Par Perfeito

Eleanor Prescott · Capítulo 7 de 90

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Par Perfeito

Alice

Um dos muitos formulários que os novos clientes da Mesa Para Dois tinham de preencher continha as perguntas: “Qual é seu programa ideal para uma noite de sábado?” e “Como é uma manhã de domingo perfeita?”. Apesar de Alice nunca ter certeza de como seria seu programa ideal para um sábado à noite, estava muito clara para ela sua versão utópica de manhã de domingo: um tranquilo passeio pela loja de jardinagem local.

Havia uma enorme sensação de liberdade em perambular pela Dedos Verdes, usando um suéter puído e seu jeans mais surrado. A simples visão das fileiras organizadas de plantas, imaculadamente dispostas, como soldados disciplinados, mas rebeldemente assimétricas, como estudantes travessos, fazia o ânimo de Alice melhorar. Ela passava uma ou duas horas percorrendo os corredores de clematis e azaleias, imaginando a profusão de cores em que logo brotariam. Enquanto Alice contemplava um corredor de heléboros de caule comprido, surgiu-lhe o pensamento de que lojas de jardinagem eram, na verdade, lojas de esperança. Você não comprava bulbos, comprava pacotinhos de otimismo, cortesia da Mãe Natureza. Tudo que precisava fazer era plantá-los e regá-los e seria recompensado com belas explosões de cor.

Alice empurrou sua bicicleta pela entrada da Dedos Verdes e a acorrentou a uma grade. Faltavam cinco minutos para as dez e ela era a única jardineira impaciente esperando que as portas se abrissem. Checou seu reflexo na porta de vidro. O cabelo estava completamente despenteado (devia ter se esquecido novamente de pentear) e usava um jeans velho que comprara em um bazar beneficente. O suéter tinha um buraco grande na frente, resultado de um acidente com um galho. Ela parecia, como Audrey costumava dizer, algo que o gato arrastara para casa.

Dudley, o segurança da loja, espiou pela porta de vidro e sorriu para ela. Alice lhe devolveu o sorriso. Ela e Dudley já tinham levado altos papos nas manhãs de domingo, antes que o resto do mundo chegasse. Assim como ela, Dudley adorava a tranquilidade da seção externa da loja de jardinagem. Nenhum dos dois gostava da seção interna, com sua música estridente, crianças entediadas e pais irritados. Mas lá fora, onde era fresco e silencioso e o único ruído era o gorgolejo das fontes de água, estava o que fazia com que Alice pulasse cedo da cama numa manhã de domingo.

Dudley puxou as portas e Alice entrou, passando pelos corredores de creosoto e fertilizante e saindo no pátio. Suspirou alegremente, absorvendo a atmosfera, e se enfiou no primeiro corredor de folhagens.

Quando comprara seu quarto e sala com jardim na Eversley Road, descobrira o amor pela jardinagem. Tinha surgido praticamente como uma bela surpresa. O apartamento não tinha muito jardim, apenas um quadradinho de lajotas de pedra e uma árvore de teixo raquítica. Mas o jardim tinha duas coisas muito importantes: era totalmente privativo e totalmente dela! Tornou-se o lugar sagrado de Alice: um espaço de paz, silêncio e fantasia. Era onde Alice podia realmente ser Alice.

Depois de alguns meses as lajotas haviam sido retiradas, o teixo voltara à vida e as bordas tinham sido criadas, repletas de cascatas de flores. Uma amiga ajudara Alice a carregar para casa uma floreira de janela de dois metros e ela a enchera de flores e ervas perfumadas. No verão, quando a portabalcão de seu quarto ficava aberta, Alice podia deitar na cama e aspirar o cheiro aconchegante da lavanda.

Alice passou uma hora de pura felicidade cantarolando entre os canteiros da Dedos Verdes, depois lotou o cesto de sua bicicleta com plantas e foi para casa. Sentiu-se realizada enquanto pedalava. Adorava seu emprego na Mesa Para Dois e tinha alguns ótimos clientes. Acreditava em bom carma e em finais felizes, e que coisas boas aconteciam com pessoas boas. Não era comum ter um cliente de quem não gostasse — estranhamente, Audrey parecia sempre querer aqueles clientes para sua própria lista — e, quando acontecia, tinha extrema dificuldade em encontrar pares para eles.

Alice dobrou a esquina da Eversley Road e pedalou vigorosamente ladeira acima até seu apartamento. Franziu o rosto. Tinha vergonha de admitir, mas Audrey a intimidava. Sabia que Audrey não ia com a cara dela. Alice fazia o possível para ser amigável, mas toda vez que tentava falar alguma coisa, era como se as palavras morressem em sua boca. Tagarelava, tentando desesperadamente preencher o silêncio bocejante, enquanto Audrey olhava torto para ela, com desdém. Tinha sido sempre assim, e Alice já trabalhava na Mesa Para Dois há anos. Ao completar seis meses de casa, tinha pensado em sair. Mas gostava demais de seus clientes. Clientes chegavam e partiam — ou pelo menos era o que devia acontecer, se ela arrumasse pares perfeitos para eles. O problema era que Alice sempre tinha clientes de quem gostava. Não queria abandoná-los antes de lhes encontrar alguém. E, assim que conseguia par para eles, novos clientes chegavam. Quando percebia, todos os pensamentos com relação a pedir as contas tinham ficado de lado.

Alice chegou a seu apartamento, desmontou da bicicleta e levou suas plantas para dentro. Olhou para o relógio. Ótimo — tinha tempo suficiente para plantá-las no jardim antes de preparar a carne assada do domingo. Ginny viria por volta das 15h, com Dan e a bebê. Feliz por saber que tinha algumas horas de prazer botânico pela frente, adentrou seu jardim com um sorriso.