Dicionário de Política (Volume 1)
desejável)". Isto parece contradizer a afirmação antes…
desejável)". Isto parece contradizer a afirmação antes pessoas devem ser tratadas de modo igual, a menos
citada ("conseqüentemente"). A "relevância" não é um que se encontrem boas razões para tratá-las de
critério descritivo de igualitarismo como característica maneira diversa". É verdade que esta "injunção de
das regras de distribuição. Igualdade não constitui por si mesma uma regra
positiva de ética, mas uma norma para adotar outras
X. DISTRIBUIÇÕES DESIGUAIS JUSTAS. — O regras" (Monroe, 1964, 36). É uma regra normativa
igualitarismo é às vezes definido diretamente em (para adotar regras fundamentais). Trata-se de um
relação à justiça e não indiretamente, ou seja, princípio que não é meramente normativo, mas é
mediante a relevância. Segundo artigo recente, "o que também exclusivamente processual, compatível com
se opõe verdadeiramente à Igualdade é a desigualdade qualquer regra discriminatória de distribuição que se
de tratamento arbitrário, isto é, a desigualdade julgue "justificada" ou fundada em "boas razões". Tal
injustificável ou iníqua". De onde se seguiria que uma critério de igualitarismo não nos permite classificar
desigualdade de tratamento justificável ou eqüitativa regras substanciais de distribuição em regras
seria "verdadeiramente" igualitária. Então, se a igualitárias e não igualitárias. discriminação racial é igualitária ou não, é coisa que A tentativa de uma determinação frutífera do
dependeria ainda de ela ser considerada justa ou conceito de Igualdade tem sido baldada até agora.
injusta. Resumindo: se o igualitarismo se definisse como "partes
Isto é um exemplo do que desejaria chamar falácia iguais a todos", nenhuma regra seria igualitária; se
da definição ao revés. Consiste em definir um termo significasse "partes iguais aos iguais" ou "Igualdade
de valor "bom" ou ".desejável", por exemplo, em proporcional", toda regra o seria; e qualquer regra relação a termos descritivos como "felicidade" ou poderia ser igualitária se baseada em definições
"aprovação". Ora, se "bom" significa o mesmo que relativas ao mérito, às diferenças relevantes ou à
"fator de felicidade", ou "desejável" o mesmo que justiça. A Igualdade processual não designa sequer
"aprovado pela maioria", seria autocontraditório uma das características das regras de distribuição.
afirmar que uma coisa que causa felicidade é ruim ou "Partes iguais a um grupo relativamente grande"
que uma coisa é indesejável, mas aprovada pela continua sendo a definição mais aceitável; mas já
maioria. A afirmação de Aristóteles de que "o injusto chamamos a atenção para o fato de que a sua
é desigual, o justo igual" é outro caso da mesma aplicação conduz a resultados muitas vezes opostos à
falácia. Aqui o conceito normativo de justiça é intuição. Com efeito, até os fautores da discriminação
definido em termos de igualitarismo, que, para racial tendem a considerar inigualitário restringir os
Aristóteles, é também um termo descritivo, como já benefícios assistenciais aos brancos, vimos ("dando partes iguais aos iguais"). Pelo independentemente da necessidade (mesmo que a
contrário, não é contraditório dizer que um imposto grande maioria da população seja branca), e igualitário,
progressivo sobre os rendimentos é inigualitário e, ao invés, efetuar pagamentos assistenciais em
contudo, justo. benefício dos necessitados, independentemente da raça
Temos também o processo inverso. O igualitarismo, (mesmo que os necessitados sejam uma pequena
um conceito que desejamos tenha uma função minoria). Creio ser possível encontrar um critério
descritiva, é definido mediante o conceito normativo descritivo geral de igualitarismo que leve em
de justiça. Se a afirmação "a regra X é igualitária" consideração tais distinções. significa a mesma coisa que "a regra X é justa (ou
justificável ou eqüitativa)", então é contraditório XII. REGRAS DE NIVELAMENTO. — Todas as considerar justo e não igualitário um imposto definições até agora examinadas levam em conta
progressivo sobre os rendimentos, ou injusto mas apenas a quantidade de um benefício específico ou
igualitário um imposto indireto. gravame que há de ser atribuída a duas pessoas
quaisquer, A e B. As regras de distribuição também podem ser consideradas do ponto de vista
IGUALDADE 603
dos resultados finais. Quanto terão A e B após lhes XIII. NIVELAMENTO DA RIQUEZA. — Mesmo haver sido aplicada a regra? Como é que se hão de existindo Igualdade de direito à propriedade, ela é
redistribuir os benefícios e os encargos entre A e B? distribuída de modo desigual em quase todas as
Neste momento, temos de distinguir três fases: 1) a sociedades. Tal desigualdade é mais o resultado da
distribuição original — A, por exemplo, possui 8 hereditariedade, do estado social ou da capacidade
unidades, B apenas 2; 2) a aplicação de uma certa pessoal do que de uma distribuição deliberada do
regra de distribuição — tomar 3 de A, por exemplo, e Governo. Um nivelamento total dos bens exigiria,
dar 3 a B; 3) a redistribuição resultante da aplicação como é óbvio, o uso de distribuições acentuadamente
da regra de distribuição — no exemplo específico, desiguais, ou seja, que se tirasse dos ricos para dar aos
tanto A como B acabam por ter 5. pobres. Um resultado que se poderia alcançar pela
Proponho que se chame igualitária uma regra de tributação ou pela socialização ao menos dos meios de
distribuição quando ela nivele, ou pelo menos reduza, produção. Sua "posse comum" eliminaria, segundo o
as diferenças entre as quantidades de bens. As regras Manifesto comunista, a possibilidade da exploração de igualitárias de distribuição também podem ser uma classe por outra; e, "com a abolição das
chamadas regras de nivelamento. Ao contrário, uma distinções de classe, todas as desigualdades sociais e
regra de redistribuição que deixe intactas as políticas delas derivadas desapareceriam por si,
desigualdades de benefícios ou ônus anteriores, ou até automaticamente". as aumente, é inigualitária. O exemplo que Um nivelamento completo dos bens, conquanto
apresentamos antes é um caso de aplicação de uma almejável, é geralmente tido por utópico. Mesmo que
regra de nivelamento. Tirar 3 de A e nada de B seria tal meta fosse atingida num determinado momento, as
ainda igualitário, já que a diferença entre seus bens diferenças reapareceriam depressa, não sendo por
(5—2 = 3) é agora menor que inicialmente (8—2 = 6); outro motivo, ao menos porque "os homens são
mas é menos igualitário do que se seus bens fossem desiguais" no que tange às qualidades pessoais; é por
totalmente igualados, como no primeiro exemplo. Por isso que o poder e a influência se acham
outro lado, tirar 1 de A e 1 de B não seria igualitário, necessariamente distribuídos de forma desigual em
pois não alteraria a diferença entre os seus bens, 6; e, todos os sistemas políticos e sociais. Nivelar a riqueza
com maior razão, tirar 1 de A e 2 de B (a diferença significa, em geral, não tanto eliminar, como reduzir
seria agora de 7). as desigualdades existentes quanto à propriedade. De
Estes exemplos demonstram que uma regra de acordo com a definição proposta, este gênero de
redistribuição só poderá ser chamada igualitária ou distribuição, embora menos igualitário, é igualmente
não em relação a uma distribuição anterior. O igualitário. O é nas palavras de Rousseau; "Por
igualitarismo converte-se num conceito ordinal — Igualdade temos de entender, não que o grau de poder
vantagem que esta definição partilha em comum com e de riqueza é absolutamente idêntico para todos, mas
a "definição menos insatisfatória" antes examinada. que... nenhum cidadão é bastante rico para comprar
Pelo que respeita a uma determinada distribuição, uma outro, nem há nenhum tão pobre que seja forçado a
regra de redistribuição será tanto mais igualitária vender-se a si mesmo" (Contrato social, livro II, c. quanto menor for, no fim, a diferença entre os bens XI). em comparação com início. Recapitulando: se Por outro lado, nem sequer a distribuição igual de
inicialmente A possui 8 e B 2, tomar 3 de A e dar 3 a dinheiro levará a uma felicidade igual. Além disso,
B é mais igualitário que tomar 3 de A e nada de B. felicidade, satisfação ou utilidade não são benefícios
Os nossos exemplos tornam claro, além disso, que tangíveis que possam ser distribuídos ou
as distribuições iguais podem conduzir a redistribuições redistribuídos a A e B por C, nem de modo igual nem não igualitárias e vice-versa. Um imposto indireto é desigual. uma regra de redistribuição inigualitária, porquanto
constitui um peso maior para os adquirentes mais XIV. IGUALDADE DE OPORTUNIDADES. — Tal como pobres e não reduz as diferenças de riqueza. Pelo as utilidades, também as oportunidades não podem ser
contrário, um imposto progressivo sobre a renda é uma dadas ou distribuídas por C a A e a B. "A tem a regra de nivelamento e, como tal, igualitária. O oportunidade de obter x": isto significa que não conceito de nivelamento vem, nesse caso, remediar existem obstáculos no caminho para obter x, de sorte justamente os defeitos da definição antes examinada. que ele pode fazer x, se quiser. C oferece a A a
Analisemos agora, à luz deste conceito de oportunidade de alcançar x, eliminando determinados
Igualdade, algumas das regras de distribuição mais obstáculos, e põe, por isso, A em condições de obter x; importantes. por conseguinte, o fato de A lograr alcançar x depende
apenas da sua habilidade natural e adquirida e do seu
604 IGUALDADE
esforço. A e B têm igual oportunidade de ganhar uma maiores são os benefícios que ele recebe. Aquele cujas
corrida, se partirem ambos da mesma linha. Se A está necessidades fundamentais já foram quase satisfeitas
inicialmente atrás de B, tem de deslocar-se para a pode não receber nada e talvez até tenha de renunciar
frente, para a linha comum de partida, para ter a a alguma coisa supérflua para prover às necessidades
mesma oportunidade que B. dos outros. O resultado final desta distribuição
O princípio da Igualdade, ou melhor, do desigual será, mais uma vez, um maior nivelamento
nivelamento das oportunidades aplica-se por isso à da riqueza e das oportunidades. redistribuição do acesso a várias posições na sociedade "A cada um segundo a sua necessidade" é outro
e não à atribuição dessas mesmas posições. O princípio de nivelamento ainda mais radical. Ele
problema é, pois, o de fazer combinar pessoas de impõe, pelo menos teoricamente, à sociedade e, em
dotes desiguais com posições que oferecem uma especial, ao Governo o dever de satisfazer todas as
remuneração, um poder ou um prestígio desiguais. A necessidades de cada um, por muito desiguais que
solução é torná-las acessíveis a todos mediante a elas sejam em gênero e grau. competição. Hipoteticamente, se a todos for dado um
mesmo ponto de partida, a posição que enfim XVI. A CADA UM SEGUNDO A SUA
ocuparão dependerá exclusivamente da velocidade CAPACIDADE. — Alguns defensores com que tiverem corrido e da distância alcançada. contemporâneos do Estado assistencial democrático
O liberalismo clássico afirmava que a Igualdade de tendem a propugnar os princípios menos extremos da
oportunidades é possível mediante a igual atribuição igual satisfação das necessidades fundamentais e da
dos direitos fundamentais "à vida, à liberdade e à Igualdade de oportunidades. Estas duas regras de
propriedade". Abolidos os privilégios e estabelecida a nivelamento, andam geralmente unidas a outra regra,
Igualdade de direitos, não haverá tropeços no caminho inigualitária, de redistribuição: a cada um segundo a
de ninguém para a busca da felicidade, isto é, para sua capacidade. Uma vez atendidas as necessidades
que cada um, com sua habilidade, alcance a posição mínimas de cada um e tendo todos a mesma
apropriada à sua máxima capacidade. possibilidade, inicia-se a competição; a posição
Mais tarde veio a reconhecer-se que a Igualdade de ocupada ao fim por cada um dependerá unicamente da
direitos não é suficiente para tornar acessíveis a quem sua capacidade ou "habilidade", pelo menos em teoria.
