Dicionário de Política (Volume 1)
(chamados, por isso, de pigs, isto é,…
1040 QUARTO ESTADO
(chamados, por isso, de pigs, isto é, [porcos]: poles. socialistas dirigida por Lelio Basso, de março de 1946
italians. germans and slavs), temerosos de perder seu a 1950.
status, necessitando, portanto, lutar para defender o
sistema que lhes permitiu uma afirmação, embora
BIBLIOGRAFIA. - F. BUONARROTTI. Cospirazione per
limitada.
l'eguaglianza detta di Bebeuf. ao cuidado de G. MANACORDA .
Como nos Estados Unidos, também na Dinamarca,
Einaudi. Torino 1971 : S. MERLI.Il "Quarto Stato" di Rosselli e
o Qualunquismo recentemente iniciou com sucesso sua
Nenni e la polemica sul rinnovamento socialista nel 1926. in
luta contra as atividades do Estado nos setores
"Rivista storica del socialismo", n.° II, Milano 1960; G.
assistenciais, exigindo uma substancial redução dos
PARISET, L'hébertisme et la conjuration des Egaux. in " Annales
impostos e a abolição dos programas estatais de
révolulionnaires", 1923; N. TRANFAGLIA. Cario Rosselli
assistência aos pobres, doentes, velhos e mães
dall'interventismo a giustizia e libertà. Laterza, Bari 1968.
solteiras. Na Europa Ocidental, em geral, o fenômeno
do Qualunquismo se manifesta com maior virulência
[CARLO L EOPOLDO OTTINO]
nos países onde existem partidos de direita
organizados, que se tornam portadores das exigências
Quarto Poder.
destas maiorias silenciosas. Vê-se então quão tênue é a
distinção entre o Qualunquismo e o fascismo e quão
urgente é um aprofundamento do problema das Os meios de informação desempenham uma função
atitudes sócio-políticas das chamadas classes médias. determinante para a politização da opinião pública e,
nas democracias constitucionais, têm capacidade de
exercer um controle crítico sobre os órgãos dos três
[GIANFRANCO PASQUINO] poderes, legislativo, executivo e judiciário. A imprensa
independente, portanto, enquanto se posiciona em
competição cooperativa com os órgãos do poder
público, foi definida como o Quarto poder.
Quarto Estado. No fim do século XVIII, as Declarações americana
e francesa dos direitos afirmaram a liberdade de
Termo ligado à tradição extremista de Hébert e imprensa como garantia fundamental da liberdade
Babeuf, em contraposição com o -Terceiro Estado da política. Na América, Thomas Jefferson declara que a
França pré-revolucionária, fundamentalmente liberdade é garantida onde a imprensa é livre e os
constituído pelos grupos burgueses. Nele, a acepção da cidadãos são capazes de ler: "Caso eu tivesse de
palavra Estado (cf. o termo alemão decidir se deveríamos ter um Governo sem jornais ou Stand ) mantinha o
sentido de classe, condição social, que tivera desde o jornais sem um Governo, não hesitaria um instante em
início da época moderna: mas o conceito de Quarto preferir a segunda opção". Na França, o
Estado já implicava uma função antitética em relação à desenvolvimento do Quarto poder coincide com o
mesma burguesia e era mais adequado, portanto, às predomínio do Terceiro Estado; os jornais políticos se
novas camadas sociais engrossadas pela evolução da multiplicaram desde os dias imediatamente sucessivos à
Revolução Industrial, isto é. ao proletariado nascente. tomada da Bastilha, atingiram muitas centenas de
Com essa crescente caracterização classista, o termo títulos no ápice do período revolucionário e se
foi usado por Ferdinand Lassalle exatamente para reduziram a pouquíssimos durante o império. "A
indicar a classe operária contemporânea e foi, em liberdade de imprensa tem que se tornar nas mãos do
seguida, assumido, mais ou menos adequadamente, pela Governo uma potente auxiliar", escrevia Napoleão em
publicidade e pela propaganda socialista entre as Santa Helena. Mas, ao mesmo tempo, acrescentava:
massas praticamente até os nossos dias (cf. também o "Meu filho será obrigado a reinar com liberdade de
conhecido quadro do mesmo título de Giuseppe Pelizza imprensa. Esta é hoje uma necessidade". As
de Volpedo). Constituições liberais do século XIX reforçaram a
Com o título Quarto Estado foi editada em Milão, influência da imprensa. "Burke disse que existem três
de 27 de março a 30 de outubro de 1926, uma poderes no Parlamento — observava Carlyle — mas, se
"Revista socialista de cultura política", fundada por se observa a tribuna dos jornalistas, existe um Quarto
Cario Rosselli e Pietro Nenni que, embora entre graves poder muito mais importante que todos os demais."
dificuldades, se propôs a oferecer uma contribuição A liberdade de informação não é realmente um
original à oposição contra o fascismo e à solução da poder no sentido constitucional, mas, antes de tudo, o
crise do socialismo italiano. Quarto Estado, ainda, se fundamento da legitimidade dos poderes intitulou, após a Segunda Guerra Mundial, uma revista
de estudos
QUARTO PODER 1041
delegados. Considerada como direta explicação da que J. S. Mill (1848), num longo capítulo sobre a liberdade de pensamento e de discussão, a liberdade propriedade agrária, historiciza, pela primeira vez, as
de informação é fundamental para um correto condições que serviram de base para o exercício dos poderes democráticos e constitui, desenvolvimento da agricultura inglesa e continental. portanto, um direito que não deve ser atribuído, mas O desaparecimento definitivo de uma classe de médios
garantido; é uma liberdade nem externa ao Estado e pequenos proprietários independentes (yeomen), na democrático nem a ele subordinada, mas histórica e Grã-Bretanha da primeira metade do século XIX, foi o
conceptualmente coeva à sua formação; tanto que os fato que deu início à análise sócio-política da situação
atentados contra o Estado democrático são, em muitos das áreas camponesas britânicas. Um momento de casos, atentados contra a liberdade de informação. união entre operários, artesãos, pequenos proprietários,
No próprio âmbito dos Estados constitucionalmente e assalariados agrícolas tinha sido ainda possível no
democráticos, hoje, porém, é difícil designar os meios tempo da última revolta dos camponeses ingleses de
de informação (que da imprensa passaram para os 1831, que precedeu imediatamente a Reforma
meios audiovisuais) como Quarto poder. No que diz Parlamentar de 1834. Nos anos de ouro da metade do
respeito ao século de ouro do jornalismo político, a século, estimulada pela demanda dos produtos
exigência econômica da concentração faz diminuir o agrícolas, a grande propriedade mobiliária, subdividida
número dos jornais, que geram o pluralismo e o em fazendas capitalistas de enormes dimensões,
confronto das opiniões. O balanço financeiro das controlava sozinha quase a metade das terras do reino.
empresas jornalísticas depende, em muitos casos, não A ausência de pequenos proprietários, elo entre
tanto dos que adquirem o jornal quanto dos que médios e grandes proprietários e os assalariados,
anunciam. Quanto aos meios audiovisuais, são muitas aumentava sobremaneira o peso político da vezes. ou de propriedade dos Governos, ou por eles aristocracia como classe hegemônica a nível nacional.
controlados, tanto que Duverger encontrou nos meios A posse da terra (incluindo matas e minas) por parte
de informação, dos mais antigos (a imprensa) aos mais da aristocracia e dos squires permitia um controle modernos (o rádio e, depois, a televisão), um grau de geral sobre o crescimento econômico britânico
dependência destes dos poderes públicos inversamente (lembre-se o desenvolvimento das cidades em terrenos proporcional à sua antigüidade. que nunca eram completamente vencidos). Somente a
importação do exterior dos cereais e dos produtos para
criação a preços mais baixos teria permitido aos
[VALÉRIO ZANONE]
industriais aumentarem a produtividade do próprio
capital com a economia dos salários. Como havia
mostrado D. Ricardo, renda e lucros estavam em
contraste contínuo. A supressão de todo imposto
Questão Agrária.
alfandegário pelo Governo liberal de Robert Peel
(1854) deveria permitir a queda dos preços agrícolas.
I. O CONCEITO E O CONTEXTO HISTÓRICO. Este fato, porém, aconteceu vinte anos depois, devido
— Através desta locução, indica-se, em geral, o ao atraso com que as agriculturas extra-européias conjunto dos problemas sociais e econômicos que se entravam em concorrência com a economia do velho referem ao setor primário da economia, e, em mundo, porque também para elas se reproduzia a particular, os relacionados com os trabalhadores da relação de dependência e subordinação entre terra (e, neste caso, fala-se também da questão agricultura e indústria, típica do desenvolvimento camponesa). Esses problemas, obviamente, variam econômico da sociedade capitalista. Com maior razão segundo as épocas históricas, tanto que na linguagem se lamentou então a falta de uma classe de camponeses historiográfica fala-se de uma Questão agrária na idade proprietários: de fato, pela contínua transformação dos romana, de uma na Idade Média, de uma outra ainda salários em capital, os produtos da agricultura na Idade Moderna e Contemporânea. Esta última, entre camponesa custariam menos não sendo onerados pelos os séculos XIX e XX, se tornou objeto de interesse juros sobre o capital tomado em empréstimo (pelo consciente por parte das ciências sociais com os menos em teoria). resultados que, junto com os acontecimentos relativos, Quase contemporaneamente apareciam os escritos
serão mencionados neste verbete. de Marx (A luta de classe na França, O 18 Brumário de
As origens teóricas da análise da Questão agrária Luís Bonaparte) e de Engels {A guerra dos
podem ser encontradas na teoria da renda de David camponeses na Alemanha e, em seguida, A questão Ricardo (1817) e de seus sucessores, enquanto que é camponesa na França e na Alemanha), que colocavam somente lá pela metade do século o problema camponês no centro
1042 QUESTÃO AGRÁRIA
do desenvolvimento social e político dos países de campos europeus. Em 1863, a filoxera (nova e
economia capitalista. O modo de produção camponês é perigosa praga da videira) invadiu e dominou
uma forma econômica anterior à capitalista que será rapidamente a região do Baixo Languedoc e a Provença.
