Pesquisa na área biomédica: do planejamento à publicação

Parte I - Fundamentos da metodologia científica na área biomédica

Parte I - Fundamentos da

 

metodologia científica na área

 

biomédica

 

1. Planejamento de projetos de

 

pesquisa

 

Luis Ernesto Rodriguez Tápia, José Roberto Mineo

 

Introdução

 

Este capítulo centra-se no processo cognitivo da formulação de

projetos de investigação científica, visando facilitar a atividade

criativa no seu estado de nascimento. Processo cognitivo é aqui

entendido como a dinâmica que envolve: (1) a intuição sobre objetos

ou fenômenos particulares e (2) a compreensão conceitual de

características comuns de tais objetos ou fenômenos.

Serão focalizadas as etapas necessárias à formulação de projetos

de investigação científica — cujos resultados são divulgados em

forma de produção bibliográfica, como artigos científicos em

periódicos especializados, dissertações e teses. Agrupam-se

questões básicas prévias na formulação de um projeto, propondose

uma estrutura de projeto típica e uma simplificada, onde são

descritos os itens principais no contexto da cultura científica.

 

Questões básicas na elaboração de

 

projetos de investigação científica

A tarefa inicial na formulação de projetos de investigação

científica é responder a uma série de questões elementares prévias

sobre o assunto ou objeto de estudo, as quais permitirão que se

veja antecipadamente todo o conjunto das incumbências do projeto.

Naturalmente, tais questões exigem respostas detalhadas.

Mas é preciso estar ciente de que o projeto de pesquisa integra

um conjunto de ações que levam ao planejamento de atividades de

pesquisa; e também que este é a primeira das três partes da

produção do conhecimento, as quais incluem ainda execução e

divulgação.

Questões básicas a serem formuladas durante a elaboração de

projetos de pesquisa podem ser representadas no agrupamento do

Quadro 1.1, a seguir.

 

1. Qual o assunto do estudo? Qual o objetivo? Por que o

estudo é necessário? O que a literatura científica diz a

respeito?

2. Qual o problema específico do estudo? Qual a resposta?

3. Qual a base teórica do estudo?

4. Qual a metodologia? Qual o material de pesquisa,

instrumentos e procedimentos?

5. Qual a base empírica ou evidências do estudo?

6. Qual a conclusão a que se pretende chegar?

 

QUADRO 1.1 — Questões básicas a serem formuladas durante a

elaboração de projeto de investigação científica

 

A idéia para se desenvolver um projeto de pesquisa resulta de um

processo criativo que começa na dúvida e segue até a formulação

de hipóteses, e cujos elementos fundamentais são a curiosidade, a

iniciativa, a disposição e o raciocínio lógico. A dúvida surge da

observação curiosa do mundo, onde um fato que desconhecemos

nos leva a questioná-lo. Assim, tem início o desenvolvimento criativo

dessa idéia, em que a reflexão motivada pela dúvida gera uma

pergunta e elabora hipóteses para explicá-la.

Busca-se, então, a resposta para a pergunta na literatura, de

forma a se verificar a veracidade de tais hipóteses. Nesse ponto

pode haver dois caminhos: a) caso já exista resposta satisfatória, a

curiosidade estará satisfeita; b) se não, a curiosidade poderá ser o

início do desenvolvimento de um projeto de pesquisa. Convém

enfatizar a necessidade de se buscar uma resposta satisfatória: às

vezes, a resposta até já existe, mas não satisfaz o pesquisador; ele

então realizará uma pesquisa, que poderá refutar ou confirmar tal

resposta.

A pergunta formulada a partir da dúvida deve ser clara, única e

precisa, de maneira que, ao lê-la, o autor seja capaz de saber

exatamente aonde quer chegar. Todavia, na prática, o início de um

projeto de pesquisa nem sempre segue essas etapas. Basicamente,

existem duas formas de viabilizar esta intenção:

 

1. você quer fazer uma pesquisa e simplesmente procura alguém

com uma idéia definida e disposto a cedê-la para que você a

desenvolva — esse alguém é aquele ou aquela que orientará o

trabalho; tal situação é comum em centros de pesquisa e

universidades, onde estudantes procuram os professores para

desenvolver projetos de pesquisa, seja em busca de

aprendizado sobre o assunto e o método científico ou a fim de

enriquecer o currículo com algum trabalho de natureza

científica;

2. ao ler artigos científicos originais, os autores, no fim da

discussão, orientam um caminho a ser seguido naquele tema, e

este poderá resultar em uma idéia relevante e exeqúível. Dessa

maneira, pode-se depreender que a formulação da pergunta é

uma etapa fundamental, pois define e delimita o problema a ser

estudado, fornecendo ao pesquisador o elemento principal para

estabelecer o objetivo da pesquisa.