é socialmente desfavorecido as oportunidades de que Ao contrário do "mérito" de uma pessoa, sua
gozam os indivíduos socialmente privilegiados. Há habilidade, entendida como capacidade para uma tarefa
necessidade de distribuições desiguais para colocar os específica, pode ser objetivamente determinada, pelo
primeiros ao mesmo nível de partida; são necessários menos teoricamente. Mas, tal como "a cada um privilégios jurídicos e benefícios materiais para os segundo o que merece" — e diferentemente de "a cada
economicamente não privilegiados. Por isso, os um segundo a própria necessidade" —, "a cada um programas head start, conquanto intrinsecamente segundo a própria capacidade" constitui uma regra
inigualitários, são extrinsecamente igualitários, já que inigualitária de redistribuição. levam a um nivelamento das oportunidades de Podemos distinguir esquematicamente as seguintes
instrução. fases: 1) uma desigual distribuição inicial dos bens; 2)
uma regra inigualitária de distribuição — mais aos
XV. IGUAL SATISFAÇÃO DAS NECESSIDADES necessitados; 3) que se resolve numa redistribuição
FUNDAMENTAIS. — O princípio de nivelamento das mais igualitária — igual satisfação das necessidades
oportunidades está conexo com outro princípio de fundamentais, Igualdade de oportunidades; 4) daí uma
nivelamento, o da igual satisfação das necessidades redistribuição inigualitária final — a cada um segundo
fundamentais. Enquanto as necessidades pessoais a sua capacidade. variam em gênero e medida, há um mínimo de Este conceito de Igualdade não é apenas geral e
necessidades fundamentais que são substancialmente descritivo, mas é também valorativamente neutro. O
idênticas em todos, numa determinada sociedade e autor de The rise of meritocracy, por exemplo, defende
numa determinada época. De qualquer modo, as "não uma aristocracia de nascimento, não a plutocracia
pessoas são desiguais quanto às suas necessidades da riqueza, mas uma verdadeira meritocracia dos
fundamentais não satisfeitas. "Uma distribuição talentos" (Young, 1961, 21). Segundo o critério
desigual dos recursos seria necessária para nivelar os apresentado, todos esses princípios são inigualitários,
benefícios em casos de necessidade desigual" tanto o que ele propugna como os dois que rejeita.
(Vlastos in Brandt, 1962, 43). Quanto maior é a Observe-se que o princípio inigualitário da
necessidade fundamental não satisfeita de alguém, meritocracia está ligado com as regras igualitárias da
tanto Igualdade
ILUMINISMO 605
de oportunidades e da satisfação das necessidades LXXVII, 1967; R. B. BRANDT, Social justice, Prentice fundamentais, mas é incompatível com outra regra de Hall. Englewood Cliffs 1962; C. FRANKEL, Equality of nivelamento: a cada um segundo a sua necessidade, opportunity, in "Ethics", LXXXI, 1971; M. GINSBERG, não levada em conta a capacidade. Por outro lado, os On justice in society, Cornell University Press. Ithaca defensores da "meritocracia" não querem estender tal 1965; C. B. MONROE, Equality and obedience to law, princípio à participação política; mantêm-se a favor in Law and philosophy, ao cuidado de S. HOOK, New do sufrágio igual, prescindindo da capacidade. York University, New York 1964; R. NOZICIK,
Isto nos leva à conclusão de que a moderna teoria Anarchy, state. and utopia Basic Books, New York
democrática não pode ser qualificada nem como 1974; A. M. OKUN, Equality and efficiency, Brookings igualitária nem como inigualitária, mas é uma fusão Institution, Washington D. C. 1975; F. OPPENHEIM, dos dois gêneros de princípios: nivelamento até um Equalitarian rules of distribution, in "Ethics", XV, certo ponto, mediante distribuições desiguais; afora 1980; R. J. PENNOCK, Nomos VIII: equality. Atherton, isso, redistribuições inigualitárias. Ela é, portanto, New York 1967; D. RAE, Equalities. Harvard menos inigualitária que as ideologias que University Press. Cambridge (Mass.) 1981; J. RAWLS, fundamentam a desigualdade de tratamento na A theory of justice, Harvard University Press. herança, na cor, na religião ou na riqueza. Cambridge (Mass.) 1971; J. H. SCHAAR, Some ways of
Naturalmente não existe contradição em considerar thinking about equality. in "Journal of politics", XXVI,
a meritocracia igualitária e justa ao mesmo tempo. 1964; B. WILLIANS, The idea of equality, in Philosophy,
Pode até ser considerada injusta, mas desejável por politics and society. ao cuidado de P. LASLETT e W. G.
outras razões: injusta porque a capacidade de um RUNCIMAN, Blackwell. Oxford 1962; M. YOUNG,
indivíduo depende, em parte, de fatores que ele não L'avvento della meritocrazia (1961), Comunità. Milano
controla, como uma inteligência inata, a educação ou 1962. o treinamento (pelo menos na ausência de uma
completa Igualdade de oportunidades de instrução); [FELIX E. OPPENHEIM]
todavia, desejável, sob o ponto de vista utilitarista,
porque os incentivos a uma maior produção
aumentarão o bem-estar de todos. Iluminismo.
Esta análise tem alguma relação com a questão da I. O ILUMINISMO, MENTALIDADE DIFUNDIDA
justificação da Igualdade. Tem-se afirmado muitas NOSÉCULO XVIII. — O termo Iluminismo indica vezes que os homens são iguais e, portanto, que o um movimento de idéias que tem suas origens no
igualitarismo é justo ou que o inigualitarismo é século XVII (ou até talvez nos séculos anteriores,
equitativo, já que os homens são desiguais. Um perito nomeadamente no século XV, segundo interpretação
em ciência política, por exemplo, considera, em de alguns historiadores), mas que se desenvolve
recente artigo, "a grande discrepância existente entre especialmente no século XVIII, denominado por isso
os fatos de desigualdade observados e o valor da o "século das luzes". Esse movimento visa estimular a
Igualdade como um sério embaraço intelectual" luta da razão contra a autoridade, isto é, a luta da "luz"
(Schaar, 1964, 868). Como se fosse incoerente contra as "trevas". Daí o nome de Iluminismo,
sustentar que os homens deveriam ter oportunidades tradução da palavra alemã Aufklärung, que significa iguais, embora dotados de inteligência desigual, ou aclaração, esclarecimento, iluminação. O Iluminismo
então salários desiguais, não obstante suas é, então, uma filosofia militante de crítica da tradição necessidades fundamentais serem iguais. Os cultural e institucional; seu programa é a difusão do princípios normativos não podem ser deduzidos de uso da razão para dirigir o progresso da vida em todos
generalizações de fato; a Igualdade e a desigualdade os aspectos. de uma característica pessoal não implicam a Não se trata de um movimento homogêneo; não é
desiderabilidade do igualitarismo ou do possível encontrar nele um sistema de idéias ou uma inigualitarismo. escola; dir-se-ia que é, acima de tudo, uma
mentalidade, uma atitude cultural e espiritual, que não
é somente dos filósofos, mas de grande parte da
BIBLIOGRAFIA.- S. I. BENN e R. S. PETERS, Social sociedade da época, de modo particular da burguesia,
principies and the democratic State, Allen and Unwin, dos intelectuais, da sociedade mundana e até de
London 1959; I. BERLIM, Equality as ideal, in Justice alguns reinantes. O termo philosophe, com que o and social policy. ao cuidado de F. A. OLAFSON, próprio iluminista se autodefine, indica a figura de um
Prentice Hall, Englewood Cliffs 1961; W. T vivificador de idéias, de um "educador", isto é, BLACKSTONE, On the meaning and justification of the daquele que em tudo se deixa guiar pelas luzes da
principie of equality, in "Ethics", razão e que escreve para se tornar útil, dar sua
contribuição para o progresso intelectual, social e
606 ILUMINISMO
MOral e debelar toda forma de tirania, seja esta II. RACIONALISMO E NATURALISMO. — O intelectual, moral ou religiosa. A philosophie visa levar Iluminismo é um movimento de originalidade teórica
à instauração no mundo de uma ordem nova, fraca; é principalmente eclético. A ciência, interpretada
caracterizada pela felicidade, e quer, portanto, estar em sentido prático e utilitarista, é o núcleo ao redor do
ao alcance de todos, em oposição à filosofia antiga. qual gravita o pensamento. É a ciência que dá ao
Este modo de pensar e de sentir é difundido, no século XVIII a segurança e a confiança na razão. O
século XVIII, em muitos países da Europa. Suas sucesso das ciências experimentais alimentou a idéia de
primeiras manifestações se encontram na Inglaterra e que o mesmo método leva a um progresso concreto
na Holanda, mas é um movimento que interessa em todas as áreas da cultura e da vida. Por isso
especialmente à França, onde a decadência do também o pensamento político tem fé na possibilidade
Governo absolutista leva a filosofia a focalizar a da felicidade e do processo sob a guia da razão.
doutrina política e social. Aqui, das classes A razão, de fato, é o órgão tipicamente iluminista,
privilegiadas, o clero possui cerca de um quinto do que é contraposto à autoridade e aos preconceitos.
