A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Allan Kardec · Capítulo 33 de 81 · parte 2/2

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A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Uranografia geral

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

num enorme bloco de gelo, na embocadura do Lena, na Sibéria, e que foi descrito pelo naturalista

Adams. Os iacutos das circunvizinhanças lhe despedaçaram as carnes para alimentar seus cães. A

pele se achava coberta de pelos negros e o pescoço guarnecia-o espessa crina. A cabeça sem as

defesas, que mediam mais de 4 metros, pesava mais de 200 quilos. Seu esqueleto está no museu

de São Petersburgo. Nas ilhas e nas bordas do mar glacial encontra-se tão grande quantidade de

defesas, que elas fazem objeto de considerável comércio, sob o nome de marfim fóssil ou da Sibéria.

 

143

Capítulo VII

 

das águas nos sítios onde se tinham refugiado e donde não puderam fugir.

Assim se explica a grande quantidade de ossadas de animais diversos, car-

nívoros e outros, que são encontrados de mistura em certas cavernas, que

por essa razão foram chamadas brechas ou cavernas ossosas. são encontradas

as mais das vezes sob as estalagmites. nalgumas, as ossadas parecem ter

sido arrastadas para ali pela correnteza das águas.78

 

Período pós-diluviano ou atual.79

 

Nascimento do homem

 

48. uma vez restabelecido o equilíbrio na superfície do planeta,

prontamente a vida vegetal e animal retomou o seu curso. consolidado,

o solo assumiu uma colocação mais estável; o ar, purificado, se tornara

apropriado a órgãos mais delicados. o sol, brilhando em todo o seu es-

plendor através de uma atmosfera límpida, difundia, com a luz, um calor

menos sufocante e mais vivificador do que o da fornalha interna. A terra

se povoava de animais menos ferozes e mais sociáveis; mais suculentos,

os vegetais proporcionavam alimentação menos grosseira; tudo, enfim,

se achava preparado no planeta para o novo hóspede que o viria habi-

tar. Apareceu então o homem, último ser da criação, a inteligência desse

ser concorreria, dali em diante, para o progresso geral, progredindo ele

próprio.

49. o homem só terá existido na terra depois do período diluvia-

no, ou terá surgido antes dessa época? Questão é esta muito controver-

tida hoje, mas sua solução, seja qual for, nada mudará no conjunto dos

fatos verificados, nem fará que o aparecimento da espécie humana não

seja anterior, de muitos milhares de anos, à data que lhe assina a gênese

bíblica.

o que fez se supusesse que o advento dos homens ocorreu poste-

riormente ao dilúvio foi o fato de se não ter achado vestígio autêntico da

sua existência no período anterior. As ossadas descobertas em diversos

 

78 Nota de Allan Kardec: Conhece-se grande número de cavernas semelhantes, algumas de enorme ex-

tensão. Várias existem, no México, de muitas léguas. A de Aldesberg, em Carniola (Áustria), tem nada

menos de três léguas. Uma das mais notáveis é a de Gailenreuth, no Würtemberg. Há muitas delas na

França, na Inglaterra, na Alemanha, na Itália (Sicília) e outros países da Europa.

79 N.E.: Corresponde atualmente à época do Holoceno, no Período Quaternário, da Era Cenozoica; época

atual.

 

144

Esboço geológico da Terra

 

lugares e que geraram a crença na existência de uma raça de gigantes an-

tediluvianos foram reconhecidas como de elefantes.

o que está fora de dúvida é que não existia o homem, nem no pe-

ríodo primário, nem no de transição, nem no secundário, não só porque

nenhum traço dele se descobriu, como também porque não havia para

ele condições de vitalidade. se o seu aparecimento se deu no terciário,

só pode ter sido no fim do período e bem pouco então se há de ele ter

multiplicado.

Ademais, por haver sido curto, o período antediluviano não deter-

minou mudanças notáveis nas condições atmosféricas, tanto que eram os

mesmos os animais, antes e depois dele; não é, pois, impossível que o apa-

recimento do homem tenha precedido esse grande cataclismo; está hoje

comprovada a existência do macaco naquela época e recentes descobertas

parecem confirmar a do homem.80, 81

como quer que seja, tenha o homem aparecido ou não antes do

grande dilúvio universal, o que é certo é que o seu papel humanitário

somente no período pós-diluviano começou a esboçar-se. pode-se, por-

tanto, considerar caracterizado pela sua presença esse período.

 

80 Nota de Allan Kardec: Veja-se: O homem antediluviano, por Boucher de [Chévecoeur de] Perthes. — Os

instrumentos de pedra, idem. — Discurso sobre as revoluções do globo, por Georges Cuvier, anotado

pelo Dr. Hoefer.

81 N.E.: Atualmente se sabe que a existência da espécie humana remonta a 3 milhões de anos, o que

corresponde ao Plioceno, última época do período Terciário.

 

145

cApítulo viii

 

M

 

teorias sobre a

 

formação da terra

 

• teoria da projeção • teoria da condensação

• teoria da incrustação • Alma da terra

 

Teoria da projeção

 

1. de todas as teorias concernentes à origem da terra, a que al-

cançou maior voga, nestes últimos tempos,82 é a de Buffon,83 quer pela

posição que ele desfrutava no mundo sábio, quer pela razão de não se

saber mais do que ele disse naquela época.

vendo que todos os planetas se movem na mesma direção, do oci-

dente para o oriente, e no mesmo plano, a percorrer órbitas cuja inclina-

ção não passa de 7 graus e meio, concluiu buffon, dessa uniformidade,

que eles hão de ter sido postos em movimento pela mesma causa.

de igual ponto de vista, formulou a suposição de que, sendo o sol

uma massa incandescente em fusão, um cometa se haja chocado com

ele e, raspando-lhe a superfície, tenha destacado desta uma porção que,

projetada no espaço pela violência do choque, se dividiu em muitos frag-

mentos, formando esses fragmentos os planetas, que continuaram a mo-

ver-se circularmente, pela combinação das forças centrífuga e centrípeta,

 

82 N.E.: Final do século XVIII e a primeira metade do século XIX.

83 N.E.: Georges Louis Leclerc de Buffon (1707–1788), naturalista francês.

Capítulo VIII

 

no sentido dado pela direção do choque primitivo, isto é, no plano da

eclíptica.

os planetas seriam assim partes da substância incandescente do sol

e, por conseguinte, também teriam sido incandescentes, em sua origem.

