Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 77 de 90

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Par Perfeito

Audrey

Estava escurecendo quando vislumbrou o carro de John. Audrey tinha vagado durante duas horas pelas ruas que margeavam o parque e já estava quase desistindo. Estava exausta. Já passara muito tempo desde que fugira da reunião da Associação das Agências de Relacionamentos, muito tempo desde que se sentara pela última vez e seus pés a estavam matando. Quase oito da noite, tinha notado a dor aguda no calcanhar e descoberto que seus sapatos novos de camurça lhe haviam feito uma bizarra bolha de sangue, que estourara em sua meia-calça. Fora capengando até uma lojinha de esquina para comprar uma caixa de curativos, se apoiara instavelmente numa placa de rua e colara três por cima da meia-calça. Franziu a testa. A parte de trás de seu sapato direito já estava da cor marrom-enferrujada de sangue. Sangue já era uma tristeza para remover, imagine da camurça. Provavelmente, aqueles sapatos já estavam perdidos.

 

Quando se endireitou, ela o viu, de repente: o carro de John, tranquilamente estacionado na entrada de uma casa grande, bonita, com um jardim exuberante. O coração de Audrey falhou.

Ela atravessou a rua depressa, direto na direção do carro, espiando pelas janelas para ver se reconhecia alguma coisa. Tentou não embaçar o vidro com sua respiração excitada. Só podia ser o carro dele! Tinha o mesmo interior de couro bege, o mesmo painel descomplicado, as mesmas letras “ACJ” na placa, que serviam como prova divina de que ela e ele estavam destinados a ficar juntos. Audrey sentiu uma pontada ao se imaginar no banco do passageiro, John dirigindo habilidosamente para o último evento da ADAR, ambos animados com a noite à frente. Esse era o carro, pensou triunfantemente. Ela estava ali! Havia encontrado a casa de John! Havia encontrado John!

Sem pensar, correu até a porta da frente e bateu. “É agora!”, pensou ao ouvir um cachorro latindo lá dentro e passos vindo na sua direção. Esse era o momento da verdade: o momento em que contava a John que eles não tinham mais nada a esconder e que eram livres para se amar como bem quisessem.

A porta se abriu.

Uma jovem, ruiva e bonita, estava parada diante dela.

— Você! — O sorriso de Audrey congelou.

Era a mulher que tinha ido à agência: a que entrara lá e exigira ver Alice. Mas que diabo ela estava fazendo ali, na casa de John?

— Onde ele está? Cadê o John?

— Saiu — respondeu a ruiva sumariamente, examinando Audrey de cima a baixo. Audrey teve uma súbita visão de si mesma, descabelada e com a meia-calça ensanguentada. Estufou o peito em oposição à figura bem arrumada e de pele perfeita.

Mas se aquele era o lugar certo, então quem era ela? Por que tinha ido à agência? E por que estava ali agora?

— Quem é você? — inquiriu ela.

A mulher deu um sorriso afetado.

— A filha de John.

O queixo de Audrey caiu.

— Não sabia que John tinha uma filha!

— Pois é, imagino que existam muitas coisas que você não saiba sobre ele.

Audrey ficou desconcertada. O que deveria dizer àquela mulher, àquela filha… àquela futura enteada?

— Jesus! Você está perseguindo meu pai, não está? — Emily riu, de repente. — Você está, de fato, perseguindo ele!

Audrey sentiu seu pescoço se ruborizar.

— Não estou perseguindo ninguém! Que ideia mais ridícula!

— Então o que é que você está fazendo aqui? Clientes, supostamente, não devem vir à casa dele.

— Eu não sou uma cliente! — irritou-se Audrey. — Eu sou… Seu pai e eu somos…

— … nada! — completou a filha severamente. — Você é um contato de negócios, só isso.

As palavras dela atingiram Audrey. Como ela se atrevia? Que audácia! Empertigou os ombros; estava na hora de mostrar quem mandava.

— Olha aqui, jovenzinha. Eu estou com pressa. É de importância vital que eu fale com John, sem demora. Me diga onde ele está. Ele ficará muito aborrecido com a sua obstrução.

— Duvido muito!

Audrey quase gritou de frustração. Como essa filha não conseguia ver a importância da situação? Ela queria estender a mão e sacudi-la, para que entendesse.

— Isso é urgente. Crítico! Preciso falar com ele agora. Tudo depende disso. — Não podia acreditar que tinha chegado tão longe, à porta da casa de John, para continuar recebendo recusas. — Preciso vê-lo. Preciso!

Mas a filha não se moveu. Apenas ficou parada na soleira da porta com os braços cruzados. No entanto, algo havia mudado na forma como ela a olhava. Parecia estar sopesando alguma coisa.

— Está bem — disse ela, de repente. — Isso já foi longe demais. Alguém tem que tirar você desse sofrimento e pode muito bem ser eu. Ele está no Beckwith’s.

— O restaurante?

— O próprio.

Audrey voltou correndo pelo calçamento do jardim. Ao pisar novamente na calçada, lembrou-se da filha. Era provavelmente melhor se entender com Emily; elas iriam se ver cada vez mais no futuro.

— Obrigada, minha jovem — gritou ela.

Mas a porta da frente já estava fechada.