território nacional, com uma enorme renda e com Para alguns, ela fornece poucas verdades elementares
isenções e privilégios substanciais, e a nobreza tem e indubitáveis, que têm o valor dos postulados da
privilégios análogos e rendas feudais extraordinárias; ciência e são considerados de per si evidentes, a
por isso, a burguesia, cuja cultura e importância ponto de não exigir demonstração alguma; estes
econômica aumentaram consideravelmente, a ponto constituem o fundamento do raciocínio e do
de se haver tornado um sustentáculo da sociedade, progresso do conhecimento. A razão é aplicada
não pode deixar de as considerar classes de parasitas. especialmente aos dados fornecidos pelos sentidos; o
Na primeira metade do século XVIII, foram Iluminismo, de fato, assume a fórmula nihil est in publicados numerosíssimos livros e folhetos sobre intellectu quod prius non fuerit in sensu e aspira, assuntos direta e indiretamente políticos: obras procedendo com o método racional analítico próprio
históricas sobre antigas instituições francesas ou sobre das ciências, a atingir verdades indiscutíveis ou,
as justificativas e as finalidades do Governo, obras quando isto for impossível, generalizações legítimas,
sobre a Constituição inglesa, relatórios de viagens a que tenham uma fundada validade metodológica. A
países exóticos, apresentados, geralmente, como explicação está no fato de que os iluministas têm na
contrapostos à França, propostas de reformas e obras razão uma confiança sem limites e querem libertar o
de propaganda, freqüentemente mais negativas do que conhecimento humano de tudo aquilo que não seja
positivas. Na segunda metade desse século, o debate conforme à razão, especialmente se isto procede da
sobre estes temas se generalizou e invadiu todo tipo de tradição ou da história. Por esse motivo, Kant atribui
literatura. Existe porém, com diferenças por vezes ao Iluminismo a frase "sapere aude!".
importantes, um Iluminismo alemão, italiano, Este espírito crítico, que quer submeter todo o
espanhol, austríaco, e um Iluminismo dos países da saber ao teste da razão, atinge todos os aspectos da
Europa oriental. atividade humana. Nem faltam as exasperações do
É claro que a esta complexidade correspondem procedimento racional analítico, que conduzem ao
histórias diversas quanto à periodização, a mecanicismo determinístico de La Mettrie ou ao
problemáticas, a relações entre estratos sociais, a materialismo do barão de Holbach, decorrentes da
interesses econômicos, etc. Em cada país, o Iluminismo pretensão de aplicar rigorosamente os critérios da
tem peculiaridades próprias. Mas, levando isto em ciência a toda atividade humana, também à
conta, pode-se tentar, a título de orientação, uma sentimental, pretensão que atrai as críticas de muitos
periodização muito geral, distinguindo uma primeira dos próprios iluministas. Os resultados mais
geração que desenvolve as idéias iluministas na interessantes deste novo modo naturalístico de
primeira metade do século XVIII, e uma segunda fase, filosofar são as considerações de Montesquieu sobre o
que é a da geração dos "enciclopedistas" na França, de nexo existente entre instituições políticas e leis
Lessing na Alemanha e dos teóricos das reformas jurídicas, de uma parte, e ambiente físico e clima, de
jurídico-políticas na Itália. Esta segunda geração é a outra.
que, principalmente a partir dos anos 70, vê com Também no campo da filosofia jurídica todos,
agrado dissiparem-se as ilusões de colaboração com o embora com características diferentes, estão de
poder, e é em grande parte por isto que, a par das acordo em pôr como fundamento do direito a natureza
doutrinas da Encyclopédie, encontramos idéias e se fala de direito natural ou lei natural, onde
igualitárias e desígnios utopistas. "natureza" significa, antes de tudo, aquilo que não é
sobrenatural e, mais especificamente, a essência do
homem, isto é, a razão. Desta forma
ILUMINISMO 607
o Iluminismo se prende à escola do direito natural e pessoal e criador do universo, conceito ao qual se
acredita poder construir um corpo de normas jurídicas chega racionalmente, a partir da observação da
universais e imutáveis, que, no momento, constituem o harmonia que reina no universo, mas não se reconhece
critério de juízo da legislação vigente, mas que num nenhum outro atributo de Deus e, menos ainda, não se
Estado iluminado se tornam, ao mesmo tempo, causa admitem cultos, ritos, dogmas, etc. Afinal, também
eficiente e final da própria legislação. Para explicar os neste campo são aceitos aqueles princípios que são
princípios do direito natural, recorre-se, como no tidos por comuns a todas as religiões e a todos os
século XVII, à natureza humana em si, isto é, povos e que, desvinculados dos pressupostos
abstraída das modificações resultantes da ação da transcendentais, parecem conformes à razão ou à
civilização sobre o homem, supondo, como hipótese, natureza. A religião se torna um modo de sentir, um
um status naturae anterior à sociedade civil e íntimo sentimento de comunhão com Deus, que
definindo os direitos que o homem já deve ter tido decorre da adesão sentimental à harmonia da natureza.
neste estado primitivo, isto é, os direitos que Compreende-se como a passagem do deísmo ao
pertencem à sua dignidade de homem pelo simples imanentismo e ao panteísmo seja fácil: especialmente
fato de ser homem. Seja qual for o motivo pelo qual o os mais jovens iluministas identificam, freqüentemente,
homem passou à vida civil (quando o estado de a natureza com Deus, quando não proclamam um
natureza não seja considerado como simples hipótese ateísmo materialista. Todavia, se o deísmo é a religião
ou termo de referência puramente racional, o que não de muitos iluministas, pode-se afirmar que quase
altera as conclusões), a questão dos direitos naturais é todos os iluministas, pelo menos em alguma fase de
importante para estabelecer os direitos inalienáveis do sua vida, foram deístas. Esta religião natural não revela
homem, isto é, os direitos que a sociedade civil é somente uma exigência de rejeição do sobrenatural e
obrigada a considerar, como também para demonstrar oposição às religiões históricas, mas também uma
o fundamento racional do Estado. necessidade de voltar a proclamar o princípio da
Com base no mesmo processo racional, fala-se tolerância.
também de uma moral natural e de uma religião A natureza, em conclusão, é o fundamento da ética
natural, onde a volta à natureza tem o mesmo sentido e da religião, assim como é o centro para o qual
de que se falou a propósito do direito natural. A moral converge o conhecimento e do qual o conhecimento
natural pretende, antes de tudo, ser uma moral tem origem. Ela fornece as leis da lógica, como
independente da religião, em função do homem também da vida social, e unifica toda a ordem das
mundano, considerado pelo que é e não pelo que relações e finalidades humanas. É baseando-se na
deveria ser. Daí resultam uma antropologia e uma natureza que o homem dirige seus interesses; ele sente
psicologia iluministas, voltadas a relevar a inelutável que a sua realização e a sua possibilidade de
força das paixões e sua bondade original, entendendo- aperfeiçoamento derivam do seu conhecimento da
as até como a condição indispensável para a natureza, o que significa também de sua possibilidade
realização da perfeição, realização que será tanto de subtrair-se ao domínio da natureza e, até, de
melhor quanto mais fortes e harmonizadas forem tais dominá-la. Sob este aspecto, o homem do Iluminismo
paixões (veja-se, como exemplo, Diderot). Os é o herdeiro do renascimento. Se é verdade, então, que
fundamentos da moral iluminista são alguns princípios a natureza está ao centro dos interesses, é também
universais, percebidos igualmente por todos os homens verdade que tal interesse está em função do homem e
racionais, que se reduzem aos princípios de tolerância do crescimento do seu poder. O Iluminismo tem uma
moral; pensa-se, de fato, que também a moral está confiança incondicionada na perfectibilidade do
relacionada com as características de um povo e com homem e na sua capacidade de progredir para uma era
os aspectos naturais do ambiente. Resulta daí uma melhor. É, portanto, o mesmo humanismo que leva o
moral relativista, hedonista ou uma moral sentimental, iluminista para aquela atitude, de que se falou, que
mas, de qualquer forma, uma moral utilitarista. não é propriamente anti-historicismo. Anti-
Quanto à religião, também aqui as idéias são muito historicismo iluminista, portanto, não significa
divergentes entre si; prevalece, porém, um modo de simplesmente rejeição ou desinteresse por tudo aquilo
sentir que se opõe ao mistério, considerado como algo que a história traz, mas recusa daquilo que tem
que não é conforme à razão. Daí a rejeição das autoridade, pelo simples fato de ser histórico, extensão
religiões reveladas em geral. A religião mais do crivo da razão também a tudo aquilo que, desde tipicamente iluminista é o deísmo: reconhece-se a séculos, é passivamente aceito; é, em conclusão, a
existência de uma esfera sobrenatural e, recusa do princípio de autoridade. especialmente, a existência de um deus 608 ILUMINISMO
Paradoxalmente, é justamente o chamado anti- coisas, das quais se livra, estendendo sobre elas, assim
historicismo iluminista que constitui a origem da nova como sobre a história, o domínio decorrente do
e riquíssima historiografia, que se apresenta como conhecimento das mesmas e da ciência, resultado desse
"crítica", ou seja, que reexamina as fontes e reconstrói conhecimento, pois elas são um elemento a história com mente isenta de preconceitos políticos e condicionante e inelutável em relação ao agir humano.
culturais, com "método científico", e dá lugar, dessa Se, por uma parte, se subtraem as realidades humanas
maneira, às grandes obras históricas e histórico- ao domínio do transcendente, por outra parte, afirma-
políticas do século XVIII. Basta pensar nas obras de se uma vontade de construir sobre elas um novo
Montesquieu e de Voltaire, cujos métodos podem ser mundo livre e feliz e, para este fim, a razão inspira
entendidos como típicas tentativas de inovação em projetos de reformas sociais e econômicas, novas
relação à história-relato de tipo tradicional, o primeiro legislações e um sistema de educação coletiva, pela
pela conexão que evidenciou entre a história e a qual se espera uma efetiva renovação da vida e um
ciência da sociedade que dela se pode deduzir; o crescimento geral de bem-estar. A obra iluminista por
segundo pela concepção da história como história da excelência, a Encyclopédie, por um lado, se utiliza civilização, como progressiva conquista de como meio da crítica universal aplicada a todos os conhecimento, que é ao mesmo tempo conquista de campos do saber, por outro, se propõe, como fim,
harmonia, felicidade e liberdade. coletar e unificar, num sistema geral, os
Este chamado anti-historicismo constitui, por um conhecimentos, para divulgá-los e transmiti-los aos
lado, uma limitação do Iluminismo quando significa pósteros, com a convicção de que o estímulo à abstratismo. Os iluministas, com efeito, não vêem o instrução determina também o crescimento da virtude homem e a sociedade como história, mas, antes, como e da felicidade. razão e natureza, não como entidades individuais, mas A adesão a estes conceitos assume características
universais. Não obstante, pode-se ver nesta diferentes entre os iluministas, especialmente, entre os característica a força do Iluminismo, por estar conexo philosophes da primeira e da segunda geração. Para os com a confiança que o homem tem em si mesmo e nas philosophes mais velhos, a renovação social, implícita suas possibilidades e lhe dar a força de influir nas doutrinas iluministas, é antes de tudo uma
profundamente na cultura européia do século XVIII, conseqüência indireta, e a crítica às instituições é
suprimindo doutrinas e instituições já superadas. Na menos radical do que a dos mais jovens, embora, em
realidade, mais que de anti-historicismo, dever-se-ia geral, nenhum dos iluministas é propriamente um
falar de uma nova concepção da história, baseada na revolucionário. No primeiro período assiste-se a uma
experiência e na individualização de um seguro reflexão sobre as instituições, que é sobretudo uma ligame entre a história e o conhecimento da natureza, racionalização das mesmas, isto é, uma volta ao como que se vai tornando patrimônio cultural comum de elas deveriam ser ou à sua natureza. É o sentido, por
todos os homens. O sentimento de solidariedade entre exemplo, de grande parte da obra de Montesquieu, que os povos e o cosmo-politismo iluminista têm seu não nega absolutamente a bondade das instituições do
fundamento nesta concepção. Ancien Régime, mas explica a íntima racionalidade
delas e focaliza a deontologia de seu funcionamento,
III. RAZÃO E INSTITUIÇÕES. — O Iluminismo dá que consiste exatamente na garantia da liberdade; a
formas diferentes à tentativa de racionalizar a volta a essa garantia se traduz no retorno ao respeito à
condição do homem, isto é, de torná-la mais feliz. Ao Constituição.