levaram para se resfriar e consolidar tempo proporcionado aos seus vo-

lumes respectivos e, quando a temperatura o permitiu, a vida lhes des-

pontou na superfície.

em virtude do gradual abaixamento do calor central, a terra che-

garia, ao cabo de certo tempo, a um estado de resfriamento completo; a

massa líquida se congelaria inteiramente e o ar, cada vez mais condensa-

do, acabaria por desaparecer. o abaixamento da temperatura, tornando

impossível a vida, acarretaria a diminuição, depois o desaparecimento de

todos os seres organizados. tendo começado pelos polos, o resfriamento

ganharia pouco a pouco todas as regiões, até ao equador.

tal, segundo buffon, o estado atual da lua que, menor do que a

terra, seria hoje um mundo extinto, do qual a vida se acha para sempre

excluída. o próprio sol viria a ter, afinal, a mesma sorte. de acordo com

os seus cálculos, a terra teria gasto cerca de 74.000 anos para chegar à sua

temperatura atual e dentro de 93.000 anos veria o termo da existência da

natureza organizada.

2. A teoria de buffon, contraditada pelas novas descobertas da

ciência, está presentemente abandonada, quase de todo, pelas razões

seguintes:

1a durante longo tempo, acreditou-se que os cometas eram corpos

sólidos, cujo encontro com um planeta podia ocasionar a destruição deste

último. nessa hipótese, a suposição de buffon nada tinha de improvável.

sabe-se, porém, agora, que os cometas são formados de uma matéria ga-

sosa, bastante rarefeita,84 entretanto, para que se possam perceber estrelas

de grandeza média através de seus núcleos. nessas condições, oferecendo

menos resistência do que o sol, impossível é que, num choque violento

com este, eles sejam capazes de arremessar ao longe qualquer porção da

massa solar.

84 N.E.: A Ciência atualmente define os cometas como blocos de gelo e rocha com alguns quilômetros

de extensão; quando um cometa se aproxima do Sol, o gelo superficial se evapora, formando uma

“bola” de vapor que adquire a forma de longa cauda.

Hoje, sabemos que os cometas não são tão inofensivos quando se chocam com planetas; mas em

choque com o Sol não causaria qualquer dano a essa estrela.

 

148

Teorias sobre a formação da Terra

 

2a A natureza incandescente do sol é também uma hipótese, que

nada, até o presente, confirma, que, ao contrário, as observações parecem

desmentir. se bem ainda não haja certeza quanto à sua natureza, os po-

derosos meios de observação de que hoje dispõe a ciência hão permitido

que ele seja melhor estudado, de modo a admitir-se, em geral, que é um

globo composto de matéria sólida, cercada de uma atmosfera luminosa,

ou fotosfera, que não se acha em contato com a sua superfície.85

3a Ao tempo de buffon, somente se conheciam os seis planetas

de que os antigos eram conhecedores: mercúrio, vênus, terra, marte,

Júpiter e saturno. descobriram-se depois outros em grande número, três

dos quais, principalmente, Juno, ceres e palas, têm suas órbitas inclina-

das de 13, 10 e 34 graus, o que não concorda com um movimento único

de projeção.86

4a reconheceram-se absolutamente inexatos os cálculos de buffon

acerca do resfriamento, desde que fourier descobriu a lei do decresci-

mento do calor. A terra não precisou apenas de 74.000 anos para chegar

à sua temperatura atual, mas de alguns milhões de anos.87

5a buffon unicamente considerou o calor central da terra, sem le-

var em conta o dos raios solares. ora, é sabido hoje, em presença de

dados científicos de rigorosa precisão, obtidos pela experiência, que, em

virtude da espessura da crosta terrestre, o calor interno do globo não con-

tribui, de há muito, senão em parcela insignificante, para a temperatura

da superfície exterior. são periódicas as variações que essa temperatura

sofre e devidas à ação preponderante do calor solar (cap. vii, item 25).

permanente que é o efeito dessa causa, ao passo que o do calor central é

nulo, ou quase nulo, a diminuição deste não pode trazer à superfície da

terra sensíveis modificações. para que a terra se tornasse inabitável pelo

resfriamento, fora necessária a extinção do sol.88

 

85 Nota de Allan Kardec: Completa dissertação, à altura da ciência moderna, sobre a natureza do Sol e

dos cometas, se encontra nos Estudos e leituras sobre a Astronomia, de Camille Flammarion.

86 N.E.: Juno, Ceres e Palas são alguns dos mais de 4.000 asteroides identificados pelos astrônomos;

asteroides são fragmentos de rocha que giram em torno do Sol.

87 N.E.: Estima-se que a Terra tenha iniciado seu processo de formação há 4.600 milhões de anos.

O processo de solidificação da crosta teria ocorrido nos primeiros 500 milhões de anos.

88 Nota de Allan Kardec: Vejam-se, para maiores esclarecimentos sobre este assunto e sobre a lei do

decrescimento do calor: Cartas acerca das revoluções do globo, pelo Dr. Bertrand, ex-aluno da Escola

Politécnica de Paris, carta II. — Esta obra, à altura da ciência moderna, escrita com simplicidade e sem

espírito de sistema, encerra um estudo geológico de grande interesse.

 

149

Capítulo VIII

 

Teoria da condensação

 

3. A teoria da formação da terra pela condensação da matéria cós-

mica é a que hoje prevalece na ciência, como a que a observação melhor

justifica, a que resolve maior número de dificuldades e que se apoia, mais

do que todas as outras, no grande princípio da unidade universal. é a que

deixamos exposta acima, no cap. vi: Uranografia geral.

estas duas teorias, como se vê, conduzem ao mesmo resultado:

estado primitivo, de incandescência, do globo; formação de uma crosta

sólida pelo resfriamento; existência do fogo central e aparecimento da

vida orgânica, logo que a temperatura a tornou possível. diferem, no

entanto, em pontos essenciais e é provável que, se buffon vivesse atual-

mente, adotaria outras ideias.

A geologia toma a terra no ponto em que é possível a observação

direta. seu estado anterior, por escapar à observação, só pode ser conjetu-

ral. ora, entre duas hipóteses, o bom senso diz que se deve preferir a que

a lógica sanciona e que mais acorde se mostra com os fatos observados.