por esta paulatinamente eliminada. Com o Um número de produtores cada vez mais dependentes desaparecimento da classe camponesa, seria possível à das receitas monetárias é obrigado ao êxodo (tendência
sociedade capitalista reorganizar-se numa forma mais já manifesta desde 1850). Relacionado com a
eficiente para o próprio funcionamento. Mas, de fato, a depreciação dos produtos, cai também o valor da terra:
predição do desaparecimento da classe camponesa era a taxa de juro do dinheiro tomado em empréstimo para
mais uma declaração de princípio do que um fato real: enfrentar a crise é superior à taxa de capitalização do
afora o caso da Inglaterra, nos países da Europa solo em cerca de 3%. Nestas condições, os
continental viu-se, nos camponeses, uma forte arrendatários e os meeiros podem satisfazer a
resistência a uma grande capacidade de adaptação às tradicional aspiração da posse da terra. A Questão
novas situações. É, porém, necessário fixar sem agrária se apresenta cada vez mais em termos de
equívocos as causas da persistência de uma questão camponesa. O protecionismo é a arma
organização sócio-econômica camponesa no meio de imediata, quer dos conservadores quer dos um sistema mais complexamente capitalista. É republicanos. Os primeiros se reúnem na Société des oportuno lembrar certas necessidades típicas do Agriculteurs de France (1867) e os segundos na Societé capitalismo urbano da época, especialmente a Nationale d'Encouragement à l'Agriculture (1880). Cai, necessidade de obter dos campos excedentes regulares, portanto, o princípio da livre-troca, um dos pilares da
quer de produtos alimentícios, quer de força de política econômica da época, e novas tarifas (1881-
trabalho. Neste sentido, o capitalismo urbano 1884 e 1892) são ajustadas de acordo com os Estados
encontrava no próprio persistir de certas situações de e os termos de troca recíprocos. O trigo é, sem dúvida,
subdesenvolvimento camponês a possibilidade de o produto privilegiado. As guerras alfandegárias,
satisfazer determinadas necessidades estruturais, em sustentadas pela França contra a Itália (1888-1889) e a
momentos de rápido e relativamente espontâneo Suíça (1893-1895), são fatos notórios que mostram a
desenvolvimento. Uns dez anos após a publicação dos concorrência direta entre setores produtivos escritos mencionados, Marx escrevia que a agricultura semelhantes (agricultura mediterrânea e indústria de
era regulada pelos princípios da economia capitalista laticínios). O capitalismo agrário é agora obrigado a
(O Capital, vol. IV. Intr.). As transformações em ato confrontar-se a nível internacional; somente o aumento
nos últimos decênios do século XIX em toda a Europa dos rendimentos unitários pode permitir o pagamento
obrigavam agora as organizações políticas, de lucro e renda. O Estado reage criando um novo sustentadas, ou pelo Estado, ou pelos grupos sociais ministério, o da agricultura (1881) e da formação rural.
(dos proprietários aos sindicatos dos assalariados), a Os proprietários se associam para a seleção do gado,
escolherem uma política capaz de enfrentar os efeitos ovinos e bovinos, para a escolha de sementes de
da crise agrária, que então tinham posto a descoberto as cereais, tudo isso com vistas a uma especialização
estruturas sociais das economias agrárias européias: regional. Também as relações com a força de trabalho
estas, de fato, apesar dos numerosos pólos estão sujeitas a mudanças. Devido à diminuição da
industrializados, se baseavam ainda em grande parte mão-de-obra rural (atraída para a cidade por salários
na sociedade rural. mais elevados), são estimulados 0 aumento dos salários
para os que ficam no campo, a difusão do uso de
II. POLÍTICA E ECONOMIA AGRÁRIA DURANTE A CRISE máquinas (ceifadeiras, tratores a vapor), e dos
DO FINAL DO SÉCULO . — No contexto de uma produtos de indústria química (os adubos químicos). O
economia dualista, a Questão agrária apresentava sindicalismo na França se preocupa especialmente com
também como questão da representação política dos duas categorias: os assalariados e os meeiros. Em
camponeses dentro do Estado liberal já consolidado. 1891, a Bolsa de Trabalho de Montpellier procura
Os campos se tornavam destinatários da mensagem organizar os assalariados empregados na viticultura,
política, que as novas organizações socialistas e em concorrência com a mão-de-obra italiana e
católicas lançavam. No último decênio do século XIX, espanhola. Mais flutuante foi o sucesso das
os socialistas franceses, alemães e italianos tentaram organizações sindicais entre os assalariados da região
fundar uma política agrária para os campos. parisiense, apesar de que a concentração da grande
empresa capitalista podia favorecer o seu
Embora em sua especificidade, os acontecimentos
desenvolvimento. Forte, ao contrário, nas regiões
que levaram às resoluções do Congresso de Marselha,
típicas da parceria (o Vale de Aquitânia), o movimento
em 1892, são assaz sintomáticos da crise das
estruturas agrárias que perturbava os dos meeiros procura
QUESTÃO AGRÁRIA 1043
especialmente uma forma típica de contrato e se à organização social camponesa ainda prevalecente em
organiza em torno de uma ação cooperativa. muitas regiões do Reich. A resistência dos pequenos
Nesta situação, o partido operário francês teve que proprietários às formas mais comuns de modernização
rever as decisões do Congresso de Le Havre (1880), das técnicas agrícolas (rodízio contínuo e onde se tinha seguido muito de perto as teses de Marx mecanização) não podia ser interpretada unicamente sobre a abolição da propriedade privada. Foram, como resultado do fechamento camponês às invenções porém, os Congressos de Marselha (1892) e de Nantes mais racionais do tempo, mas especialmente como (1894) que sistematizaram o programa político dos necessidade de defesa contra a introdução de relações
socialistas franceses, apoiando-o em bases mais capitalistas no campo. A este estado de coisas não é eleitorais, mas também mais próximas à variedade de estranha a modernização das estruturas políticas e
situações do fim do século. O programa agrícola financeiras (Parlamentos e partidos políticos mais ou
procurava pontos a favor de todos os setores: salários menos representativos e maior ou menor facilidade de
mínimos, limitações aos cânones de arrendamento, crédito bancário) que lá pelo final do século o Estado utilização dos terrenos comunais pelos agricultores tinha já atingido. A ela se acrescentavam o
mais pobres, luta ao protecionismo e empréstimo melhoramento dos transportes ferroviários, que gratuito das máquinas por parte da comunidade. Não permitiam uma maior integração nacional e regional, a
eram muito diferentes as iniciativas dos republicanos penetração do mercado capitalista e a difusão dos
com suas reivindicações de empréstimos e de crédito, valores sociais burgueses. Verificava-se assim que, no
isenção de impostos e desenvolvimento da instrução quadro de um Estado formalmente moderno, subsistia
agrária. Mas especialmente se procurava tutelar a uma cultura camponesa, que, de fato, rejeitava uma
pequena e média propriedade dos camponeses e modernização mais completa de todas as estruturas meeiros, que, embora trabalhassem com a ajuda de sociais. Sombart, por essa altura, falava de setores que
assalariados, eram eles próprios as vítimas da crise e fugiam ao processo de socialização; de fato, o setor
da política protecionista que favorecia os grandes camponês se apresentava como uma "ordem" residual
produtores. Como escreveria Engels, na França não da sociedade destruída pelas revoluções liberais. Este
era possível fazer a revolução contra os pequenos processo contribuiria para acelerar a proletarização
proprietários (A questão camponesa na França e na dos pequenos proprietários e, de qualquer modo, os
Alemanha, 1894). Mas, ao mesmo tempo, se tornava tornaria ainda mais dependentes das exigências do
mais difícil uma política mais rigorosa de inspiração mercado urbano e do setor industrial, aos quais
marxista e se abriam as portas aos programas estruturalmente mal se adaptavam. Um primeiro reformistas dos Congressos de Breslau (1895) e de resultado disso foi o abaixamento do nível de vida das
Bolonha (1897). A Questão agrária de Kautsky (1899) classes camponesas, causado especialmente pela surgia, portanto, como resposta, também a nível deterioração da razão de troca entre produtos agrícolas teórico, aos problemas de ação política relativos à crise e manufaturados industriais, que limitou a e às transformações ocorridas na agricultura européia possibilidade de manter o volume de investimentos
nos decênios finais do século. produtivos necessários para tornar mais competitivo o
A obra de Kautsky estava presente nos debates próprio trabalho.
