Pesquisa na área biomédica: do planejamento à publicação
Expressando prognóstico
Ao se descrever o prognóstico, fala-se primariamente de morte,
seja em relação ao número de mortos em razão da doença
(letalidade) ou de sobreviventes acometidos por uma determinada
doença (sobrevida). Como a morte é um fenômeno universal, tal
análise não se aplica à sua ocorrência ou não, mas à repercussão
de um novo tratamento bem como ao benefício advindo da
precocidade diagnóstica sobre as curvas de sobrevida.
Também aqui devem ser incluídas manifestações consideradas
importantes para os pacientes, tais como dor, incapacidade
funcional e fadiga, por interferirem na qualidade de vida ou no
estado funcional deles, e não só mencionar os dados quantitativos,
mesmo porque, para alguns tratamentos meramente paliativos ou
apenas sintomáticos, o objetivo é justamente a melhoria da
qualidade de vida dos pacientes, ainda que se saiba que não haverá
possibilidade de sobrevida. Um bom exemplo é o tratamento inicial
com zidovudina (AZT) em pacientes HIV positivos com infecção leve
sintomática: resultados mostraram um pequeno benefício em
retardar a progressão da doença (média de 0,9 meses), mas efeitos
adversos causados por tal medicamento prejudicaram a qualidade
de vida desses pacientes.
O prognóstico de uma doença pode ser caracterizado por valores
numéricos expressos por diferentes taxas: letalidade, sobrevida em
cinco anos, sobrevida observada, resposta, remissão e recidiva
(Quadro 9.1).
Taxas Definição
Letalidade Percentual de pacientes mortos
devido à doença em estudo
Sobrevida em cinco Percentual de pacientes
anos sobreviventes cinco anos a
partir de um tempo zero
Sobrevida observada Percentual de pacientes
sobreviventes,
independentemente do tempo
de evolução
Resposta Percentual de pacientes que
mostram sinais de melhora após
intervenção terapêutica e/ou
cirúrgica
Remissão Percentual de pacientes que
atingem uma fase indetectável
da doença
Recidiva/Recorrência Percentual de pacientes cuja
doença retorna após um
intervalo de tempo sem a
doença
QUADRO 9.1 — Medidas de prognóstico
Letalidade
A taxa de letalidade revela a proporção entre o número de
pessoas que morrem da doença e o número de pessoas que têm a
doença. Seu cálculo é realizado através da seguinte fórmula:
É importante estabelecer a diferença entre taxa de letalidade e a
de mortalidade; nesta, o denominador é composto por todas as
pessoas com risco de ter a doença, um universo constante de
100.000 indivíduos, e não apenas pelos doentes (ver capítulo 5 para
maiores detalhes).
A taxa de letalidade não pode ser expressa em relação ao tempo
e, em geral, é usada para doenças mais agudas, cuja ocorrência de
óbito — se houver — é esperada pouco tempo após o diagnóstico,
havendo nexo causal consistente entre o óbito e a doença. São
exemplos: doenças infecciosas tais como a hantavirose e
meningococcemia com purpura fulminans, e eventos
cardiovasculares como o infarto agudo do miocárdio extenso, todas
elas consideradas altamente letais.
No caso de doenças crônicas, de longa evolução, em que a morte
pode ocorrer até muitos anos após o diagnóstico — ou poder ser
determinada por outras causas —, a taxa de letalidade deixa de ser
relevante, e são utilizadas outras análises prognósticas mais
pertinentes.
Sobrevida em Cinco Anos
Medida muito utilizada na prática clínica, sobretudo na avaliação
de tratamentos oncológicos, a taxa de sobrevida em cinco anos
expressa a porcentagem de pacientes que deverão estar vivos cinco
anos após o início do tratamento ou cinco anos após o diagnóstico.
Tal período é utilizado em virtude de a maioria das mortes por
câncer ocorrer nesse intervalo de tempo, e não pelo fato de haver
alguma relação biológica com a doença ou mesmo com a resposta à
quimioterapia ou radioterapia, tratamentos usualmente ministrados.
Ao se utilizar essa taxa, algumas limitações são observadas. Nos
últimos anos, tais limitações ocorrem de forma crescente pelo fato
de grande parte da população se submeter a programas de
screening (triagem), como aqueles relacionados às áreas não
oncológicas, a exemplo da detecção de diabetes mellitus e de
hipertensão arterial, recentemente promovidos no Brasil.
