Pesquisa na área biomédica: do planejamento à publicação

Estudos observacionais descritivos: série de casos, relato de casos

Estudos observacionais descritivos

 

Um estudo observacional descritivo limita-se a descrever a

ocorrência de uma doença numa população e, com freqüência, é o

primeiro passo em uma investigação epidemiológica. A propriedade

desse tipo de estudo é apresentar uma informação descritiva

limitada, como a que se verifica no estudo de relato ou de uma série

de casos: as características de um número de pacientes com

determinada doença são descritas, mas não comparadas entre si ou

com população de referência. Isso estimula o desencadeamento de

estudos epidemiológicos mais detalhados.

Todavia, mesmo se se considerar o caráter simplista dos estudos

observacionais descritivos, os estudos epidemiológicos são

analíticos pela natureza. Por exemplo, a descrição inicial do quadro

clínico de quatro homens jovens com sintomas de uma pneumonia

previamente caracterizada como rara motivou uma série de estudos

epidemiológicos mais abrangentes, os quais conduziram ao

entendimento de uma condição que ficou conhecida como AIDS.

 

Estudos observacionais analíticos

 

Um estudo observacional analítico tem como propriedade ir além

de um estudo descritivo, pois deve estabelecer relação entre o

status de saúde e outras variáveis. Dentre as modalidades de

estudos observacionais analíticos, destacam-se os estudos

ecológicos, os seccionais, os do tipo caso-controle e os coortes.

Os ecológicos — ou correlacionais — são freqüentemente

derivados de estudos que incluem processos epidemiológicos. Num

estudo ecológico, as unidades de análise são populações ou grupos

de indivíduos, ao invés de indivíduos isolados. Por exemplo, em

dado país, foi demonstrada a relação entre ocorrência da venda de

uma droga contra asma e ocorrência de aumento inesperado no

número de morte de pacientes com crise asmática. Tal relação pode

ser estudada com base na comparação entre populações de

diferentes países ao mesmo tempo, ou de uma mesma população

em intervalos temporais diferentes. Essa última abordagem pode

evitar alguns dos fatores que introduzem erros por causa de diferenças socioeconômicas que representam problema potencial

nos estudos ecológicos.

Os seccionais são empregados para se determinar a prevalência

de uma doença; em razão disso, em geral são denominados de

estudos de prevalência. Nesse tipo de estudo, as mensurações da

exposição e do efeito são realizadas ao mesmo tempo. Não é fácil

identificar razões para as associações demonstradas nos estudos

seccionais. A questão crítica a ser respondida é se a exposição

precede ou segue o efeito observado.

Os estudos do tipo caso-controle são relativamente simples, e de

realização econômica. Muito utilizados para investigar causa de

doenças, em especial as raras, incluem indivíduos com a doença de

interesse e um apropriado grupo-controle de indivíduos não

afetados por ela. A ocorrência de uma possível causa é

estabelecida pela comparação entre os casos e os controles — daí

serem longitudinais os estudos do tipo caso-controle, em contraste

com os seccionais. Além disso, têm sido denominados de

retrospectivos, pois a observação do investigador parte,

retrospectivamente, da doença para uma possível causa. No

entanto, esse termo pode induzir a erros porque “retrospectivo” e

“prospectivo” são termos muito usados para descrever o tempo em

que os dados são colhidos relativamente ao tempo atual. Dito isso,

os estudos do tipo caso-controle podem ser tanto retrospectivos —

quando todos os dados foram colhidos no passado — como

prospectivos — quando os dados continuam a serem obtidos com o

passar do tempo (Figura 5.5A).

Já os estudos coortes, também de incidência ou de seguimento,

são aqueles que se iniciam com um grupo de indivíduos (o coorte)

livre de determinada doença e classificados em diferentes

subgrupos, conforme o grau de exposição a uma causa potencial de

doença (Figura 5.5B).

FIGURA 5.5 — Fluxograma comparativo dos estudos do tipo

caso-controle (A) e coorte (B) utilizados como modelos de estudos.

 

Tanto na especificação e mensuração das variáveis de interesse

quanto no desenvolvimento do estudo, observam-se como vão se

comportar os números subseqüentes de novos casos da doença

entre os diferentes grupos com ou sem exposição. Como os dados

são coletados em intervalos diferentes, os estudos coortes são

também longitudinais — como os estudos do tipo caso-controle.

Embora tenham sido denominados de prospectivos, tal terminologia

deve ser evitada, visto que pode provocar confusão; isso porque o

termo “prospectivo” refere-se ao tempo em que os dados são coletados, e não à relação temporal entre causa e efeito. Assim, os