redor deste objetivo prático, concentra-se a obra dos Significação semelhante tem a teoria do
iluministas. Cientes disto, eles definem a idéia de contratualismo, que pretende ser, especialmente, um
progresso, abandonando a imagem da história como a critério de legitimização do Estado. O motivo
imagem de uma decadência contínua e gradual, para acorrente na Constituição inglesa, baseado na idéia da
considerá-la um progressivo e indefinível distribuição dos poderes, mais do que uma proposta
melhoramento institucional, econômico, moral e civil, concreta, pretende ser uma descrição do modo com
melhoramento que será tanto maior quanto mais que um Estado monárquico pode garantir a liberdade
fortemente a razão assumir a guia desse processo. ou uma exaltação da própria liberdade e da liberdade
Também por este motivo, o Iluminismo foi de expressão em primeiro lugar.
considerado um movimento anti-histórico. Mas, pelo
A insistência dos iluministas sobre a natureza e o
mesmo motivo, o iluminista quer afirmar sua
espírito das leis e das Constituições deriva do temor
libertação da história, tornando-se dela não mais
do perigo sempre presente do despotismo e do culto
escravo mas dominador; quer afirmar sua libertação
genuíno da liberdade civil e
das
ILUMINISMO 609
política, que para eles tem o significado inequívoco os motivos da filosofia do século XVIII, mas são
de que a obrigação se acha expressa e, ao mesmo especialmente as aspirações da burguesia. Poder-se-ia
tempo, limitada na lei. Embora profundamente afirmar que o Iluminismo é a filosofia do terceiro
diversos em suas doutrinas, Montesquieu, Voltaire, Estado, mas não a filosofia do povo, em relação ao
Rousseau e Diderot acreditam firmemente em tal qual, pelo contrário, os philosophes nutrem uma certa princípio. Os temas ligados à reforma judiciária são desconfiança, pelo menos enquanto não for realizada a
objeto de atenta reflexão. Depois, a cultura italiana sua educação. dedica particular atenção ao problema jurídico, ou
seja, ao problema da codificação e da administração IV. RAZÃO E RENOVAÇÃO SOCIAL. — Somente na da justiça, partindo do pressuposto de que as leis segunda geração iluminista se encontram os indícios
racionais podem e devem ser escritas e impostas como de uma radical renovação social, a idéia de uma
leis positivas e rigorosamente aplicadas pelos juizes. sociedade transformada em suas próprias estruturas
Quanto à forma de Governo, o ideal predominante, institucionais e de uma ordem social completamente
aliás, é o do despotismo iluminado, isto é, o do diferente da presente. Aparecem, então, em algumas
soberano filósofo, que seja um obras as idéias republicanas, que não são certamente philosophe autêntico e
que, iluminado pela razão, por sua vez potenciada as idéias características do Iluminismo. Surgem, da
pelos conhecimentos, promova reformas aptas a mesma maneira, o socialismo e o comunismo do
instaurar o bem-estar e a felicidade dos súditos. Não é século XVIII, que dão lugar a construções utópicas,
por acaso que em muitos vocábulos da semelhantes em muitos aspectos às dos socialistas Encyclopédie
se repete o conceito de que a autoridade soberana se utópicos do século XIX. São, aliás, expressões
baseia no consenso, princípio considerado como válido esporádicas, já que, em geral, os iluministas não
para qualquer forma de Governo. Por isso, muitos se atacam, antes, defendem o direito à propriedade
opõem ao privada. Nenhum, pois, destes socialistas concebe a Ancien Régime e a toda a forma de tirania e
olham esperançosos para aqueles soberanos europeus possibilidade concreta de realizar uma revolução em
que são tidos como iluminados: Frederico da Prússia, campo político; como todos os demais philosophes,
Catarina da Rússia. A atitude negativa dos iluministas repudiam toda ação revolucionária, porque vêem nela
franceses para com a monarquia visa mais a pessoa do um remédio sempre pior do que o mal que pretenderia
monarca do que a instituição. sanar. O ideal republicano destas obras é,
principalmente, um ideal literário.
A própria economia, que pelos filósofos do século
XVIII é considerada um dos principais instrumentos Até quem levanta violentas acusações contra o
para a racionalização da vida, é vista, antes de tudo, Governo e demonstra já uma consciência clara da
como um meio nas mãos do soberano. A doutrina própria classe e da exploração a que a burguesia,
econômica tipicamente iluminista é a ainda excluída da vida pública, é submetida em favor fisiocracia, que
se fundamenta na idéia de uma ordem natural regida das classes superiores acaba, em seguida, propondo
por leis eternas, às quais é racional conformar-se, medidas extremamente moderadas, como, por porque elas, se não obstadas, produzem a máxima exemplo, uma educação adequada, orientada
prosperidade e harmonia. A legislação positiva, para os especialmente para os governantes, e que desenvolva
fisiocratas, deveria, portanto, favorecer a explicação neles a razão, a fim de que possam compreender que
da ordem natural, concedendo a máxima liberdade seu interesse pessoal é o mesmo interesse dos súditos.
econômica. Mas os fisiocratas não pretendem derrubar Resulta daí uma concepção pela qual o verdadeiro
a monarquia; antes, para eles, a monarquia absoluta é reformador fica sendo sempre o soberano e a tarefa do
aceitável, desde que adote uma política econômica philosophe continua sendo uma tarefa educativa, isto iluminada. é, uma tentativa de fazer entender ao soberano que a
Compreende-se que a filosofia do Iluminismo seja política tirânica é uma péssima política. "Tout pour le
a filosofia da burguesia. O burguês é o homem novo, peuple, rien par le peuple" é a fórmula que resume a que luta pelas reformas progressivas contra o doutrina do despotismo iluminado. obscurantismo e os privilégios da aristocracia e do O ideal revolucionário pode ser excluído também
clero. Sua filosofia é a filosofia da libertação, isto é, daqueles pensadores, que teorizam sociedades civis
de um ideal realizado intelectualmente, mas não fundadas na vontade do povo, ou melhor, na vontade
socialmente. A liberdade de comércio, a abolição dos geral, termo que se refere a um dos conceitos
privilégios e das imunidades das outras duas classes, a fundamentais do pensamento político de Rousseau,
divulgação da cultura, a revisão do sistema fiscal, etc, mas que é também usado por outros iluministas (veja-
são se Diderot no verbete Droit naturel da Encyclopédie).
São idéias
610 ILUMINISMO
dificilmente ajustáveis dentro do Iluminismo. O como conjunto de instrumentos conceptuais pensamento tipicamente iluminista, se se pretende operativos. Por isso, os valores do Iluminismo foram
identificá-lo num corpus literário, deve ser procurado apropriados pela Resistência, que os identificou com
especialmente no espírito da Encyclopédie. As idéias, os seus ideais e com o pensamento revolucionário
ao contrário, que caracterizam estas novas construções capaz de transformar o mundo, opondoos às filosofias
sociais indicam principalmente que está gradualmente conservadoras da história. evoluindo um outro modo de sentir, que se está A essência do Iluminismo está na opção, dado que
apagando a esperança na obra reformadora dos o iluminista pensa que a possibilidade do déspotas iluminados (a partilha da Polônia dá um duro aperfeiçoamento humano se pode transformar em
golpe às ilusões dos philosophes) e que a idéia do realidade no mundo dos homens e que, por
exercício da soberania por parte do povo já tem suas conseguinte, a atividade humana e o processo
primeiras manifestações. histórico são condicionados, em primeiro lugar, por um
As construções de sociedades perfeitas, que ato de escolha, sendo depois passíveis de uma
abundam especialmente na segunda fase do avaliação crítica. A sua concepção pragmática da
movimento, são racionalizações do conceito de história, atenta a discernir as suas forças motrizes,
harmonia, que o Iluminismo estende a todos os evita tenazmente buscar na meta-história a justificação aspectos da vida. Aqui, a harmonia, que é a condição do agir humano, evitando, por isso, aceitá-lo
da felicidade ou a própria felicidade, se traduz passivamente. freqüentemente na transposição do mito do bon O alvo do Iluminismo é, ao invés, o domínio da razão
sauvage, usado no século XVIII também como sobre a natureza interna e externa e a erradicação do
instrumento de polêmica política e antiteológica. As medo do sobrenatural. Por isso, o Iluminismo é terras que os exploradores descobrem e dos quais, em também a filosofia da ciência. Suspende o juízo sobre
seguida, divulgam as características através de relatos tudo aquilo que não se explique pelos critérios do
de viagens que publicam ao voltar, são o símbolo do cálculo e da utilidade. Esta recusa do princípio da
estado natural que a civilização corrompeu com suas autoridade explica também por que, nas últimas convenções. O selvagem parece viver uma vida décadas, na França, o termo philosophe tem sido autêntica e espontânea; o iluminista sabe que o retorno adotado pelos que querem acentuar a novidade
a um estado anterior à civilização é impossível, mas absoluta, a ausência de raízes, de uma forma particular
tem a convicção de que é possível inspirar-se nas de criatividade, tanto artística como crítica. O exemplo
sociedades primitivas para estruturar bases mais recente é o de um grupo de intelectuais que se comunitárias tais que permitam ao homem, seja qual definiram como nouveaux philosophes e que,
for o país em que vive e o grau de civilização desconhecendo a eficácia das respostas dadas pelos
alcançado, uma vida igualmente autêntica e filósofos anteriores às inquietações dos homens e às
espontânea. O chamado anti-historicismo iluminista é crises da sociedade, ressaltam uma estreita ligação
também este modo de abstrair os povos das situações posta entre filosofia e política, entre saber e poder,
concretas. evidenciam-lhe o caráter repressivo e nela baseiam
O ideal revolucionário, então, é preparado pelo uma crítica radical às formas culturais e institucionais
clima que o Iluminismo ajudou a criar, mas não é um do passado e do presente; rejeitam o marxismo como
ideal iluminista. Os fundamento do seu gauchisme e reivindicam a philosophes não vão assistir à
Revolução Francesa, com exceção de Condorcet, o autonomia e liberdade do seu pensamento sobre temas
mais jovem deles. Mas é indicativo o fato de que a do nosso tempo.