 

Teoria da incrustação

 

4. Apenas por não deixar de mencioná-la, falamos desta teoria, que

nada tem de científica, mas, que, entretanto, conseguiu certa repercus-

são nos últimos tempos e seduziu algumas pessoas. Acha-se resumida na

carta seguinte:

“deus, segundo a Bíblia, criou o mundo em seis dias, quatro mil

anos antes da era cristã. essa afirmativa os geólogos a contestam, firma-

dos no estudo dos fósseis e dos milhares de caracteres incontestáveis de

vetustez que transportam a origem da terra a milhões de anos. entretan-

to, a escritura disse a verdade e também os geólogos. e foi um simples

campônio89 quem os pôs de acordo, ensinando que o nosso globo não é

mais do que um planeta incrustador, muito moderno, composto de ma-

teriais muito antigos.

“Após o arrebatamento do planeta desconhecido, que chegara à ma-

turidade, ou de harmonia com o que existiu no lugar que hoje ocupa-

mos, a alma da terra recebeu ordem de reunir seus satélites, para formar

 

89 Nota de Allan Kardec: Miguel de Figagnères (Var), autor da Chave da vida.

 

150

Teorias sobre a formação da Terra

 

a terra atual, segundo as regras do progresso em tudo e por tudo. Quatro

apenas desses astros concordaram com a associação que lhes era proposta.

só a lua persistiu na sua autonomia, visto que também os globos têm o

seu livre-arbítrio. para proceder a essa fusão, a alma da terra dirigiu aos

satélites um raio magnético atrativo, que pôs em estado cataléptico todo

o mobiliário vegetal, animal e hominal que eles possuíam e que trouxe-

ram para a comunidade. A operação teve por únicas testemunhas a alma

da terra e os grandes mensageiros celestes que a ajudaram nessa grande

obra, abrindo aqueles globos para lhes dar entranhas comuns. praticada a

soldadura, as águas se escoaram para os vazios que a ausência da lua dei-

xara. As atmosferas se confundiram e começou o despertar ou a ressurrei-

ção dos germens que estavam em catalepsia. o homem foi o último a ser

tirado do estado de hipnotismo e se viu cercado da luxuriante vegetação

do paraíso terrestre e dos animais que pastavam em paz ao seu derredor.

tudo isto se podia fazer em seis dias, com obreiros tão poderosos como

os que deus encarregara da tarefa. o planeta Ásia trouxe a raça amarela,

a de civilização mais antiga; o África, a raça negra; o Europa, a raça branca

e o América, a raça vermelha.

“Assim, certos animais, de que apenas os despojos são encontrados,

nunca teriam vivido na terra atual, mas teriam sido transportados de

outros mundos desmanchados pela velhice. os fósseis, que se encontram

em climas sob os quais não teriam podido existir neste mundo, viviam

sem dúvida em zonas muito diferentes nos globos onde nasceram. tais

despojos na terra se encontram nos polos, ao passo que os animais vi-

viam no equador dos globos a que pertenciam.”

5. esta teoria tem contra si os mais positivos dados da ciência ex-

perimental, além de que deixa intacta a questão mesma que ela pretende

resolver, a questão da origem. diz, é certo, como a terra se teria formado,

mas não diz como se formaram os quatro mundos que se reuniram para

constituí-la.

se as coisas se houvessem passado assim, como se explicaria a ine-

xistência absoluta de quaisquer vestígios daquelas imensas soldaduras,

não obstante terem ido até as entranhas do globo? cada um daqueles

mundos, o Ásia, o África, o europa e o América, que se pretende ha-

verem trazido os materiais que lhes eram próprios, teria uma geologia

particular, diferente da dos demais, o que não é exato. Ao contrário, vê-se,

 

151

Capítulo VIII

 

primeiramente, que o núcleo granítico é uniforme, de composição ho-

mogênea em todas as partes do globo, sem solução de continuidade. de-

pois, as camadas geológicas se apresentam de formação igual, idênticas

quanto à constituição, superpostas, em toda parte, na mesma ordem,

contínuas, sem interrupção, de um lado a outro dos mares, da europa

à Ásia, à África, à América, e reciprocamente. essas camadas que dão

testemunho das transformações do globo, atestam que tais transforma-

ções se operaram em toda a sua superfície e não, apenas, numa porção

desta; mostram os períodos de aparecimento, existência, e desapareci-

mento das mesmas espécies animais e vegetais, nas diferentes partes do

mundo, igualmente; mostram a fauna e a flora desses períodos recuados

a marcharem simultaneamente por toda parte, sob a influência de uma

temperatura uniforme, e a mudar por toda parte de caráter, à medida que

a temperatura se modifica. semelhante estado de coisas não se concilia

com a formação da terra por adjunção de muitos mundos diferentes.

Ademais, é de perguntar-se o que teria sido feito do mar, que ocu-

pa o vazio deixado pela lua, se esta não se houvesse recusado a reunir-se

às suas irmãs. Que aconteceria à terra atual, se um dia a lua tivesse a

fantasia de vir tomar o seu lugar, expulsando deste o mar?

6. semelhante sistema seduziu algumas pessoas, porque parecia ex-

plicar a presença das diferentes raças de homens na terra e a localização

delas. mas, uma vez que essas raças puderam proliferar em mundos dis-

tintos, por que não teriam podido desenvolver-se em pontos diversos do

mesmo globo? é querer resolver uma dificuldade por meio de outra difi-

culdade maior. efetivamente, quaisquer que fossem a rapidez e a destreza

com que a operação se praticasse, aquela junção não se houvera podido

realizar sem violentos abalos. Quanto mais rápida ela fosse, tanto mais

desastrosos haviam de ser os cataclismos. parece, pois, impossível que

seres apenas mergulhados em sono cataléptico hajam podido resistir-lhes,

para, em seguida, despertarem tranquilamente. se fossem unicamente

germens, em que consistiriam? como é que seres inteiramente formados

se reduziriam ao estado de germens? restaria sempre a questão de saber-

-se como esses germens novamente se desenvolveram. Ainda aí, teríamos

a terra a formar-se por processo miraculoso, processo, porém, menos

poético e menos grandioso do que o da gênese bíblica, enquanto que as

 

152

Teorias sobre a formação da Terra

 

leis naturais dão, da sua formação, uma explicação muito mais completa

e, sobretudo, mais racional, deduzida da observação.90, 91

 

Alma da Terra

 

7. A alma da terra desempenhou papel principal na teoria da in-

crustação. vejamos se esta ideia tem melhor fundamento.