 

Processo de construção do saber (aprendizagem), a pesquisa tem

como metas principais gerar conhecimento e/ou corroborálo/refutá-

lo. Em essência, a aprendizagem é tanto do pesquisador quanto da

sociedade em que a pesquisa se desenvolve. Quem a realiza pode,

num nível mais elementar, aprender as bases do método científico e, num nível mais avançado, aprender refinamentos técnicos de

métodos já conhecidos. A sociedade e a comunidade beneficiam-se

com o uso do novo conhecimento gerado para o bem dos

indivíduos.

Para ser considerada científica, a pesquisa deve obedecer a

rigores impostos pelo método científico — acima de tudo, a

reprodutibilidade. Assim, muito se deve aos autores que lançaram

as bases para se fazer pesquisa científica, a saber: Galileu Galilei,

Francis Bacon e René Descartes, no século XVI.

Galileu Galilei (1564-1642) introduziu o método científico,

ressaltava o valor da experimentação como o mais importante dos

procedimentos naturais e foi o primeiro a combinar a

experimentação científica com a matemática. Francis Bacon (1561-

1626) estabeleceu as recomendações para se realizarem

experimentos de caráter indutivo; a descoberta de fatos verdadeiros

depende da observação e experimentação guiadas pelo raciocínio

indutivo, pois constituem meios para se chegar à verdade. A

indução científica de Bacon recomendava, ainda, a descrição

pormenorizada dos fatos e a tabulação para o registro das

observações feitas experimentalmente. René Descartes (1596-

1650) salientou a necessidade de afastamento do subjetivismo e

pregou a dúvida como meio de raciocínio. Seu maior legado foi

transmitir as “quatro regras de ouro”: a) dividir todos os problemas

em tantas partes quantas necessárias para resolvêlas

adequadamente; b) conduzir ordenadamente os pensamentos: do

mais simples para o mais complicado; c) realizar periodicamente

revisões cuidadosas; d) acolher como verdadeira exclusivamente a

conclusão que não deixe dúvida; se houver dúvida, a conclusão

deve ser rejeitada. Assim, o método de Descartes é analítico:

consiste em dividir os problemas e buscar uma ordenação lógica.

Estavam, assim, lançadas as bases da ciência contemporânea:

redução, metodização, experimentação, quantificação, análise e

generalização.

Embora se saiba que a ciência tem como paradigma o uso do

método científico — único e com etapas bem estabelecidas —,

existe uma tendência (ou necessidade) atual a se classificarem as

atividades de pesquisa, sobretudo se pertencentes à pesquisa básica ou à pesquisa aplicada. Pesquisa básica pode ser definida

como o trabalho teórico ou experimental empreendido para se

chegar a novos conhecimentos sobre os fundamentos subjacentes

aos fatos observáveis, sem finalidade de aplicação específica ou

sem propósito prático imediato. Pesquisa aplicada, ou tecnológica,

refere-se ao estudo empreendido para se obterem novos

conhecimentos, que serão dirigidos a um objetivo prático ou à

aplicação concreta.

No Brasil, a Constituição Federal prevê que o “Estado promoverá

e incentivará o desenvolvimento científico, a pesquisa e a

capacitação tecnológicas”, em seu Artigo 218. O primeiro parágrafo

menciona que “a pesquisa científica básica receberá tratamento

prioritário do Estado, tendo em vista o bem público e o progresso

das ciências”; o segundo estabelece que “a pesquisa tecnológica

voltarse-á preponderantemente para a solução dos problemas

brasileiros e para o desenvolvimento do sistema produtivo nacional

e regional”.

A pesquisa pressupõe diversos obstáculos durante sua execução,

bem como o esmero do pesquisador para superá-los. Assim, ao final

do processo pode-se enxergar nela uma utilidade futura, pois o

pesquisador aprendeu o método científico, diversas técnicas e

procedimentos distintos necessários à execução da pesquisa; agora

está apto a desenvolver outros trabalhos na área. Se ele for oriundo

de local diferente daquele onde realizou a pesquisa, uma nova linha

de investigação científica pode ser aberta no local de onde ele veio.

Para a sociedade, a pesquisa respondeu a questões pendentes e

dirimiu dúvidas sobre algo. Um novo conhecimento foi acrescentado

ao rol dos já existentes, e a pesquisa que o gerou pode conter

informações importantes no futuro. Quanto à comunidade científica,

ela agora tem resposta para algo antes desconhecido — mas se vê

diante de novas questões originadas na pergunta motivadora — e

um novo membro dotado de conhecimento científico foi incorporado

às suas fileiras; dele, novas pesquisas poderão surgir.