Pesquisa na área biomédica: do planejamento à publicação
Razão de chances (OR: Odds Ratio)
expostos (Io), o RA é também chamado de diferença de risco:
RA = Ie – Io ou RA = a/(a+b) – c/(c+d)
Em termos de saúde pública, conforme a incidência da doença na
população, o RA é, muitas vezes, mais importante que o RR. Assim,
doenças de alta incidência podem apresentar baixo valor de RR
referente a um dado fator, porém alto RA; inversamente, doenças de
baixa incidência podem apresentar alto RR e baixo RA.
Tome-se o exemplo hipotético relatado por Jorge e Ribeiro (1999):
ao se analisar o fator de exposição (tabagismo) para determinada
doença, verifica-se que se esta ocorre em alta incidência (60% dos
indivíduos expostos ao fumo e 40% dos não-expostos ao fumo), o
RR é de 1,5 e o RA, de 20%. Por outro lado, se a doença ocorre em
baixa incidência (0,1% dos indivíduos expostos e 0,01% dos não-
expostos), o RR é de 10, e o RA, de 0,09%.
Portanto, para se calcular o RR e o RA, é necessário que se
conheça a incidência da doença na população, com e sem a
exposição ao fator de risco em questão. Logo, tais medidas só
podem ser determinadas em estudos que avaliem incidência, a
exemplo dos estudos de coorte e intervenção ou experimentais.
Razão de Chances (OR: Odds Ratio)
Em estudos transversais (estudos de prevalência), em que a
freqüência da doença na população é pequena, ou estudos de caso-
controle, nos quais a proporção dos indivíduos doentes (casos) é
pré-definida, os casos são representativos de todos os casos da
doença na população, e os controles são representativos de todos
os casos não-doentes. Nesses estudos, o coeficiente de incidência
não é determinável; assim, é possível obter medida de risco
semelhante ao risco relativo (RR) pela comparação da freqüência de
exposição entre casos e controles. Tal medida é chamada de odds
ratio (OR) — ou razão de chances — e objetiva avaliar se existe
associação entre a doença e o fator de exposição, bem como quantificar essa possível associação, calculada com base na
relação:
OR ≅ RR = ad/bc
Um exemplo hipotético pode ser demonstrado na Tabela 7.2. O
uso de contraceptivos orais em determinada população foi analisado
segundo a possibilidade de causar trombose venosa. De 375
pacientes usuárias de contraceptivos orais, 25 apresentaram a
doença. De 575 pacientes não usuárias dos contraceptivos orais,
cinco apresentaram trombose venosa. Pode-se, então, calcular o
risco relativo de haver trombose venosa entre usuárias de
contraceptivos orais.
TABELA 7.2 — Tabela de associação entre uso de
contraceptivos orais (fator de exposição) e trombose
venosa (doença)
Uso de contraceptivos Trombose Total
orais venosa
Presente Ausente
Sim 25 (a) 350 (b) 375
Não 5 (c) 570 (d) 575
Total 30 920 950
Fonte: Adaptado de Rouquayrol (1986).
OR = RR = ad/bc = 14250/1750 = 8,14
Isso significa que o risco relativo de ocorrer trombose venosa
entre usuárias de contraceptivos orais é 8,14 vezes maior que entre
mulheres que não fazem uso.
De modo geral, um valor de OR = 1,0 significa que o fator de
exposição não tem efeito sobre a doença, OR > 1,0 é considerado
fator de risco, e OR < 1,0 é considerado fator de proteção.
Porém, o simples cálculo da razão de chances oferece apenas
uma estimativa pontual dessa medida; por isso não pode ser
utilizado para qualquer inferência, a não ser que se considere a
variabilidade amostral e, portanto, os intervalos de confiança (IC
95%) para a razão de chances. Tais intervalos de confiança são
genericamente apresentados entre parênteses (LI – LS), em que LI
representa o limite inferior, e LS, o limite superior, e indicam que há
95% de confiança ou certeza de que esse intervalo inclui o
verdadeiro risco relativo ou odds ratio.
A inferência sobre o efeito do fator de exposição sobre a doença
(evento) pode ser feita do seguinte modo:
Se a unidade (valor 1,0) estiver dentro do intervalo de confiança
(entre LI e LS) → não existe associação.
Se a unidade (valor 1,0) estiver acima do LS → existe
associação do tipo fator de proteção.
Se a unidade (valor 1,0) estiver abaixo do LI → existe
associação do tipo fator de risco.
A Tabela 7.3 representa o resumo de um estudo de coorte para
avaliar o tempo de cirurgia (fator de exposição) como fator de risco
para infecção do sítio cirúrgico (ISC) em pacientes submetidos à
cirurgia no Hospital de Clínicas da Universidade Federal de
Uberlândia (HC–UFU).