surgidos no Congresso de Frankfurt (1894) e nos O problema, portanto, se apresentava como
rumos aí tomados pelas discussões sobre a Questão necessidade de chegar a uma adequação da
agrária, que favoreciam um modelo de produtividade da agricultura camponesa à do desenvolvimento para a agricultura baseado na capitalismo, tanto agrário como industrial. Por sua
pequena propriedade camponesa, tipicamente parte, a grande empresa agrícola imitava de perto aquilo "bávara", que não levava em conta a situação das que acontecia na indústria, divisão do trabalho e
demais regiões do Reich. Mas o problema camponês, especialização monocultural, sem particulares segundo Kautsky, não podia ser enfrentado como uma considerações pelas motivações que não pudessem
realidade isolada em si, solucionável em bases reduzir-se ao princípio do lucro. A introdução das
democrático-burguesas, mas tinha que ser analisado máquinas no ciclo de produção (ceifadeiras, arados a
em relação à grande propriedade, isto é, corno parte de vapor) era considerada como a única intervenção
um sistema organizado sobre dois pólos: grande e verdadeiramente decisiva da Questão agrária: pequena propriedades. Nesta perspectiva, ele tornou conseqüentemente, aconselhava se a constituição de
claro que a modernização da agricultura alemã — mas grandes empresas sem ter em conta as condições do
este critério podia muito bem ser aplicado a grande solo ou da oferta local de mão-de-obra. Crescia, dessa
parte da agricultura do continente europeu — devia forma, a já estreita dependência do campo da economia
ajustar-se e da
1044 QUESTÃO AGRÁRIA
sociedade urbana e, ao mesmo tempo, acabavam tornavam mais aptas a receber essas grandes levas de
eliminadas as formas intermediárias de produção, que força de trabalho estrangeira. É talvez devido a esta
se situavam entre o proletariado capitalista e o braçal. alternativa oferecida pela emigração que as tensões
As máquinas tinham a dupla função de reduzir os sociais relativas à Questão agrária não provocaram
custos de produção, sustentando a produção das nunca um movimento revolucionário de massa,
grandes empresas contra a concorrência externa, e de embora a atividade política de anarquistas e socialistas
regular o mercado de trabalho, mantendo alta a oferta tenha registrado um desenvolvimento notável nos
de mão-de-obra. A presença das máquinas se tornava, campos no final do século XIX. então, uma arma contra as greves sazonais muito mais Evidentemente, não foram estranhos à Questão
eficaz do que a intervenção da autoridade estatal. agrária os movimentos, no início espontâneos, em
Mas, nesta situação, o programa dos social-democratas seguida cada vez mais controlados e dirigidos pelas
alemães não propunha a defesa da agricultura associações sindicais, que organizaram, em defesa da camponesa, cuja estrutura social, baseada na família própria condição, os assalariados, meeiros, ampliada, era considerada muito conservadora. Fazia- arrendatários e camponeses pobres. Foram se uma distinção entre empresas camponesas especialmente importantes os que se verificaram na parasitárias e não parasitárias: estas últimas deviam Itália entre o fim do século XIX e o primeiro quartel
ser defendidas com um conjunto de intervenções deste, culminando nos fasci sicilianos e na ocupação legislativas contra os resíduos feudais e o trabalho das das terras em 1919-1921. O capitalismo agrário na
crianças, em defesa dos trabalhadores sazonais, e em Itália do século XIX não teve manifestações muito
prol de uma maior facilidade de associação entre os diferentes das dos outros países europeus: os
camponeses, da instrução técnica e da nacionalização numerosos contratos existentes na península se foram das florestas. A mediação da nova tecnologia agrária modificando paulatinamente, evoluindo para a solução
era o meio com que as pequenas empresas camponesas monetária das relações entre proprietário e arrendatário podiam se tornar agentes sociais ativos numa nova ou para a erosão das cotas in natura das colônias em Alemanha. parceria. Estas lutas se inseriam num movimento
secular de tensões de classe entre proprietários e
III. CRISE SOCIAL E REESTRUTURAÇÃO SÓCIO POLÍTICA camponeses, entre cidade e campo (revoltas durante o
NOS CAMPOS. — É importante lembrar que, enquanto o período napoleônico, usurpação dos domínios públicos
desenvolvimento econômico nos campos europeus já no Sul, em 1847, e agitações na Lombardia, em 1848,
seguia um modelo capitalista, o desenvolvimento das invasões dos domínios públicos, e feudos após a queda estruturas políticas continuava condicionado pelos do regime bourbônico), que são um testemunho da
chamados "resíduos feudais". Os junker, os barões aspiração camponesa à propriedade da terra. A análise
sicilianos, como também os grandes magnatas da gramsciana do Ressurgimento como "revolução agrária terra do Leste europeu admitem, pelo menos em teoria, falhada" é, sem dúvida, a chave para se compreender o
a reestruturação capitalista das próprias empresas, peso que manteve a renda fundiária no mas ficam com o domínio do poder político, e através desenvolvimento político do novo reino da Itália. de uma burocracia a eles submissa, lhes é permitido o Apesar de a parte mais esclarecida dos proprietários
controle do Estado. É preciso, portanto, acentuar que a fundiários ter feito própria a questão do melhoramento
emigração da força de trabalho excedente — os mais das condições de vida dos camponeses italianos, logo
pobres, excluídos da propriedade da terra, mas também após os motins em defesa da moenda em 1869 (como
os mais empreendedores — para o continente o testemunham as atas da junta de Inquérito Agrário, americano facilitou o desenvolvimento econômico 1877-1884, redigidas sob a orientação do conde capitalista e a manutenção de um sistema político Stefano Jacini, católico liberal, e do ex-acionista
conservador, quando não claramente reacionário. As Agostino Bertani), o mecanismo de transformação das
massas camponesas expulsas da terra não se inseriram rendas em lucros se tornou mais lento que o caos sócio-diretamente no ciclo de produção industrial dos econômico provocado pela Grande Depressão. próprios países: por exemplo, a Itália, o Leste europeu Na Itália, como em outros lugares do continente
e a Rússia têm um desenvolvimento industrial europeu, entre as associações que, de várias maneiras, fragmentário, dependente das finanças e da tecnologia tentaram responder à Questão agrária de forma anglo-francesas e alemãs. A urbanização aconteceu, organizada estão os sindicatos de inspiração socialista, portanto, nas nações de além-mar, onde a organização as organizações católicas, os comícios agrários e as econômica da cidade e do campo e a falta de rígidas sociedades de estruturas sociais as
QUESTÃO AGRÁRIA 1045
proprietários. Após o fracasso das insurreições ajuda, numa perspectiva de reorganização e anárquicas dos anos 70, os socialistas procuraram modernização das estruturas produtivas. O Vêneto foi
contatar os assalariados rurais da Itália Setentrional, da certamente a região onde mais se desenvolveram as
Puglia e da Sicília, com reivindicações que .tinham seu associações católicas, que aqui herdaram particulares
centro nos aumentos salariais, ou nos arrendamentos condições para a inserção do clero na vida social do
coletivos de feudos e domínios públicos caso disto se campo, importante resíduo da administração dos
apresentasse a ocasião na Itália Meridional. Não foram Habsburgos. Tendo como modelo a experiência alemã
sempre fáceis as relações entre camponeses e e austríaca, surgiram caixas de poupança por toda a socialistas: os primeiros, divididos entre uma parte. Elas foram o meio de reunir as poupanças dos multiplicidade de contratos agrários a que mal se agricultores que ainda não tinham sido arruinados
aplicava a divisão simplista entre proprietários e pela crise, permitindo o reinvestimento em máquinas,
assalariados; os segundos, flutuantes entre as posições adubos e sementes selecionadas. Porém, dessa forma,
dos socialistas franceses, favoráveis à pequena aumentava a dependência da agricultura camponesa propriedade, e a adaptação das teses de Kautsky a um dos produtos da indústria e dos mecanismos de contexto em que não faltavam diferenças notáveis. crédito. Em outros lugares, especialmente nas regiões
Para os socialistas, a difusão do capitalismo nos tradicionais da parceria, não faltaram propostas de
campos também determinaria um claro melhoramento consolidação da própria parceria, como meio para
na situação da agricultura italiana. Assim enquanto as superar a crise econômica e especialmente para frear a
agitações dos braceiros mantuanos se assemelhavam transformação dos meeiros em assalariados e,
mais às reivindicações salariais operárias, era com conseqüentemente, a adesão certa destes ao
maior dificuldade que os socialistas italianos se socialismo. O apoio à parceria significava, portanto,
defrontavam os os fasci sicilianos, onde as manter o status quo social nos campos. reivindicações autonomistas estavam ligadas a uma Não foi de pouca importância o papel que tiveram
mais profunda rejeição do Estado unitário e do as associações dos proprietários na formulação da
respectivo sistema fiscal. Enfim, a oposição entre política agrária do reino da Itália: muitos deles tinham
pequenos proprietários, meeiros e assalariados se assento na Câmara ou no Senado, como por exemplo
encontrava também na Federação Nacional dos Jacini, Minghetti, Salandra. A opção protecionista de
Trabalhadores da Terra (1901). Os anos que 1885 alinhava a política econômica italiana com a da
precederam a Primeira Guerra Mundial constituíram França e da Alemanha e, a seguir, com a da Áustria,
um período de intensa transformação capitalista do Hungria e Rússia; os impostos sobre o trigo serviriam
campo e de fortes lutas contratuais que levaram ao para proteger e reestruturar a cultura cerealífera
aumento dos salários dos braceiros no Norte e ao italiana (elevando seu produto unitário), através da
melhoramento do padrão de vida dos camponeses aplicação das técnicas mais modernas (sempre
arrendatários, meeiros e pequenos proprietários. inspiradas no high farming inglês) e da destinação das Ficava o problema do desmembramento do latifúndio terras piores a culturas tipicamente mediterrâneas,
meridional em pequenas propriedades; começava a como a oliveira e a videira, geralmente protegidas
surgir uma nova capacidade produtiva, graças contra a crise provocada pela concorrência de além-
especialmente aos investimentos em máquinas mar. Uma reestruturação técnica que implicava
agrícolas. Só Salvemini propôs a pequena propriedade também uma reorganização da sociedade agrária e
em vez da enfiteuse como efetivo melhoramento para contava com o consenso dos elementos mais
os camponeses meridionais, na perspectiva da união avançados da indústria, como A. Rossi, desde que, bem
política entre operários do Norte e camponeses do Sul. entendido, o protecionismo agrário não trouxesse o
Nesta situação, ficava uma ampla margem para as aumento dos salários industriais. Veículo da
associações católicas e para as dos proprietários. São reconstrução técnica foram os comícios agrários e, a
bem conhecidas as ligas brancas, de inspiração seguir, os consórcios agrários (1892), que surgiram em
católica, organizadas por Luigi Sturzo na Sicília, logo todas as províncias do reino. A atividade destes estava
após os fasci, e, paulatinamente, nas demais regiões da orientada para dois objetivos: a formulação de
Itália: congregavam aqueles setores de pequenos e contratos agrários modelares, em consonância com as
médios proprietários, que, havendo sido também relações de produção locais, e a venda de produtos
profundamente atingidos pela crise econômica, foram industriais especializados já insubstituíveis, para
deixados de lado pela propaganda socialista. manter altos os rendimentos e defender as culturas de
Os princípios que inspiravam a ação dos católicos doenças, tais como peronóspora e a filoxera. Próximos
visavam a formação de associações de mútua em muitas questões
1046 QUESTÃO AGRÁRIA
(a parceria, o crédito rural, a pequena propriedade) à Romênia 1931), partidos com características nacionais
prolemática dos católicos, eles nos revelam mais próprias, mas que, em geral, estavam de acordo em
claramente a sua composição classista, quando justificar a propriedade privada como propriedade do
analisamos as listas dos sócios e dirigentes: empresários uso do solo e em eliminar os intermediários
burgueses e membros da antiga nobreza do lugar são capitalistas entre o camponês e o mercado urbano,
quem garante do alto as transformações capitalistas da apresentando-se como radicais dentro do alinhamento
agricultura da região. político dos novos Estados nacionais. E não faltaram,
como na Romênia, movimentos populistas paralelos de
IV. O CAPITALISMO NOS CAMPOS E A "ida ao povo", contrastados, é claro, pelos regimes
QUESTÃO AGRÁRIA NAS DÉCADAS DE 20 E 30. fascistas, que se instauraram nos países do Leste — A Crise produzida pela Primeira Guerra Mundial, europeu. De resto, 0 desaparecimento dos impérios
com a participação em massa dos camponeses nas centrais e a atormentada vida política da república de
frentes de batalha em toda a Europa e com a sua maior Weimar e da república austríaca obrigaram a social-
politização, levou ao agravamento das relações de democracia austro-alemã a rever suas bases teóricas
classe no campo, especialmente na Europa Centro- sobre a Questão agrária, para favorecer uma aliança
Meridional, onde a economia camponesa mantinha sócio-política mais vasta, que reforçasse os precários
fortes traços de auto-suficiência sócio-econômica. sistemas políticos democráticos. Assim, Otto Bauer
Então, só a reforma agrária se apresenta como compreendeu que a situação sócio-política da
alternativa à transformação da Questão agrária em agricultura camponesa devia ser analisada em termos
revolução. A queda do czarismo abria o caminho, na diferentes daquilo que tinha sido feito na década de 90.