revolução que nasce daquele clima é uma revolução Não é difícil explicar e compreender a condenação
burguesa e de que a Declaração dos direitos do romântica, particularmente hegeliana, do Iluminismo,
homem, redigida pela Assembléia Constituinte em que fez com que houvesse de passar muito tempo, após
1789, é a expressão do individualismo e dos a revolução, para que se dedicasse séria atenção ao
interesses da burguesia. movimento dos philosophes, e ele fosse novamente
valorizado. É preciso, com efeito, chegar ao limiar
V. O ILUMINISMO NO SÉCULO XX. deste século, altura em que a concepção romântica e,
PROBLEMAS HISTORIOGRÁFICOS E em geral, as filosofias da história são submetidas à INTERPRETATIVOS. — No nosso século, sobretudo crítica e postas em discussão, para que se inicie uma a partir da Segunda Guerra Mundial, o Iluminismo é séria historiografia do Iluminismo. É a Wilhelm
entendido, em geral, como pensamento em contínuo Dilthey e, mais tarde, a Ernst Cassirer e Friedrich
progresso e como uma abertura à prática concreta do Meinecke que se deve esse mérito. Depois deles, a
homem. Aos iluministas se atribui a descoberta da historiografia sobre a idade das luzes torna-se razão, não como função especulativa, mas, antes de
tudo,
IMPERIALISMO 611
riquíssima, o é ainda, considerando os estudiosos que Settecento francese, Einaudi, Torino 1962; G. há ainda numerosos pontos fundamentais sem solução. GOLDMANN, L'illuminismo e la società moderna (1967), Experimentaram-se também meios particulares de Einaudi, Torino 1967; B. GROETHUYSEN, Filosofia interpretação tendentes a dar unidade a um movimento della rivoluzione francese (1956), Il Saggiatore, tão vário, onde eram comuns os inimigos a combater, Milano 1967; G. GUSDORF, L'avénement des Sciences mas não o eram certamente as soluções propostas. humaines au siècle des lumiéres, Payot, Paris 1973; N. Deste modo, a partir de uma análise sociológica, o HAMPSON, Storia e cultura dell'illumimsmo (1968), Iluminismo tem sido identificado tout court com o Laterza, Bari 1969; P. HAZARD, La pensée européenne pensamento da burguesia (por exemplo, L. au X VIII siècle. De Montesquieu à Lessing, Boivin e C, Goldmann); o estruturalismo tentou sua leitura e ainda Paris 1963; M. HORKHEIMER — TH. W. ADORNO, hoje estudiosos de algum modo a ele ligados dedicam Dialettica dell'illuminismo (1947), Einaudi, Torino uma atenção especial aos problemas lingüísticos dos 1966; R. KOSELLECK, Critica illuminista e crisi della textos dos iluministas. società borghese (1959), Il Mulino, Bologna 1972; N.
O significado problemático e "dialético" é, ao MERKER, L'illuminismo tedesco, Età di Lessing,
contrário, posto em relevo pelos mestres da Escola de Laterza, Bari 1968; R. POMEAU, L'Europe des lumiéres Frankfurt, M. Horkheimer e Th. W. Adorno, que, cosmopolitisme et unité européenne au dix-huitième
longe da harmonia procurada pelos philosophes, siècle, Stock, Paris 1966; F. VALJAVEC, Storia crêem, ao invés, que os iluministas pagam sua dell'ilIuminismo (1961), Il Mulino, Bologna 1973; F. conquista do domínio da natureza com a alienação da VENTURI, Settecento riformatore. vol. 3, Einaudi, própria natureza. A relação entre o iluminista e a Torino 1969, 1976, 1979; F. VENTURI, Utopia e natureza foi comparada à existente entre o ditador e os riforma nell'illuminismo, Einaudi, Torino 1970. homens: o ditador conhece os homens na medida em
que é capaz de os manipular. Também o cientista [SAFFO TESTONI BINETTI] conhece as coisas na medida em que as pode
manipular, mas isto implicaria a transformação da sua Imperialismo. essência em mero substrato de um domínio total.
Portanto, se o Iluminismo é um paradigma da história I. INTRODUÇÃO. — Se bem que os fenômenos ocidental, o dilema que se apresenta é se é preciso usualmente ligados à expressão Imperialismo —
abandoná-lo ou introduzir nele corretivos que expansão violenta por parte dos Estados, ou de
eliminem sua tendência destruidora e autodestruidora. sistemas políticos análogos, da área territorial da sua
É esta segunda hipótese que inspira o ressurgimento influência ou poder direto, e formas de exploração
iluminístico de parte da cultura alemã (exemplo, os econômica em prejuízo dos Estados ou povos
mais novos da Escola de Frankfurt). subjugados, geralmente conexas com tais fenômenos
A insatisfação em face de leituras parciais e a — se hajam manifestado, sob formas e modalidades
sensação de que há ainda muitos problemas sem diversas, em todas as épocas da história, esta
solução para se chegar a uma interpretação segura, expressão é relativamente recente. B. Semmel crê que
tem levado ultimamente os estudiosos a uma pesquisa ela se impôs pela primeira vez na década de 1870, na
histórica por vezes minuciosa, especialmente em Inglaterra vitoriana, sendo usada para designar a
zonas até agora pouco exploradas. É por isso que, política de Disraeli, que objetivava robustecer a
atualmente, se observa um extraordinário unidade dos Estados autônomos do império, ou seja, reflorescimento dos estudos sobre o Iluminismo. criar a imperial federation. Mas é só pelos fins do
século XIX que se inicia o estudo sistemático dessa
série de fenômenos, isto é, só então surgem as
BIBLIOGRAFIA - AUT. VÁR.. Interpretazioni primeiras teorias sobre o Imperialismo, dando origem
dell'illuminismo, ao cuidado de A. SANTUCCI, Il a uma seqüência de análises que nunca deixaram de se Mulino. Bologna 1979; M. S. ANDERSON. Historiara desenvolver, em quantidade e qualidade, até hoje. Isto and eighteenth century Europe 1715-1789, Oxford, está evidentemente ligado ao fato de que, nas últimas Clarendon Press. Oxford University Press. 1979; B. décadas do século XIX (particularmente depois de BACZKO, L'utopia, immaginazione sociale e concluída a unificação italiana e alemã, em 1870), se rappresentazioni utopiche nell'età dell'ilIuminismo iniciou uma fase histórica marcada por uma especial (1978), Einaudi, Torino 1979; G. BENREKASSA, Le intensidade e qualidade dos fenômenos imperialistas. concentrique et l'excentrique: marges des lumières, Com efeito, entre 1870 e a deflagração da Primeira Payot, Paris 1980; E. CASSIRER, La filosofia Guerra Mundial, deu-se a repartição quase completa dell'illuminismo (1932), La Nuova Italia, Firenze 1936; da África entre os Estados europeus e a ocupação (em L. G. CROCKER, Un'età di crisi, Uomo e mondo nel que participou também o Japão e, em medida mais pensiero francese del Settecento (1959), Il Mulino. restrita, os Estados Unidos) de vastos territórios da Bologna 1975; F. DIAZ, Filosofia e política nel Ásia, ou sua
612 IMPERIALISMO
subordinação à influência européia (China, Pérsia, Isto considerado, passaremos agora a identificar os
império otomano). pontos essenciais das principais teorias sobre o
Terminada esta fase, assistiu-se, entre 1914 e 1945, Imperialismo, agrupadas em quatro correntes
ao desencadear de um Imperialismo particularmente fundamentais: as teorias de inspiração marxista que,
agressivo, o da Alemanha, que por duas vezes tentou até há bem pouco, foram, de longe, as mais estendidas;
estender a sua hegemonia sobre a Europa, o do Japão, a orientação social-democrática, uma orientação que se
que buscou fazer outro tanto na Ásia, e o da Itália distingue tanto do liberalismo como do marxismo
fascista, que ocupou o último território independente revolucionário; a interpretação liberal; a interpretação
importante da África, a Etiópia, querendo tornar baseada na teoria da razão de Estado.
realidade, numa situação de aliança subalterna com a
Alemanha nazista, um plano hegemônico menos II. PRINCIPAIS TEORIAS MARXISTAS SOBRE O
ambicioso na área do Mediterrâneo. Depois de 1945, IMPERIALISMO. — É preciso, antes de tudo, acentuar
apagou-se o impulso imperialista dos Estados que não se encontra nas obras de Marx uma teoria
europeus e do Japão, tendo lugar o processo de específica sobre o Imperialismo, nem, portanto, o uso
descolonização. Mas o fenômeno do Imperialismo de tal termo em sua acepção moderna. O que se pode
continuou a manifestar-se obviamente de formas encontrar são meras alusões ao problema, quase
diversas, quer nas relações hegemônicas estabelecidas sempre gerais, em seus escritos sobre o colonialismo.
entre as duas superpotências e os Estados dos A sua contribuição essencial para o estudo do
respectivos blocos, quer na política neocolonialista Imperialismo há de ser, por isso, buscada na teoria
praticada principalmente pelos Estados Unidos, mas relativa às contradições do capitalismo moderno
também, em menores proporções, pelas demais (nomeadamente à tendência à queda das taxas de lucro
potências capitalistas. e ao problema da obtenção da mais-valia, tidos como
Daí a origem e desenvolvimento de uma vasta linha fatores centrais do processo histórico contemporâneo,
cultural que é representada pelas teorias concernentes destinado a desembocar na revolução socialista), a que
ao Imperialismo, teorias que têm como objeto se ativeram mais ou menos fielmente os seus
essencial os fenômenos imperialistas daquela época, seguidores que elaboraram as diversas teorias
conquanto não excluam, em muitos casos, seu cotejo marxistas sobre o Imperialismo. Estas, embora
com os de outras épocas e, às vezes, a tentativa de divirjam claramente entre si na caracterização do
elaborar teorias mais gerais, isto é, relativas aos aspecto ou aspectos contraditórios específicos do
fenômenos imperialistas de todos os tempos. sistema produtivo capitalista, origem do Imperialismo,
são concordes em sustentar que, no período de pleno
Causa disto é também, a nosso ver, a formação de desenvolvimento de tal sistema, com início nas últimas
uma atitude crítica e condenatória do Imperialismo,
décadas do século XIX, todas as formas de violência
cada vez mais generalizada no mundo inteiro, inclusive
internacional foram provocadas, em última análise, ou
nos países imperialistas, correspondente ao fato de que, de forma predominante, pelas contradições estruturais
com a expansão imperialista européia, o mundo todo se do capitalismo, que consegue então fazer do Estado
transforma, pela primeira vez, num sistema
um instrumento cada vez mais eficaz a serviço dos
interdependente. Tal atitude assenta, em última
seus fins. Por outro lado, o Imperialismo surge
análise, no fato de que o Imperialismo começa a ser também como um instrumento essencial para fazer
entendido como uma contradição em relação ao face às contradições do capitalismo e para prolongar a
princípio da autodeterminação das nações, afirmado
sua sobrevivência, estendendo-as ao âmbito
pela Revolução Francesa e recalcado pela Revolução
internacional com a exploração de outros povos e
Soviética. É, de fato, significativo que as teorias sobre permitindo com isso fazer concessões à classe operária
o Imperialismo partam, em sua grande maioria, de das metrópoles capitalistas. Estreitamente ligada a esta
uma perspectiva a ele adversa e que a própria
tese está a convicção de que a eliminação dos
expressão Imperialismo tenha ido bem depressa
fenômenos do Imperialismo e da guerra só é possível
adquirindo, depois de haver surgido com um mediante a superação do capitalismo e de que, por
significado positivo, um significado geralmente outro lado, isso se torna factível pelas crises
negativo, interrompendo assim uma tradição histórica
profundas, potencialmente revolucionárias, que o
onde a expressão império, de que deriva Imperialismo,
capitalismo tende infalivelmente a produzir, em
tinha também um significado positivo, sendo conseqüência precisamente das suas manifestações
entendida (como transparece, por exemplo, no De imperialistas. monarchia de Dante Alighieri) como sinônimo de paz internacional. As teorias marxistas mais importantes acerca do
Imperialismo são as de Rosa Luxemburg e de
IMPERIALISMO 613
Lenin. No último pós-guerra, surgiu uma nova grosso modo, pela teoria marxista como resultado da interpretação, sem dúvida importante, devida aos crescente concorrência entre os capitalistas. A lei do
marxistas americanos Baran e Sweezy. É desta mercado os obriga a investir enormes capitais em
corrente que nasceu a mais importante análise maquinaria cada vez mais aperfeiçoada para vencer os
marxista dos fenômenos do neocolonialismo e do concorrentes. Mas, se estes responderem ao desafio, as
subdesenvolvimento, bem como a tentativa relevante novas máquinas bem depressa se tornam obsoletas,
de uma explicação em termos marxistas do sendo necessário renová-las para não sofrer a derrota.
