Par Perfeito
Lou
Lou fez uma pausa, ignorou o medo que se revirava desagradavelmente em seu estômago, ergueu a cabeça de forma desafiadora e entrou. Tinha sido uma caminhada difícil para o trabalho, ainda mais porque seus pés estavam desacostumados a sapatos baixos (surpreendentemente estranhos, depois de anos de saltos altos). Mas essa não fora a pior parte. Lou tinha se sentido horrível, nua: flagrada no meio de um pesadelo — aquele em que você vai trabalhar, mas se esquece de pôr as roupas.
Era a primeira vez que saía de seu apartamento desde a manhã seguinte à sua noite com Simon. E era a primeira vez que ia a qualquer lugar sem maquiagem desde os 12 anos de idade. Não era fácil. Era muito mais do que complicado. A pesada camada de cosméticos coloridos sempre fora sua proteção. Sem ela, sentia-se exposta, frágil. Não tinha certeza se fora feita para essa aparência relaxada, natural. Parecia algo nitidamente anormal, para ela.
Mas conseguira chegar até ali sem dar meia-volta…
Ao descer a escada, concentrou-se em manter os olhos fixos à frente — evitando deliberadamente o espelho grande que recebia os clientes na entrada do bar — e seguiu seu caminho através do salão vazio até onde Tony, Paul e Jake estavam completando as garrafas.
— Puta meeerda! — exclamou Tony ao vê-la. — Olha só o seu estado! Tá doente de novo?
Ele olhou para ela, assegurando-se de manter distância. No mundo de Tony, era um fato médico a incapacidade dos germes de saltar distâncias superiores a trinta centímetros.
— Não, estou bem — respondeu Lou. Notou que não havia qualquer preocupação na voz de seu amante.
Podia sentir os olhos de Tony penetrando-a quando abriu a porta da sala dos fundos e desapareceu momentaneamente para guardar a bolsa. Fora de suas vistas por alguns segundos, ela passou a mão nervosamente pelo cabelo, mordeu o lábio (não precisava mais se preocupar com batom nos dentes) e, então, voltou para o bar.
Tony não tinha se movido. Ainda estava olhando para ela, a boca aberta e o rosto cheio de sua desconfiança natural das doenças. Atrás dele, Paul e Jake também a estavam encarando, embora com um pouco mais de gentileza.
Ignorando todos eles, Lou se ocupou em preparar o caixa, vertendo os saquinhos de moedas em suas devidas repartições.
— Escute, docinho — a voz de Tony havia se suavizado. Lou se enrijeceu ao reconhecer sua voz de “seja gentil com a funcionária, ela deve estar naqueles dias”. — Tem certeza que você deveria estar aqui? Não está com nada contagioso, está? Só estou preocupado com você! — acrescentou ele rapidamente, levantando as mãos como se estivesse se rendendo a um iminente ataque mortal de TPM. — Além disso, eu, Suz e as crianças vamos para Marbella no fim de semana. Não quero pegar sua gripe.
— Já disse, estou perfeitamente bem, obrigada — respondeu Lou, sem erguer os olhos de seu trabalho.
Com sua visão periférica, viu Tony se virar para Paul e Jake e fazer uma careta.
— Certo, bem, nesse caso… — a voz dele voltou ao tom agressivo normal —, é melhor você se arrumar. Essa cara está de matar. Os clientes querem ver doçura, não repolho azedo.
Ele se virou, irritado, e foi para a sala dos fundos. Algo na forma como ele se afastou, mal-humorado, fez Lou perceber que o relacionamento deles tivera apenas a profundidade de sua maquiagem. Suas rapidinhas encostados no balcão haviam terminado.
— Tem certeza que você está bem? — perguntou Paul baixinho, a voz cheia de preocupação. — Podemos cobrir por você, se precisar ir para casa.
— Legal, Paul, mas não será preciso.
— Certo, se você está dizendo — respondeu ele, mas não pareceu muito convencido. — Você não está com sua aparência normal, só isso.
Lou suspirou. Era melhor que abrisse o jogo de uma vez por todas. Afinal, não se tratava de uma experiência de um dia só.
— Olha, se você quer saber — ela levantou a voz levemente para que Jake também ouvisse —, não estou usando maquiagem, só isso.
— Ah! — Paul pareceu constrangido. — Merda! Desculpe, Lou!
— Tudo bem — cantarolou ela. Talvez a melhor forma de encarar aquilo fosse com otimismo. — Maquiagem custa os olhos da cara. Com a quantidade que eu costumava usar, vou economizar uma fortuna.
— Você está ótima! — gritou Jake. — Mais jovem.
— Obrigada! Só achei que fosse hora de vocês terem uma chance de me ver — disse ela, animada. — Quero dizer, ver a mim, de verdade.
Jake e Paul pareceram perplexos. Lou não se deu ao trabalho de explicar. Em vez disso, virou-se para os dosadores das garrafas e começou a substituir as vazias, sorrindo ao vislumbrar seu reflexo recém-limpo olhando para ela do metal.