Pesquisa na área biomédica: do planejamento à publicação
8. Métodos de análise em estudos sobre diagnóstico
8. Métodos de análise em
estudos sobre diagnóstico
Mônica Camargo Sopelete
Introdução
Neste capítulo, serão abordados temas relativos à validação e
análise de testes laboratoriais para fins de diagnóstico ou de
pesquisa. Definições como as de sensibilidade, especificidade e
valores preditivos serão apresentadas, e também os respectivos
cálculos e fatores que as influenciam diretamente. A seguir, serão
abordados alguns conceitos técnicos, tais como ponto de corte e
curva ROC — utilizados em medicina laboratorial. Definições e
exemplos aqui apresentados terão o objetivo de introduzir o leitor na
análise cuidadosa da eficácia dos métodos empregados em
diagnóstico laboratorial e permitir uma análise criteriosa dos
resultados obtidos.
Sensibilidade e especificidade
Quando o resultado de um exame laboratorial chega às mãos do
médico, este deve confirmar ou rejeitar a hipótese diagnóstica
formulada por ele. Assim, o médico necessita de exames que
indiquem, com precisão e exatidão, a presença ou a ausência de
fatores relacionados à doença investigada. A confiança no teste
laboratorial indicado em revelar um resultado real (positivo/negativo)
é importante para maior certeza na hipótese diagnóstica.
Um procedimento laboratorial dicotômico perfeito (onde são
possíveis somente dois resultados: positivo ou negativo) identifica
como positivas as pessoas que, de fato, são doentes e como negativas as pessoas sadias em relação à doença investigada.
Admitindose que um laboratório trabalhe em condições ótimas, com
reagentes de boa qualidade e dentro dos prazos de validade,
técnicas adequadas, pessoal capacitado, equipamentos calibrados e
controle de qualidade adequado, prevê-se então que os desvios de
um resultado real são conseqüência direta da “qualidade intrínseca
do teste”. Logo, conceitos como sensibilidade, especificidade e valor
preditivo de um teste foram criados e definidos para se mensurarem
melhor o grau de confiança e a qualidade intrínseca do teste
laboratorial.
Conforme definido por Galen e Gambino (1975), sensibilidade é “a
positividade na doença”, e especificidade é a “negatividade na
saúde”. Assim:
sensibilidade é a capacidade de um teste ser positivo
(detectar os indivíduos doentes) dentre aqueles efetivamente
doentes.
especificidade é a capacidade de um teste ser negativo
(detectar os indivíduos sadios) dentre aqueles efetivamente
livres da doença.
Para se verificar a validade destes dois parâmetros em um novo
teste, comparam-se seus resultados com aqueles determinados por
técnicas de diagnóstico de certeza (ou não duvidosas) — também
conhecidas como padrão ouro ou gold standard. Um bom exemplo
de teste padrão ouro é um teste que permite determinar o agente
etiológico, tais como métodos de diagnóstico parasitológico em que
se observa a presença de ovos ou parasitos em amostras de fezes.
Sinais patognomônicos de uma doença podem também ser usados
como diagnóstico de certeza de um teste diagnóstico.
Entretanto, em algumas patologias é difícil estabelecer um teste
padrão ouro. Muitas vezes, a opção é pelos testes mais baratos, de
menor complexidade ou menor tempo de execução; em outros
casos, algumas condições clínicas não apresentam critérios de
diagnóstico completamente confiáveis, o que dificulta a
caracterização de um teste padrão ouro. Assim, deve-se ter em mente que esse teste pode não ser perfeito, mas pode ser o
“melhor” à disposição.
Uma vez estabelecidos os valores de sensibilidade e de
especificidade do teste laboratorial numa amostra de indivíduos,
eles podem ser estendidos à população em geral — da qual a
amostra representa uma parcela. Porém, não se trata mais aqui de
investigar “a positividade na doença” nem a “negatividade na
saúde”; mas sim, dentre o total de positivos, determinar quantos são
efetivamente doentes e, do total de negativos, quantos são
efetivamente saudáveis.
Para se determinar a confiança de um novo teste diagnóstico, no
que se refere à detecção dos verdadeiros positivos e dos
verdadeiros negativos, avaliam-se indivíduos doentes e sadios e
seus respectivos resultados frente ao teste padrão ouro. Por
tradição, os dados são organizados conforme a tabela de
contingência representada na Figura 8.1:
NOVO Doença (ou teste padrão Total
TESTE ouro)
Presente Ausente
Positivo Verdadeiros Falsos Total de
positivos positivos positivos
positivos
(a) (b) (a + b)
Negativo Falsos Verdadeiros Total de
negativos negativos negativos
(c) (d) (c + d)
Total Total de Total de Total (a + b + c
doentes (a + sadios (b + + d)
c) d)
FIGURA 8.1 — Representação esquemática de uma tabela de
contingência 2 x 2 demonstrando os resultados de um novo teste
laboratorial frente aos resultados de um teste padrão ouro (doença) Probabilidade do pré-teste ou
Assim, observam-se quatro possíveis tipos de resultados de
acordo com a presença ou não da doença investigada: 1)
verdadeiros positivos — indivíduos que têm a doença e nos quais o
teste foi positivo; 2) verdadeiros negativos — indivíduos que não
têm a doença e nos quais o teste foi negativo; 3) falsos negativos —
indivíduos que têm a doença e nos quais o teste foi negativo; e 4)
falsos positivos — indivíduos que não têm a doença e nos quais o
teste foi positivo. Na tabela, observa-se que o total de doentes é
dado pela somatória dos verdadeiros positivos e falsos negativos, e
o total de sadios, pela somatória dos falsos positivos e verdadeiros
negativos.
Assim:
Posto isso, um teste com 100% de sensibilidade e 100% de
especificidade produziria dois resultados mutuamente exclusivos:
resultado positivo em indivíduos doentes e resultado negativo em
indivíduos saudáveis; resultados discordantes como falsos positivos
e falsos negativos não ocorreriam.
Entretanto, na prática, testes de alta sensibilidade e
especificidade não atingem o valor de 100%. Então, o que significa
um teste com 95% de sensibilidade e 93% de especificidade?
Significa que um teste com 95% de sensibilidade detecta como
positivo 95 indivíduos em 100 indivíduos doentes, ou seja, não
confirma a hipótese diagnóstica em 5 indivíduos doentes que seriam
dados como saudáveis pelo teste. Da mesma forma, um teste com
93% de especificidade fornece 93 resultados negativos em 100
indivíduos saudáveis, mas detecta 7 como doentes dentre os
saudáveis. Vale dizer que a análise da sensibilidade e da
especificidade é feita na vertical na tabela de contingência. A
primeira coluna se relaciona com a sensibilidade; a segunda, com a
especificidade.