Imperialismo soviético. Esta luta sem trégua diminui o lucro dos capitalistas e,
1. por vezes, poderá levar ao aumento temporário dos Teoria do subconsumo. — A explicação do
Imperialismo formulada por R. Luxemburg assenta na níveis de salário, visto os capitalistas estarem dispostos
inserção, no pensamento marxista, da teoria do a pagar mais aos trabalhadores para os monopolizar.
subconsumo, elaborada anteriormente e à margem Além disso, a mais longo prazo (mas este aspecto da
dessa orientação teórica sobretudo por Malthus, análise de Marx não foi explicitamente retomado por
Sismondi, Rodbertus e Hobson, e que pode ter alguma Lenin), com a substituição cada vez mais ampla da
ligação, conquanto forçada, com as teses de Marx força do trabalho ("capital variável") pelas máquinas
referentes ao problema da realização da mais-valia. ("capital constante"), restringe-se a própria fonte de
Podemos resumir a teoria do subconsumo segundo a onde deriva a mais-valia, já que só o trabalho vivo é
versão de R. Luxemburg dizendo que, dispondo a capaz de produzir novo valor. A crescente e inevitável
classe trabalhadora inevitavelmente de um baixo mecanização provoca, por outro lado, a concentração
poder aquisitivo e sendo obrigada a um nível de vida da produção nas mãos de uns poucos. A medida que o
miserável como conseqüência das leis objetivas da capitalismo se desenvolve, passa-se da forma do
acumulação capitalista, torna-se indispensável, para mercado concorrencial à do mercado monopólico. São
poder ser absorvida toda a produção corrente, a apenas alguns indivíduos, e em caso limite um só, os
existência de uma "terceira pessoa", de um comprador que controlam enormes complexos com milhares de
extrínseco ao sistema capitalista. Tem de haver, em trabalhadores. É essa a fase mais avançada do
resumo, um mundo não capitalista ao lado do mundo capitalismo. capitalista, para que o funcionamento deste não fique Naturalmente, com o crescimento e consolidação
entravado. Nos primeiros estádios do dos monopólios, cresce também a tendência ao desenvolvimento capitalista, essa "terceira pessoa" controle do Governo do Estado pelo poder econômico.
pode ser oferecida pela economia agrária, que vive A política nacional não é senão resultado desta
ainda à margem da capitalista. Mas depois, em influência. Nesta fase do desenvolvimento capitalista,
decorrência da transformação capitalista desse setor, os dada a organização da produção a nível mundial, a
mercados internos já não bastam e se tornam atividade dos monopólios não pode cingir-se aos
necessários os mercados externos para a absorção da limites do Estado. O "capital financeiro", fruto da
produção, mercados que se conquistam com a fusão entre capital bancário e capital industrial, tenta
conquista das colônias. Sendo as áreas de exploração assegurar o controle das matérias-primas e dos
limitadas, mais tarde ou mais cedo os conflitos serão mercados mundiais. Mais cedo ou mais tarde, os
inevitáveis, como inevitável será também a catástrofe interesses entram em conflito entre si. O mundo é
final do sistema capitalista, quando os mercados dividido em áreas de influência entre os diferentes
externos se tornarem igualmente insuficientes. monopólios, ou então, o que é o mesmo, entre os
2. diferentes Governos. Concluída a divisão do mundo Teoria leninista do Imperialismo. — A teoria
marxista mais comumente aceita não é a do em áreas de influência, aumenta a tensão entre os
subconsumo, mas a mais ortodoxa de Lenin. A diversos grupos e a guerra se torna mais cedo ou mais
hipótese fundamental da teoria de Lenin não se apóia tarde inevitável, deixando assim aberto o caminho ao
no empobrecimento do proletariado e na sua falta de desencadeamento da revolução socialista. poder de consumo, mas na tendência à queda das taxas Como já se indicou, a doutrina leninista do
de lucro. Os monopólios financeiros dos Estados mais Imperialismo é a mais vulgarizada entre os defensores
avançados do capitalismo são obrigados a explorar o do marxismo. Ainda hoje, se bem que complementada
mercado mundial, entrando em conflito com outros em alguns aspectos, é ela que ocupa uma posição
grupos financeiros que tentam fazer o mesmo, pois os central dentro da doutrina marxista, particularmente
lucros obtidos no mercado interno tendem a na doutrina política oficial dos países de regime
desaparecer. A queda das taxas de lucro é explicada, comunista. As razões pelas quais ela tem sido
geralmente preferida à de
614 IMPERIALISMO
R. Luxemburg podem resumir-se fundamentalmente é o representado pelas despesas militares. Os Estados
nestas três considerações. Em primeiro lugar, a teoria Unidos não teriam tido, depois da guerra, um
leninista, não se baseando na hipótese do desenvolvimento econômico tão rápido e de dimensões
empobrecimento crescente do proletariado, pareceu tão impressionantes, se não tivessem destinado parte
estar mais estreitamente ligada à realidade histórica, considerável do seu orçamento aos armamentos. Estas
que já no tempo de Lenin, mas sobretudo nos anos despesas permitiram ocupar no serviço militar direto e
posteriores, contrariou cada vez mais inequivocamente indireto (setores produtivos que trabalham para a
essa hipótese. Em segundo lugar, Lenin soube criticar defesa) uma grande massa da população que, de outra
de forma convincente R. Luxemburg no tocante ao forma, seria improdutiva. Além disso, as despesas
fato de que os interesses imperialistas não estão militares são um meio sumamente eficaz para o
voltados só para os países subdesenvolvidos, mas desenvolvimento tecnológico, pois grande parte das
também para áreas altamente capitalistas. As guerras mais importantes invenções, usadas também no setor
entre a França e a Alemanha para a conquista da civil, provêm da atividade de pesquisa do setor militar.
Alsácia-Lorena são disso um claro exemplo. Em Daí que, se a política americana de contenção da URSS
terceiro lugar, a análise de Lenin, embora tenha sido e de presença político-militar no Terceiro Mundo
formulada, como a de R. Luxemburg, numa época em responde, por um lado, à necessidade de obstar à
que a forma corrente do Imperialismo era o expansão da área socialista (o que explica a superação
colonialismo, sendo mais elástica, tem maior dos conflitos interimperialistas e a duradoura aceitação
capacidade de acolher em seu âmbito explicativo pelos países capitalistas da leadership do mais fenômenos imperialistas diferentes dos da expansão e poderoso entre eles, bem como das vantagens
guerras coloniais ou dos provocados entre potências econômicas que daí lhe advêm), atende, por outro
imperialistas em virtude da própria expansão colonial. lado, ao desenvolvimento da sociedade opulenta.
Particularizando, tal análise pôde, com alguns No tocante ao problema do subdesenvolvimento,
retoques, ser aplicada ao fenômeno do esta teoria sustenta (ligando-se, porém, neste caso a neocolonialismo, típico do período posterior à Segunda uma corrente de pensamento amplamente desenvolvida
Guerra Mundial, ou seja, às situações em que os depois da guerra, graças à obra de numerosos
países explorados possuem um Governo ao menos estudiosos, marxistas ou não) que a exploração dos
formalmente independente dos Estados exploradores. países atrasados continuou, apesar da independência,
3. O "capitalismo monopólico" de Baran e Sweezy. porque eles continuaram inseridos no sistema mundial
— Em face dos novos dados surgidos no último pós- capitalista, dominado pelos países mais fortes e pelas
guerra (sobrevivência do capitalismo, não obstante a grandes empresas multinacionais (a expressão mais
descolonização e a consolidação de um bloco de típica da atual fase de desenvolvimento do capitalismo
Estados socialistas, subdesenvolvimento e monopólico). O sistema capitalista, tomado pela busca
neocolonialismo, papel dos Estados Unidos nesta nova do lucro, tal como tende de modo orgânico a provocar
fase do Imperialismo), muitos estudiosos marxistas, ou, desequilíbrios sociais e territoriais no seio dos Estados
melhor, "neomarxistas", sentiram a urgência em capitalistas, a mesma coisa faz, de maneira ainda mais
construir, antes, uma nova teoria do que em manter de desenfreada, no plano mundial, evidentemente em
pé, a todo o custo, a estrutura conceptual elaborada prejuízo dos países mais débeis e pobres que,
por Lenin (ou por R. Luxemburg). Entre eles, vale carecendo do conveniente poder contratual no
recordar particularmente os economistas americanos conjunto das nações, cada vez ficam mais pobres. A
Baran e Sweezy, cuja intenção manifesta é a de única alternativa válida que se lhes oferece é a saída
superar a teoria de Lenin, ainda demasiado vinculada a do sistema mundial capitalista por meio da guerra
uma economia de tipo concorrencial, e a de construir revolucionária e a criação de uma economia socialista.
um modelo teórico, que considere de forma mais Na medida em que isso ocorrer e se ampliar cada vez
explícita a economia monopólica como o principal mais, minguarão as possibilidades de as metrópoles
fator de estímulo imperialista. A parte mais inovadora capitalistas exportarem suas contradições para o resto
desta teoria (que foi elaborada tendo como objeto do mundo; por isso, a superação revolucionária do
central do estudo a economia norte-americana) em capitalismo voltará, também nelas, à ordem do dia.