o desenvolvimento orgânico está sempre em relação com o desen-

volvimento do princípio intelectual. o organismo se completa à medida

que se multiplicam as faculdades da alma. A escala orgânica acompanha

constantemente, em todos os seres, a progressão da inteligência, desde

o pólipo até o homem, e não podia ser de outro modo, pois que a alma

precisa de um instrumento apropriado à importância das funções que

lhe compete desempenhar. de que serviria à ostra possuir a inteligência

do macaco, sem os órgãos necessários à sua manifestação? se, portanto,

a terra fosse um ser animado, servindo de corpo a uma alma especial,

essa alma, por efeito mesmo da sua constituição, teria de ser ainda mais

rudimentar do que a do pólipo, visto que a terra não tem, sequer, a vi-

talidade da planta, ao passo que, pelo papel que lhe atribuíram à alma,

fizeram dela um ser dotado de razão e do mais completo livre-arbítrio,

em resumo: um como espírito superior, o que não é racional, porquanto

nunca nenhum espírito se achou menos bem aquinhoado, nem mais

aprisionado. Ampliada neste sentido, a ideia da alma da terra tem, então,

de ser arrolada entre as concepções sistemáticas e quiméricas.

por alma da terra, pode entender-se, mais racionalmente, a co-

letividade dos espíritos incumbidos da elaboração e da direção de seus

elementos constitutivos, o que já supõe certo grau de desenvolvimento

intelectual; ou, melhor ainda: o espírito a quem está confiada a alta di-

reção dos destinos morais e do progresso de seus habitantes, missão que

somente pode ser atribuída a um ser eminentemente superior em saber e

 

90 Nota de Allan Kardec: Quando tal sistema se liga a toda uma cosmogonia, é de perguntar-se sobre

que base racional pode o resto assentar.

A concordância que, por meio desse sistema, se pretende estabelecer, entre a Gênese bíblica e a

Ciência, é inteiramente ilusória, pois que a própria Ciência o contradiz.

O autor da carta acima, homem de grande saber, seduzido, um instante, por essa teoria, logo lhe

descobriu os lados vulneráveis e não tardou a combatê-la com as armas da Ciência.

91 N.E.: Ver Nota Explicativa, p. 375.

 

153

Capítulo VIII

 

em sabedoria. em tal caso, esse espírito não é, propriamente falando, a

alma da terra, porquanto não se acha encarnado nela, nem subordinado

ao seu estado material. é um chefe preposto ao seu governo, como um

general o é ao comando de um exército.

um espírito, incumbido de missão tão importante qual a do go-

verno de um mundo, não poderia ter caprichos, ou, então, teríamos de

reconhecer em deus a imprevidência de confiar a execução de suas leis a

seres capazes de lhes contravir, a seu bel-prazer. ora, segundo a doutrina

da incrustação, a má vontade da alma da lua é que houvera dado causa

a que a terra ficasse incompleta. Há ideias que a si mesmas se refutam.

(Revista espírita, setembro de 1868.)

 

154

cApítulo iX

 

M

 

revoluções do globo

 

• revoluções gerais ou parciais • idade das montanhas

• dilúvio bíblico • revoluções periódicas • cataclismos

futuros • Aumento ou diminuição do volume da terra

 

Revoluções gerais ou parciais

 

1. os períodos geológicos marcam as fases do aspecto geral do

globo, em consequência das suas transformações. mas, com exceção do

período diluviano, que se caracterizou por uma subversão repentina, to-

dos os demais transcorreram lentamente, sem transições bruscas. durante

todo o tempo que os elementos constitutivos do globo levaram para to-

mar suas posições definitivas, as mutações houveram de ser gerais. uma

vez consolidada a base, só se devem ter produzido modificações parciais,

na superfície.

2. Além das revoluções gerais, a terra experimentou grande número

de perturbações locais, que mudaram o aspecto de certas regiões. como

no tocante às outras duas causas contribuíram para essas perturbações: o

fogo e a água.

o fogo atuou produzindo: ou erupções vulcânicas que sepulta-

ram, sob espessas camadas de cinzas e lavas, os terrenos circunjacen-

tes, fazendo desaparecer cidades com seus habitantes; ou terremotos;

ou levantamentos da crosta sólida, que impeliam as águas para as re-

giões mais baixas; ou o afundamento, em maior ou menor extensão,

dessa mesma crosta, nalguns lugares, para onde as águas se precipitaram,

Capítulo IX

 

deixando em seco outros lugares. foi assim que surgiram ilhas no meio

do oceano, enquanto outras desapareceram; que porções de continentes

se separaram e formaram ilhas; que braços de mar, secados, ligaram ilhas

e continentes.

Quanto à água, essa atuou, produzindo: ou a irrupção ou a retira-

da do mar nalgumas costas; ou desmoronamentos que, interceptando as

correntes líquidas, formaram lagos; ou transbordamentos e inundações;

ou, enfim, aterros nas embocaduras dos rios. esses aterros, rechaçando o

mar, criaram novos territórios. tal a origem do delta do nilo, ou baixo

egito; do delta do ródano ou camarga.

 

Idade das montanhas

 

3. examinando-se os terrenos dilacerados pelo erguimento das mon-

tanhas e das camadas que lhes formam os contrafortes, possível se torna

determinar-lhes a idade geológica. por idade geológica das montanhas, não

se deve entender o número de anos que elas contam de existência, mas o

período em que se formaram e, portanto, a relativa ancianidade que apre-

sentam. fora errôneo acreditar-se que semelhante ancianidade correspon-

de à elevação que lhes é própria, ou à natureza exclusivamente granítica

que revelem, uma vez que a massa de granito, ao dar-se o seu levantamen-

to, pode ter perfurado e separado as camadas superpostas.

comprovou-se assim, por meio da observação, que as montanhas

dos vosges, da bretanha e da côte-d’or, na frança, que não são muito

elevadas, pertencem às mais antigas formações. datam do período de tran-

sição, senão anteriores aos depósitos de hulha. o Jura se formou no meado

do período secundário; é contemporâneo dos reptis gigantes. os pirineus

se formaram mais tarde, no começo do período terciário. o monte bran-

co e o grupo dos Alpes ocidentais são posteriores aos pirineus e datam

da metade do período terciário. os Alpes orientais, que compreendem as

montanhas do tirol, são ainda mais recentes, porquanto só se formaram

pelos fins desse mesmo período. Algumas montanhas da Ásia são mesmo

posteriores ao período diluviano, ou lhe são contemporâneas.