Rússia, para a ocupação e divisão dos latifúndios A pequena propriedade mostrava uma forte tendência
nobres e das florestas pelos camponeses. a não desaparecer diante da grande empresa capitalista
Na Europa, os primeiros anos após a guerra (da qual dependia, oferecendo força de trabalho em
registraram um suceder contínuo de lutas e revoltas. Na tempo de crise). Aliás, na Itália, fortaleceu-se
Itália, entre 1919 e 1920, numerosíssimas greves exatamente nos anos que se seguiram imediatamente à
desembocaram na ocupação de terras, especialmente na guerra. A transição para o socialismo exigia a Itália Centro-Meridional, de domínio público e expropriação das grandes propriedades (recorde-se latifúndios. A queda da Áustria-Hungria deixava aberta que, na Europa Central, estas controlavam imensas
a questão dos latifúndios nobres nas mãos da áreas de florestas e pastagens), mas o Estado tinha que aristocracia austríaca e magiar. Além disso, a se limitar à exploração dessas áreas, para não perturbar Revolução Russa teve prontos reflexos nas províncias a propriedade camponesa. Nesta perspectiva, a aliança
orientais do ex-império dos Habsburgos e, em 1917, entre operários e camponeses podia tornar-se realidade
houve explosões revolucionárias na Transilvânia, somente se os camponeses pobres conseguissem se Bessarábia, no Vojvodato e na Croácia. Nestas regiões subtrair ao controle político exercido pelos e na Tchecoslováquia, a grande propriedade foi camponeses ricos, que, através do consórcio de repartida em benefício dos camponeses locais. Na estruturas de crédito, muito desenvolvidas na Áustria e
esperança da transformação completa da Hungria em na Alemanha, possuíam instrumentos primordiais de
Estado socialista e da nacionalização das terras, Bela pressão. Mas, no breve período de dez anos, na onda
Kun deixou intato o regime agrário existente: foi da crise econômica de 1929, o partido nacional-
tarefa do almirante Horthy dividir, na década de 30, a socialista tomou o poder nos países alemães,
insignificante quantidade de um milhão de hectares explorando, entre outros, os sentimentos nas fronteiras do país e transformá-los em servidão anticapitalistas dos camponeses em relação ao
militar. Pouco mais de seis milhões de hectares foram capitalismo financeiro. A democracia burguesa, que se divididos, com objetivos semelhantes, na Polônia, antes apoiava na união política da pequena burguesia e dos
e depois da ascensão de Pilzudski ao poder. Na camponeses, foi, segundo Bauer, suplantada pelo
Romênia, em 1918, a reforma agrária solucionava o nacional-socialismo, que, embora manobrado pelo
fracionamento dos latifúndios na Transilvânia e sistema financeiro, pelo capitalismo industrial e pela Bessarábia, enquanto que, na Bulgária, a reforma era aristocracia fundiária, conseguiu dar um escape
dirigida contra as propriedades dos camponeses ricos. ideológico à insatisfação do pequeno-burguês e do
Mas o fenômeno político de maior relevância no camponês. O rearmamento e a necessária política de
Leste europeu, no espaço intermediário entre as duas auto-suficiência alimentar, praticada pela Alemanha,
guerras, foi a criação espontânea de numerosos absorvia a superprodução agrícola: slogans como Blut partidos camponeses (Hungria 1919, Bulgária 1923. und Boden deviam servir ao camponês alemão Polônia 1926, Iugoslávia 1926,
QUESTÃO AGRÁRIA 1047
para sentir-se fundamento do Reich, no momento em caminho: em 1930, a campanha para a coletivização que a propriedade de sua terra se tornava perpétua, foi iniciada e conduzida pela burocracia proveniente da enquanto que suas necessidades e prioridades cidade e estritamente fiel a Stalin. O kolkhoz se tornou econômicas eram decididas pelo Estado totalitário a estrutura sócio-econômica que, sob o controle do através de uma rígida política de preços. poder político externo, permitiria, finalmente, uma Profundamente diferentes foram as soluções da melhor exploração do trabalho camponês. Foram Questão agrária na Rússia. No início do século, destruídas as antigas formas comunitárias mir. Já são populistas e socialistas revolucionários (1900) se conhecidos os custos sociais e econômicos causados opunham a uma aplicação imediata da análise marxista pela apressada decisão que, aos olhos dos dirigentes à grande empresa e à empresa camponesa, sustentando soviéticos da época, pareceu já uma verdadeira guerra, que a velha comunidade camponesa poderia ser a para obrigar os camponeses a se integrarem estrutura social que evitaria a fase do capitalismo na politicamente e a contribuírem para o esforço maciço
agricultura. Por sua parte, Lenin (O programa agrário de industrialização do Estado soviético, mediante uma da social-democracia, 1907, e Teoria da questão drástica redução do consumo. agrária, 1899-1917) seguiu mais estritamente a análise de Kautsky. Imediatamente após a revolução russa de V. QUESTÃO AGRÁRIA E REFORMA AGRÁRIA HOJE: os 1905, as reformas de Stolypin, 1906-1910, procuravam PAÍSES EXTRA-EUROPEUS. — Neste contexto, é mister resolver o problema da dependência da força de lembrar, tendo por base o esquema de análise trabalho agrícola da obscira, a comunidade da vila que fornecido pela experiência européia, se hão de levar assumiu a responsabilidade fiscal após a libertação dos também em conta as modificações por que passou a
servos (1858-1861). A queda do regime czarista Questão agrária na segunda metade do século XX. É provocou a invasão imediata dos latifúndios e das necessário, porém, adiantar, que só formalmente se
florestas pelos camponeses e, dois anos depois, a trata da continuação de problemas ligados à afirmação
propriedade camponesa dominava toda a Rússia, do modo de produção socialista no campo, satisfazendo a uma aspiração secular. Mas. se a divisão definitivamente introduzido na sociedade ocidental
das terras dava a quem não tinha nada, acrescentava durante a primeira metade deste século. Com efeito,
também a quem já era proprietário. As forças sociais enquanto que nos primeiros decênios o contexto
de produção se dividiam, portanto, em kulaki, permanece aproximadamente igual ao da década de 80 camponeses médios, e camponeses pobres e braçais; a do século passado, após a Segunda Guerra Mundial, o
eles se acrescentavam alguns kolkhoz e sovkhoz e os salto qualitativo da tecnologia e da economia em
velhos mir. O novo Código agrário (1922), ao mesmo escala internacional é tão grande que os problemas da tempo que socializava os meios de produção com a transformação agrária se inserem numa perspectiva
nacionalização das terras, garantia o uso hereditário estruturalmente diferente. A descolonização acaba
perpétuo dos camponeses. Enquanto se tornava cada revolvendo o status quo político de muitos países extra-vez mais claro que o ambicioso plano de europeus e obriga o capitalismo internacional a industrialização da Rússia não podia ser atingido com reorganizar os próprios sistemas de exploração, em a estrutura social existente no campo, era elevada a harmonia com o que se define por Terceiro Mundo,
diferença de rendimento e produtividade das grandes e países primeiro subdesenvolvidos e hoje países em vias pequenas empresas camponesas. Reacende-se o debate de desenvolvimento. Os países europeus, do fim do sobre a maior ou menor produtividade da grande século passado à década de 30, enfrentaram sempre a empresa: atingiu elevado nível de teorização a escola Questão agrária no âmbito do capitalismo nacional,
de "organização e produção", bem como seu maior apesar das várias intervenções bancárias estrangeiras, e
expoente, A. V. Chayanov, que desenvolveu temas à permitiram às burguesias nacionais, ou aos resíduos do
margem do marxismo. A queda dos abastecimentos feudalismo ainda politicamente ativo a plena urbanos em 1927 e o aumento do poder dos disponibilidade do produto nacional bruto. De outro camponeses em relação ao setor industrial (cujo lado, as burguesias nacionais dos países coloniais ou desenvolvimento de fato limitavam) foi a mola que ex-coloniais criaram seu próprio poder político e
levou à coletivização dos campos. Trotsky ainda econômico na adesão ao modelo de exploração das sustentava que a coletivização e a mecanização da matérias-primas dos países de capitalismo avançado.
agricultura eram o único sistema capaz de aumentar a Nas sociedades não industrializadas, a terra representa produtividade e permitir a industrialização. Stalin, em a principal forma de riqueza que produz, entre outros,
Construção do socialismo num só país, indicava o o poder político e mesmo
1048 QUESTÃO AGRÁRIA
econômico, e isto se reflete nos sistemas locais de leve, indústria pesada. É provável que a aluai política
propriedade e de exploração do solo. Neste sentido, a de modernização se torne possível pela capitalização
Questão agrária não é solucionável aplicando-se do trabalho camponês nos lugares de produção, nas
unicamente novas técnicas e novos instrumentos de décadas de 60 e 70.
crédito, como podem crer à primeira vista as Os acontecimentos da Questão agrária na Europa se
sociedades européias aqui consideradas: a Questão ligaram intimamente à economia industrial urbana.
agrária se impõe necessariamente como reforma Solucionou-se o conflito secular entre cidade e campo
agrária, exatamente porque na situação anterior à em total desvantagem deste último. Historicamente
reforma a produção era fraca em confronto com a continua sendo questionado se o desenvolvimento
concorrência estrangeira. Além do mais, estava aí uma político da sociedade européia (e das sociedades que a
garantia contra a difusão dos movimentos tomaram como modelo) foi facilitado ou retardado
revolucionários de inspiração marxista. pela ausência-presença de uma vasta classe de
Mas, assim como na transformação capitalista dos pequenos e médios proprietários camponeses.
campos europeus a agricultura foi subordinada à Recentemente os teóricos da modernização, que se
indústria em razão da tecnologia empregada, assim inspiraram no desenvolvimento político e social do
também o imperialismo econômico consegue mundo anglo-saxão, puseram em relevo a ação
subordinar a si as possibilidades de redução dos moderna que a existência de uma numerosa classe
problemas agrários dos países em vias de camponesa exerce sobre a sociedade política. Tendo
desenvolvimento, com sua interferência na tecnologia em conta a experiência destes últimos anos, parece,
e nas estruturas de crédito. Já Lenin, em Imperialismo, pelo contrário, considerados também os exemplos
estúdio supremo do capitalismo, insistia na acima referidos, que as soluções autoritárias nos países
necessidade que o imperialismo capitalista tinha de de grande maioria camponesa se deram devido à
exportar capitais para os países atrasados. Da mesma capacidade dos grupos hegemônicos encontrarem as
forma hoje a tecnologia, produto do capital investido instituições necessárias para quebrar a unidade cultural
nos países industrializados, é exportada para as da classe camponesa: a subordinação da agricultura à
agriculturas em vias de desenvolvimento e condiciona indústria, ao capital e, especialmente hoje, à pesquisa
a sua transformação em sentido capitalista. Por científica foi e é ainda a forma de manter sob controle
exemplo, no México (1911, 1934-1940), na Bolívia a classe camponesa.
(1935). no Chile (1964-1970), no Peru (1969), as
reformas agrárias fortaleceram mais a burguesia
agrária do que as classes camponesas. Se é possível BIBLIOGRAFIA.-VAR., Instituzioni agrarie nel decollo
comparar os países em vias de desenvolvimento ao industriale. in "Quaderni storici". 36. 1977; P. BARRAL.
