Pesquisa na área biomédica: do planejamento à publicação
Aspectos essenciais em estudos experimentais
hipertensão, ou seja, negros com estágio 1 ou 2 e brancos com
estágio 1 ou 2. Após essa estratificação por raça e estágio de
hipertensão arterial, faz-se à alocação aleatória, sabendo-se que
contarão com número rigorosamente igual de pacientes com tais
características distribuídos em cada grupo.
Aspectos essenciais em estudos
experimentais
Amostragem
Para restringir a heterogeneidade dos pacientes incluídos em um
ensaio clínico, eles devem ser selecionados com base em critérios
específicos de inclusão (presença da condição ou doença) e de
exclusão (presença de outras doenças, doença atípica ou com
prognóstico ruim, contra-indicações ao tratamento, recusa em
participar do estudo, etc.). Dessa forma, há maior probabilidade de
as diferenças observadas nos desfechos estarem relacionadas com
o tratamento e, assim, melhorar a validade interna do estudo.
No entanto, muitos critérios de exclusão (vistos comumente em
pacientes na prática clínica) possibilitam diminuir a capacidade de
generalização dos resultados. Por conseqüência, pacientes em
ensaios clínicos constituem amostra tendenciosa e altamente
selecionada de todos os pacientes com a condição de interesse.
Tratamento
O tratamento em questão pode ser analisado segundo três
aspectos: capacidade de generalização, complexidade e magnitude
do efeito. A capacidade de generalização se relaciona com a
implementação do tratamento comprovadamente eficaz na prática
clínica usual, para que possa ser reproduzido em outras situações.
A complexidade dos tratamentos utilizando, com freqüência, múltiplas alternativas terapêuticas, deve ser analisada com critério
para que as intervenções possam ser aplicadas de modo
reproduzível. A magnitude do efeito refere-se à avaliação dos
desfechos esperados em relação às outras alternativas terapêuticas
ou do grau de melhora clínica relacionada com um fator isolado ou
dominante como causa de uma doença.
Ao final do estudo, informações sobre o tratamento que o paciente
recebeu são essenciais. Isso porque são muitas as situações em
que um paciente designado para receber um tratamento A não
adere ao tratamento (ainda que pareça uma necessidade óbvia),
caracterizando a chamada falta de adesão (compliance). Além
disso, pode ocorrer de um paciente que, a princípio, concordou em
participar da investigação, abandone o estudo. Uma outra situação é
a de troca de medicações: o paciente passa a tomar o medicamento
B por conta própria. Essas informações abrangem situações
comprometedoras para a análise do ensaio experimental e devem
sempre ser relatadas, para que os cálculos estatísticos as incluam
nos números finais.
Evolução
Os critérios considerados como resposta ao tratamento devem ser
estabelecidos de modo explícito pelo estudo, para se saber com
exatidão o que é melhora; os efeitos colaterais devem igualmente
ser estabelecidos e analisados ao final do estudo.
Dados como diminuição da pressão arterial sistólica de pelo
menos 10% com uso de determinado anti-hipertensivo, redução de
certa massa tumoral de 50% em um determinado período de tempo
com o uso de novo quimioterápico e aumento da fração de ejeção
ventricular utilizando-se nova classe de droga cardiotônica são
alguns exemplos de resultados a serem analisados em estudos
experimentais diversos. Deve-se garantir sempre que tais aferições
sejam feitas com o mesmo rigor nos dois grupos de estudo.
Mascaramento (Blinding)
A fim de evitar interferências subjetivas em um estudo
experimental, o ideal é que nem o paciente nem o médico saibam
quem está tomando o medicamento (estudo duplo-cego). Isso para
que, no caso do paciente, questões psicológicas não o influenciem a
tentar saber se está tomando o medicamento ou placebo e, assim,
se sentir mais ou menos motivado a até abandonar o estudo por
achar que, ao tomar placebo, não há razão para ele se manter em
algo que não lhe trará benefícios. No caso do médico, o
mascaramento evita a situação “tentadora“ de alterar a ordem do
sorteio para direcionar o comprimido contendo o medicamento a um
paciente que, na opinião dele, não poderia ficar sem o tratamento.
Em resumo, o mascaramento pode ser realizado em quatro
níveis:
1. alocação — os pesquisadores não devem saber em quais
grupos de tratamento os pacientes serão alocados para não
interferirem na distribuição aleatória;
2. pacientes — não devem saber que tipo de tratamento estão
recebendo para não interferirem na adesão ao tratamento;
3. médicos — não devem saber que tratamento cada paciente
recebeu para não interferirem no atendimento aos pacientes;
4. avaliação — os pesquisadores que avaliam os desfechos
clínicos e/ou laboratoriais não podem conhecer os grupos de
tratamento para não interferirem nas aferições.
