Par Perfeito
Alice
Alice estava tendo dificuldade para se concentrar na papelada. Por mais que se esforçasse, sua mente não parava de divagar.
Amava cinquenta por cento do seu trabalho. Quando se tratava de entrevistar novos clientes e descobrir seus sonhos, ela se sentia nas nuvens. Cada cliente dava a sensação de uma nova aventura, uma travessia na qual ela era a capitã do navio. Era sua missão conduzi-los através das águas agitadas dos encontros até a tranquilidade de um paraíso tropical onde seu par perfeito estaria esperando, provavelmente de sarongue e tomando sol estendido numa pedra. Sempre que arrumava um cliente novo, Alice chegava mais cedo no trabalho na manhã seguinte e esquadrinhava seus arquivos para lhe encontrar um par romântico. Ela se perdia por horas, avaliando cada parceiro em potencial, imaginando suas conversas e mastigando a ponta da caneta enquanto pensava em todas as parcerias possíveis.
Alice também adorava fazer os telefonemas de acompanhamento pósencontro e dar conselhos para que tivessem paciência. Tudo se resumia a manter os clientes otimistas. Pessoas otimistas são pessoas atraentes; assim, ela via como sua obrigação manter o moral de todo mundo em alta. Telefonava frequentemente para seus clientes e se encontrava com eles para um café sem compromisso, caso o moral estivesse caindo. Quando eles se decepcionavam com um começo claudicante, ela também se decepcionava. Afinal, a parceria tinha nascido em sua imaginação. Criar pares bem-sucedidos era o que povoava seus sonhos à noite. E o perfume de romance era o que tornava seus dias mágicos.
Porém, Alice detestava a parte burocrática do trabalho. Nunca fora muito boa em trabalhos braçais. Durante toda a sua vida as pessoas a haviam chamado de sonhadora. Alice concordava. As coisas eram muito mais excitantes quando coloridas por um pouco de fantasia. Era a vida real, só que melhorada com photoshop.
Mas hoje era terça-feira, dia de trabalho burocrático na Mesa Para Dois. Todos estavam a postos em suas mesas, caras coladas nos monitores. Era o único momento em que o escritório ficava em silêncio. Nem Audrey se salvava das terças-feiras de papelório. Alice podia vê-la em seu aquário, franzindo a testa diante do computador.
Alice olhou desinteressadamente para os números no seu monitor, querendo que fizessem sentido. Não adiantou. Por mais que tentasse se concentrar em números, não podia evitar imaginar o rosto de um homem. Não qualquer homem. O homem. O perfeito para ela. Ainda não o conhecera, mas ele estava lá fora em algum lugar, disso ela tinha certeza. Era indispensável acreditar nisso, pelo menos no meu ramo, ponderou. Era preciso acreditar em Príncipes Encantados.
O Príncipe Encantado de Alice vivia surgindo em sua mente. Já o havia conhecido mil vezes: às vezes no supermercado, às vezes na piscina, na biblioteca, no ponto de ônibus, no bar. Outras mulheres queriam um Príncipe Encantado com músculos bombados, contas bancárias gordas e um closet abarrotado de roupas da moda. Mas o Príncipe Encantado de Alice provavelmente estaria angariando dinheiro para a caridade, não para engordar sua própria carteira. Hoje, seu Príncipe Encantado era um florista, entregando flores para mulheres pela cidade inteira. Alice imaginou as mulheres suspirando ao aceitar seus buquês, decepcionando-se ao descobrir que vinham do marido e não do Príncipe Encantado. Ele quase atropelaria Alice com sua van de entregas e viria correndo ver se ela estava bem. Ela estaria bem, apenas atraentemente corada e ligeiramente trêmula. Ele não iria nem cogitar a hipótese de Alice ir de bicicleta para casa, já que ela poderia estar em choque. Ele carregaria a bicicleta entre as tulipas e azaleias na traseira da van e lhe daria uma carona até em casa. Como ele teria uma memória perfeita e a misteriosa habilidade de adivinhar qual era a flor favorita dela, no dia seguinte ela encontraria um buquê enorme de gérberas multicoloridas em sua porta e um bilhete convidando-a para jantar.
Alice suspirou. Este era o problema com aquele trabalho. Você era paga para pensar em pares ideais o dia todo, então como poderia não pensar em seu próprio encontro perfeito? Era como colocar um alcoólatra atrás do balcão de um bar, dizendo-lhe para não beber. Alice se perguntou se seria uma viciada em romance? Será que existia gente assim?
Desistiu do trabalho administrativo.
— Alguém quer café? — rompeu o silêncio.
— Exatamente o que viria a calhar! — exclamou Hilary, aliviada pela distração. — Quer ajuda? — Ela começou a se levantar da cadeira.