No que se refere às doenças oncológicas, o surgimento de novas
tecnologias, sobretudo aquelas relativas ao campo de imagem,
como uma simples radiografia de tórax, têm permitido a detecção
mais precoce de muitos tipos de câncer, propiciando, se não a
possibilidade efetiva de cura, pelo menos maior sobrevida a
pacientes acometidos. Com essa maior sobrevida, fica
comprometida a análise por tempo determinado, sobretudo por
cinco anos.
Na prática clínica, já se considera que uma determinada amostra
da população, que conta agora com exames de imagem facilmente
acessíveis, apresente um maior número de casos de câncer de
pulmão, e seja feita uma detecção mais precoce desta doença. É de
se esperar que, dentro dessa amostra, alguns pacientes sobrevivam
além dos cinco anos, o que geraria, nesse caso, uma taxa de
sucesso. Como exemplo, podemos citar um indivíduo tabagista de
60 anos de idade que procura um serviço médico por apresentar
tosse com escarro sanguinolento e emagrecimento — sintomas com
dois meses de evolução. Esse indivíduo teve um câncer de pulmão
diagnosticado em 1998 e morreu em 2001. Pela análise da taxa de
sobrevida em cinco anos, ele não é considerado caso de sucesso,
por ter sobrevivido apenas por três anos.
Em outro cenário, tomando-se esse mesmo indivíduo, considere-
se que, dessa vez, ele procurou um serviço médico por apresentar
um quadro gastrintestinal em 1995. O médico da comunidade,
interessado na promoção da saúde como um todo, percebe que se
trata de um paciente com sinais clínicos de uma doença pulmonar
obstrutiva crônica, solicitando uma radiografia de tórax de rotina, só
com o intuito de avaliar alterações esperadas para aquela doença.
No entanto, o médico se depara com um nódulo de pequeno
tamanho em um dos pulmões, considerado maligno pela biópsia
analisada. Submetido à ressecção do nódulo e a sessões de
quimioterapia e radioterapia adjuvantes, o paciente sobrevive até
2001; mantevese vivo, portanto, por seis anos, pois o diagnóstico
fora estabelecido em 1995. Conclui-se que a história natural da
doença não se alterou, porém, pela análise da taxa de sobrevida em
cinco anos, o mesmo paciente, em dois cenários diferentes, pode
ser analisado com resultados distintos.
Outra limitação ocorre com casos diagnosticados em menos de
cinco anos, pois o curto período de observação não é suficiente
para se coletarem dados necessários à análise em questão.
Sobrevida Observada
Se a análise da sobrevida em cinco anos tem a séria limitação de
não se incluírem nela pacientes com menos de cinco anos de
doença, um outro tipo de medida de prognóstico — sobrevida
observada — consegue expressar a evolução da doença no que se
refere à probabilidade de o indivíduo ainda estar vivo, não
importando o tempo de evolução da doença.
Assim, pode-se determinar, ano a ano, a chance que o indivíduo
doente tem de se manter vivo. Mais ainda: tem-se a possibilidade de
calcular cumulativamente a chance de sobrevida ao final do período
observado ao se utilizarem as probabilidades calculadas para cada
ano daquele período de tempo.
Para se entender tal processo, será utilizada uma tabela (Tabela
9.1) que inclui indivíduos doentes acompanhados em diferentes
períodos: mínimo de um e máximo de cinco anos. Nesse exemplo,
estão incluídos cinco grupos de pacientes diagnosticados com uma
doença hipotética, com cada grupo incluído em cada um dos cinco
anos de seguimento; não se considerará abandono de tratamento a
fim de se facilitar a compreensão do processo de cálculo.
TABELA 9.1 — Pacientes vivos ao final de cada ano
em seguimento de cinco anos
Ano de º º N de N DE PACIENTES VIVOS
inclusão pacientes DURANTE SEGUIMENTO
tratados 1996 1997 1998 1999 2000
1995 150 100 55 22 7 2
1996 146 92 50 20 6
1997 135 85 43 18
1998 148 97 48
1999 129 89
TOTAL 708
Esses dados mostram: no grupo com tratamento iniciado em
1995, dos 150 pacientes incluídos no tratamento, 100 estavam vivos
um ano depois, 55 estavam vivos dois anos depois e, assim, por
diante. Se todos os pacientes disponíveis para análise nessa tabela
fossem utilizados, a taxa de sobrevida de cinco anos não poderia
ser utilizada, já que nem todos os 708 indivíduos incluídos foram
observados no período.
