Pesquisa na área biomédica: do planejamento à publicação
Considerações especiais
9. Os pesquisadores devem usar os animais para finalidades
diversas sempre que possível, mas sem comprometer a
qualidade científica dos experimentos.
10. Os pesquisadores envolvidos com experimentação animal
devem ter consciência de que o animal tem sensibilidade similar
à humana (no que se refere à angústia, dor e desconforto),
memória e instinto de sobrevivência. Portanto, é imperativo que
os animais sejam utilizados de maneira adequada.
11. Procedimentos que causem dor ou angústia nos animais devem
ser acompanhados de sedação, analgesia ou anestesia
adequadas à espécie. Atos cirúrgicos ou outros atos dolorosos
não devem ser realizados em animais não anestesiados e
paralisados por agentes químicos e físicos.
12. Os animais que sentirem dor ou angústia intensas ou crônicas
que não podem ser aliviadas, ou aqueles sem condições físicas
de continuar no experimento, devem ser sacrificados por
método indolor e não estressante.
13. Nos experimentos em que a eutanásia for indicada, a morte dos
animais deve ser realizada de forma rápida, indolor; seguir
técnicas já consagradas e estar prevista e descrita no projeto
de pesquisa.
14. Medidas de biossegurança devem ser adotadas para garantir
proteção aos pesquisadores e funcionários envolvidos no
manejo de animais utilizados em atividades didáticas ou em
experimentação científica.
15. Todo pesquisador é moralmente responsável pelas escolhas
que faz e pelos atos que realiza na experimentação animal.
Considerações especiais
Categoria dos Experimentos
Os experimentos envolvendo animais podem ser classificados
com base nas seguintes categorias (adaptadas de CONSENSUS...,
1987):
a. experimentos que não usam seres vivos ou que usam plantas,
bactérias, protozoários ou espécies de animais invertebrados;
b. experimentos com vertebrados que produza pequeno ou
nenhum desconforto;
c. experimentos que provocam estresse ou dor menor (dor de
curta duração) em espécies de animais vertebrados;
d. experimentos que provocam estresse ou dor significativos e
inevitáveis em espécies de animais vertebrados
(responsabilidade explícita de explorar alternativas);
e. experimentos que provocam dor intensa, no ou acima do limiar
de tolerância de animais conscientes não anestesiados (são
considerados altamente questionáveis e muitos estão proibidos
por algumas legislações).
Experimentos Condenáveis
Alguns experimentos são condenáveis por provocarem intenso
sofrimento físico ou psíquico. Incluem:
privação prolongada de água e alimento;
exposição ao calor ou frio excessivos;
privação de sono ou descanso;
provocação deliberada de pânico;
choque elétrico;
lesão traumática violenta;
provocação de queimaduras;
bloqueio da respiração ou circulação;
privação prolongada de movimentos;
mutilação grave.
Eutanásia
A utilização de animais em atividades de ensino (técnicas
anestésicas e cirúrgicas) e/ou pesquisa experimental tem suscitado
vários questionamentos quanto à possibilidade de sofrimento e ao
destino dos animais no fim das atividades experimentais ou didáticas. Muitas vezes, conforme os protocolos para
experimentação animal, é preciso sacrificar os animais a fim de se
obterem os resultados. Nessa situação, em geral o sacrifício não é
contestado; mas o procedimento para tal deve ser adotado com
critério para não fazer o animal sofrer ou se estressar.
Esse procedimento é denominado de eutanásia — do grego eu
(“boa”) e thanatos (“morte”), ou seja: “boa morte”, aquela sem o
mínimo de dor ou estresse. Assim, a eutanásia — a “morte
humanitária” de um animal — pressupõe uso de métodos indolores
que produzam inconsciência rápida, morte subseqüente (sem
agonia e estresse) e sejam apropriados à idade e à espécie do
animal. Dentre outros, os métodos podem ser físicos e químicos. Os
físicos incluem concussão cerebral, deslocamento cervical,
decapitação, choque elétrico — devem levar à perda imediata de
consciência mediante trauma físico-cerebral e, em geral, são usados
apenas quando o uso de drogas compromete os resultados da
pesquisa; os químicos abrangem o uso de éter, clorofórmio e drogas
anestésicas como barbituratos — têm de produzir a inconsciência e
morte dos animais mediante superdosagem. Ambos objetivam a
perda indolor da consciência, seguida de parada respiratória e
cardíaca; o procedimento deve ser preciso e rápido, a fim de
minimizar o estresse e abreviar a morte dos animais.
