Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 84 de 90

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Par Perfeito

Alice

Já estava chegando a hora do almoço e, fora um cumprimento superficial e um obrigada pela xícara de chá, Audrey não havia nem sequer olhado para ela. Ou para quem quer que fosse, na verdade. Nem sequer pusera o nariz para fora de seu aquário. Ficara absorta em papéis ou imersa em um de seus telefonemas aparentemente importantes. Era como se o mundo no outro lado do vidro não existisse.

Curvada sobre o monitor, no que esperava que fosse um reflexo da concentração árdua de Audrey, Alice esperava por uma oportunidade de entrar em seu escritório e se desculpar. Audrey parecia exausta, pensou ela. Mas, fora isso, ninguém adivinharia as provações pelas quais ela havia passado no dia anterior.

Bianca e Cassandra só conseguiam falar sobre os detalhes da vida amorosa de Audrey. Alice tentara interromper a fofoca várias vezes, mas, depois dos olhares maldosos que as garotas lhe haviam dirigido, além de sussurros lembrando-lhe que ela não era a chefe, Alice havia desistido. Juntando as duas, elas compravam uma dúzia de revistas de fofoca toda semana; portanto, impedi-las de falar sobre um escândalo da vida real que se desenrolara bem embaixo de seus narizes seria provavelmente impossível. Além do mais, todos os casamenteiros da cidade deviam estar comentando os podres de Audrey naquela manhã. O pensamento fez Alice sentir vontade de correr até o escritório de Audrey e cobrir os ouvidos de sua chefe com as mãos.

Sentindo-se infeliz, Alice voltou para sua carta de demissão, que se encontrava pela metade.

Não tinha dúvida de que sua demissão seria aceita. Audrey quisera se livrar dela praticamente desde o momento em que a contratara. Talvez fosse por isso que ela estava tão ocupada hoje, pensou Alice de repente. Talvez estivesse reunindo evidências para sua demissão. Por que outra razão Maurice Lazenby teria chegado com ela naquela manhã? Alice não tinha muitos clientes insatisfeitos, mas Maurice era certamente um deles. Então, era Maurice quem iria suprir a munição para o pelotão de fuzilamento da Mesa Para Dois, pensou com tristeza.

Um e-mail chegou a sua caixa de entrada, distraindo-a de seu funeral profissional. Era de John. Dizia:

Querida,

Espero que tudo esteja indo bem. Ou tão bem quanto se possa esperar.

E se ela te demitir, não se preocupe! Tenho um plano para o futuro profissional de nós dois. Jantamos na minha

casa esta noite, para que eu possa explicar? Vou te buscar no hospital às 20h (supondo que você ainda vá visitar

Hilary e o bebê — não que Audrey vá te mandar para lá!).

J

 

A despeito de si mesma, Alice não pôde deixar de sorrir. Deus, era tão bom finalmente ter um namorado. Não tinha percebido quanta falta sentira disso, todos esses anos. Tudo iria valer a pena, disse para si mesma. Conseguiria outro emprego, em outro lugar, longe do território da Mesa Para Dois. Afinal, seria o ato final de traição competir com Audrey também por seus clientes, além de seu homem. E, além do mais, para quem ela suportaria trabalhar naquela área? Não para Sheryl. Não para qualquer dos demais membros da ADAR. Nenhum deles tivera a decência de tomar o partido de Audrey na reunião.

Não, teria de ir para outra cidade. Significaria deixar seus clientes para trás, pensou ela, com uma pontada, mas teria de ser feito. Ela e John iriam a algum lugar novo, onde seus empregos anteriores não pudessem assombrá-los. E, uma vez que tivessem partido, talvez, quem sabe, o coração de Audrey poderia começar a se recuperar. E em alguns anos, Alice e John estariam esquecidos, meros fantasmas de um pesadelo do qual Audrey mal podia se lembrar. O copo está sempre meio cheio, lembrou-se Alice.

Ergueu os ombros e se concentrou em terminar sua carta de demissão.