Para que se possa calcular as probabilidades de sobrevida, ano a
ano, assim como a probabilidade acumulada ao fim dos cinco anos
de seguimento, os dados contidos na Tabela 9.1 serão dispostos em
uma nova tabela (Tabela 9.2). Agrupam-se agora os pacientes a
cada ano completo de tratamento, independentemente do ano de
inclusão.
TABELA 9.2 — Pacientes da Tabela 9.1 ordenados
por conclusão de ano de tratamento
Ano de º º N de N DE PACIENTES VIVOS
inclusão pacientes DURANTE SEGUIMENTO
tratados 1° 2° 3° 4° 5°
ano ano ano ano ano
1995 150 100 55 22 7 2
1996 146 92 50 20 6
1997 135 85 43 18
1998 148 97 48
1999 129 89
TOTAL 708 463 196 60 13 2
Utilizando agora os dados da Tabela 9.2, serão calculadas as
probabilidades de sobrevida ao final de cada ano de conclusão do
tratamento (P1, P2, P3, P4 e P5), assim como a probabilidade de o
paciente estar vivo ao final de cinco anos.
Temos, então:
P1 = 463 / 708 = 0,65 = 65%, ou seja, a probabilidade de o
paciente sobreviver ao primeiro ano de tratamento é de 65%;
P2 = 196 / 463 - 89 = 0,52 = 52% é o percentual de chance de
sobrevivência ao segundo ano de tratamento entre aqueles que
sobreviveram ao primeiro ano.
Uma questão se impõe: por que foram subtraídos os 89 pacientes
incluídos em 1999? Pelo fato de terem sido acompanhados apenas
durante o primeiro ano.
P3 = 60 / 196 - 48 = 0,4 = 40% é a probabilidade de sobrevida ao
final do terceiro ano de tratamento entre os sobreviventes ao
segundo ano de tratamento. Dessa vez, foram excluídos 48
pacientes que só foram seguidos por apenas dois anos.
P4 = 13 / 60 – 18 = 0,31 = 31% é a probabilidade de sobrevida ao
final do quarto ano de tratamento entre os pacientes que
sobreviveram ao terceiro ano. Dessa vez, foram excluídos 18
pacientes que foram seguidos por apenas três anos.
P5 = 2 / 13 – 6 = 0,29 = 29% é a probabilidade de sobrevida ao
final do quinto ano de tratamento para aqueles que estavam vivos
ao final de quatro anos de tratamento. Dessa vez, excluíram-se seis
pacientes que foram seguidos por apenas quatro anos.
E quanto às probabilidades cumulativas? Qual é a probabilidade
de sobrevida após dois anos de tratamento entre os que iniciam o
tratamento? Ou então: qual é a probabilidade final após cinco anos
de seguimento em relação a todos que iniciaram o tratamento?
No caso em questão, como se questiona a probabilidade de
sobrevida após um ou mais anos, deve-se multiplicar as
probabilidades calculadas para cada ano e que elas estejam de
acordo com o período desejado. Assim, qual é a probabilidade de
um indivíduo incluído no estudo estar vivo ao final de três anos de
tratamento? A resposta é 13%. Esse resultado é produto da
multiplicação das probabilidades P1, P2 e P3, ou seja, das
probabilidades calculadas para cada um dos três primeiros anos.
Assim:
P1 x P2 x P3 = 0,65 x 0,52 x 0,4 = 0,13 = 13%
A Tabela 9.3, a seguir, demonstra as probabilidades cumulativas
de sobrevida para os diferentes períodos de tempo já citados.
TABELA 9.3 — Probabilidades cumulativas de sobrevida
SOBREVIDA PROBABILIDADES CÁLCULO DAS P
POR PROBABILIDADES FINAL
1 ano P1 0,65 65%
2 anos P1 x P2 0,65 x 0,52 = 0,34 34%
3 anos P1 x P2 x P3 0,65 x 0,52 x 0,4 = 13%
0.13
4 anos P1 x P2 x P3 x P4 0,65 x 0,52 x 0,4 x 4%
0,31 = 0,04
5 anos P1 x P2 x P3 x P4 x 0,65 x 0,52 x 0,4 x 1%
P5 0,31 x 0,29 =0,01
O que se observa neste exemplo hipotético é que há um aumento
gradativo da mortalidade com o passar dos anos, de maneira que os indivíduos, ano a ano, apresentam menor chance de sobrevida, com