— Não, pode ficar aí quietinha onde está — disse Alice com um sorriso. Hilary sorriu com gratidão, por cima de sua barriga grávida.
— Bianca? — perguntou Alice.
— Por favor — murmurou Bianca sem tirar os olhos do monitor. Alice olhou o topo da cabeça de Bianca. O sol de janeiro se refletia nas mechas bem alinhadas de reflexos caramelo, fazendo seu cabelo parecer fios de ouro. Bianca sempre parecia alinhada e elegante, de um jeito que Alice jamais conseguiria ser. Mesmo que se desse ao trabalho de passar uma camisa para ir trabalhar, uma hora depois Alice já pareceria ter dormido com a roupa.
— Você foi arrastada de costas numa cerca viva hoje cedo? — perguntara Audrey uma vez, em voz alta, do outro lado do escritório. — E depois de frente?
Bianca, por outro lado, parecia acordar completa e sutilmente maquiada todas as manhãs, saída do travesseiro pronta para uma sessão de fotos. Com seu cabelo sempre limpo e unhas ovais peroladas, ela era o tipo de mulher que, só de olhar, fazia você sentir como se estivesse, de certa forma, traindo sua feminilidade.
— Alguém falou em cappuccino? — trinou Cassandra ruidosamente. — Quero o meu extra desnatado.
— Eu não ia…
— E um daqueles cookies grandes. Que se dane a dieta.
— Hã… tá.
Cappuccinos significavam uma ida até a cafeteria virando a esquina. Alice não tinha pensado em sair do trabalho — um Nescafé de cortesia do escritório teria bastado. Mas pelo menos uma saída significaria dez minutos longe da papelada.
Ela vestiu o casaco. No capacho, a correspondência jazia ignorada. Alice apanhou os envelopes e prendeu a respiração. Havia dois envelopes escritos à mão. Sentiu um arrepio de excitação. Cautelosamente, abriu a porta da sala de Audrey.
— Café? — Sua respiração estava irregular, enquanto colocava a carta endereçada a Audrey atenciosamente sobre sua mesa. — Vou dar um pulinho na cafeteria…
Audrey resmungou, mas não ergueu os olhos. Alice se demorou, cheia de expectativa. Tinha colocado o envelope escrito à mão irresistivelmente perto da linha de visão de Audrey. O envelope era grosso e de cor creme, e estava endereçado em caligrafia dourada e espiralada. Alice também havia recebido um, e já fazia uma ideia do que poderia ser. Fez uma pausa, telepaticamente insistindo para que Audrey o visse. Os olhos de Audrey estavam fixos no monitor.
— Parece que você recebeu um convite para alguma coisa — insinuou Alice. — É um envelope escrito à mão… em caligrafia dourada.
Todo mundo que trabalhava na Mesa Para Dois tinha um “radar de casamento” superdesenvolvido, e letras douradas só podiam significar uma coisa… núpcias! Casamentos eram o santo graal da agência de relacionamentos. Promover uma união que terminasse em casamento era a galinha dos ovos de ouro nesse negócio. Era o que todos os funcionários — e todos os clientes, obviamente — mais queriam. Um tipo de acontecimento que os fazia mandar os folhetos da agência ao designer para uma repaginada; e era o que levava Audrey a encarar a despesa e publicar um anúncio no jornal local — não apenas para angariar novos clientes, mas também para mostrar superioridade às agências rivais. Na época atual, onde só se viam casos de uma noite só, relacionamentos virtuais e sexo por mensagens de texto, um casamento era praticamente um milagre.
Audrey ergueu rapidamente a cabeça e olhou de forma penetrante para ela. Alice quase podia ver as palavras “caligrafia dourada” adquirindo sentido em sua mente.
— Sim, bem, agora vá. — Ela a dispensou.
Alice voltou depressa para sua mesa, ainda de casaco, e rasgou seu próprio envelope caligrafado, enquanto, ao mesmo tempo, tentava espiar Audrey pela divisória de vidro. Seu coração estava acelerado e ela arrancou o cartão de dentro do envelope. Seus olhos dançaram pelas palavras com pressa, tentando absorvê-las antes que Audrey tivesse tempo de fazê-lo… “Sr. & Sra. Derek Whitworth”… “têm o prazer de convidar”… “casamento”… Sim, casamento!
Os olhos de Alice voaram até a sala de Audrey. Podia ver o olhar de Audrey percorrendo o mesmo cartão, sua mão se erguendo até o peito em excitação conforme lia.
“… de Jason Christopher Lee & Jennifer Lesley Whitworth.”
Jason e Jennifer! Eram um dos seus! Alice gritou de alegria. Que fantástico! Eles eram um ótimo casal. Ela os havia juntado pessoalmente, e agora eles iam se casar! Fora ela quem conseguira aquilo! Conseguira um casamento!
