Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 44 de 90

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Par Perfeito

Lou

Desde que Tony lhe dera o cano, Lou vinha se sentindo malévola. E quando se sentia malévola, gostava de beber.

 

— Então — interpôs Kate, quando Lou terminou de descrever seu chefe com a lista dos adjetivos mais venenosos do idioma. — Essa foi a última chance dele, né?

Lou e Kate estavam na metade de sua primeira garrafa risivelmente cara de vinho, no recém-inaugurado bar da moda do bairro mais chique de Londres. Como abrira há apenas uma semana, elas tiveram a sorte de conseguir a última mesa, ainda que ficasse espremida perto dos banheiros.

— Você não pode transar com ele de novo — continuou Kate. — Ele deixou claro suas prioridades.

Lou franziu a testa. Kate tinha um jeito realmente irritante de acertar no alvo.

— Como se eu aqui me importasse com aquele escroto covarde de pau pequeno — respondeu ela alegremente.

— Então está tudo acabado?

— Nunca nem começou — disse Lou, com indiferença.

— Mas então é isso, né? Chega de transar com o Tony?

Lou tomou um gole demorado de vinho. Chega de transar com o Tony soava estranho.

— Lou! Tenha dó! — exclamou Kate. — Ele escolheu a Suzy!

— Como se eu quisesse que ele deixasse a esposa! — retrucou Lou. — Eu só estou transando com ele. Jésus!

Houve uma pausa.

— Então, como eu disse… Chega de transar com o Tony.

— Às vezes eu estou a fim e o Tony simplesmente está por perto!

— Bem, você vai ter que exercitar um pouco o tal do autocontrole.

— Não acredito em exercícios.

— Não me referi a esse tipo de exercício!

— Olha, o escroto de pau pequeno já era — disse Lou, indiferente. — Foi por isso que eu quis vir aqui hoje. Dar uma olhada nos peixes disponíveis num lago novo, ou ver se há alguma isca que seja interessante de morder.

As mulheres bebericaram mais um pouco enquanto escaneavam o bar.

No geral, não eram más opções, pensou Lou. Eram todos do tipo engravatado e próspero; não exatamente do tipo rude que ela preferia, mas bons o bastante para uma quinta à noite.

— Caralho! — exclamou Kate, de repente.

— Essa é a ideia — comentou Lou.

Kate abaixou a cabeça e encurvou os ombros.

— Ai, não! Caralho, caralho, caralho!

Lou olhou assustada para a amiga. Kate não falava muitos palavrões e, quando falava, era algo superficial, como droga ou, uma vez ou outra, merda. Tinha de ser algo muito sério para merecer que ela baixasse ao nível da palavra começada com cara e terminada com alho.

— É ele!

— Quem? — Lou espiou pelo bar, com entusiasmo.

— Não olhe! O idiota! O bizarro com quem eu saí. O que disse que eu era gorda e fez piadinha com o meu sobrenome.

— Quem, o Sebastian?

— Shhh! Ai, meu Deus, não, isso não pode estar acontecendo.

— Onde ele está? Qual deles?

— Lá… — Kate indicou com as sobrancelhas, mantendo a cabeça desviada do ambiente.

— Qual, o bonitinho?

— Lou!

— O quê? É fato! Ele é sexy!

— Nós temos que ir embora — implorou Kate. Ela parecia prestes a chorar.

— Tá, deixa só eu terminar meu vinho.

— Eu quis dizer agora! Não posso deixar esse cara me ver. Ele vai fazer algum comentário horrível sobre o meu porte.

Lou olhou incisivamente para Kate.

— Você, Kate Biggs, é maravilhosa e ele é um babaca de marca maior. E é afetado. E pretensioso, e nem é tão gostoso assim. Na verdade, ele tem cara de quem tem mau hálito e pau fino.

— Não está ajudando — sibilou Kate, por baixo do cabelo.

— Ele que se foda, Kate! Não deixe que ele te impeça de curtir seu vinho.

— Lou, por favor! — Kate já estava quase chorando.

— Está bem, está bem! Só preciso pagar a conta. Você vai indo e me espera lá fora que eu vou acertar tudo. Um minutinho.

— Promete? Não demore. Ele pode sair e me ver.

— Prometo. Vá e me espere na esquina. Vá olhar a vitrine da Partridges. Estarei lá em um minuto.

Kate contornou desajeitadamente o bar, mantendo as costas viradas para Sebastian e o cabelo pendendo sobre o rosto. Finalmente, Lou a viu chegar à porta da frente e escapar.

Lou apertou os lábios, semicerrou os olhos e mirou Sebastian. Ele usava um terno caro e tomava uma taça de champanhe, megapinta de lorde. Tinha certamente cara de babaca. O bronzeado perfeito demais e o cabelo imaculado de salão diziam tudo. “Coxinha”, pensou Lou maldosamente, com uma sensação de prazer selvagem. Como ele se atrevia a magoar sua melhor amiga?

— Uma garrafa de Veuve Clicquot, por favor. — Ela pediu a uma garçonete que passava. — E a conta.

Lou sorriu perversamente, sem tirar os olhos de Sebastian. Então, vasculhou em sua bolsa à procura da carteira, do batom e uma caneta.

