Pesquisa na área biomédica: do planejamento à publicação
Probabilidade do pré-teste ou probabilidade de ocorrência
probabilidade de ocorrência
Muitas vezes torna-se necessário determinar a probabilidade de
ocorrência de uma dada doença na população antes de se executar
o teste diagnóstico. Como exemplo, considere-se que uma
enfermidade com 10% de prevalência se traduziria em uma
probabilidade de 10% de resultados confirmatórios. Logo, a
probabilidade de ocorrência está intimamente associada com a
prevalência da doença em questão.
Nesse sentido, probabilidade do pré-teste é a estimativa da
probabilidade de doença (resultado positivo) antes mesmo de o
teste ser realizado. Em uma população definida de pacientes, tal
probabilidade é igual à prevalência da doença nessa população, e
seu cálculo pode ser assim determinado:
Valor preditivo positivo e valor
preditivo negativo
Para confirmação de uma hipótese diagnóstica e validação de um
procedimento laboratorial, seriam suficientes os testes diagnósticos
de alta sensibilidade e especificidade? Validar um procedimento
significa estabelecer um valor de predição ou valor preditivo, isto é,
verificar a capacidade de um dado teste de identificar corretamente
o verdadeiro status diagnóstico da doença em questão nos
indivíduos analisados.
Valor preditivo positivo (VP+) de um teste laboratorial é a
probabilidade de existir doença quando o resultado do teste for
positivo.
Valor preditivo negativo (VP–) de um teste laboratorial é a
probabilidade de não existir doença quando o teste for
negativo.
Seus cálculos podem ser assim definidos:
Caso um teste laboratorial não detecte nenhum indivíduo falso
positivo (b = 0) — logo, todos os indivíduos testados apresentam a
doença investigada —, então o valor preditivo positivo do teste será
de 100%, pois a ÷ a = 1. O mesmo raciocínio vale para o valor
preditivo negativo.
Contudo, valores preditivos de 100% são eventos de ocorrência
bastante rara em exames laboratoriais, pois quase sempre existe
algum grau de sobreposição entre resultados de indivíduos normais
e indivíduos acometidos por uma doença específica. Para definirem
quais valores corresponderiam a resultados positivos e quais a
resultados negativos, em geral os testes laboratoriais apresentam
valores de corte (ou pontos de corte, ou ainda, em inglês, cut off).
Métodos empregados na definição de um ponto de corte em um
dado teste laboratorial serão descritos mais adiante neste mesmo
capítulo.
O valor preditivo de um teste (seja este positivo ou negativo)
depende da sensibilidade e da especificidade do teste diagnóstico,
assim como da prevalência da doença na população em geral.
Voltando ao exemplo de um teste laboratorial com VP+ igual a
100%, numa população em que todos os indivíduos apresentam a
doença investigada, todos os resultados positivos serão
verdadeiramente positivos; logo, não haverá falsos positivos. No
entanto, quando esse mesmo teste é aplicado em uma população em que nenhum indivíduo apresenta a doença em questão,
qualquer resultado positivo será, sem dúvida, falso positivo.
Dessa forma, nessa população específica, com prevalência de 0%
da doença, o VP+ não será de 100%, e sim de 0%. Concluise que a
prevalência da doença influencia o VP+ por ter influência direta
sobre as taxas de verdadeiros positivos e falsos positivos e, por
analogia, o VP– por influenciar as taxas de verdadeiros negativos e
falsos negativos.
Outro exemplo — relatado por Jorge e Ribeiro (1999), mais
detalhado e nem tão extremo — esclarece melhor essa relação
entre valores preditivos e sensibilidade, especificidade e
prevalência. Considere-se que um teste laboratorial para detectar a
infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) apresenta
sensibilidade de 90% e especificidade de 80%. Qual seria o VP+
desse teste em dois pacientes oriundos das populações A e B, cuja
prevalência de tal infecção fosse de 60% e 1%, respectivamente?
Em resumo:
Teste laboratorial para diagnóstico de HIV Sensibilidade = 90%
Especificidade = 80%
Prevalóncia de HIV População A = 60%
População B = 1%
Na população A, em cada 1.000 indivíduos, 600 estão infectados,
e 400 não. Se o teste apresenta 90% de sensibilidade, isso significa
que, dos 600 infectados, 90% serão positivos (540 verdadeiros
positivos) e 10% serão negativos (60 falsos negativos). Se o teste
apresenta 80% de especificidade, dos 400 não-infectados, 320
serão verdadeiros negativos e 80 serão falsos positivos. Portanto,
quanto à população A (Figura 8.2) tem-se:
População A
NOVO Doença (ou teste padrão Total
TESTE ouro)
Presente Ausente
Positivo 540 80 620
(a) (b) (a + b)
Negativo 60 320 380
(c) (d) (c + d)
Total 600 400 1000
(a + c) (b + d) (a + b + c +
d)
FIGURA 8.2 — Representação esquemática de uma tabela de
contingência 2 x 2 e cálculos de valores preditivos (VP+/VP–) para
uma população hipotética A (prevalência de HIV = 60%). a:
verdadeiros positivos; b: falsos positivos; c: falsos negativos; d:
verdadeiros negativos
Logo, VP+ = 87,1% significa que a probabilidade de o indivíduo da
população A com teste positivo estar infectado pelo HIV é de 87,1%.
Já na população B (Figura 8.3), com prevalência de HIV = 1%: 10
em cada 1.000 indivíduos estão infectados, e 990 não. Se o teste
apresenta 90% de sensibilidade, isso significa que, dos dez
infectados, 90% serão positivos (nove verdadeiros positivos) e 10%
serão negativos (um falso negativo). Se o teste apresenta 80% de
especificidade, dos 990 não-infectados, 792 serão verdadeiros
negativos e 198 serão falsos positivos. Portanto, quanto à
população B (Figura 8.3) tem-se:
População B
NOVO Doença (ou teste padrão Total
TESTE ouro)
Presente Ausente
Positivo 9 198 207
(a) (b) (a + b)
Negativo 1 792 793
(c) (d) (c + d)
Total 10 990 1000
(a + c) (b + d) (a + b + c +
d)
FIGURA 8.3 — Representação esquemática de uma tabela de
contingência 2 x 2 e cálculos de valores preditivos (VP+/VP–) para
uma população hipotética B (prevalência de HIV = 1%). a:
verdadeiros positivos; b: falsos positivos; c: falsos negativos; d:
verdadeiros negativos
Assim, VP+ = 4,3% significa que a probabilidade de o indivíduo da
população B com teste positivo estar realmente infectado com o HIV
é de 4,3%. O mesmo raciocínio vale para o cálculo do VP– do teste,
de 84,2% e de 99,9% para os indivíduos da população A e B,
respectivamente; nesse caso, isso significa a probabilidade de não
estarem realmente infectados porque têm teste negativo.
Nesse sentido, um mesmo teste com determinada sensibilidade e
especificidade, mas empregado em populações com diferentes
prevalências — como essas exemplificadas acima — apresentará
resultados diferentes de valores preditivos. Logo, quanto maior for a
prevalência da doença (população A), mais provável será a
correspondência de um resultado positivo do teste à doença; ao
mesmo tempo, quanto menor for a prevalência da doença (população B), mais provável será a correspondência de um