Pesquisa na área biomédica: do planejamento à publicação
Associação causal
a conseqüente potencial redução da doença com a eliminação de
cada fator de risco.
Os fatores de risco podem ser:
genéticos — genes específicos constituem fatores de risco
para várias doenças (câncer de cólon, osteoporose,
espondilartropatias, dentre outras);
físicos, químicos e biológicos — radiações ionizantes,
drogas, agentes infecciosos, toxinas e outros;
sociais — estresse, luto pela perda do cônjuge, mudanças
bruscas de rotina, dentre outros;
comportamentais — consumo excessivo de bebidas
alcoólicas, promiscuidade sexual, tabagismo, uso de drogas e
outros.
Quatro tipos de fatores podem estar envolvidos na causa de
doenças. Todos podem ser necessários, mas raramente são
suficientes para causar uma doença em particular. São eles:
1. fatores predisponentes: induzem um estado de
susceptibilidade do hospedeiro à doença, por exemplo: idade,
doenças anteriores e sexo;
2. fatores facilitadores: favorecem o desenvolvimento da
doença, a exemplo da baixa condição socioeconômica,
desnutrição, falta de saneamento básico, assistência médica
inadequada, dentre outros;
3. fatores desencadeantes: estão associados com a instalação
da doença, por exemplo: exposição aos agentes biológicos
específicos (bactérias, parasitas, vírus);
4. fatores agravantes: agravam uma doença estabelecida, por
exemplo: exposição repetida ao agente específico.
Associação causal
Refere-se ao processo de determinar se associações observadas
são causais, ou seja, se há relação entre uma possível causa e um
efeito. Antes de analisar a associação para a possibilidade de ser
causal, outras explicações — tais como acaso, viés de seleção e
aferição ou fator de confusão/confundimento (confounding) —
devem ser excluídas (Figura 7.2). Dessa forma, uma associação
pode ser: artificial, quando resultar de vieses na seleção dos
participantes ou na aferição dos dados do estudo; indireta, quando
resultar de outras características que estão intrinsecamente
associadas ao fator de risco ou à doença em estudo (fator de
confusão ou acaso); causal, quando resultar da interação entre
fatores etiológicos e de risco para o desenvolvimento da doença.
FIGURA 7.2 — Representação esquemática das diferentes
possibilidades de associação entre fatores de risco (exposição) e
doença (evento)
Um conjunto de critérios estabelecido, desde 1965, pelo
estatístico britânico Sir Austin Bradford-Hill tem sido bastante
utilizado para julgar se dada relação entre causa e efeito é causal ou
apenas associação. Dentre eles, destacam-se, de forma resumida:
1. temporalidade ou relação temporal: a causa (exposição)
deve sempre preceder o efeito, sobretudo em estudos
transversais e de caso-controle, nos quais a causa e o efeito
são avaliados ao mesmo tempo;
2. reprodutibilidade ou consistência da associação: resultados
semelhantes são demonstrados em diversos estudos, em
tempos e locais diferentes e em diferentes populações;
3. intensidade ou força da associação: uma forte associação
(expressa por um alto valor numérico de risco relativo ou risco
absoluto) é mais provável ser causal que uma fraca associação
(baixo valor numérico do risco), que pode ser influenciada por
viés ou fator de confusão;
4. especificidade: uma causa deve estar relacionada com um
efeito (observável geralmente em doenças agudas), mas há
muitas causas para o mesmo efeito ou muitos efeitos relativos à
mesma causa (em geral, visto em doenças crônico-
degenerativas);
5. relação dose–resposta: variações na quantidade de exposição
estão associadas com variações na incidência do efeito;
6. reversibilidade: a remoção de uma possível causa reduz o
efeito ou risco da doença;
7. plausibilidade biológica: os resultados devem ser coerentes
com os conhecimentos existentes na época e validados em
pesquisas anteriores;
8. analogia: relação de causa e efeito já estabelecida em outros
exemplos semelhantes.
Nem todos esses critérios têm o mesmo valor na decisão sobre
causalidade. Um critério presente fortalece a associação causal; se
ausente, outras evidências devem ser verificadas.
Na análise crítica de artigos científicos sobre causalidade,
algumas questões referentes a esses critérios devem ser
consideradas e respondidas pelo leitor para constatação de que os
resultados refletem, de fato, uma associação causal:
Há evidência de experimentos reais em seres humanos ou em
animais de experimentação?
A associação é forte?
A associação é consistente de estudo para estudo?
A relação temporal é correta?
Existe relação entre intensidade da exposição e freqüência ou
intensidade da doença?
A associação faz sentido epidemiologicamente? A associação
faz sentido biologicamente?
A associação é específica?