Nem sempre o mascaramento é possível, sobretudo em algumas
situações clínicas específicas (por exemplo, depressão medular com
quimioterapia) nas quais os efeitos observados podem dar uma
pista sobre o grupo de tratamento utilizado.
Erros Nas Conclusões de Estudos Experimentais
Um indivíduo com determinado exame positivo pode não ter
aquela doença, assim como existe a probabilidade de um paciente
doente apresentar exame negativo, como já foi comentado no
capítulo 8. Igualmente, os resultados de um estudo terapêutico
experimental — ainda que seja randomizado (talvez até estratificado), controlado, duplo-cego — podem não refletir as reais
conclusões que deveriam ser extraídas.
Quando, na introdução desta seção, foram destacados os
atributos essenciais de um estudo para que possa produzir
resultados confiáveis, na realidade, foram citados os passos a
serem seguidos no planejamento e na execução de um estudo
experimental (experimento clínico, ensaio clínico ou clinical trial).
Tais passos são essenciais para evitar, a qualquer custo, que
determinado ensaio clínico contenha um ou vários “furos”.
Os furos podem ocorrer por qualquer viés (bias) — ou seja,
tendenciosidade, sobretudo subjetiva — em algum ponto do estudo;
por exemplo, pode ocorrer um viés na alocação de um grupo-
controle — sem um emparelhamento homogêneo; no tamanho da
amostra — insuficiente para produzir resultados com poder
estatístico, ou ainda, como já foi citado, na alocação tendenciosa do
tratamento pelo médico. Esses fatores, dentre outros, podem afetar
os dados finais retirados do estudo para a análise estatística.
Provoca-se um erro de amostragem, por exemplo, quando
pacientes negros e brancos não são distribuídos nas mesmas
proporções em dois grupos utilizados para comparação de regimes
anti-hipertensivos distintos. Se houver menos rigor — como na
simples técnica de aferição da pressão arterial em um dos grupos
—, tende-se ao erro de aferição. Ambas as incorreções constituem o
chamado vício de um estudo, que, ao lado do acaso, atua na
produção dos referidos furos.
O acaso é um erro inerente a qualquer estudo, por mais bem
planejado, conduzido e calculado que seja este. Ainda que se
calcule o número adequado de pacientes (tamanho da amostra) a
serem seguidos, com critérios de inclusão bem definidos, desfechos
criteriosos, imparcialidade na execução do tratamento de grupos
homogêneos, e se faça análise estatística com modelos
corretamente aplicados, existirá sempre a chance de aquela
diferença (ou diferenças) ter ocorrido ao acaso ou mesmo não se ter
chegado à conclusão de que o tratamento é benéfico, quando na
realidade o é. Como foi visto nos capítulos 5 e 6, esses dois tipos de
erros atribuídos ao acaso são os chamados de erro tipo I e erro tipo
II — como demonstra o Quadro 10.1.
Conclusão do Conclusão que deveria ser tirada
Estudo Tratamentos Tratamentos não
são diferentes são diferentes
Tratamentos não Decisão correta Erro tipo II
são diferentes (erro β)
Tratamentos são Erro tipo I (erro α) Decisão correta
diferentes
QUADRO 10.1 — Relação entre conclusões alcançadas e
conclusões que deveriam ter sido tiradas em um estudo terapêutico
experimental
Se um medicamento que nunca produziu efeito de reversão de
uma arritmia em estudos anteriores agora traz resultados fantásticos
em novo estudo experimental, há de se pensar na possibilidade de
ter ocorrido um erro tipo I, ou seja, apesar dos resultados benéficos
demonstrados, ele pode não ter produzido tal efeito de fato.
Essa probabilidade de o medicamento em questão ter sido
superior ao tratamento convencional é, em geral, expressa nos
trabalhos através do valor de P. Se este trabalho fornece uma
evidência de que a droga testada reverte certa arritmia em
porcentagem superior à droga convencional com um P < 0,05, então
ele expressa uma chance inferior a 5% de a diferença ter ocorrido
ao acaso. Tal chance poderia ser, por exemplo, menor que 1% caso
o pesquisador quisesse ser mais rigoroso ao pensar em eliminar a
chance de erro tipo I.
No entanto, caso ele fosse muito rigoroso, incorreria no risco de
não conseguir mostrar um benefício que realmente existe. Comisso,
aumentaria a probabilidade de erro tipo II (erro β). Uma boa opção,
nesse caso, é o aumento do tamanho da amostra, a fim de diminuir
a chance da ocorrência do acaso (lembrar a razão de probabilidades
referida para a moeda jogada), ao mesmo tempo em que testaria a
droga em um maior número de indivíduos com resultados
potencialmente favoráveis. Quanto menor for a probabilidade de
erro tipo II, maior será o poder do estudo.