controle de nossa lista de clientes.

Audrey notou que Alice olhava para ela de forma peculiar. — Mais alguma coisa? — perguntou Alice.

Audrey remexeu em seus óculos e tentou pensar em algo.

— Não, isso é tudo.

Audrey franziu a testa ao ver Alice voltar lentamente à sua cadeira e retomar a ação de olhar pela janela. Não conseguia lembrar por que cargas-d’água a havia convidado para o baile; aliás, nem por que deixara Hilary convencê-la a contratá-la, para começo de conversa. Tinha sido a última vez que aceitara um conselho de Hilary e, depois disso, nunca mais se arriscara a sair de férias. Um grande erro, aquela quinzena em Norfolk Broads, quando deixara Hilary no controle da agência. Tinha chovido todos os dias e, na volta ao escritório, encontrara Alice operando os telefones. Hilary usara um argumento tão convincente para mantê-la — alguma coisa sobre os números terem subido e os clientes estarem felizes — que ela acabara concordando. Fora a única vez que Alice veio trabalhar bem-arrumada. No momento em que se estabelecera no escritório, seu ferro a vapor misteriosamente desaparecera. Audrey não tinha muita certeza se clientes felizes valiam a pena de tolerar aquilo. Observou com tristeza pela divisória de vidro enquanto Alice, distraidamente, tirava uma caneta esferográfica do cabelo. Esperava do fundo do coração que Alice houvesse marcado uma ida pré-baile ao cabeleireiro. Devagar, Alice começou a usar a extremidade da caneta, toda mastigada para coçar a nuca.

Audrey virou o rosto. Não podia mais suportar ver aquilo.