A eutanásia deve ser avaliada segundo perspectivas diferentes.
Do ponto de vista: - do animal, ela deve utilizar o mínimo de
contenção, ser indolor, produzir inconsciência rápida e morte
subseqüente;
- do executor, o método deve ser seguro e não provocar tensão
emocional;
- da pesquisa, a eutanásia não deve produzir alterações
biológicas ou histológicas para não comprometer os resultados;
- da instituição, ela deve ser economicamente viável no que se
refere a equipamentos e locais apropriados.
Mesmo com todos esses critérios e conceitos, a eutanásia ainda
sofre muitas críticas (vindas do meio científico, da sociedade e,
sobretudo, das sociedades protetoras de animais — as quais
questionam o caráter humanitário dos métodos e se, de fato, não provocam sofrimento), em especial se for realizada por indivíduos
despreparados técnica e emocionalmente.
Os diferentes métodos de eutanásia usados em pesquisas,
incluindo critérios e precauções referentes às diversas espécies
animais, podem ser encontrados no Report of the AVMA panel on
euthanasia, seqüência de publicações periodicamente atualizadas
da revista científica Journal of the American Veterinary Medical
Association (JAVMA). Tais procedimentos visam ao bem-estar do
animal e orientam os comitês de ética em experimentação animal na
maioria das universidades nacionais e internacionais (2000
REPORT..., 2001).
Xenotransplantação
Com a escassez mundial de doadores de órgãos, a tecnologia da
xenotransplantação representa uma possibilidade de fornecer
células, tecidos e órgãos vivos de outros primatas (espécies
concordantes) e de não-primatas (espécies discordantes) a fim de
transplantá-los para a espécie humana. Assim, o uso de pele de
suínos e secções de vasos sanguíneos, devidamente tratados, em
seres humanos tem sido bem-sucedido.
Entretanto, o uso de órgãos inteiros ainda traz sérias
conseqüências por causa de problemas técnicos relativos, em
especial, à segurança e eficiência do transplante. À parte isso,
vários problemas éticos estão em discussão — e, por isso, sem
regulamentação. Dentre eles, destacam-se:
– valorização da vida humana e vida animal;
– direito dos pacientes transplantados, expresso em termos de
consentimento formal, e avaliação psicológica;
– intervenção governamental mediante leis sobre doação e
recepção de órgãos vigentes em cada país;
– direito dos animais e a regulamentação da pesquisa em
animais;
– riscos associados à transmissão de doenças zoonóticas ou
mesmo xenozoonoses — doenças infecciosas provocadas por mutações que podem ocorrer na recombinação de vírus de
diferentes espécies;
– resultados de estudos clínicos conduzidos em pacientes que
receberam transplantes de órgãos de animais.
Manipulação Genética
Desde a década de 1980, a manipulação genética em animais
revoluciona o conhecimento em todas as áreas da ciência (em
particular na biomedicina e nas ciências biológicas) e a tecnologia
— a transgênese — e os produtos — animais transgênicos — dela
derivados são difundidos no mundo como ferramentas essenciais à
pesquisa em vários sistemas. Destacam-se como:
– modelo de diversas doenças humanas para investigação do
funcionamento anormal e para testes de novas terapias;
– biorreatores capazes de produzir proteínas humanas com
potencial uso médico;
– doadores de órgãos compatíveis com a espécie humana
(xenotransplantação).
Entretanto, essa tecnologia tem ocasionado sérios problemas
bioéticos relativos não só à própria espécie animal, mas também à
humana. No primeiro caso, além da alteração deliberada das
seqüências genéticas do hospedeiro, há grande descarte de animais
produzidos cuja maioria é negativa para a alteração genética
desejada (não-transgênicos). Noutras situações, há a possibilidade
de alterações fisiológicas não esperadas em animais transgênicos
— isto é, a possibilidade de grande sofrimento para o animal e
mesmo de ele contrair doenças graves, a exemplo de tumores
resultantes da inativação de um gene supressor de tumor.
Para os seres humanos, a transgênese representa o thin end of a
wedge, ou seja, a possibilidade de a genética humana ser
manipulada. Ao lado dos xenotransplantes envolvendo animais
transgênicos, essa questão tem sido bastante discutida entre
pesquisadores e a sociedade. Em resumo, a manipulação genética
enfrenta objeções morais porque:
1. altera deliberadamente as seqúências genéticas do hospedeiro;