Pesquisa na área biomédica: do planejamento à publicação
História natural da doença versus curso clínico
curso clínico
O prognóstico pode ser descrito tanto em relação à história
natural quanto ao curso clínico de uma doença.
A evolução sem intervenção médica, denominada história natural
da doença, descreve como os pacientes vão evoluir se nada for feito
por eles. Estudos prognósticos dessa categoria ocorrem mesmo em
países com sistema de saúde avançado, pois doenças que evoluem
de maneira muito insidiosa ou inespecífica raramente levam o
paciente, com pouca sintomatologia, a procurar serviço médico.
Exemplos típicos são o linfoma não-Hodgkin de baixo grau, a
síndrome da fadiga crônica e a distimia.
Doenças cujo prognóstico se altera pela terapêutica proposta são
descritas pelo seu curso clínico. Habitualmente, são doenças que
provocam sintomas comprometedores das funções do paciente ou,
no mínimo, sua sensação de bem-estar; ou ocasionam sinais mais
alarmantes, tais como febre, sangramentos ou dores incapacitantes.
Neoplasias malignas gastrintestinais e disfunções tireoidianas são
exemplos importantes.
Tempo zero
Estudos de prognóstico são, em geral, estudos de coorte em que
os pacientes selecionados apresentam uma condição comum
(doença) e são acompanhados prospectivamente quanto aos
desfechos clínicos, avaliando-se os fatores associados a tais
desfechos (fatores prognósticos). Tal situação é semelhante aos
estudos de coorte sobre causalidade (fatores de risco). Cumpre
ressaltar, no entanto, que os fatores prognósticos são estudados em
indivíduos doentes e os fatores de risco em pessoas saudáveis da
população.
Ao se realizar um estudo de prognóstico, deve-se deixar claro o
momento a partir do qual o paciente foi incluído no estudo, o chamado tempo zero — início dos sintomas, diagnóstico da doença
ou início do tratamento —, que deve ser o mesmo para todos os
pacientes. Os estudos de coorte de prognóstico partem dessa
marca no tempo, objetivando a uniformidade de características, bem
como avaliar com maior precisão a evolução desses pacientes ao
longo do tempo. Isso porque há diferentes momentos em que se
pode abordar uma doença. Casos exemplificativos seriam: um
paciente ter um tumor benigno de supra-renal evidenciado ao acaso
por uma ultra-sonografia de abdômen solicitada por suspeita de
cálculos em vesícula biliar — constituindo o chamado
“incidentaloma” — ou uma análise histopatológica conclusiva de
carcinoma broncogênico de pulmão quando a doença já se encontra
disseminada. Talvez num futuro não muito distante, o diagnóstico
pré-clínico da doença possa ser feito por análise rotineira de DNA,
flagrando-se uma alteração genética em estágio inicial.
A Figura 9.1 representa esquematicamente as diferentes fases do
curso clínico de uma doença.
I - instalação biológica da doença
P - evidência patológica da doença
S - sinais e sintomas da doença
M - procura de cuidados médicos
D - diagnóstico
T - tratamento
FIGURA 9.1 — Fases evolutivas do curso clínico de uma doença
Deve-se esclarecer que, se em determinada amostra de pacientes
houver indivíduos incluídos no estudo de prognóstico, mas que
estejam em diferentes fases da doença, certamente haverá
sobreposição de informações quanto aos diferentes estágios da
enfermidade e repercussões específicas. Nesse caso não haverá,
portanto, coleta de dados homogêneos e confiáveis sobre a real
evolução ao longo do tempo e a partir de um mesmo ponto da
doença, com ou sem tratamento.