Pesquisa na área biomédica: do planejamento à publicação
Erro sistemático (vício): exatidão e precisão
H Verdadeira Falsa o
Decisão
Aceitar 1 - β β
Rejeitar α 1 - α
QUADRO 5.5 — Comparação entre os erros de primeira e
segunda espécie (α e β, respectivamente) em relação à aceitação e
rejeição da hipótese de nulidade (H ) o
2. ERRO SISTEMÁTICO (VÍCIO) é a tendência a produzir
resultados que diferem dos valores verdadeiros, de um modo
sistemático.
Erro sistemático é um problema particular em estudos
epidemiológicos sem controle sobre os participantes estudados —
ao contrário do que se observa em experimentos laboratoriais.
Algumas variáveis epidemiológicas são difíceis de determinar (tipo
de personalidade, consumo de álcool, exposições prévias a
diferentes condições ambientais) e, assim, levam ao erro
sistemático.
Dentre as diversas fontes de erros sistemáticos, pode-se destacar
a variação biológica individual, o viés de seleção e o viés de
aferições. A variação biológica individual sempre ocorre em estudos
de uma amostra da população e levam a conclusões nem sempre
precisas. O viés de seleção ocorre quando há diferença sistemática
entre as características dos indivíduos selecionados para o estudo e
as características daqueles que não foram — por exemplo,
indivíduos que aceitam participar de um estudo sobre os efeitos do
tabagismo e diferem, quanto aos hábitos de fumar, dos que não
aceitam, os quais, em geral, são fumantes contumazes. Isso é
evidente em estudos epidemiológicos ocupacionais, em que há o
“efeito do trabalhador saudável”: só trabalhadores saudáveis
permanecem no emprego para realizar suas tarefas; os doentes e
incapazes são excluídos. Assim, estudos de prevalência nesses
locais sobre a associação entre determinada exposição/causa (por
exemplo, formaldeído) e efeito (irritação dos olhos) podem levar a
conclusões errôneas.
Estudos em epidemiologia clínica, também, podem apresentar
esse tipo de erro. Tome-se este exemplo: um novo esquema de
medicamentos para tratar determinada doença mostrou eficácia
maior (50% de óbito) em relação ao tratamento convencional (75%
de óbito); entretanto, essa superioridade poderia resultar de um viés
de seleção se os pacientes que receberam o esquema novo fossem
menos graves (resposta melhor) do que os que receberam o
esquema tradicional (resposta pior). Portanto, se os indivíduos
participantes de um grupo de estudo mostrarem diferentes
associações daqueles do grupo-controle, ocorrerá uma estimativa
tendenciosa da associação entre exposição/causa e efeito. Logo, o
viés de seleção ocorre como parte do processo de seleção dos
participantes do estudo, pois estes representam uma amostra de
uma população maior. Tais erros podem ser minimizados pelo uso
de amostras de tamanho adequado.
O viés de aferições ocorre quando as mensurações individuais
são imprecisas, ou seja, quando não medem de modo correto o que
deveriam medir. Há várias fontes de tais tendências, a exemplo de
determinações bioquímicas ou fisiológicas que apresentam
diferentes resultados da mesma amostra entre diferentes
laboratórios. Se as amostras dos grupos expostos e controles são
analisadas aleatoriamente por diferentes laboratórios, então os erros
serão ao acaso; se as amostras do grupo exposto são analisadas
em um laboratório, enquanto as amostras do grupo controle são
analisadas em outro e produzem resultados sistematicamente
diferentes, então a avaliação será tendenciosa. Aferições
sistemáticas e cuidadosas de exposição e efeito podem reduzir as
variações individuais e os erros de aferições.
O fator de confundimento (“confounding factor”) ou fator de
confusão, também, fornece estimativas errôneas do efeito, mas não
é estritamente um tipo de erro ou viés, por não resultar de erro
sistemático no desenho do estudo. Ele se origina porque a
distribuição não aleatória de fatores de risco na população de
origem também ocorre na população em estudo. Esse fator será
abordado com mais detalhes no capítulo 7 ao se tratar dos métodos
de análise em estudos sobre causalidade.
Exatidão E Precisão
Para melhor entender se a divergência ou variação dos resultados
de um estudo dos valores verdadeiros resultou de erro randômico
(ao acaso) ou erro sistemático (por vício), é fundamental
observarem-se as definições de exatidão e precisão nesse contexto.
Exatidão versus Precisão
Exatidão: é a capacidade do método de fornecer
resultados próximos do valor verdadeiro.
Precisão: é a capacidade do método de fornecer
resultados reprodutiveis entre si.
Um método de aferição pode ser preciso e não ser exato, e vice-
versa. Os diagramas apresentados na Figura 5.6 ilustram as
possibilidades de diferentes graus de exatidão e precisão: ter baixa
exatidão e baixa precisão (Fig. 5.6A); ser preciso e não ser exato
(Fig. 5.6B); ser exato e não ser preciso (Fig. 5.6C); ser de alta
precisão e alta exatidão (Fig. 5.6D).