De repente, Audrey saiu feito um tiro de sua sala, sacudindo o convite.
— Senhoras — declarou alto, com um tremor na voz e um rubor no pescoço. — Temos um casamento da Mesa Para Dois!
O escritório explodiu em gritinhos. Cassandra e Bianca se abraçaram com empolgação. Hilary, encaixada em sua cadeira, assoviou ruidosamente. Audrey continuou sacudindo o convite enquanto declarava, triunfante: “Um casamento! Um casamento!” Só Alice ficou em silêncio. Ela olhava fixamente para seu próprio convite, relendo-o para garantir que fosse verdade.
Estava lá, em creme e dourado. Ela conseguira. Outra de suas uniões havia chegado até o altar! Jennifer fora sua cliente por alguns meses e, assim que Jason entrara nos cadastros, Alice soubera que seriam perfeitos um para o outro. E agora eles iriam se casar! Seus olhos lacrimejaram de felicidade. Olhou para suas colegas que comemoravam com um sorriso radiante.
— Claro, eu sempre soube que Jason e Jennifer eram pra valer — disse Audrey ao afundar-se na cadeira mais próxima e se abanar com seu convite.
Bianca estava vasculhando a geladeira do escritório à procura de uma garrafa de espumante, guardada ali para ocasiões especiais.
— Eu soube, no minuto em que os juntei. A Audrey aqui disse a eles: “Escreva o que estou dizendo, tenho o par perfeito para vocês.” Uma casamenteira sempre tem um sexto sentido para essas coisas.
O sorriso de Alice congelou. A excitação se esvaiu de seu corpo e formou um nó na boca do estômago. Tinha sido uma união feita por ela, ideia dela. Fora ela quem dera os telefonemas e organizara os encontros… não Audrey!
Mas Audrey seguia em frente, feito um trator.
— Este é meu vigésimo casamento na Mesa Para Dois, senhoras. Vamos logo com esse champanhe, Bianca! Este deve ser seu objetivo quando você trabalha unindo casais. Não se trata de encontrar parceiros. Trata-se de encontrar maridos e esposas. Fazer um casamento é o crème de la crème. Este deve ser seu objetivo: o crème!
Alice aceitou uma taça de espumante, entorpecida. Sentiu-se enjoada. Audrey sabia que tinha sido uma união feita por ela.
— É claro, meninas, que eu não deveria ficar surpresa por essas núpcias — continuou Audrey sem qualquer modéstia. — Afinal, quando abri a Mesa Para Dois, das primeiras cinco uniões que fiz, todas chegaram ao altar!
— E nenhuma outra, desde então — murmurou Hilary obscuramente, alto o bastante somente para os ouvidos de Alice. Ela lhe deu um sorriso desanimado de gratidão. Pelo menos Hilary não fora enganada pelos desavergonhados autoconfetes de Audrey. Ademais, ela e Hilary sempre compartilhavam um sorrisinho secreto quando Audrey as regalava com essa história — algo que acontecia pelo menos duas vezes por semana. Era a primeira coisa com que os visitantes do website eram bombardeados, e estava estampado triunfantemente na página de rosto do prospecto da agência. A história das proezas de Audrey como casamenteira havia se transformado em uma tal lenda na Mesa Para Dois que Audrey certamente iria querer que fosse inscrita em sua lápide.
— Aos casamentos! — Hilary gritou um brinde, sua ironia despercebida pela maioria da sala.
— Ao meu faro para uniões perfeitas! — gorjeou Audrey, triunfante. — Nunca me falha!
Bianca e Cassandra gritaram.
Alice tomou um gole mínimo de sua bebida. Ela sabia a verdade. Bem como Jennifer e Jason.
Todas estavam ocupadas demais comemorando para ouvir o telefone tocar, o som enterrado sob as conversas histéricas. Alice atendeu.
— Bom-dia, Mesa Para Dois — disse, de forma vazia.
— É Alice quem está falando? — perguntou uma voz nervosa.
— É ela.
— Graças a Deus! Sou eu, Kate, Kate Biggs… Da noite passada…?
— Ah, oi, Kate. — Alice encolheu os ombros para tirar o casaco e pôs seu convite de casamento de lado. — Como vai? O que posso fazer por você?
— Vou seguir adiante com isso. Gostaria de me inscrever, por favor!
— Que notícia fantástica! — disse Alice com o máximo de incentivo que podia expressar. — Muito bem! Você não vai se arrepender, prometo.
Audrey podia ficar com todo o crédito, pensou Alice consigo mesma. Ela sabia a verdade. E era disto que se tratava aquele trabalho: de pessoas como Kate Biggs e seus sonhos. E Alice ia dar tudo de si para fazer aqueles sonhos se tornarem realidade. Deu as costas para os ruídos triunfantes de Audrey e se concentrou no telefonema.