Pesquisa na área biomédica: do planejamento à publicação
Medidas da eficiência de um teste laboratorial
resultado negativo do teste à ausência de doença. Uma vez ciente
das prevalências tão distintas das populações A e B, o médico terá
mais confiança para definir como positivo o indivíduo da população
A (VP+ = 87,1%) em relação ao da população B (VP+ = 4,3%).
Após todos esses cálculos, para que não reste dúvida sobre a
utilidade dos valores preditivos na confiança do teste e para que o
médico — com base no teste laboratorial — defina melhor o
diagnóstico de seu paciente, só agora revela-se que o paciente da
população A é um usuário de drogas injetáveis e que o da
população B é uma freira.
É importante ressaltar que a análise dos valores preditivos é feita
na horizontal na tabela de contingência, em que a primeira linha se
relaciona com o valor preditivo positivo e a segunda, com o valor
preditivo negativo.
Medidas da eficiência de um teste
laboratorial
Índice de Youden (J)
O índice de Youden (J), expresso por um valor numérico apenas,
é uma das maneiras de se calcular a eficiência de um teste. Definido
por Youden (1950), o cálculo pode ser feito pelas seguintes
fórmulas:
onde:
a = verdadeiros positivos;
c = falsos negativos;
b = falsos positivos;
d = verdadeiros negativos;
a + c = indivíduos com a doença;
b + d = indivíduos sem a doença.
Os valores do índice variam de –1 a +1. Para um teste perfeito, é
+1, sendo que valores intermediários podem ser obtidos. Sua
grande limitação, entretanto, é não permitir a identificação de
problemas de sensibilidade e especificidade do teste.
Em um exemplo hipotético, na Figura 8.4 tem-se:
NOVO TESTE Teste padrão ouro Total
Presente Ausente
Positivo 19 2 21
(a) (b) (a + b)
Negativo 9 75 84
(c) (d) (c + d)
Total 28 77 105
(a + c) (b + d) (a + b + c + d)
FIGURA 8.4 — Representação esquemática de uma tabela de
contingência 2 x 2 e cálculo do índice de Youden (J), comparando-
se em uma doença hipotética a eficiência no diagnóstico de um
novo teste laboratorial com um teste padrão ouro. a: verdadeiros
positivos; b: falsos positivos; c: falsos negativos; d: verdadeiros
negativos
Índice de Validade (Acurácia) E Kappa
A Acurácia pode ser empregada, de uma maneira geral, para
mensurar a eficiência de um dado teste e possibilitar, assim, “medir”
os achados verdadeiros (verdadeiros positivos e verdadeiros
negativos) — alvo de todo teste diagnóstico. A Acurácia expressa, em número (ou proporção), os resultados classificados corretamente
pelo teste diagnóstico.
Entretanto, ela pode ainda ser empregada na comparação entre
testes diagnósticos. Assim, esse índice é a probabilidade de
concordância de um mesmo resultado entre um novo teste e o teste
padrão ouro. O índice de validade é expresso em porcentagem,
calculado como segue:
Usando-se o mesmo exemplo acima (Figura 8.4) e aplicandose a
fórmula:
O valor 0,895 do índice de validade significa que 89,5% dos casos
foram diagnosticados corretamente pelo novo teste em relação ao
teste padrão ouro. Mas esse índice não é suficiente para responder
se o novo teste é ferramenta útil em diagnóstico. Nesse caso, o
índice Kappa (κ) responde melhor.
Modificação do índice de validade, o índice Kappa compara a
concordância obtida com a esperada pela chance. Para se calculálo,
o índice de validade encontrado é comparado com o índice de
validade esperado, quando o teste padrão ouro e o novo teste forem
realizados de forma independente:
O valor 0,895 do índice de validade obtido no exemplo acima é o
índice de validade encontrado. O passo seguinte consiste em
calcular a probabilidade de um resultado positivo em ambos os
testes e em refazer a tabela de contingência.
Retomando esse exemplo (Figura 8.4), 26,8% (28/105) são
resultados positivos pelo teste padrão ouro e 20% (21/105) são resultados positivos pelo novo teste. Logo, a probabilidade de um
resultado ser positivo para ambos os testes será de 0,268 x 0,20 =
0,0534. Aplicando-se essa probabilidade na população em estudo
(105 casos), tem-se: 0,0534 x 105 = 5,6 casos como verdadeiros
positivos.
Nesse caso, a tabela de contingência ficaria assim (Figura 8.5):
NOVO TESTE Teste padrão ouro Total
Presente Ausente
Positivo 5,6 15,4 21
(a) (b) (a + b)
Negativo 22,4 61,6 84
(c) (d) (c + d)
Total 28 77 105
(a + c) (b + d) (a + b + c + d)
FIGURA 8.5 — Representação esquemática de uma tabela de
contingência 2 x 2 demonstrando os resultados de um novo teste
laboratorial com um teste padrão ouro no diagnóstico de uma
doença hipotética. a: verdadeiros positivos; b: falsos positivos; c:
falsos negativos; d: verdadeiros negativos
onde:
a + d (5,6 + 61,6) = 67,2 — que representa o número de
resultados concordantes para ambos os testes —, e o índice de
validade esperado será de (67,2 /105) x 100 = 64%.
Como foi dito, o índice Kappa compara o índice de validade
encontrado (0,895) com o índice de validade esperado (0,64):
Os valores do índice Kappa permitem as interpretações a seguir,
de acordo com os graus de concordância entre os testes. Pobre: κ <
0,20; regular: 0,20 < κ < 0,40; moderada: 0,40 < κ < 0,60; boa: 0,60
< κ < 0,80; excelente: 0,80 < κ < 1,0.
Valores negativos de índice Kappa indicam problemas na
aplicação do teste laboratorial, que deve então ser revista.
Razão de Probabilidades
Razão de probabilidades (RP) — ou likelihood ratios (LR) — é um
método alternativo para se avaliar a “performance” ou a qualidade
de um teste diagnóstico para dada doença, ou mesmo a validade de
um sinal ou sintoma no diagnóstico de uma doença específica.
Sumariza o mesmo tipo de informação que a sensibilidade e
especificidade e representa a probabilidade da doença após um
teste positivo (RP+) ou negativo (RP–). Em outras palavras, RP+
indica o aumento da probabilidade da doença se o teste é positivo, e
RP– indica o decréscimo da probabilidade da doença se o teste é
negativo. As fórmulas para o cálculo das razões de probabilidades
são:
Razões de probabilidades podem ser expressas, também, em
relação à sensibilidade e especificidade:
Em geral, RP+ traduz a chance de um indivíduo com resultado
positivo ter realmente a doença investigada, e RP– traduz a chance
de um indivíduo com resultado negativo ter realmente a doença.
Para interpretar os valores de RP segundo sua definição, convém
lembrar que RP > 1 indica aumento da probabilidade de a doença
investigada existir, e valores de RP < 1, um decréscimo da probabilidade de a doença existir. Os valores de RP permitem as