TABELA 7.3 — Tempo de cirurgia como fator de risco
para infecção do sítio cirúrgico em pacientes do HC–
UFU
Tempo de Infecção do sítio Total RR (IC
cirurgia cirúrgico 95%)
Sim Não
> 4 horas 46 680 726
≤ 4 horas 21 748 769 2,3 (1,4 –
3,8)
Total 67 1428 1495
Fonte: Sadoyama e Gontijo Filho (2000).
Os resultados mostraram que o risco de uma infecção do sítio
cirúrgico nas cirurgias demoradas (> 4 horas) é 2,3 vezes maior que
nas cirurgias normais (≤ 4 horas).
Vale ressaltar que a análise do risco relativo e seu intervalo de
confiança são, em geral, concordantes com o valor de P obtido
nessa análise — ou seja, com a probabilidade de a diferença
encontrada ter ocorrido ao acaso (o fator estudado não ser uma
causa da doença ou evento em questão). Essa relação pode ser
verificada no exemplo da Tabela 7.4, que demonstra os fatores de
risco para infecções por Staphylococcus aureus resistentes ou
sensíveis à meticilina (MRSA e MSSA, respectivamente) em
pacientes internados no HC–UFU.
TABELA 7.4 — Fatores de risco para infecções por
Staphylococcus aureus resistentes ou sensíveis à
meticilina (MRSA e MSSA, respectivamente) em
pacientes internados no HC–UFU
FATORES DE MRSA MSSA Valor RR (IC
RISCO (%) (%) de P 95%)
n=45 n=57
Sexo (M) 31 (68,9) 32 (56,1) 0,26 1,73 (0,71
- 4,27)
Restrição ao 40 (88,9) 42 (73,7) 0,09 2,86 (0,86
leito - 10,0)
Uso de 43 (95,6) 46 (80,7) 0,05 5,14 (0,98
antimicrobianos: - 35,76)
1-2 11 (24,4) 27 (47,4) 0,02 0,36 (0,14
antimicrobianos - 0,91)
≥ 3 31 (68,9) 19 (33,3) <0,01 4,43 (1,77
antimicrobianos -11,23)
Uso de 40 (88,9) 40 (70,2) 0,04 3,40 (1,04
dispositivos -11,76)
invasivos:
Cateteres 38 (95,6) 37 (64,9) 0,04 2,93 (1,02
vasculares - 8,74)
Drenos 7 (15,6) 6 (10,5) 0,64 1,57 (0,43
- 5,82)
Sondas 22 (48,9) 17 (29,8) 0,08 2,25 (0,92
nasogástricas - 5,53)
Sondas 19 (42,2) 8 (14,0) <0,01 4,48 (1,58
vesicais - 13,02)
Tubos 10 (22,2) 5 (8,8) 0,10 2,97 (0,84
endotraqueais - 11,06)
≥ 3 18 (40,0) 8 (14,0) <0,01 4,08 (1,43
dispositivos - 11,91)
FATORES DE MRSA MSSA Valor RR (IC
RISCO (%) (%) de P 95%)
n=45 n=57
Cirurgia 27 (60,0) 24 (42,1) 0,50 1,44 (0,58
- 3,58)
RR = risco relativo; IC = intervalo de confiança.
Fonte: Sadoyama e Gontijo Filho (2000).
Os resultados mostraram que, quando valores de IC 95% incluem
a unidade (valor 1,0), o valor de P é maior ou igual a 0,05 — noutros
termos, não existe significância estatística para o valor de RR. Por
outro lado, quando valores de IC 95% excluem a unidade (acima ou
abaixo de 1,0), o valor de P é menor que 0,05 — portanto, o valor de
RR apresenta significância estatística como fator de risco (RR > 1,0)
ou fator de proteção (RR < 1,0).
Há situações que devem ser analisadas criteriosamente, por
exemplo, quando a unidade se encontra no limite inferior do IC 95%,
o valor de P pode apresentar significância (P < 0,05). Esse exemplo
pode ser demonstrado na Tabela 7.4, onde os fatores de risco “uso
de dispositivos invasivos” e “cateteres vasculares” apresentaram IC
95% incluindo a unidade no limite inferior [(1,04 – 11,76) e (1,02 –
8,64), respectivamente], e os valores de P foram inferiores a 0,05 (P
< 0,04) em ambas as situações. Também é possível demonstrar os
valores de RR e IC 95% por meio de representação gráfica, como
na Figura 7.3, que representa os dados referentes à Tabela 7.4.