 

156

Revoluções do globo

 

esses levantamentos hão de ter ocasionado grandes perturbações

locais e inundações mais ou menos consideráveis, pelo deslocamento das

águas, pela interrupção e mudança do curso dos rios.92

 

Dilúvio bíblico

 

4. o dilúvio bíblico, também conhecido pela denominação de

“grande dilúvio asiático”, é fato cuja realidade não se pode contestar.

deve tê-lo ocasionado o levantamento de uma parte das montanhas da-

quela região, como o do méxico. corrobora esta opinião a existência de

um mar interior, que ia outrora do mar negro ao oceano boreal, compro-

vada pelas observações geológicas. o mar de Azov, o mar cáspio, cujas

águas são salgadas, embora nenhuma comunicação tenham com nenhum

outro mar; o lago Aral e os inúmeros lagos espalhados pelas imensas

planícies da tartália e as estepes da rússia parecem restos daquele antigo

mar. por ocasião do levantamento das montanhas do cáucaso, posterior

ao dilúvio universal, parte daquelas águas foi recalcada para o norte, na

direção do oceano boreal; outra parte, para o sul, em direção ao oceano

índico. estas inundaram e devastaram precisamente a mesopotâmia e

toda a região em que habitaram os antepassados do povo hebreu. em-

bora esse dilúvio se tenha estendido por uma superfície muito grande, é

atualmente ponto averiguado que ele foi apenas local; que não pode ter

sido causado pela chuva, pois, por muito copiosa que esta fosse e ainda

que se prolongasse por quarenta dias, o cálculo prova que a quantidade

de água caída das nuvens não podia bastar para cobrir toda a terra, até

acima das mais altas montanhas.

 

92 Nota de Allan Kardec: O século XVIII registrou notável exemplo de um fenômeno desse gênero.

A seis dias de marcha da cidade do México, existia, em 1750, uma região fértil e bem cultivada,

onde davam em abundância arroz, milho e bananas. No mês de junho, pavorosos tremores de terra

abalaram o solo, renovando-se continuamente durante dois meses inteiros. Na noite de 28 para 29

de setembro, violenta convulsão se produziu; um território de muitas léguas de extensão entrou a

erguer-se pouco a pouco e acabou por alcançar a altitude de 500 pés, numa superfície de 10 léguas

quadradas. O terreno ondulava, como as vagas do mar ao sopro da tempestade, milhares de montí-

culos se elevavam e afundavam alternativamente; afinal, abriu-se um abismo de perto de 3 léguas,

donde eram lançados à prodigiosa altura fumo, fogo, pedras esbraseadas e cinzas. Seis montanhas

surgiram desse abismo hiante, entre as quais o vulcão a que foi dado o nome de Jorullo, que agora

se eleva a 550 metros acima da antiga planície. No momento em que principiaram os abalos do solo,

os dois rios Cuitimba e San Pedro, refluindo, inundaram toda a planície hoje ocupada pelo Jorullo; no

terreno, porém, que sem cessar se elevava, outro sorvedouro se abriu e os absorveu. Os dois reapa-

receram mais tarde, a oeste, num ponto muito afastado de seus antigos leitos. (Lois Figuier, A Terra

antes do dilúvio, p. 370.)

 

157

Capítulo IX

 

para os homens de então, que não conheciam mais do que uma

extensão muito limitada da superfície do globo e que nenhuma ideia

tinham da sua configuração, desde que a inundação invadiu os países

conhecidos, invadida fora, para eles, a terra inteira. se a essa crença

aditarmos a forma imaginosa e hiperbólica da descrição, forma peculiar

ao estilo oriental, já não nos surpreenderá o exagero da narração bíblica.

5. o dilúvio asiático foi evidentemente posterior ao aparecimento

do homem na terra, visto que a lembrança dele se conservou pela tradição

em todos os povos daquela parte do mundo, os quais o consagraram em

suas teogonias.93

é igualmente posterior ao grande dilúvio universal que assinalou o

início do atual período geológico. Quando se fala de homens e de animais

antediluvianos, a referência é àquele primeiro cataclismo.

 

Revoluções periódicas

 

6. Além do seu movimento anual em torno do sol, origem das

estações, do seu movimento de rotação sobre si mesma em 24 horas,

origem do dia e da noite, tem a terra um terceiro movimento que se

completa em cerca de 25.000 anos, ou, mais exatamente, em 25.868

anos, e que produz o fenômeno denominado, em Astronomia, precessão

dos equinócios (cap. v, item 11). este movimento, que não se pode ex-

plicar em poucas palavras, sem o auxílio de figuras e sem uma demons-

tração geométrica, consiste numa espécie de oscilação circular, que se

há comparado à de um pião a morrer, e por virtude da qual o eixo da

terra, mudando de inclinação, descreve um duplo cone, cujo vértice

 

93 Nota de Allan Kardec: A lenda indiana sobre o dilúvio refere, segundo o livro dos Vedas, que Brama,

transformado em peixe, se dirigiu ao piedoso monarca Vaivaswata e lhe disse: “Chegou o momento

da dissolução do universo; em breve estará destruído tudo o que existe na Terra. Tens que cons-

truir um navio em que embarcarás, depois de teres embarcado sementes de todos os vegetais.

Esperar-me-ás nesse navio e eu virei ter contigo, trazendo à cabeça um chifre pelo qual me reco-

nhecerás.” O santo obedeceu; construiu um navio, embarcou nele e o atou por um cabo muito forte

ao chifre do peixe. O navio foi rebocado durante muitos anos com extrema rapidez, por entre as

trevas de uma tremenda tempestade, abordando, afinal, ao cume do monte Himawat (Himalaia).

Brama ordenou em seguida a Vaivaswata que criasse todos os seres e com eles povoasse a Terra.

É flagrante a analogia desta lenda com a narrativa bíblica de Noé. Da Índia ela passara ao Egito,

como uma multidão de outras crenças. Ora, sendo o livro dos Vedas anteriores ao de Moisés, a

narração que naquele se encontra, do dilúvio, não pode ser uma cópia da deste último. O que é

provável é que Moisés, que aprendera as doutrinas dos sacerdotes egípcios, haja tomado a estes

a sua descrição.

 

158

Revoluções do globo

 

está no centro do planeta, abrangendo as bases desses cones a superfície

circunscrita pelos círculos polares, isto é, uma amplitude de 23 graus e

meio de raio.