"campo do sistema sócio-político atual e os países Les agrariens français de Méline à Pisani. P.F.N.S.P
industriais à cidade" (Lin Piao), é somente examinando Paris 1968: O. BAUER. Der Kampf um Wald und Weide.
as relações entre indústria e agricultura dentro de cada 1925. e SozialdemokratischeAgrarpolitik, 1926. in Id..
país que é permitido ir além do slogan político. Vimos Werkausgabe Europa Verlag. Wien 1976. III Id.. Tra
como as relações entre os dois setores formam a due guerre mondiali? (1936). Torino 1979- A.
armação dentro da qual se inserem os dados CARACCIOLO. La questione agraria e il movimento
particulares da Questão agrária: precisamos agora nos socialista nelle campagne. in • Critica sociale". ao
lembrar que hoje os setores agrícola e industrial cuidado de M. SPINELLA. A. CARACCIOLLO. R.
contribuem de forma diferente para o sistema político AMADUZZI.G. PETRONIO. Felinelli. Milano 1959: F. DE
e econômico internacional. O único país que organizou VECCHIS e A. VAROTTI. Il marxismo e la questione
uma política econômica redutível à análise aqui agraria in Italia. Storia teoria metodologia Roma
desenvolvida das relações entre indústria e agricultura 1975: M. GUTELMAN. Struttura e riftrme
é a China. O slogan "Tornar a agricultura a base e a nell'agricoltura. Mazzota. Milano 1976: P. JALEE. Lor
indústria o fator dirigente" significava renunciar à pillage du tiers monde. Maspero. Paris 1967: K.
opção da industrialização pesada como fator de tração KAUTSKY. La questione agraria (1899). Feltrinelli.
da revolução socialista na China. As três fases (1949- Milano 1959: S. LANARO. Movimento cattolico e
1952, reconstrução; 1953-1957, primeiro plano sviluppo capitalistico nel Veneto fra '800 e 900. in
qüinqüenal; 1958-1960, "salto à frente") que precedem "Studi storici". XV. 1974: D. MITRANY. Marx against
a política econômica acima sintetizada marcaram the peasant. A studi in social dogmatism, University of
opções políticas cada vez mais distanciadas do modelo North Caroline Press. Durliam 1951: B. MOORE JR
de desenvolvimento soviético e a adoção da ordem de Origini sociali della dittatura e della democrazia
prioridade: agricultura, indústria (1966). Einaudi. Torino 1970 E. SERENI. La questione
agraria nella rinascita nazionale italiana Einaudi. Torino 1975 2: J. TEPICHT. Marxisme et agriculture. Colin. Paris 1973: V. I. ULIANOV (LENIN). LO sviluppo del capitalismo in Russia (1898), Editori Riuniti. Roma 1956: Id.. Teoria
QUESTÃO MERIDIONAL 1049
dellaquestione agraria 1899-19I7 Editori Riuniti. Roma 1951 D. histórico do problema, mas é indispensável identificar
WARRINER. Economics of peasant farming F. Cass, London os mecanismos precisos que a intervenção do Estado
1964 2: Lotte agrarie in Italia La Federazione Nazionale del possa modificar com êxito. lavoratori della terra 1901-1926 ao cuidado de R. ZANGHERI. A Questão meridional como problema político,
Feltrinelli. Milano 1960 cultural e econômico surge com a unificação italiana:
Cavour entreviu, desde os primeiros relatórios dos
[MAURO AMBROSOLI] enviados do Governo piemontês, as condições de
atraso do ex-reino bourbônico.
O problema, contudo, é logo colocado e
Questão Meridional.
implicitamente solucionado, atribuindo a responsabilidade aos Bourbons. O mau Governo destes
I. DEFINIÇÃO E TOMADA DE CONSCIÊNCIA DO PROBLEMA. teria depauperado uma região de per si rica, que, para
— Por Questão meridional se entende comumente a sarar dos males que a atormentam, precisa somente de
situação de atraso ou de subdesenvolvimento, a nível um Governo esclarecido e enérgico. Este é o
sobretudo econômico e social, e também político argumento que pesa de forma crucial no debate sobre
segundo alguns, em que se achava e ainda se acha a centralização e descentralização que se desenvolve
Itália meridional. Esta situação pode ser analisada nesses anos no novo Estado. O Sul não pode ficar
principalmente a partir de dois pontos de vista abandonado a si mesmo: sua sociedade é corrupta, ou
diferentes. Antes de tudo pode ser estudada na sua melhor, foi corrompida pelo poder político; portanto,
apresentação efetiva e no desenvolvimento da não está em condições de autogovernar-se. Outorgar ao
realidade italiana dos séculos XIX e XX e portanto Sul um sistema federal como o americano significaria
atribuída ou não a toda uma série de eventos históricos não somente pospor qualquer solução do problema, mas
que condicionaram o processo de unificação e de especialmente pôr em perigo a mesma unidade do
desenvolvimento da sociedade italiana. Estado italiano, mantendo na Itália meridional uma
É este o tipo de abordagem que. por muito tempo, situação de mal-estar social potencialmente perigosa.
dominou na cultura italiana em relação ao problema. Dessa forma, embora desde 1860 se tivesse notado
Esta abordagem, naturalmente, não impede que a a existência de uma grave questão no Sul, na década
análise passe a um campo mais estritamente operativo e seguinte, a própria colocação acima mencionada tornou
forneça, portanto, indicações mais propriamente mais forte a convicção de que a mera unificação seria
políticas. Mas, forçosamente tende a focalizar capaz de, por si só, resolver tal questão, impedindo
especialmente aquelas peculiaridades da história que, no debate político do novo Estado, fossem
italiana que contribuíram para o surgimento do abordados com maior atenção os problemas do Sul.
problema. Deste ponto de vista, este tipo de
abordagem, se de um lado põe em claro um conjunto II. A PROCURA DAS CAUSAS. — Entretanto, desse de dados indispensáveis para a compreensão do modo, torna-se estável no Sul uma situação típica de problema, acaba por não levar em conta as úteis atraso. Dois grandes grupos sociais dominam a cena: a
indicações que a análise comparada pode dar, grande propriedade agrária de origem mobiliária ou especialmente por não evidenciar os mecanismos que grã-burguesa, reforçada em seguida pelo produzem ou tendem a produzir, em determinadas desmembramento da mão-morta eclesiástica, e numa circunstâncias, um certo tipo de situação como a do massa numerosa de camponeses sem terra ou
Sul. proprietários de minúsculos terrenos, ligados
economicamente à grande propriedade. No meio de
É exatamente à reconstrução possível destes
uma pequena burguesia crescente, a classe média, que,
mecanismos que se tem dedicado a análise das
não tendo meios próprios de subsistência, se reduz a
ciências sociais que, após a guerra, começaram a
atividades de serviço à grande propriedade, aspirando,
ocupar-se com o estudo da Questão meridional. Como
em medida cada vez maior, aos empregos estatais, que
se verá, o êxito deste novo tipo de abordagem se deve,
logo se tornam seu exclusivo monopólio.
não só à influência da cultura anglo-saxônica, como
também, em grande parte, ao surgimento, a nível Nos anos sucessivos à unificação, a situação evolui
internacional, do estudo dos problemas do atraso e do cada vez mais neste sentido: consolidação da grande
subdesenvolvimento. propriedade, que consegue, assim, se inserir com
sucesso no sistema político nacional; início de um
Na Itália, a questão nasce especialmente da
longo processo de meridionalização do aparelho
reconhecida necessidade de que o Estado intervenha na
burocrático do novo Estado, que
realidade social para modificar os mecanismos que
produziram e produzem o atraso no Sul. Para isso, não
basta só um conhecimento estritamente
1050 QUESTÃO MERIDIONAL
permite absorver, em larga escala, as aspirações sociais bloco do poder meridional, Fortunato chega enfim a
da pequena burguesia; marginalização política dos considerar inútil e até perigosa qualquer intervenção do
camponeses, que se manifestam, unicamente através de Estado na vida econômica do país e, em conseqüência
formas impróprias, como o banditismo e revoltas locais disso, a converter-se depois a um liberalismo radical,
semelhantes às jacqueries. medievais. opondo-se a um protecionismo estatal que se
Só depois de 1870, começa-se a tomar consciência, demonstrara um formidável elemento de conservação
nos círculos políticos dominantes, da potencial da estrutura social do Mezzogiorno.
periculosidade desta situação. Houve um notável Neste sentido, a Questão meridional se associa
grupo de estudiosos que contribuiu para fazer estreitamente à crítica do Ressurgimento e, portanto,
concentrar a atenção da opinião pública sobre os aos modos de realização do processo de unificação
problemas do Sul. nacional. Para Colajanni, por exemplo, entre Norte e
Alguns deles se agrupam ao redor de "Rassegna Sul se estabeleceu então uma relação semelhante em
Settimanale" e iniciam um estudo sistemático e, muitos aspectos à que se instaura normalmente entre
enquanto possível, científico das condições da região uma potência colonial e suas colônias.
meridional. É o chamado grupo dos meridionalistas Contemporaneamente, mas focalizando o aspecto
conservadores que, conscientes da gravidade da estritamente econômico, Nitti trata de analisar com
Questão meridional, pretendem solucioná-la, induzindo extrema precisão o processo de empobrecimento do
as classes dirigentes a uma política de mais amplas Sul. Sua análise o faz remontar à função subalterna
ambições, capaz de fortalecer as bases da jovem nação exercida pelo Sul em relação ao processo de
italiana e de dar provas da missão histórica da burguesia desenvolvimento industrial concentrado no Norte.
como classe libertadora (Salvadori, 37). E, por crerem Através de uma análise atenta da política econômica e
num conservadorismo capaz de ser motor de financeira do Estado unitário, Nitti conseguiu
progresso, seu ponto de referência é o modelo político demonstrar como houve uma efetiva transferência de
constitucional inglês. São eles Pasquale Villari, Sidney riqueza do Sul para o Norte e como essa transferência
Sonnino e Leopoldo Franchetti, autores estes dois favoreceu fortemente a arrancada econômica do
últimos do famoso inquérito sobre "Sicília em 1876". Norte, enquanto que este processo de exploração
Seu trabalho se enquadra principalmente no campo da impediu o desenvolvimento industrial do Sul,
pesquisa empírica das condições da sociedade deteriorando, em geral, a sua situação sócio-
meridional, produzindo um extraordinário e econômica. Deste modo, a análise de Nitti chegou à
interessante volume de dados. conclusão, muito importante para os eventos
Quanto à terapia sugerida para mudar a situação, a sucessivos, de que, sem um sólido processo de
principal medida necessária é a transformação do industrialização, ajudado e dirigido pelo Estado, não
latifúndio meridional num vasto número de seria possível resolver a Questão meridional.