Audrey ignorou seu calcanhar dolorido e foi mancando de volta ao centro da cidade, a mente a mil por hora. Depois do horror da reunião da ADAR, não só recebera a bomba dupla de John ter parado de trabalhar como acompanhante e ter uma filha, mas tinha acabado de descobrir que ele estava jantando no restaurante mais romântico da cidade. Mas por que ele iria fazer isso, se não estava com uma cliente? E por que ele não tinha ido visitá-la, agora que estava livre?

Um ônibus passou zunindo, mas ela não fez qualquer tentativa para tomá-lo. Já havia chegado até ali a poder de pernas e sapatos, então iria até o fim.

Estava perto das luzes brilhantes do centro, agora, só a algumas ruas do Beckwith’s. Tentou desacelerar para que suas bochechas pudessem voltar à cor normal, mas seus pés não permitiram. Ela sentia a gravidade de John atraindo-a. Era como se ele fosse seu ímã gêmeo e ela não tivesse forças para combater tal atração. Tinha esperado tantos anos por isso; como poderia protelar mais um minuto que fosse?

E, então, viu-se subindo os degraus de entrada do Beckwith’s. A área de recepção estava iluminada e cheia, mas Audrey nem notou. Não viu a recepcionista se aproximar para perguntar se ela havia feito uma reserva. Só viu a arcada que conduzia ao salão de jantar e se moveu naquela direção, vendo uma luz brilhante no fim de um túnel escuro.

E, finalmente, estava no restaurante, varrendo os comensais com os olhos à procura do homem que amava.

Então o encontrou. Rindo. Seus lindos olhos azuis se enrugando daquele jeito de sempre, fazendo Audrey prender a respiração e vacilar nos joelhos. Ele estava pegando uma garrafa de vinho — sua mão, tão forte e íntima — e servindo uma taça. Mas não a própria. Foi aí que os olhos de Audrey absorveram uma figura sentada de frente para ele. Era uma mulher. Uma mulher de vestido sem costas.

— Posso ajudar, senhora?

Um garçom havia se aproximado dela, bloqueando sua visão como um eclipse. Num transe, Audrey deu um passo para o lado e as luzes voltaram. John e a mulher entraram novamente em foco.

— Estou procurando meu marido — murmurou ela.

Silenciosamente, como num sonho, Audrey se moveu na direção da mesa de John. Ele ainda não a vira, não sentira sua presença. Estava sorrindo para a mulher de frente única, ouvindo com interesse algo que ela dizia. E quando a mulher falou, ela afastou o cabelo para trás da orelha, e um brinco comprido cintilou ao acariciar a pele de seu pescoço. Suas costas nuas pareciam radiantes, suaves como caxemira à luz das velas. Mas Audrey continuou se movendo.

E, então, John começou a se mover. A princípio, Audrey pensou que fosse na direção dela, que ele finalmente a tivesse visto. Mas ele estava gentilmente se inclinando sobre a mesa, tomando o rosto da mulher nas mãos e lentamente, muito lentamente, movendo-se na direção dela para beijar seus lábios. Quando os lábios de John tocaram os da mulher, Audrey soltou um grito, um ganido agudo de dor. Os olhos de John voaram na direção dela e ele recuou, surpreso, o rosto em choque. E, como se em câmera lenta, a mulher olhou para John e, então, se virou para ver o que ele tinha visto. E quando ela se moveu, o brinco cintilou, e então seus olhos recaíram sobre Audrey e os olhos de Audrey recaíram sobre ela.

Audrey ofegou.

Era Alice.

O mundo ficou em silêncio.

Tudo que podia ouvir era seu próprio coração batendo e, então, a lenta chegada das palavras de John, como se através de água.

— Audrey! O que você está fazendo aqui?

Audrey sentiu a boca se abrir e fechar, mas nenhum som saiu dela. Olhou para John. Não podia olhar para Alice. Não podia olhar para a beleza sofisticada em que aquela Alice sem graça e de cardigã largo havia se transformado. Alice, a sonhadora. Alice, o desperdício de espaço. Não podia olhar para essa Alice, ali com o seu John.

— Eu sinto tanto, tanto, Audrey. — As palavras vieram da direção de Alice.

Ainda assim, Audrey não conseguia tirar os olhos de John. O choque dele agora estava diminuindo. Seu rosto recuperava a compostura.

— John? — Audrey achou ter ouvido sua própria voz perguntar.

O rosto dele se suavizou e sua boca começou a tomar a forma da gentileza. Por um breve instante, Audrey achou que ele fosse dizer a ela que tudo estava bem, que aquilo era apenas um terrível mal-entendido.

— Não foi desse jeito que planejamos contar a você — disse ele com amabilidade. — Mas talvez seja melhor assim.

Audrey piscou. O rosto de John estava ondulando para fora de sua visão e ela não sabia bem por quê. Algo estava se metendo em sua visão, inundando seus olhos. Estava ficando cada vez mais difícil respirar. Tinha sido apunhalada. Ninguém se movera, mas alguém, sem ser visto, havia pegado uma faca e enterrado entre suas costelas e a estava afundando até seu coração.

E, então, seus pés começaram a se mexer e ela estava correndo pela recepção, descendo os degraus e caindo na noite. Colidiu com alguém na calçada e sentiu brevemente o calor de seu corpo. Achou ter escutado alguém chamando seu nome. Mas isso também se perdeu atrás dela conforme seus sapatos de camurça manchados de sangue a levavam na direção de casa.