— Com licença! — Lou chamou a garçonete alguns minutos depois. — Eu pedi esse champanhe, mas acabo de receber um telefonema importante e tenho que ir embora. Você se importaria em dá-lo ao cavalheiro ali, com meus cumprimentos? — Ela sorriu com doçura e entregou à garçonete um bilhete e a garrafa de champanhe.

— Claro! — A garçonete olhou de relance para o papelzinho e sorriu conspirativamente. — Ele é lindo, não é? Boa sorte. Espero que te ligue!

— Ah, ele vai ligar! — Lou se levantou da mesa e rebolou na direção de Sebastian. Conforme ela se aproximou, ele interrompeu sua conversa e a olhou de cima a baixo, com ar avaliador. Lou remexeu os quadris, fixou nele seu olhar mais pornográfico e esbarrou de leve no sujeito a caminho da porta. Atrás de si, pôde ouvir a garçonete o abordando.

— Graças a Deus! — esbaforiu-se Kate quando Lou virou a esquina da deliciosa Partridges. — Por que você demorou tanto?

— Digamos apenas que a vingança é um prato que se come borbulhante. — Lou sorriu misteriosamente.

— O qu…? Ai, meu Deus, você não falou com ele, falou? — Kate entrou em pânico.

— Claro que não! Eu lhe mandei uma garrafa de champanhe!

Kate parecia ter tido uma parada cardíaca.

— Aquele homem foi horrível comigo. Tão grosseiro, cruel, maldoso; e você mandou um champanhe para ele?

— Bem, foi algo mais que um simples champanhe.

Alguma coisa na expressão de Lou captou a atenção de Kate. Ela parou de hiperventilar.

— O que foi que você aprontou? — perguntou, desconfiada.

— Só peguei emprestada uma ideia clássica da Sharon Osbourne e dei uma repaginada à la Lou. Ela é uma deusa, aquela mulher. Reescreveu completamente o livro de regras sobre como controlar os homens. As iniciantes deveriam estudar a autobiografia dela como se fosse um livro didático. Deveria fazer parte do currículo escolar. Deveria haver um “diploma na arte de se vingar e fazer os homens de capacho segundo Sharon Osbourne”.

— Do que você está falando? A única vingança que conheço da Sharon Osbourne foi que ela fez cocô na… Ai, meu Deus. O que foi que você fez?

— Mijei no champanhe dele!

Kate cobriu a boca com a mão, horrorizada.

— Levei a garrafa de champanhe para o banheiro feminino, joguei metade na privada e completei com um pouco de Eau de Lou. E, daí, pedi para a garçonete entregar a Sebastian com meus cumprimentos.

— E ele aceitou? — perguntou Kate, fascinada.

— É claro que ele aceitou! Babaca vaidoso, egoísta! Ele é narcisista demais para desconfiar.

— Ai, meu Deus! — Kate pensou por um momento. — Então, Sebastian está lá dentro bebendo o seu xixi?

— Ã-hã! — Lou riu. — E não para por aí. Também pedi para a garçonete entregar a ele um número de telefone.

— Qual, o seu?

— Não!

— Ai, meu Deus, não o meu, né?

— Não seja tonta! Do Tony. O telefone da casa do Tony.

Kate pareceu confusa.

— Não entendi.

— Ah, bem, esse é meu segundo lance de gênio. O Tony quase nunca está em casa, mas se ele por acaso estiver quando o Sebastian ligar… e ele vai ligar… o Tony vai ficar completamente desconcertado. O Sebastian é tão convencido que não vai se deixar intimidar por um homem atendendo o telefone. Ele com certeza vai pedir para falar com a Suzy.

— Suzy?

— É. Eu escrevi o nome dela ao lado do telefone. Então, de qualquer forma, o Tony vai ficar no mínimo desconfiado e vai surtar, pensando no que sua esposinha querida anda aprontando. Mas, com sorte, será Suzy quem atenderá ao telefone, e Sebastian irá lhe agradecer pelo champanhe e, como ele supõe que ela esteja interessada nele, irá convidá-la para jantar. E Suzy, sendo tão narcisista quanto Sebastian… e provavelmente entediada à morte com seu marido inútil e flácido… aceitará. E eles se encontrarão e pronto. Esses dois foram feitos um para o outro. Ela é uma interesseira sem cérebro e ele é um ricaço que despreza as mulheres.

Ela sorriu maldosamente.

— Assim, posso ir para a cama com um sorriso no rosto, sabendo que há uma grande chance de que a esposa do Tony o faça de idiota — continuou, triunfante. — E você vai para a cama sabendo que o Seboso Sebastian bebeu o xixi da sua melhor amiga!

— Lou, você é uma pessoa má, muito, muito má — ralhou Kate. — Mas eu te amo muito, muito, muito!

Lou fez tsc-tsc.

— Você sabe que eu não gosto dessa palavra que começa com A, né?

— Desculpe, me esqueci! — Kate sorriu. — Bem, eis aqui algumas palavras para você… “Eu” e “convido”. — Ela passou o braço pelo de Lou. — Vou pedir o melhor sangue de boi que o Luigi’s puder arrumar!

E as duas seguiram pela King Street, rindo feito menininhas.