arrendamentos em parceria ou de pequenas Não se deve esquecer, porém, que apontavam em
propriedades, para formar assim uma numerosa classe sentido contrário as indicações de Don Sturzo.
de camponeses econômica e politicamente Segundo ele, não se tratava de levar o Sul a percorrer
independentes. o mesmo caminho seguido com sucesso pelo Norte,
Com Giustino Fortunato, a colocação do problema mas de racionalizar sua estrutura produtiva existente,
vai mais além. Apresenta-se a necessidade de isto é, a agricultura. Deste modo, em seu entender, a
considerar com mais atenção quais as forças que estão modernização do Sul se processaria sem abalos,
possivelmente interessadas em fomentar uma política poupando à sociedade meridional as rupturas
de reformas no Mezzogiorno. Para Fortunato, somente o desagregadoras próprias das transformações
Estado está em condições de efetuar tais reformas, industriais.
mobilizando, porém, a favor destes objetivos de Entretanto, para acentuar a interdependência que se
reforma, as massas camponesas. Ele chega a estas criara entre o desenvolvimento do Norte e o atraso do
conclusões através da crítica ao processo histórico da Sul, chegou também o pensamento socialista,
unificação, representado pelo Ressurgimento, processo particularmente o de Ciccotti. Após uma primeira fase
que não envolveu certamente as grandes massas em que esse pensamento, infelizmente, se identificou
populares. Mas a confiança na mudança é posta com o sociologismo de tipo positivista e com suas
exatamente naquelas forças que governam o Estado, tristemente famosas teorias "científicas" sobre a
que não se mostraram muito interessadas em promover natural inferioridade racial dos meridionais como
mudanças relevantes. De fato, considera a obstinada causa principal do atraso do Sul, uma mais atenta
insensibilidade do Estado perante qualquer necessidade reconsideração do método marxista levou a colocar a
de reforma e a sua função de principal apoio do origem do
QUESTÃO MERIDIONAL 1051
subdesenvolvimento meridional no modo como visão reformadora tenda a considerar envolvera o processo de unificação administrativa e preponderantemente a sociedade italiana na sua
de desenvolvimento industrial do Estado italiano. globalidade: "a Questão meridional poderá ser
Neste sentido, o Sul, segundo a clássica afirmação resolvida, tornando o Sul base da revolução italiana"
marxista, era vítima, quer do desenvolvimento do (cit. in Salvadori, 369). No pensamento de Dorso se
capitalismo, quer da insuficiência desse mesmo sintetizam todos os temas do "meridionalismo"
desenvolvimento. italiano clássico: crítica do Ressurgimento,
Lá pelo fim do século, o debate tende a ultrapassar necessidade de uma força e de um rigor moral no
a dimensão teórica para se tornar acima de tudo reformador, confiança ao indicar como protagonista
político. da mudança um grupo social que está profundamente
A situação política meridional, caracterizada pela ligado ao sistema tradicional do poder: "a pequena
permanente corrupção de um restrito eleitorado, burguesia humanística". influencia negativamente os socialistas e os leva a Para Dorso, a situação do Mezzogiorno é fruto da buscarem acordos com as forças mais disponíveis das auto-exclusão da classe política meridional da gestão
classes dirigentes do Norte, menosprezando totalmente do poder político nacional. Mas, justamente por causa
as massas do Sul. Tanto mais que foi sempre escassa a disto, a superação da situação de submissão colonial
influência dos intelectuais meridionais na formação não pode ser confiada às camadas subalternas,
dos temas políticos de importância nacional. totalmente marginalizadas, mas àquelas camadas que,
Neste contexto, a importância de Salvemini "é a de estando no centro do sistema político, cultural e
ter sido o primeiro a afirmar a verdade, que agora se social, podem realmente ter influência na vida
tornou patrimônio ideológico das forças socialistas nacional através de novas formas de integração
italianas, de que, como os camponeses meridionais não política. O mérito de Dorso está, não obstante as
poderão se emancipar sem a ajuda dos operários do claras limitações da sua análise de classe, em voltar
Norte, assim também estes não poderão se tornar classe de novo a atenção, de maneira nova embora não
dirigente sem a aliança com aqueles" (Salvadori, 290). originalíssima, para a gestão do poder político, centro
É mérito de Salvemini ter tentado, antes que da orientação de toda a manifestação social e política
qualquer outro, uma completa análise das relações de no Sul e, por conseguinte, elemento unificador em
classe em que assentava o sistema de poder que relação à desagregação geral (Turnaturi e Lodi, 128-
governava o Sul, e de haver indicado as massas 29). camponesas como o sujeito que era mister mobilizar Ao mesmo tempo que Dorso, no campo socialista,
para quebrar a aliança entre latifundiários e pequena Antônio Gramsci levava ainda mais longe a análise.
burguesia, suporte essencial deste sistema. No Sul, de Partindo de considerações sobre a situação meridional
fato, faltam quase completamente duas classes não muito diferentes das clássicas, Gramsci as
fundamentais na sociedade moderna: o proletariado e a aprofunda numa ampla análise da classe dirigente
burguesia capitalista. italiana.
A solução necessária para esta situação encontra-se, Na Questão meridional identifica, antes de tudo,
segundo Salvemini, num processo de mobilização das uma situação funcional, tanto a nível político como
massas camponesas. Para ativar este processo, os econômico, em relação ao sistema de poder que se
meios essenciais são o sufrágio universal e o instaurou na Itália após 1861. Para Gramsci, esta
federalismo. Neste contexto, enquadra-se a aliança de questão está íntima e diretamente ligada com o
todas as forças progressistas do Norte, embora numa problema do Ressurgimento como revolução fracassada
óptica, para Salvemini, um pouco mecânica: isto é, e, por isso, ela se apresenta antes de tudo como uma
inicialmente os progressistas do Norte deverão questão nacional. Mas, precisamente por ser nacional,
conseguir o sufrágio universal e, em seguida, a Questão meridional precisa ser inserida na estratégia
conseguido esse sufrágio, Poderão mobilizar os do movimento socialista como problema fundamental,
camponeses e eliminar assim as forças reacionárias. e não acessório. Dessa forma, o problema principal a
Os dois momentos se mantêm, pois, separados, até que ser enfrentado é o do poder político central. É
Salvemini, desiludido da política oportunista de exatamente em tomo deste ponto que se dá a divisão
alianças do PSI, começou a considerar somente as entre reformistas e revolucionários dentro do
massas meridionais sem confiar mais nas massas movimento operário: entre quem crê que o problema
operárias do Norte. pode ser resolvido com o apoio do poder político e
E nesta perspectiva que se insere também a quem pensa, como Gramsci e outros, que somente
contribuição teórica de Guido Dorso, embora sua uma mudança nas relações entre as classes e entre
estas e o Estado pode efetivamente mudar a situação.
Segundo Gramsci.
1052 QUESTÃO MERIDIONAL
após 1861, formou-se na Itália uma estreita aliança uma verdadeira questão nacional: após o advento da entre os dois grupos dominantes a nível regional: os república, todos os Governos se propuseram o
latifundiários do Sul e os industriais do Norte. Isto objetivo de tentar resolvê-la, mas não conseguiram
condicionou profundamente o desenvolvimento grande sucesso. político do país após a unificação. Desta análise deriva Esta importância do problema meridional está
como conseqüência que, para derrubar tal aliança, também patente numa das críticas mais bem articuladas coligam-se os antagonistas históricos desses dois que se fizeram à visão gramsciana, a de Rosario grupos dominantes: a classe operária do Norte e os Romeo que, ao comentar a tese de Gramsci sobre o camponeses do Sul, dois elementos potencialmente Ressurgimento como revolução fracassada, apontou-revolucionários. No Sul, particularmente, Gramsci lhe as limitações, consistentes em não haver levado em identifica três camadas sociais dentro da sociedade consideração o ligame de funcionalidade existente agrária: a grande massa dos camponeses, amorfa e entre a exploração das massas camponesas e o desunida, os intelectuais da pequena burguesia rural, processo de acumulação originária do capital e de os grandes latifundiários e os grandes intelectuais desenvolvimento do capitalismo italiano. Com efeito, (Croce e Fortunato) (Gramsci, 149). uma revolução agrária implicaria a redistribuição da
São estes os elementos que o partido socialista — e propriedade da terra segundo o modelo francês,
depois o comunista — tem que enfrentar no Sul em diminuindo necessariamente os recursos disponíveis seu plano de transformação das estruturas sociais. O para a acumulação e freando notavelmente o processo partido organiza assim as classes e os grupos sociais e, de desenvolvimento econômico. Sob este ponto de naturalmente, os intelectuais, para colocá-los a serviço vista, a própria situação de subdesenvolvimento da
da revolução socialista. Mais precisamente, neste região meridional se entende também como uma fase plano, que se ressente amplamente sobretudo da de exploração do Sul pelo Norte, talvez moralmente problemática salveminiana, o papel dos operários do deplorável, mas economicamente necessária para o Norte não é mais somente o de tirar proveito das desenvolvimento global do país, e já implícita na concessões do capital, mas de organizar os diversidade das situações sócio-econômicas das várias camponeses do Sul através do partido, para a regiões italianas no momento da unificação. Por outras consecução de objetivos comuns. palavras, é na diferença dos pontos de partida que está
a principal explicação do subdesenvolvimento
Em suma, com Gramsci, no estudo da Questão
meridional.
meridional se impõe a necessidade de uma análise
crítica da sociedade e das forças sociais disponíveis A interpretação de Romeo suscitou, como é natural,
para a mudança. Sem uma análise das relações de muitas objeções. Foi em particular agudamente classe torna-se inútil e até contraproducente pôr-se o observado (Gerschenkron) que o pôr em evidência as
problema do Estado e formular a hipótese de uma carências e o caráter abstrato da crítica gramsciana ao
solução puramente política do problema. Ressurgimento não pode justificar o que foi feito pelas
classes dirigentes italianas nesse período. Mais: mesmo
O ponto a que chegou Gramsci se torna, no pós-
sem refutar substancialmente o esquema proposto por
guerra, ponto de partida para uma análise que ofereça
Romeo, a ação do Estado italiano após a unificação se
dados agora utilizáveis numa nova situação política
considera sem dúvida insuficiente no que respeita à
que já admitiu a necessidade de modificar, com a
canalização de recursos para o sistema industrial e ao
intervenção do Estado, as estruturas da sociedade
fomento do desenvolvimento econômico nacional. De
meridional.