confronto com as teses de Lenin é a relativa ao Para concluir, importa lembrar que um recente
militarismo. Segundo estes autores, um dos principais desenvolvimento da análise de inspiração marxista
usos do surplus (novo conceito por eles introduzido referente ao Imperialismo, onde Sweezy teve um
em lugar do conceito clássico da mais-valia, a seu ver papel importante, se empenha em explicar,
inadequado às condições do capitalismo monopólico)
IMPERIALISMO 615
baseada em categorias de origem também marxista, o substancialmente Hilferding, mesmo que suas teses
fenômeno do Imperialismo soviético. Depois que, acerca do capitalismo financeiro constituam um dos
sobretudo a partir da invasão da Tchecoslováquia, se elementos fundamentais da teoria leninista sobre o
tornou cada vez mais difícil para muitos estudiosos Imperialismo), que sustenta, contra a tese dos
marxistas não subordinados à ideologia oficial marxistas revolucionários sobre a inevitabilidade das
soviética negar a existência de aspectos imperialistas guerras imperialistas entre os países capitalistas, que o
na política externa da URSS, tanto sob o aspecto da Imperialismo agressivo constitui, não uma fase imposição violenta da sua vontade aos Estados necessária do capitalismo, mas uma das suas políticas, satélites como sob o da sua exploração econômica, que pode ser substituída por outra, por uma política
Sweezy e outros surgiram com uma nova linguagem "ultra-imperialista", que implique uma pacífica
baseada na tese da restauração do capitalismo na colaboração entre as potências capitalistas (mais
URSS e, conseqüentemente, das tendências conveniente entre outras coisas porque o Imperialismo imperialistas inerentes a esse sistema econômico- agressivo apresenta custos muito maiores do que
social. vantagens), na organização do mercado mundial e na
admissão nele dos países ainda não incluídos. Tal
III. INTERPRETAÇÃO SOCIAL-DEMOCRÁTICA DO política não eliminaria a tendência dos países
IMPERIALISMO. — Ao falarmos de interpretação social- capitalistas a repartirem entre si os países atrasados,
democrática do Imperialismo, queremos nos referir a principalmente os fornecedores de matérias-primas, e a
uma orientação interpretativa cujos elementos explorá-los, já que a exploração desses países é característicos são os seguintes: a) rejeição (comum, estrutural no sistema capitalista e só pode ser superada
aliás, a todas as teorias não marxistas sobre o mediante reformas socialistas tendentes a introduzir
Imperialismo) da tese relativa ao nexo orgânico entre um controle político cada vez maior do Imperialismo e capitalismo, de onde se deduz que só desenvolvimento econômico e a orientar o com a abolição deste sistema sócio-econômico será desenvolvimento ao interesse de todos (economia
possível eliminar o Imperialismo e as guerras; b) mista, planejamento, etc). Com isto, Kautsky
convicção de que as tendências imperialistas desenvolve teses que antecipam as modernas teorias do
existentes no capitalismo (aliáveis às tendências subdesenvolvimento, ou seja, um pensamento que os
imperialistas provenientes de grupos sociais pré- marxistas revolucionários seus contemporâneos não
capitalistas, como as castas militares, por exemplo) aprofundaram tanto, pois partiam do pressuposto de
podem ser eliminadas com reformas democráticas e que o capitalismo estava para ser suplantado pela
reformas econômico-sociais. revolução socialista.
Partindo destas premissas, podemos incluir nesta Mas o ultra-imperialismo eliminaria os conflitos
tendência um dos expoentes da teoria já mencionada do desastrosos entre as potências capitalistas e,
subconsumo, Hobson, mesmo que, sob o aspecto conseqüentemente, a corrida armamentista e as
ideológico, ele deva ser definido mais como um guerras, tanto as que visassem à repartição das
liberal-democrata do que como social-democrata. Ele colônias como as orientadas à expansão territorial na
exerceu, com efeito, uma notável influência nos meios própria Europa. Constituiria, por isso, uma situação
da esquerda não marxista, especialmente nos partidos muito mais avançada que a da luta pelo socialismo. A
socialistas anglo-saxões, ao formular, em princípios classe operária há de ter, por conseqüência, interesse em
deste século, a tese de que a cura da praga do favorecer a evolução nesse sentido, com uma política
subconsumo das classes populares, com suas que favoreça as tendências mais pacíficas do
implicações imperialistas ligadas à busca aflitiva de capitalismo, que debilite o militarismo (fortalecedor
mercados externos onde vender e investir, está numa das tendências imperialistas do capitalismo) e abra
política de reformas econômico-sociais tendente a perspectivas progressiva criação de vínculos aumentar, no quadro de uma economia capitalista federativos entre os Estados. concorrencial e de livre mercado, integrada, porém, Este último aspecto do pensamento de Kautsky, isto
com a ação da despesa pública, a capacidade de é, a relação entre militarismo e Imperialismo, foi
consumo dos trabalhadores, e a favorecer, em desenvolvido de uma maneira orgânica, depois da
conseqüência disso, o constante crescimento e regular última guerra mundial, tendo como referência o
absorção da produção, sem necessidade de recorrer à Imperialismo alemão, por Hans-Ulrich Wehler, a
expansão imperialista. quem se deve a mais válida contribuição para a
Incluem-se também, como é óbvio, nesta tendência elaboração da teoria do "social-Imperialismo". Esta
as teses dos maiores teóricos da social-democracia teoria explica resumidamente o Imperialismo histórica. Entre eles lembremos sobretudo Kautsky mediante o conceito de bonapartismo, isto é, sublinha
(com quem coincide como seu fator decisivo a
616 IMPERIALISMO
tendência da casta nobiliárquica burocrático-militar, revolucionário, porquanto tendem a considerar
dominante na Prússia-Alemanha, a pôr em ação, em possível a correção dos aspectos imperialistas do
aliança com a indústria pesada, uma política externa capitalismo, a teoria elaborada por Schumpeter, num
de expansão imperialista e de prestígio, não tanto ou ensaio de 1919, representa completamente o oposto
principalmente para obter vantagens econômicas da posição marxista. diretas, quanto para enfraquecer e derrotar as forças Através de uma análise erudita dos fenômenos
político-sociais que lutavam por uma radical imperialistas ocorridos desde a antigüidade até a
transformação democrática, de orientação socialista, Primeira Guerra Mundial, este autor chega, de fato, à
das estruturas autoritárias, conservadoras e militaristas conclusão de que o Imperialismo moderno, longe de
do império alemão. Uma tese que, segundo Wehler, é ser um produto do modo capitalista de produção, é, ao
aplicável a muitos outros casos de Imperialismo e se contrário, o resultado de condições políticas, culturais,
aproxima, em alguns aspectos, da posição, que ora psicológicas, sociais e econômicas pré-capitalistas, que
analisaremos, de Schumpeter, mas de que se o desenvolvimento capitalista não conseguiu ainda
diferencia, aliás, de modo claro, devido à maneira eliminar. Em resumo, o capitalismo (que, para
crítica de encarar o sistema capitalista que lhe é Schumpeter, na época em que escrevia o seu ensaio, não
subjacente. existindo interferências políticas contrárias, devia
Em conclusão, a linha interpretativa social- tender naturalmente a um equilíbrio fundado na livre
democrática do pós-guerra tem como característica concorrência e no livre mercado, e não, ao invés, no
uma posição relativa à problemática do monopólio e no protecionismo) é, por sua natureza, subdesenvolvimento (comum também aos partidos essencialmente pacífico, na medida em que lhe é
que fazem parte da Internacional Socialista e para a intrínseca uma forte tendência à racionalização — no
qual convergem, por exemplo, as teses do Clube de sentido do cálculo racional dos custos e dos lucros —,
Roma e as mais avançadas tendências revisionistas do que estende progressivamente a sua influência a todos
comunismo ocidental), que se pode resumir desta os aspectos da vida social. Ele tende particularmente a
maneira: assim como nos países industrializados mais neutralizar as atitudes agressivo-irracionais que se
avançados as políticas encaminhadas a subordinar o revelam na praxe política interna e internacional, em
desenvolvimento econômico ao interesse geral, mesmo variadas formas de violência, entre elas a guerra e a
sem eliminar radicalmente o papel da livre iniciativa e expansão imperialista, canalizando-as e orientando-as
do mercado (planejamento econômico, controle dos para a racional e, portanto, pacífica competição
investimentos, política regional, etc), estão em vias de econômica no mercado, e fomentando com isso a
superar os desequilíbrios econômicos, sociais e instituição de procedimentos democráticos. Dada esta
territoriais, provocados por um capitalismo tendência do capitalismo, o fato de que haja desenfreado, assim o mesmo poderá ocorrer em fenômenos importantíssimos de política imperialista
dimensões mundiais no que concerne ao desequilíbrio que se manifestam no âmbito da civilização capitalista
fundamental entre países ricos e países pobres, na não se pode explicar senão em virtude de nele
medida em que o mercado mundial for orientado persistirem atitudes psicológicas e culturais e
pelos meios da programação, da política regional, etc, interesses concretos de origem e natureza pré-
em vez de ser abandonado à ação sem controle das capitalistas, que manifestam sua influência através do
grandes empresas multinacionais. Esta perspectiva é poder político, orientando-o para uma política
considerada a alternativa mais válida, quando se optou imperialista que contradiz a lógica do capitalismo.
