Par Perfeito
Audrey
Audrey pendurou cuidadosamente suas roupas trazidas da lavanderia no cabideiro e fechou a porta de casa. Suspirou. Tinha sido um dia terrível. Hilary tivera a falta de consideração de marcar uma consulta com a parteira no meio da manhã, então não apenas sobrara para Audrey cuidar do website, com a subsequente dor de cabeça que aquilo acarretava, mas também vira seu azar complementado por ter atendido o telefone só para descobrir que era Maurice Lazenby no outro lado da linha. Nas palavras de Cassandra, ela tinha sido verdadeiramente mauriciada; durante quarenta longos minutos, viu-se obrigada a suportar suas mais recentes histórias de tragédias amorosas. A única parte boa do dia fora sua conversa com Max Higgert, que ficara surpreendentemente entusiasmado com a possibilidade de um encontro com Hayley, a enfermeira veterinária. Audrey ainda tinha suas dúvidas com relação àquele par. Só esperava que Hayley tivesse o bom-senso de manter a mão no colo. Só Deus podia saber o que Max pensaria se vislumbrasse aquele dedo defeituoso.
Mas esta não era uma noite para lutar com a vida amorosa de seus clientes. Havia muita coisa a fazer. O baile anual da Associação das Agências de Relacionamentos seria dentro de 24 horas!
Audrey alisou minuciosamente a capa plástica em volta de seu vestido de baile. O vestido era um longo azul-petróleo, entalhado com generosidade e seu amigo fiel há muitos anos. Mangas na altura do cotovelo e um decote comportado ocultavam as áreas problemáticas dos braços robustos e do colo enrugado. Audrey ainda tinha de passar sua estola bege, mas já confirmara o horário para arrumar o cabelo no dia seguinte, na hora do almoço, e já havia escovado seus melhores sapatos de camurça no fim de semana anterior.
Ainda de casaco, apanhou o telefone.
— Alô, Geraldine? Aqui é Audrey Cracknell. Só estou confirmando se está tudo em ordem com John Marlowe amanhã à noite… Preciso dele às 19h30 em ponto. Sim, eu sei que já te disse isso… Sim, provavelmente duas vezes.
O olhar de Audrey se desviou até seu reflexo, no espelho acima da mesinha do telefone, e ela domou a rebelde mecha alaranjada. Seus cabelos nunca tiveram forma nem textura. Anos atrás, alguém havia cruelmente observado sua semelhança capilar com Donald Trump. Aquilo ainda doía.
— Viu, é um evento de gala — continuou ela ao telefone —, e eu gostaria que John usasse a faixa azul-cele… Oh, também já tinha dito isso? Bem, excelente. Melhor prevenir do que remediar… Certo, bem, adeus.
Audrey foi até a cozinha, com o casaco inflando às suas costas e Pickles miando em seus calcanhares. Amanhã será um dia perfeito, pensou. Seu amplo peito já estava trepidante com a ideia de abrir a porta e ver John na varanda, já se inclinando para beijar sua mão em cumprimento. Ele era um homem belíssimo. Um cavalheiro belíssimo, corrigiu-se ao tirar uma refeição individual pronta do congelador. Não sabia como teria suportado tantos bailes da Associação das Agências de Relacionamentos se não fosse por ele. Ele representava seu papel à perfeição, indo buscar bebidas para as outras damas, trocando piadas com os homens e assentindo em lembranças compartilhadas de suas férias recentes, ficticiamente criadas por Audrey para o grupo. Depois dos primeiros anos ela nem mesmo precisava pedir a ele para usar uma aliança de casamento.
Audrey pegou um garfo, furou a embalagem de celofane que cobria sua refeição pronta e a enfiou no micro-ondas.
Sim, ela e John formavam um casal tão natural que não podia conceber nenhum motivo para que eles, de fato, não estivessem juntos. Ele a havia acompanhado a todos os compromissos desde que ela abrira seu próprio negócio. Não seria bom que se espalhasse a notícia de que alguém que ganhava a vida terminando com a solteirice das pessoas fosse, ela mesma, solteira. Então, ela tomara o assunto em suas próprias mãos e — após obter confirmação por escrito de Geraldine de que John não aceitaria eventos com nenhuma outra profissional casamenteira, para garantir a discrição quanto à verdadeira natureza de seu relacionamento — pediu um cavalheiro para acompanhá-la naquela noite. Como poderia saber que todos iriam pensar que eram casados? E por que não deveria deixar que pensassem? Afinal, eles é que tinham tirado conclusões precipitadas. Ela não havia mentido, de fato.
Assim, ao longo dos anos, eles haviam, pelo menos para o mundo exterior, se tornado o casal Audrey e John; Audrey e John Cracknell. Era uma falsidade tão fácil de assumir e, com o tempo, ela passara a pensar em John como seu. Bem, ele era mesmo, de certa forma. E ela tinha certeza de que ele também queria isso, a despeito de sua insistência antiquada em ficar firmemente dentro do carro quando a deixava em casa no final de suas noites. Mas ele também devia sentir o coração acelerado e a respiração ofegante toda vez que se despediam.
O micro-ondas apitou alto. Audrey despejou sua refeição num prato, pôs uma faca, um garfo e um cálice pequeno de xerez numa bandeja e a levou para a sala de estar. Estava tão excitada que não tinha certeza se conseguiria comer. Mas tentaria com empenho e se premiaria com um pouquinho de Morse antes de passar sua estola e mergulhar os pés no foot spa. Depois, pintaria as unhas. Nada muito chamativo. Só um discreto perolado. John iria gostar.