Pesquisa na área biomédica: do planejamento à publicação
Randomização
nesse exemplo, uma metade receberá tal intervenção, e a outra
ficará sem a alcalinização — mas serão hiper-hidratados.
Há, porém, entre eles, 50 pacientes febris representados no
quadrado sombreado. E a alocação entre os grupos submetidos ou
não à alcalinização urinária é diferente nos dois tipos de estudo
apresentados. Com isso, a taxa de letalidade entre os pacientes
submetidos à quimioterapia apresenta diferença.
Ao se analisar o estudo observacional (uma coorte
contemporânea), tem-se a nítida impressão de que, como a taxa de
letalidade entre os pacientes submetidos à quimioterapia e à
alcalinização urinária foi de 15% — portanto inferior a 25% entre os
não alcalinizados —, tal intervenção pode, de fato, ter sido eficaz.
No entanto, ao se alocarem os 50 pacientes febris igualmente nos
dois grupos, percebe-se que não houve diferença na taxa de
letalidade entre os pacientes submetidos à alcalinização e aqueles
sem esse tipo de abordagem terapêutica. Nesse caso, o fato de os
pacientes estarem febris — portanto com alguma infecção potencial
— é o que deve ter concorrido para a maior letalidade no estudo não
randomizado, e não o fato de se submeter ou não o paciente à
alcalinização urinária.
Tem-se aqui comprovação de como a randomização é
fundamental à alocação de pacientes de maneira aleatória para se
compararem pacientes que pertencem a cada um dos grupos
segundo características como: sexo, idade, raça, co-morbidades e
até características genéticas, que tendem também a se distribuir
aleatoriamente quando os pacientes designados para cada grupo
são sorteados, sem nenhuma interferência médica ou dos
coordenadores do estudo.
Randomização
Caso a intenção de certo estudo é analisar apenas os efeitos da
intervenção terapêutica proposta, fica clara a dedução da
importância de se tentar eliminar quaisquer outros efeitos sobre o
resultado. Numa analogia, mesmo remota, com o exemplo já citado envolvendo pacientes com doença linfoproliferativa, é bastante
razoável rechaçar um estudo comparando-se dois diferentes anti-
hipertensivos em que um dos grupos é composto, na maioria, por
pacientes anglo-saxões com hipertensão em estágio 1, com outro
em que se concentram pacientes negros portadores de hipertensão
não só em estágio mais avançado, como também de difícil controle.
Para se excluírem ao máxim fatores que influenciariam nos
resultados da análise de uma intervenção terapêutica, o ideal é
alocar os pacientes ao acaso, de tal forma que um paciente A seja
designado para esta ou aquela intervenção porque a moeda jogada
para ele caiu exibindo a face da coroa, e que os pacientes B, C, e
assim por diante, também tenham sua “sorte“ ditada pelo acaso.
Como não se jogam moedas para as alocações dos pacientes dos
estudos experimentais, um exemplo hipotético é demonstrado por
uma tabela composta por números que representam os pacientes
incluídos no estudo.
Um paciente é alocado ao acaso para intervenções diferentes (por
exemplo, cirurgia x tratamento clínico, droga x placebo,
quimioterapia x radioterapia) quando seu número é escolhido pelo
cruzamento de um número da linha com um número da coluna. Tais
cruzamentos são feitos de modo aleatório, por exemplo, fechando-
se os olhos e apontando uma interseção linha x coluna qualquer.
Para o segundo paciente em diante, nesse caso, poder-se-ia
convencionar que o paciente seguinte será o próximo à direita ou à
esquerda ou, ainda, abaixo ou acima, e assim sucessivamente.
TABELA 10.2 — Números aleatórios (randômicos)
escolhidos cruzando-se linhas e colunas
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19
01 7 8 1 2 4 2 3 6 7 0 1 4 6 7 2 0 9 4 7 3
02 2 5 7 3 4 2 3 4 3 1 5 2 3 4 1 3 5 2 4 6
03 6 4 5 6 2 7 2 0 4 1 8 1 5 5 9 9 3 4 9 4
04 0 2 1 5 1 3 2 3 7 4 5 5 6 0 8 7 5 6 1 8
05 5 4 3 7 1 6 3 5 7 1 6 4 4 3 7 5 8 7 2 3
Cruzando-se a linha número 4 com a coluna número 11, tem-se o
número 5 —ímpar. Esse paciente (linha 4, coluna 11) receberá o
tratamento A, assim como todos os outros pacientes representados
por um número ímpar, enquanto pacientes representados por um
número par receberão o tratamento B.
Esse é um exemplo de várias formas equivalentes a se jogar uma
moeda. É óbvio que há o risco de, ainda que sejam aleatórias as
alocações, formarem-se dois (ou mais) grupos de tratamento com
características diferentes um(uns) do(s) outro(s). Nesse caso,
porém, em razão das probabilidades, isso se deve ao acaso — que
pode proporcionar a exibição da mesma face de uma moeda jogada
dez vezes, ou cem vezes, consecutivas, por exemplo. Todavia, tal
risco é bastante reduzido pelo processo de randomização, que
busca homogeneizar os grupos a serem comparados.
Randomização Estratificada
A distribuição randômica, ou aleatória, garante que as várias
características relacionadas com os pacientes estejam distribuídas
de modo uniforme entre os grupos comparados. Há certas
situações, entretanto, em que os pesquisadores de um novo
tratamento se preocupam com efeitos característicos de
determinados grupos sobre os resultados do estudo. Em geral, trata-
se de uma ou duas características que podem influenciar
profundamente a resposta ao tratamento e, assim, comprometer a
interpretação dos resultados obtidos.
Considere-se, mais uma vez, o exemplo do estudo tendencioso
envolvendo pacientes portadores de hipertensão: a randomização,
por si só, é capaz de alocar, com grande chance, pacientes brancos
e negros, portadores de hipertensão estágio 1 e 2 de forma igual ou
próxima da uniformidade entre os dois grupos tratados com
diferentes anti-hipertensivos. Mas, embora seja capaz, ela não
garante tal distribuição. O que podem fazer, nesse caso, os
pesquisadores interessados em conduzir uma investigação
extremamente imparcial? Podem, antes de submeter os pacientes
ao tratamento, separá-los segundo a variável raça, considerando negros e brancos separadamente, e quanto ao estágio de