qualquer modo, não obstante as críticas que lhe podem
III.. O DEBATE NO PÓS-GUERRA. — A constatação ser dirigidas, observa-se que até a tese de Romeo
acentua a necessidade de uma "política meridional"
mais relevante de onde é preciso partir para para resolver esta questão. compreender a evolução do debate é a persistência da
questão através do tempo, apesar de todas as tentativas Entretanto, pelas dificuldades que se encontram em
feitas para resolvê-la. A industrialização realizada no resolvê-lo, o problema começa a ser considerado
Norte não trouxe benefícios substanciais ao Sul, numa óptica cada vez mais ampla, que o assimila aos embora tenham sido experimentadas nestes últimos problemas gerais do atraso e do subdesenvolvimento. anos, mas sem sucesso, várias políticas tendentes a Além disso, no pós-guerra, a cultura italiana reata promover um desenvolvimento moderno. seus contatos com a cultura ocidental, particularmente
com a americana. Dessa forma, difundem-se também
Esta situação contribuiu, contudo, para pôr sempre
na
mais em destaque o problema e torná-lo
QUESTÃO MERIDIONAL 1053
Itália as primeiras teorias gerais do desenvolvimento uma revolução socialista impulsionada por todos
social formuladas pela sociologia anglo-saxônica. aqueles que, de qualquer modo, são sistematicamente
De acordo com esta corrente de pensamento, cujo explorados pela metrópole.
expoente máximo pode ser considerado T. Parsons, o Este tipo de análise encontrou, porém, críticas
desenvolvimento econômico social é um processo de muito fortes no próprio debate teórico internacional,
tendência universal, baseado na industrialização e na especialmente por causa do conceito do modo de
modernização, que com diferente intensidade envolve produção capitalista usado por Gunder Frank, mas,
e interessa potencialmente todos os países. sobretudo, pela subestima que faz do "papel dos Exatamente por este motivo, eventuais crises e reações fatores endógenos nos processos de mudança. A sua
que surgem nas sociedades tradicionais em relação a aplicação pura e simples à situação italiana gerou
este processo tendem a ser mormente interpretadas depois novas perplexidades. como fenômenos de resistência das antigas estruturas Antes de tudo, foi-lhe reprochado (Bonazzi) não ter
que procuram sobreviver diante do impacto inovador. sido ponderado suficientemente o fato de que o Sul,
Nestes termos, a Questão meridional se torna um há mais de um século, faz parte do Estado italiano.
fenômeno de Coisa de conseqüências não negligenciáveis, se se dualismo na estrutura social econômica
italiana. Aqui, de fato, convivem duas organizações considera, por exemplo, as funções particulares que
sociais de tipo diferente: um Norte avançado e um Sul exerce e exerceu sobre o sistema político nacional a
atrasado. A solução do problema acontecerá quase classe política meridional e a meridionalização da
que automaticamente, caso o Sul venha a ser administração pública. Mas lhe reprovam
progressivamente absorvido pelo desenvolvimento da particularmente não ter levado em consideração a
parte mais avançada do país. política meridional da despesa pública iniciada no pós-
guerra. O modelo de Gunder Frank, concentrando a
Todas as terapias que vêm sendo propostas para
análise nos processos de subdesenvolvimento
solucionar a Questão meridional partilham da
provocados pela exploração externa, não oferece
convicção comum de que, substancialmente, o
instrumentos teóricos para se compreender as
problema do subdesenvolvimento do Sul não é
particularidades da estrutura interna do Sul,
diferente do do Norte e que, portanto, não pode ser
especialmente as relações de classe. Por isso se
enfrentado e resolvido sem mudar o quadro social e
pensou (Bonazzi, 39) que a realidade atual do Sul da
político até agora dominante.
Itália pode ser melhor enfrentada com um esquema
Destas premissas decorre conseqüentemente a teórico que compreenda tanto os fatores exógenos
necessidade de eliminar, através da ação do Estado, como os endógenos e que permita avaliar os processos
todos os obstáculos que possam, de algum modo, de transformação, imputando-os às funções exercidas
perturbar ou obstaculizar o processo de penetração do pelos condicionamentos estruturais determinados pelo
desenvolvimento industrial na área subdesenvolvida; tipo de desenvolvimento da comunidade nacional e
uma grande importância é dada aos modelos de pela interação que se cria entre estes comportamento e aos valores, considerados como condicionamentos e a sociedade meridional, cruciais no processo de mudança social. considerada em seus componentes internos.
A esta tese foi progressivamente se opondo uma Resumindo e esquematizando, o problema que se
outra que insiste, ao invés, na unicidade do discute é se a consideração da Questão meridional, mecanismo de desenvolvimento que constitui a base, como um produto direto do desenvolvimento
quer do desenvolvimento do Norte, quer do capitalista na Itália, leva necessariamente a subdesenvolvimento do Sul. Apresentada em forma negligenciar a relevância da ação política a curto alegórica na Itália por Capecelatro e Cario, esta tese prazo, especialmente e sobretudo dentro do quadro
parte das formulações do economista norte-americano político-institucional em vigor. E sobre este problema
Gunder Frank e, em geral, dos neomarxistas que o debate continua entre os que julgam que a ação americanos Baron e Sweezy. estatal é, de algum modo, funcional para o
Se o capitalismo na sua evolução tende a criar e desenvolvimento capitalista e, portanto, incapaz, de
recriar contínuas polarizações entre áreas per si, de orientar a solução da Questão meridional, e metropolitanas e áreas satélites, estabelecendo, entre os que pensam que nela pode haver implicações
elas, relações de dependência e de exploração, a qualitativas não indiferentes, mas até cruciais. situação de subdesenvolvimento do Sul é, então,
segundo essa tese, o produto direto do IV. A AÇÃO DO ESTADO. — Pode-se justamente desenvolvimento capitalista na Itália. Por isso, a única admitir que o fascismo representou o aperfeiçoamento
e verdadeira solução da Questão meridional seria do bloco agrário-industrial, formado
1054 QUESTÃO MERIDIONAL
nos primeiros cinqüenta anos de história italiana. De mesma política de industrialização do Sul não tem
fato, para reduzir as tensões a que este bloco tinha obtido sucessos substanciais, havendo-se limitado a
sido submetido nos primeiros vinte e cinco anos do criar enclaves desvinculados do meio circundante e, século, o fascismo se empenha, de um lado, numa portanto, "marginais" ao "centro" da sociedade
política de controle planificado das forças sociais e, de meridional: são as famosas "catedrais no deserto".
outro, numa crescente emissão de outputs simbólicos. Em suma, parece que a fase de industrialização
É nesta direção, por exemplo, que se insere assistida, típica deste segundo pós-guerra, tem de ser
particularmente o plano de beneficiação integral, que considerada como falida, pelo menos em seu objetivo
tende a desempenhar no Sul ambas as funções. A isto de pôr em andamento, no Sul, um processo de
se pode acrescer a política de construção de obras desenvolvimento "autônomo e autopropulsivo" públicas e a própria política externa "imperialista", (Galasso, Villari). com a aventura da Etiópia apresentada como solução
para os problemas dos camponeses meridionais. Mas V. OS NOVOS PROBLEMAS DA SOCIEDADE é após 1945 que se verifica uma mudança qualitativa MERIDIONAL. — Para considerarmos os progressos
nas atitudes do Estado para com o Sul, A influência políticos mais recentes da Questão meridional, é
das teorias do desenvolvimento acima mencionadas necessário analisarmos, em primeiro lugar, quais as
leva a reavaliar o papel da intervenção pública e a mudanças de relevo ocorridas nestes últimos anos na
institucionalizá-la, com a criação, em 1950, da Cassa região meridional. del Mezzogiorno, embora a Caixa tenha sido
Uma das mudanças estruturais mais importantes é,
concebida, na sua criação, como uma entidade
sem dúvida, o movimento pela redistribuição da terra,
extraordinária, nos encontrando já perante um plano
nos anos 1948-1950, e a sucessiva reforma agrária
orgânico, ou que, pelo menos, o pretende ser, de
que, como conseqüência, mudaram radicalmente a
solução do problema meridional. À tese de Rosenstein-
ordem social do campo. Sob a pressão de um
Rodan, sobre o desenvolvimento da agricultura e das
movimento popular sem precedentes no Sul, foi
infra-estruturas, e à de Lutz, sobre uma trégua salarial
iniciada nesses anos uma reforma que dividiu os
para criar as margens de formação do novo capital a
grandes latifúndios meridionais e contribuiu de
ser investido no Sul, se opõe substancialmente
maneira decisiva para a formação de uma numerosa
vitoriosa, a tese de Saraceno, favorável à criação de
classe de pequenos proprietários. Deste modo, a
"um mecanismo de desenvolvimento autônomo e
reforma corrigiu o desequilíbrio que existia antes entre
autopropulsivo". Isto representaria concretamente uma
a pequena propriedade e o latifúndio. E, o que é mais
tentativa de industrializar o Mezzogiorno através,
importante, removeu um dos pilares que constituíam a
sobretudo, da ação do Estado, quer como empresário
base da velha ordem social e eliminou a causa principal
direto, quer com ajudas e subvenções.
do rancor camponês, estabelecendo ao mesmo tempo
Esta linha de desenvolvimento tem duas uma clara distinção social entre os pequenos
implicações muito importantes. Antes de tudo,
proprietários e os braceiros, distinção antes ofuscada
consagra, mesmo oficialmente, a Questão meridional pela relação de subordinação que existia entre pequena
como questão nacional e a coloca na ordem do dia, propriedade e latifúndio (Tarrow). embora freqüentemente de forma superficial e
propagandística. Em segundo lugar, chega a Deste modo, a reforma tem como resultado a
desmobilização do potencial político das massas
reconhecer como necessária uma intervenção global e
planejada: sem globalidade é impossível enfrentar e camponesas. De fato, a maior parte dos camponeses,
solucionar a questão. entrando na posse de terrenos próprios, torna-se
incapaz de gerir sua nova empresa sem uma ajuda
Mas também este tipo de abordagem do problema
externa. Precisa então obter essa assistência das
começa a encontrar dificuldades crescentes a partir da
entidades de reforma, isto é, do Estado, que, deste
segunda metade da década de 60. De um lado, a crise
modo, vem a exercer um controle maciço sobre muitos
do desenvolvimento industrial do Norte impõe uma
aspectos da vida rural. A necessidade de recorrer ao
consideração mais atenta das relações econômicas
auxílio das entidades de reforma se resolve na
internacionais e, portanto, da posição da Itália no
supressão da autonomia política das massas
processo de divisão internacional do trabalho: sem
camponesas e na sua dependência cada vez maior do
uma análise das implicações sociais que estas relações
Estado e dos partidos e grupos que nele influem.
têm em todo o processo do desenvolvimento italiano
não parece ser possível elaborar uma solução válida Esta é a mudança estrutural que, em larga medida,
para a Questão meridional. De outro lado, a permite explicar a progressiva
QUESTÃO MERIDIONAL 1055
fragmentação do bloco camponês e as conseqüentes A expulsão dos camponeses do campo não encontra,
dificuldades para o reorganizar. De fato. no seio deste pelos motivos acima mencionados, um bloco existe já uma linha divisória entre pequenos correspondente aumento da demanda de força de
proprietários e trabalhadores braçais que cria sérios trabalho na indústria. Deste estrangulamento se
problemas para qualquer movimento que vise formar origina a inchação das cidades e a proliferação de
uma aliança de todos os camponeses. atividades referíveis ao setor terciário não produtivo.