7. o equinócio é o instante em que o sol, passando de um he-

misfério a outro, se encontra perpendicular ao equador, o que acontece

duas vezes por ano, a 21 de março, quando o sol passa para o hemisfério

boreal, e a 22 de setembro, quando volta ao hemisfério austral.

mas em consequência da gradual mudança na obliquidade do eixo,

o que acarreta outra mudança na obliquidade do equador sobre a eclíp-

tica, o momento do equinócio avança cada ano de alguns minutos (25

minutos e 7 segundos). A esse avanço é que se deu o nome de precessão dos

equinócios (do latim praecessĭo, ação de preceder).

com o tempo, esses poucos minutos fazem horas, dias, meses e

anos, resultando daí que o equinócio da primavera, que agora se verifica

no mês de março, em dado tempo se verificará em fevereiro, depois em

janeiro, depois em dezembro. então o mês de dezembro terá a tempera-

tura de março e março a de junho e assim por diante, até que, voltando

ao mês de março, as coisas se encontrarão de novo no estado atual, o

que se dará ao cabo de 25.868 anos, para recomeçar indefinidamente a

mesma revolução.94

8. desse movimento cônico do eixo, resulta que os polos da terra

não olham constantemente os mesmos pontos do céu; que a estrela po-

lar não será sempre estrela polar; que os polos gradualmente se inclinam

mais ou menos para o sol e recebem dele raios mais ou menos diretos,

donde se segue que a islândia e a lapônia, por exemplo, localizadas sob

o círculo polar, poderão, em dado tempo, receber raios solares como se

estivessem na latitude da espanha e da itália e que, na posição do extre-

mo oposto, a espanha e a itália poderão ter a temperatura da islândia e

 

94 Nota de Allan Kardec: A precessão dos equinócios ocasiona outra mudança: a que se opera na

posição dos signos do zodíaco. Girando a Terra ao derredor do Sol em um ano, à medida que ela

avança, o Sol, cada mês, se encontra diante de uma constelação. Estas são em número de doze, a

saber: o Carneiro, o Touro, os Gêmeos, o Câncer, o Leão, a Virgem, a Balança, o Escorpião, o Sagitário, o

Capricórnio, o Aquário e os Peixes. São chamadas constelações zodiacais, ou signos do zodíaco, e for-

mam um círculo no plano do equador terrestre. Conforme o mês do nascimento de um indivíduo

dizia-se que ele nascera sob tal ou tal signo; daí os prognósticos da Astrologia. Mas, em virtude da

precessão dos equinócios, acontece que os meses já não correspondem às mesmas constelações.

Um que nasça no mês de julho já não está no signo do Leão, porém, no do Câncer. Cai assim a ideia

supersticiosa da influência dos signos. (Cap. V, item 12.)

 

159

Capítulo IX

 

da lapônia, e assim por diante, a cada renovação do período de 25.000

anos.95

9. Ainda não puderam ser determinadas com precisão as conse-

quências deste movimento, porque somente se há podido observar uma

pequena parte da sua revolução. A respeito, pois, não há mais do que

presunções, algumas das quais com caráter de probabilidade.

essas consequências são:

1a o aquecimento e o resfriamento alternativos dos polos e, por

conseguinte, a fusão dos gelos polares durante a metade do período

de 25.000 anos e a nova formação deles durante a outra metade desse

período. resultaria daí não estarem os polos condenados a uma per-

pétua esterilidade, cabendo-lhes gozar a seu turno dos benefícios da

fertilidade.

2a o deslocamento gradativo do mar, fazendo-o invadir pouco a

pouco umas terras e pôr a descoberto outras, para de novo as abandonar,

voltando ao seu leito anterior. esse movimento periódico, indefinida-

mente renovado, constituiria uma verdadeira maré universal de 25.000

anos.

A lentidão com que se opera esse movimento do mar torna-o qua-

se imperceptível para cada geração. faz-se, porém, sensível ao cabo de

alguns séculos. nenhum cataclismo súbito pode ele causar, porque os

homens se retiram, de geração em geração, à proporção que o mar avan-

ça, e avançam pelas terras donde o mar se retira. é a essa causa, mais que

provável, que alguns sábios atribuem o afastamento do mar de certas

costas e a invasão de outras por ele.

10. o deslocamento demorado, gradual e periódico do mar é fato

que a experiência comprova e numerosos exemplos confirmam, em todos

os pontos do globo. tem por efeito o entretenimento das forças produ-

tivas da terra. A longa imersão é para os terrenos um tempo de repou-

so, durante o qual eles recuperam os princípios vitais esgotados por uma

não menos longa produção. os imensos depósitos de matérias orgâni-

cas, formados pela permanência das águas durante séculos e séculos, são

 

95 Nota de Allan Kardec: O deslocamento gradual das linhas isotérmicas, fenômeno que a Ciência

reconhece de modo tão positivo como o do deslocamento do mar, é um fato material que apoia

esta teoria.

 

160

Revoluções do globo

 

adubações naturais, periodicamente renovadas, e as gerações se sucedem

sem se aperceberem de tais mudanças.96

 

Cataclismos futuros

 

11. As grandes comoções telúricas se têm produzido nas épocas em

que a crosta sólida da terra, pela sua fraca espessura, quase nenhuma re-

sistência oferecia à efervescência das matérias em ignição no seu interior.

tais comoções foram diminuindo à proporção que aquela crosta se con-

solidava. numerosos vulcões já se acham extintos, outros os terrenos de

formação posterior soterraram.

Ainda, certamente, poderão produzir-se perturbações locais, por

efeito de erupções vulcânicas, da eclosão de alguns vulcões novos, de

inundações repentinas de algumas regiões; poderão do mar surgir ilhas

e outras ser por ele tragadas; mas passou o tempo dos cataclismos ge-

rais, como os que assinalaram os grandes períodos geológicos. A terra

adquiriu uma estabilidade que, sem ser absolutamente invariável, coloca

doravante o gênero humano ao abrigo de perturbações gerais, a menos

 

96 Nota de Allan Kardec: Entre os fatos mais recentes que provam o deslocamento do mar, podem

citar-se estes:

No golfo da Gasconha [ou Golfo de Biscaia, separa a costa oeste da França da costa norte da Espanha],

entre o velho Soulac e a Torre de Cordouan, quando o mar está calmo, percebe-se no fundo da água

trechos de muralha: são os restos da antiga e grande cidade de Noviomagus, invadida pelas ondas

em 580. O rochedo de Cordouan, que se achava então ligado à margem, está agora a 12 quilômetros.

