Pesquisa na área biomédica: do planejamento à publicação
Fatores prognósticos
FIGURA 9.5 — Curva de sobrevida típica da análise de Kaplan-
Meir.
Fonte: Adaptado de Fletcher, Fletcher e Wagner (1996).
Do início da observação até qualquer ponto no tempo, a
probabilidade de sobrevivência é estimada com base na
probabilidade cumulativa de sobrevivência a cada um dos intervalos
de tempo anteriores e é mais precisa que as probabilidades
determinadas isoladamente para cada intervalo. A precisão de tais
estimativas depende do número de eventos observados; assim, as
estimativas do lado esquerdo da curva são mais confiáveis (maior
número de pacientes em risco) do que aquelas do lado direito da
curva no final do seguimento (menor número de pacientes em risco),
que devem ser interpretadas com cautela.
Fatores prognósticos
As análises já comentadas são, certamente, as de maior domínio
tanto do profissional de saúde como do público em geral. Isso
porque não só em algumas circunstâncias oficiosas, mas também
no dia-a-dia, pelos meios de comunicação, são divulgados dados oficiais sobre a letalidade de certa doença infecciosa numa
epidemia, a alta mortalidade de neoplasias malignas evitáveis —
como nas campanhas educativas sobre câncer de colo de útero, por
exemplo — e a certeza quase absoluta de óbito em relação a um
paciente aidético — também para enfatizar a prevenção simples
ante uma doença tão devastadora.
Cabe ressaltar, porém, que outras taxas, além da letalidade,
sobrevida em cinco anos e sobrevida observada, são de extrema
importância para médicos e pesquisadores, por causa da
necessidade de mensuração não só do desfecho de morte, mas
também das taxas de resposta (percentual de pacientes que mostra
evidência de melhora após intervenção terapêutica), de remissão
(percentual de pacientes que atingem uma fase indetectável da
doença) ou mesmo de recidiva (percentual de pacientes cuja
doença retorna após intervalo livre) de certas doenças submetidas a
tratamentos específicos (Quadro 9.1). Assim, já são conhecidos, há
algum tempo, critérios prognósticos de várias doenças, derivados da
observação de que sua presença se vincula a um melhor ou pior
prognóstico de resposta ao tratamento, o que reflete diretamente na
taxa de sobrevida. Como exemplos, podem ser citados os critérios
de Hanson utilizados para prognosticar o curso de uma pancreatite
aguda, tais como os altos níveis de creatinina (> 1,4) e a presença
do auto-anticorpo anti-Ro, os quais prevêem doença renal terminal
para pacientes portadores de glomerulonefrite lúpica, assim como
uma evolução ruim da esclerose múltipla em pacientes com
sintomas motores e cerebelares aliados a uma doença progressiva
desde sua instalação.
Tais fatores são utilizados não para a tomada de decisão do
tratamento, e sim para se delinear, desde o início, o que se quer e
se pode aguardar do tratamento proposto, fato extremamente
valioso não só para quem trata, como também para um paciente
ansioso por resultados — ainda que seja discutível, e talvez até
irresponsável, transmitir esperança em forma de números.
Como os termos resposta, remissão e recidiva soam quase como
sinônimos de análise de tratamento de neoplasias, tais critérios
prognósticos serão exemplificados citando-se uma doença
linfoproliferativa. A Tabela 9.4 relaciona fatores prognósticos à sobrevida livre de doença em cinco anos (pacientes vivos com
remissão da doença) entre pacientes com linfoma de Hodgkin. Os
sete fatores prognósticos são:
1. sexo masculino;
2. idade maior que 45 anos;
3. estágio avançado da doença (IV);
4. albumina sérica menor que 4,0 g/dL;
5. hemoglobina menor que 10,5 g/dL;
6. leucócitos maior que 15.000/mL;
7. linfócitos menores que 600/mL ou menores que 8% do total de
leucócitos.
TABELA 9.4 — Relação entre número de fatores
prognósticos e evolução livre da doença de Hodgkin
Noº de fatores Sobrevida livre de insucesso
prognósticos presentes em 5 anos (%)
0 84
1 77
2 67
3 60
4 51
5 42
Quanto maior o número desses fatores, até um máximo de cinco,
menor é a taxa de pacientes vivos com remissão da doença.
Tem-se, assim, uma relação objetiva entre achados
clínicolaboratoriais e a taxa esperada de pacientes vivos com
remissão da doença ao final de cinco anos.
Um outro exemplo da influência de múltiplos fatores prognósticos
na sobrevida pode ser observado na Figura 9.6, que ilustra a curva
de sobrevida de pacientes com AIDS de acordo com seu estádio prognóstico. Para essa doença, foi atribuído um ponto à presença
de cada um dos seguintes fatores prognósticos:
1. diarréia grave ou albumina sérica menor que 2 g/dL;
2. déficit neurológico;
3. pO menor ou igual a 50 mm Hg; 2
4. hematócrito menor que 30%;
5. contagem de linfócitos menor que 150/mL;
6. contagem de leucócitos menor que 2.500/mL;
7. contagem plaquetária menor que 14.000/mL.
FIGURA 9.6 — Curvas de sobrevida de pacientes com AIDS em
diferentes estádios prognósticos (I, II e III)
Fonte: Adaptado de Fletcher, Fletcher e Wagner (1996).
De acordo com o escore total dos fatores prognósticos, os
pacientes foram classificados em estádio I (0 ponto), estádio II (1
ponto) e estádio III (2 pontos ou mais), apresentando diferentes
curvas de sobrevida para cada estádio. Assim, para pacientes do
estádio I houve sobrevida maior (mediana de 11,6 meses), quando
comparados a pacientes do estádio II (sobrevida mediana de 5,1
meses) e estádio III (sobrevida mediana de 2,1 meses).