Entretanto, especialmente após 1957, toda política E é no setor terciário que vai encontrando abrigo uma
do Estado para com o Mezzogiorno se orienta de modo nova classe média de notáveis dimensões e força. Esta
particular para a industrialização. tem suas principais ocupações no comércio e na
administração pública, que se desenvolveu, em grande
Os critérios efetivos de investimento público não
cuidaram, porém, em concentrar as empresas, de parte, como conseqüência do modelo "estatal" de
modo a criar o maior número possível de empregos: desenvolvimento econômico (Tarrow, 381). não obstante o processo de expulsão da agricultura se A importância desta nova classe média torna-se
desenrolar com certa rapidez, entre 1951-1965, a ainda maior, não só pela sua estreita compenetração
população ativa ocupada na indústria aumentou só 4% com os órgãos do Estado, mas sobretudo pela própria
(Tarrow, 359). política de intervenção que ela tem, praticamente,
oportunidade de gerir. Nestas condições, junto com o
O esforço direto do Estado se concentra
setor moderno da indústria, tende a formar um novo
essencialmente na grande indústria de base, à qual tipo de coalizão, que consegue desagregar, na prática,
caberia em seguida estimular atividades colaterais
as pressões das classes subalternas exercendo um
favoráveis ao desenvolvimento industrial. Mas,
oportuno controle das condições de desenvolvimento
exatamente neste período, como resultado também da
econômico (Donolo, 105).
concorrência que se desenvolveu no âmbito da CEE,
Por tais motivos, pode-se afirmar que, desde o pós-
entra em crise grande parte da indústria manufatureira
guerra, foi-se progressivamente consolidando um novo
meridional, que é obrigada a demitir um grande
bloco de forças que se está mostrando capaz de dirigir
número de trabalhadores. Esta massa não encontra,
um processo de desenvolvimento essencialmente
obviamente, ocupação na indústria do Estado, que,
desequilibrado, sem exercer, de resto, um alto grau de
como vimos, era de alta concentração de capital, mas
hegemonia sobre os grupos subalternos. O que é
se orienta essencialmente para a emigração e para a
preciso frisar, além das notáveis mudanças ocorridas
construção; e, naturalmente, cresce o desemprego.
no seio das classes dominantes, é a constatação de que
Encontramo-nos. assim, perante uma crescente
a nova ordem político-social também não resolveu
fragmentação da classe operária. A tradicional fábrica
substancialmente o problema do subdesenvolvimento
capitalista está, na realidade, relativamente ausente;
meridional, mas se limitou apenas a modernizar suas
favorece-se desta forma o estado de desagregação
formas (Galasso).
dentro da classe e impede-se a transparência das
Neste sentido, o desemprego, a emigração, as
relações sociais de produção. Ao lado de grupos de
formas de rebelião que se seguiram, enfim, os
operários empregados na grande indústria de base,
desequilíbrios, que caracterizam ainda hoje a
operários freqüentemente contratados com base em
sociedade meridional, parecem reforçar a tese que vê
critérios políticos, há numerosos grupos de operários
uma continuidade substancial no processo de
part-time, isto é, operários ocupados parte do ano na
subdesenvolvimento do Sul e que, do fracasso de todas
indústria e parte na agricultura. Estes últimos,
as hipóteses de desenvolvimento formuladas nos anos
indefinidos sob o ponto de vista profissional, traduzem
50 e 60, deduz a necessidade de um salto radical de
sua indefinição social numa atitude política
qualidade, no sentido anticapitalista, nas medidas a
extremamente volúvel.
tomar.
Além da emigração, uma outra válvula de escape Deste contexto emerge, de algum modo, a nova
para a crescente oferta de mão-de-obra é o setor importância que assume o papel do Estado: não
terciário. que passa de 27% da população ativa, em somente como primeiro empresário e organizador da
1951, para 46% em 1977, crescimento que, em grande política de intervenção extraordinária, não somente
parte, e atribuível às atividades comerciais e à como lugar eficiente de mediação dos interesses dos
administração pública. De fato, uma das tendências vários grupos que formam ou se apóiam na classe
características do processo de desenvolvimento em dominante, mas especialmente como instrumento de
marcha no Sul, desde o pós-guerra, é o alargamento da agregação do bloco de poder a nível político e social,
tenaz entre a industrialização e urbanização. por intermédio dos partidos.
1056 QUESTÃO MERIDIONAL
Esta nova capilaridade da função do Estado está Este último grupo, junto com todas as classes
bem exemplificada na transformação por que passa o médias em geral, constitui a base de massa desta nova
sistema tradicional das clientelas. O velho sistema, estrutura, mas assume um novo relevo, que vai além
baseado nas clientelas pessoais e, portanto, privadas, e da importância numérica, por causa do maior grau de
eliminado no curso dos anos 50. Os antigos notáveis, mobilização política que estas classes possuem em
dotados de prestígio pessoal, são substituídos ou relação às classes inferiores, fato que se reveste
inseridos na organização burocrática, criada e evidentemente de uma importância político-
desenvolvida pela política da intervenção estatal no estratégica notável. Trata-se, em geral, de uma
Sul, que oferece desenvolvimento econômico e, coalizão, estreitamente ligada ao sistema político
graças a isso, recolhe votos para os homens políticos nacional mediante o aparelho administrativo de
(Tarrow, 303). Em virtude destas suas qualidades intervenção pública e o papel de mediação exercido
organizativas, o novo "clientelismo burocrático" pela classe política local a nível nacional.
atinge potencialmente todas as camadas da população De resto, como testemunho da importância do
e contribui fortemente, portanto, para enfraquecer a papel do Sul no sistema político italiano, basta
base social que os movimentos de esquerda tentam lembrar o impacto dos desvios eleitorais ali
consolidar. verificados no início dos anos 70 e as implicações do
À luz de tudo isto, pode-se compreender melhor processo de meridionalização da administração
por que a intervenção pública, na sua globalidade, não pública que, iniciado no fim do século passado, veio a
se mostrou capaz de encontrar uma solução para a desenvolver-se depois no último pós-guerra. Para
situação de subdesenvolvimento, mas, pelo contrário, darmos um exemplo, os funcionários diretivos
freqüentemente desempenhou um papel funcional provenientes do Sul, que, em 1954, atingiam 56% do
para a sua manutenção: "o sistema político não total, eram já em 1961 62% e, desde então para cá,
funcionou como um corretivo da lógica do não parecem ter diminuído. O crescimento e a
desenvolvimento polarizado, mas o favoreceu" meridionalização do aparelho burocrático público
(Bonazzi, 307). "parecem visar, sob o aspecto do recrutamento, a
Em última análise, o Estado tende, absorver o rastejante descontentamento meridional, a
intencionalmente ou não, a desempenhar neste oferecer uma saída ao 'proletariado intelectual', a
contexto a função de organizador político das classes canalizar a futura direção, conquistando-lhe o
dominantes e, vice-versa, a obstaculizar ou impedir a consenso" (Cassese, 96).
organização política das classes subalternas. Enquadrados num contexto mais amplo, analisa-se
Nesta situação, formou-se uma nova estrutura de melhor os custos da intervenção pública e o juízo é
poder que tem pouco a ver com a estrutura também mais cauto sobre o "malogro" da política
tradicional, baseada no "bloco agrário". Para tentar meridional. Os custos são igualmente comparados aos
identificá-la, e preciso, antes de tudo, ter presente que benefícios do que tem fruído o sistema político
os grupos que a compõem agem num contexto social nacional, ou, pelo menos, seus grupos dirigentes.
desde sempre extremamente desagregado, que o novo
tipo de desenvolvimento do pós-guerra contribuiu, BIBLIOGRAFIA. – P. ALLUM. Potere e società a
talvez, para fragmentar ainda mais. Napoli nel dopoguerra. Einaudi. Torino 1975; G.
Esta estrutura parece, contudo, à primeira vista, ser BONAZZI. A. BAGNASCO e S. CASULO. Industria e potere
constituída, não só pela classe política governante in una província meridionale, L'Impresa Edizioni.
local, mas também por uma coalizão entre o setor Torino 1972: B. CAIZZI. Nuova antologia della
moderno da economia, os aparelhos político- questione meridionale, Comunità, Milano 1962; E. M
administrativos, entre os quais se destacam os da CAPECELATRO e A. CARIO. Contro la questione
intervenção extraordinária, e, enfim, as novas classes meridionale. Savelli. Roma 1973; S. CASSESE.
médias urbanas ancoradas no setor do comércio e da Questione amministrativa e questione meridionale.
administração pública. Giuffrè. Milano 1977; C. DONOLO. Sviluppo ineguale e
Particularizando mais, as camadas mais disgregazione sociale: note per l'analisi delle classi
interessadas na gestão da atual situação podem ser nel Meridione. in "Quaderni piacentini", 1972, n.º 47,
identificadas na indústria da construção civil, entre os pp. 101-128; G. GALASSO. Mezzogiorno e
pequenos e médios empresários manufatureiros, que modernizzazione (1945-1975). in La crisi italiana, ao
contratam o apoio do poder político sob a garantia da cuidado de L. GRAZIANO e S. TARROW. Einaudi. Torino
ordem e da estabilidade política, e, enfim, na nova e 1979, pp. 329-363: A. GERSCHENKRON. Il problema
numerosa camada de profissionais que o novo storico del'arretratezza economica (1962),
desenvolvimento econômico requer e nos novos
grupos de intelectuais subordinados ao poder político
(Donolo, 123).
QUESTÃO MERIDIONAL 1057
Einaudi, Torino 1965; A. GRAMSCI, La questione d'analisi di Salvemini. Dorso, Gramsci, in "Rassegna meridionale (1926). Editori Riuniti. Roma 1972; R. italiana di sociologia". XIV. 1973, n.º 1, pp. 85-154;
ROMEO. Risorgimento e capitalismo. Laterza. Bari R. VILLARI, La crisi del blocco agrario, in L'Italia 1959; M. L. SALVADORI. Il mito del buongoverno. contemporaneo 1945-1975, ao cuidado de V. Einaudi. Torino 1963; S. G. TARROW. Partito CASTRONOVO, Einaudi. Torino 1976. pp. 105-143 comunista e contadim nel mezzogiorno (1967), Einaudi. Torino 1972; G. TURNATURI E G. LODI. Le [CARIO GUARNIERI] classi nella società meridionale: schema