No mar da Mancha, sobre a costa do Havre, as águas dia a dia ganham terreno e minam as penedias de

Sainte-Adresse, que pouco a pouco desmoronam. A dois quilômetros da costa entre Sainte-Adresse

e o cabo de Hève, existe um banco que outrora se achava à vista e ligado à terra firme. Antigos do-

cumentos atestam que nesse lugar, por sobre o qual hoje se navega, existia a aldeia de Saint-Denis-

-chef-de-Caux. Tendo o mar invadido, no século XIV, o terreno, a igreja foi tragada em 1378. Dizem

que, com bom tempo, se lhe veem os restos no fundo do mar.

Em quase toda a extensão do litoral da Holanda, o mar só é contido a poder de diques, que de tempos

a tempos se rompem. O antigo lago de Flevo, que se reuniu ao mar em 1225, forma hoje o golfo de

Zuyderzée. Essa irrupção do oceano tragou muitas povoações.

Segundo isto, o território de Paris e da França toda seria de novo ocupado pelo mar, como já o foi

muitas vezes, conforme o demonstram as observações geológicas. Então, as partes montanhosas

formarão ilhas, como o são agora Jersey, Guernesey e a Inglaterra, outrora contíguas ao continente.

Navegar-se-á por sobre regiões que atualmente se percorrem de caminho de ferro; os navios apor-

tarão a Montmartre, ao monte Valeriano, aos outeiros de Saint-Cloud e de Meudon; os bosques e

florestas, agora lugares de passeio, ficarão sepultados nas águas, cobertos de limo e povoados de

peixes, que substituirão as aves.

O dilúvio bíblico não pode ter tido essa causa, pois que foi repentina a invasão das águas e de curta

duração a permanência delas, ao passo que, de outro modo, essa permanência houvera sido de mui-

tos milhares de anos e ainda duraria, sem que os homens dessem por isso.

 

161

Capítulo IX

 

que intervenham causas desconhecidas, a ela estranhas e que de modo

nenhum se possam prever.97

12. Quanto aos cometas, estamos hoje perfeitamente tranquiliza-

dos com relação à influência que exercem, mais salutar do que nociva,

por parecerem eles destinados a reabastecer os mundos, se assim nos

podemos exprimir, trazendo-lhes os princípios vitais que eles armaze-

nam em sua corrida pelo espaço e com o se aproximarem dos sóis. As-

sim, pois, seriam antes fontes de prosperidade, do que mensageiros de

desgraças.

A natureza fluídica, já bem comprovada (cap. vi, itens 28 e se-

guintes), que lhes é própria afasta todo receio de choques violentos,

porquanto, se um deles encontrasse a terra, esta o atravessaria, como se

passasse através de um nevoeiro.98

Ainda menos de temer é a cauda que arrastam, visto que essa mais

não é do que a reflexão da luz solar na imensa atmosfera que os envolve,

tanto assim que se mostra constantemente dirigida para o lado oposto

ao sol, mudando de direção conformemente à posição deste astro. essa

matéria gasosa também poderia, em virtude da rapidez com que eles

caminham, constituir uma espécie de cabeleira, semelhante à esteira dei-

xada por um navio em marcha, ou à fumaça de uma locomotiva. Aliás,

muitos cometas já se têm aproximado da terra, sem lhe causarem qual-

quer dano. em virtude das suas respectivas densidades, a terra exerceria

sobre o cometa uma atração maior do que a dele sobre ela. somente uns

restos de velhos preconceitos podem fazer que a presença de um cometa

inspire terror.99

13. deve-se igualmente lançar ao rol das hipóteses quiméricas a

possibilidade do encontro da terra com outro planeta. A regularidade e a

 

97 N.E.: Em 15/2/2013, cai na Rússia (região dos Montes Urais) um meteoro. A rocha, estimada em

10 toneladas, entrou na atmosfera e começou a se desfazer; a onda de choque causada por sua

queda quebrou vidraças, balançou prédios, causando ferimentos em 1.100 pessoas. (Fonte: Jornal

O Globo)

98 N.E.: Hoje sabemos que o núcleo cometário é sólido, formado por gelo e rocha, e que um impacto

direto com a Terra ou outro planeta qualquer poderia causar sérios danos.

99 Nota de Allan Kardec: O cometa de 1861 atravessou a órbita da Terra num ponto do qual esta se acha-

va a uma distância de apenas 20 horas. A Terra esteve, portanto, mergulhada na atmosfera dele, sem

que daí resultasse nenhum acidente.

 

162

Revoluções do globo

 

invariabilidade das leis que presidem aos movimentos dos corpos celestes

tornam carente de toda probabilidade semelhante encontro.100

A terra, no entanto, terá um fim. como? isso ainda permanece no

domínio das conjeturas; mas, visto estar ela ainda longe da perfeição que

pode alcançar e da vetustez que lhe indicaria o declínio, seus habitantes

atuais podem estar certos de que tal não se dará ao tempo deles. (cap. vi,

item 48 e seguintes.)

14. fisicamente, a terra teve as convulsões da sua infância; entrou

agora num período de relativa estabilidade: na do progresso pacífico, que

se efetua pelo regular retorno dos mesmos fenômenos físicos e pelo con-

curso inteligente do homem. Está, porém, ainda, em pleno trabalho de ges-

tação do progresso moral. Aí residirá a causa das suas maiores comoções.

Até que a humanidade se haja avantajado suficientemente em perfeição, pela

inteligência e pela observância das Leis divinas, as maiores perturbações ain-

da serão causadas pelos homens, mais do que pela natureza, isto é, serão antes

morais e sociais do que físicas.

 

Aumento ou diminuição do volume da Terra

 

15. o volume da terra aumenta, diminui ou permanece estacionário?

Alguns, para sustentar que o volume da terra aumenta, se fundam

em que as plantas dão ao solo mais do que dele tiram, o que, se num

sentido é exato, noutro não o é. As plantas se nutrem tanto, e até mais,

das substâncias gasosas que haurem na atmosfera, quanto das que sugam

pelas raízes. ora, a atmosfera faz parte integrante do globo; os gases que

a constituem provêm da decomposição dos corpos sólidos e estes, recom-

pondo-se, retomam o que lhe haviam dado. é uma troca, ou, antes, uma

perpétua transformação, de tal sorte que, operando-se o crescimento de-

les com o auxílio dos elementos constitutivos do globo, os despojos dos

vegetais e dos animais, por muito consideráveis que sejam, não lhe au-

mentam de um átomo a massa. se, por essa causa, a parte sólida do globo

aumentasse de modo permanente, isso se daria à custa da atmosfera, que

 

100 N.E.: O movimento orbital dos planetas em torno do Sol é regido por três propriedades conhecidas

como Leis de Kepler — 1a Lei: os planetas descrevem elipses das quais o Sol é um dos focos; 2a Lei: as

áreas percorridas pelo raio vetor (reta que une um planeta ao Sol), são proporcionais ao tempo gasto

em percorrê-las; 3a Lei: os quadrados dos tempos de revolução são proporcionais aos cubos dos se-

mieixos maiores das órbitas.

 

163

Capítulo IX

 

diminuiria de outro tanto e acabaria por se tornar imprópria à vida, se

não recuperasse, pela decomposição dos corpos sólidos, o que perde pela

composição deles.

na origem da terra, as primeiras camadas geológicas se formaram

das matérias sólidas momentaneamente volatilizadas, por efeito da alta

temperatura, e que, condensadas mais tarde pelo resfriamento, se precipi-

taram. incontestavelmente, elas elevaram um pouco a superfície do solo,

mas sem acrescentarem coisa alguma à massa total, pois que ali apenas

havia um deslocamento de matéria. Quando, expurgada dos elementos

que continha em suspensão, a atmosfera se encontrou no estado normal,

as coisas tomaram o curso regular em que depois seguiram. Hoje, a me-

nor modificação na constituição da atmosfera acarretaria, forçosamente,

a destruição dos atuais habitantes da terra, mas também é provável que

novas raças se formassem noutras condições.

considerada desse ponto de vista, a massa do globo, isto é, a soma

das moléculas que compõem o conjunto de suas partes sólidas, líqui-

das e gasosas, é incontestavelmente a mesma, desde a sua origem. se o

globo experimentasse uma dilatação ou uma condensação, seu volume

aumentaria ou diminuiria, sem que a massa sofresse qualquer alteração.

portanto, se a terra aumentasse de massa, o fato seria efeito de uma causa

estranha, pois que ela não poderia tirar de si mesma os elementos neces-

sários ao seu aumento.

Há uma opinião segundo a qual o globo aumentaria de massa e de

volume pelo afluxo da matéria cósmica interplanetária. esta ideia nada

tem de irracional, mas é por demais hipotética para ser admitida em

princípio. não passa de um sistema combatido por sistemas contrários,

sobre os quais a ciência ainda nada estabeleceu. eis aqui, a tal respeito,

a opinião do eminente espírito que ditou os sábios estudos uranográficos

insertos acima, no capítulo vi:

“os mundos se esgotam pelo envelhecimento e tendem a dissolver-

-se para servir de elementos de formação a outros universos. restituem

pouco a pouco ao fluido cósmico universal do espaço o que dele tiraram

para formar-se. Além disso, todos os corpos se gastam pelo atrito; o mo-

vimento rápido e incessante do globo através do fluido cósmico dá em

 

164

Revoluções do globo

 

resultado diminuir-se-lhe constantemente a massa, se bem que de quanti-

dade inapreciável em determinado tempo.101

“A existência dos mundos pode, a meu ver, dividir-se em três perío-

dos. — primeiro período: condensação da matéria, período esse em que

o volume do globo diminui consideravelmente, conservando-se a mesma

massa. é o período da infância. — segundo período: contração, solidi-

ficação da crosta; eclosão dos germens, desenvolvimento da vida até a

aparição do tipo mais aperfeiçoado. nesse momento, o globo está em

toda a sua plenitude, é a época da virilidade; ele perde, mas muito pouco,

os seus elementos constitutivos. À medida que seus habitantes progridem

espiritualmente, passa ele ao período de decrescimento material; sofre per-

das, não só em consequência do atrito, mas também pela desagregação

das moléculas, como uma pedra dura que, corroída pelo tempo, acaba

reduzida à poeira. em seu duplo movimento de rotação e translação, ele

entrega ao espaço parcelas fluidificadas da sua substância, até o momento

em que se completa a sua dissolução.

“mas, então, como o poder de atração está na razão direta da massa,

não digo do volume, diminuída a massa do globo, modificam-se as suas

condições de equilíbrio no espaço. dominado por planetas mais podero-

sos, aos quais ele não pode fazer contrapeso, resultam daí desvios nos seus

movimentos e, portanto, também profundas mudanças nas condições da

vida em sua superfície. Assim, nascimento, vida e morte; ou infância,

virilidade, decrepitude são as três fases por que passa toda aglomeração

de matéria orgânica ou inorgânica. indestrutível, só o espírito, que não é

matéria.” (galileu, Sociedade de Paris, 1868.)102

 

101 Nota de Allan Kardec: No seu movimento de translação em torno do Sol, a velocidade da Terra é de

400 léguas por minuto. Sendo de 9.000 léguas a sua circunferência, em seu movimento de rotação

ao redor do seu eixo, cada ponto do Equador percorre 9.000 léguas em 24 horas, ou 6,3 léguas por

minuto.

102 N.E.: Ver Nota Explicativa, p. 375.

 

165

cApítulo X

 

M

 

gênese orgânica

 

• formação primária dos seres vivos • princípio vital

• geração espontânea • escala dos seres orgânicos

• o homem corpóreo

 

Formação primária dos seres vivos

 

1. tempo houve em que não existiam animais; logo, eles tiveram

começo. cada espécie foi aparecendo, à proporção que o globo adqui-

ria as condições necessárias à existência delas. isto é positivo. como se

formaram os primeiros indivíduos de cada espécie? compreende-se que,

existindo um primeiro casal, os indivíduos se multiplicaram. mas, esse

primeiro casal, donde saiu? é um desses mistérios que entendem com

o princípio das coisas e sobre os quais apenas se podem formular hipó-

teses. A ciência ainda não pode resolver o problema; pode entretanto,

pelo menos, encaminhá-lo para a solução.

2. é esta a questão primordial que se apresenta: cada espécie ani-

mal saiu de um casal primitivo ou de muitos casais criados, ou, se o

preferirem, germinados simultaneamente em diversos lugares?

esta última suposição é a mais provável. pode-se mesmo dizer que

ressalta da observação. com efeito, o estudo das camadas geológicas

atesta, nos terrenos de idêntica formação, e em proporções enormes, a

presença das mesmas espécies em pontos do globo muito afastados uns