por introduzir nos países atrasados rígidos sistemas Schumpeter chama concretamente a atenção para as
coletivistas, que rompem os vínculos de dependência paixões nacionalistas irracionais que dominam vastos
do mercado capitalista mundial, mas têm de renunciar estratos da opinião pública dos países europeus, e são
com isso às vantagens derivadas da interdependência conseqüência da herança histórica das lutas de poder
com sistemas econômicos fortemente dinâmicos, pois que incessantemente se desenvolveram na Europa nos
neles não se deu a completa burocratização da séculos passados. Põe sobretudo em evidência a
economia (cujas limitações são já bastante evidentes), orientação acentuadamente belicista e filo-imperialista
como aconteceu nos países da esfera soviética. das castas militar-feudais e de amplos setores da
burocracia dos Estados continentais europeus. Estes
IV. SCHUMPETER E A INTERPRETAÇÃO LIBERAL DO grupos sociais, que se formaram ou consolidaram no
IMPERIALISMO . — Se as doutrinas social-democráticas período do absolutismo e das suas constantes guerras
se afastam claramente de alguns dos princípios de conquista, são ainda muito fortes na época
basilares do marxismo ortodoxo ou capitalista e concorrem de maneira decisiva
IMPERIALISMO 617
para o impulso imperialista, não por um interesse tendências o Imperialismo deriva fundamentalmente
econômico direto na expansão territorial, mas porque das estruturas políticas internas e/ou econômico-
tal política justifica a permanência e reforço de sociais dos Estados, podendo, por isso, só ser superado
ingente aparelho militar e burocrático, ou seja, da base com a transformação de tais estruturas (obviamente
material do seu poder, dos seus privilégios e do seu em diferentes direções, segundo os diversos pontos de
prestígio. Identificadas assim as raízes do vista), a orientação que analisamos vê no Imperialismo, Imperialismo, Schumpeter pode, pois, chegar à em última análise, uma conseqüência da estrutura
conclusão de que "o Imperialismo é um atavismo" e anárquica, porquanto fundada na soberania estatal
confiar, por isso, na sua progressiva eliminação como absoluta, das relações internacionais — o que não
conseqüência do pleno desenvolvimento do exclui que o bonapartismo (v. BONAPARTISMO) possa ser capitalismo. importante fator concomitante da política de potência
Esta interpretação do Imperialismo alcançou e do Imperialismo. A anarquia internacional estabelece
grande sucesso nos ambientes liberais, sobretudo nos entre os Estados, qualquer que seja o seu sistema
meios liberal-conservadores americanos, porque, econômico-social e o seu regime político, a lei da
pondo um parêntese à problemática do Imperialismo força, transformando, por isso, inexoravelmente, a
informal e, portanto, da exploração neocolonial dos diversa distribuição do poder entre os Estados em
países atrasados, adapta-se perfeitamente à imagem domínio dos mais fortes sobre os mais fracos e,
ideológica oficial de um país que é, ao mesmo tempo, conseqüentemente, em possibilidade de exploração
o mais importante dos países capitalistas e aquele que econômica destes por aqueles; impele, por outro lado,
nunca teve praticamente uma tradição colonial. Ela todo o Estado, em especial as grandes potências, a
inspirou, além disso, um modo de ver bastante difuso reforçar incessantemente, por necessidade de ainda nos meios liberais que, partindo da relação segurança, o próprio poderio, mesmo mediante a
"pleno desenvolvimento do capitalismo e do sistema conquista territorial, onde e quando se ofereça a
liberal-democrático/eliminação do Imperialismo", ocasião e a possibilidade, para prevenir a intervenção tende a considerar a política soviética como a forma das potências concorrentes. Em tal situação, o único
mais relevante, se não única, do Imperialismo deste modo de eliminar pela raiz o Imperialismo, assim como
pós-guerra e estabelece um nexo orgânico entre o em geral as guerras, está (como afirma a corrente
Imperialismo e a alternativa coletivista totalitária, que federalista, v. RAZÃO DE ESTADO, IV) na superação da contrapõe ao sistema democrático-pluralista baseado anarquia internacional por meio de uma Constituição
na economia de mercado. Enfim, à posição federal mundial, que substitua a política de potência schumpeteriana se podem reduzir também (conquanto pela defesa jurídica da independência das nações.
igualmente ligadas à teoria do social-imperialismo) as A tese referente à relação entre Imperialismo e
análises do Imperialismo americano que se referem ao anarquia internacional (confirmada infinitas vezes
chamado complexo militar-índustrial. pela experiência histórica, que mostra a continuidade
da política de potência e do Imperialismo, embora com
V. INTERPRETAÇÃO DO IMPERIALISMO BASEADA NA mudança nos conteúdos econômicos e sociais, através
TEORIA DA RAZÃO DE ESTADO. — Inserem-se nesta linha das transformações mais radicais das estruturas
interpretativa as análises do Imperialismo surgidas no internas dos Estados) assinala um aspecto essencial
âmbito das correntes mais modernas da tradição de dos fenômenos imperialistas, um aspecto de caráter
pensamento que se refere à teoria da razão de Estado, muito genérico, que, por si só, não permite uma
particularmente na doutrina alemã do Estado-potência compreensão adequada de tais fenômenos em sua
(lembramos, em especial, Paul Rohrbach, Max Weber, concreta delimitação histórica, já que prescinde dos
Otto Hintze, Hermann Schumacher) e, sobretudo, na concretos e específicos conteúdos econômico-sociais
corrente federalista (principalmente Lionel Robbins, das relações interestatais e da particular configuração
Lord Lothian, Luigi Einaudi, Ernesto Rossi, Altiero do sistema dos Estados. Se oferece a base
Spinelli, Ludwig Dehio, Mario Albertini). O elemento indispensável para uma teoria geral do Imperialismo,
distintivo desta orientação assenta na tese da ou seja, uma teoria também aplicável, evidentemente
autonomia da política externa em relação às estruturas com as necessárias complementações, a contextos
internas dos Estados, tese que se contrapõe à do históricos diversos dos do Imperialismo moderno, a
primado da política interna sobre a externa, que explicação da especificidade dos fenômenos constituía, ao contrário, o fundamento teórico das imperialistas que nos apresenta esta tendência se
tendências interpretativas anteriores e é um elemento baseia no esclarecimento de ulteriores determinações.
característico do internacionalismo. Em resumo, Para reconstruir de modo enquanto para estas
618 IMPERIALISMO
apropriado o desenvolvimento desta análise, é preciso da política protecionista e as fases de mais exasperado
distinguir as análises relativas à fase situada entre 1870 expansionismo. e 1945, das relativas ao último pós-guerra. Para compreendermos melhor o alcance desta linha
1. O Imperialismo entre 1870 e 1945. — O fator de interpretação, é necessário mostrar com precisão
decisivo sobre o qual se chama a atenção para explicar como ela põe em evidência o principal ponto fraco de
o Imperialismo neste período, em que as potências todas as outras interpretações. Em substância, os
européias e o Japão — no contexto asiático — teóricos anteriormente recordados, embora levem em
exercem um papel determinante e em que se passa do consideração o nexo entre protecionismo e colonialismo às tentativas hegemônicas da Alemanha e Imperialismo (Hilferding, Kautsky, Bucharin e o
do Japão, é a crise do Estado nacional. Com este próprio Schumpeter falam em termos explícitos de
conceito (elaborado principalmente pela corrente tendência à expansão imperialista da área protegida
federalista, a que de preferência nos referiremos, mas para nela poder exportar livremente mercadorias e
que se baseia também na contribuição dos teóricos capitais), ou sustentam que o protecionismo é uma
alemães do Estado-potência, que nele se basearam para conseqüência necessária da fase monopólica do
justificar o Imperialismo alemão), põe-se antes de tudo capitalismo (Bucharin), ou insistem igualmente não só
em evidência a contradição que se vem manifestando neste aspecto como também na necessidade que os
desde o final do século XIX entre as dimensões dos países relativamente atrasados têm de recuperar, com o
Estados nacionais europeus (isto vale também em protecionismo, seu atraso em relação à Grã-Bretanha
certa medida para o Japão) e as exigências do (Hilferding), ou acentuam a necessidade que urge os
desenvolvimento produtivo que, em conseqüência do Estados capitalistas a criarem para si, também
início da produção de massa, instavam por mercados mediante o protecionismo, áreas reservadas quanto
de dimensões continentais. A condição fundamental mais amplas possível, onde resolvam o problema da
que tornou possível a manifestação e o progressivo realização da mais-valia (Luxemburg), ou então põem
acentuar-se desta contradição está no predomínio, a a origem do protecionismo nas pressões feitas nesse
partir dos anos 70, da tendência a um crescente sentido pelas castas nobiliárquicas e militares pré-
protecionismo econômico. Seguindo-se daí o perigo de capitalistas (Schumpeter). Desse modo, descuram a
muitos se verem cada vez mais excluídos dos mercados raiz fundamental do protecionismo, ou seja, a
externos e faltando a determinação política de pôr em soberania estatal absoluta. Isto é posto em evidência
prática formas de integração supranacional, uma vez precisamente pelos teóricos da corrente federalista,
que os Estados nacionais europeus se encontravam no que chamam a atenção para o fato de que, se as
auge da sua força e não existia, por isso, um real tendências antes indicadas constituem, com efeito,
espaço para uma política de limitação da soberania, fatores que levam ao protecionismo, com todas as suas
prevaleceu a tendência a assegurar o controle político conseqüências, no plano internacional, não produzem
direto ou indireto de um território o mais amplo conseqüências análogas nas relações entre as diversas
possível, isto é, a expandir a área protegida (que os regiões de um Estado unitário e os diversos Estados de
teóricos alemães definem como "espaço vital"), um Estado federal. Isso significa que a condição
subtraída, portanto, ao protecionismo de outros. Está institucional que torna possível a tais fatores (e a eles
aqui a razão econômica fundamental pela qual até a se juntam outros assaz importantes, como a
Grã-Bretanha (que, embora sendo até 1931 pelo livre necessidade de desenvolver setores econômicos de
mercado, retoma uma expansão colonial de grande importância estratégica para a política de potência,
estilo, para manter fora das políticas protecionistas dos ainda que pouco ou nada produtivos do ponto de vista
outros Estados o mais vasto território possível) estritamente econômico, e como a de defender o
abandona a tendência ao Imperialismo informal, que se emprego ou, em geral, as políticas orientadas a
manifestara claramente na época do livre mercado. enfrentar as crises econômicas, normalmente Aqui também a razão econômica da agressividade causadoras de desequilíbrios nas contas externas)
característica da política imperialista levada a efeito operar de modo efetivo no sentido da introdução do
por Estados como a Alemanha, a Itália e o Japão, onde protecionismo, ou da sua exacerbação, é exatamente a
o problema das dimensões territoriais, demasiado soberania estatal absoluta. Esta implica, por um lado, a
limitadas para as exigências do desenvolvimento subordinação das exigências econômicas à razão de
econômico, se tornava particularmente grave, devido Estado e significa, por outro, que não existe um poder
também ao atraso com que haviam chegado a soberano superior aos Estados, encarregado de tutelar
participar na expansão imperialista formal e informal. o interesse comum e tendo, portanto, o poder de os
Daí o nexo bastante claro entre as fases de acentuação impedir de defender particularmente os próprios
interesses, o que provoca
IMPERIALISMO 619
inevitavelmente represálias. A incapacidade de ver na conceito de crise do Estado nacional se enquadra o
soberania estatal absoluta a raiz essencial do Imperialismo no contexto da crise do sistema europeu
protecionismo, é necessário dizê-lo, está intimamente dos Estados, determinada pelo triunfo da fórmula do
ligada às limitações do ponto de vista internacionalista Estado nacional, em geral, e pelo nascimento do
que fundamenta as demais posições. Estando ele, com Estado nacional alemão, em particular. No quadro de
efeito, baseado na tese do primado da política interna, uma paz armada, cada vez mais custosa e precária por
não questiona a soberania absoluta, mas se inclina a via do inaudito fortalecimento da potência dos Estados
considerá-la como um dado natural imodificável (ou, europeus, só possível graças à industrialização e à
como acontece em Kautsky, tende a ver a criação de conscrição obrigatória (características típicas do
vínculos federativos entre os Estados como uma moderno Estado nacional), e também por via dos
conseqüência quase automática do fortalecimento das fatores de conflito introduzidos pela própria ideologia
tendências socialistas dentro dos Estados, e não como nacional (irredentismo, forte debilitação do o fruto de uma ação política deliberada e sentimento, resultante da comum herança cultural
especificamente voltada para tal objetivo) e, por européia, de pertencer a uma comunidade conseqüência, é levado a não o considerar como fator supranacional, etc), a criação do Estado nacional
decisivo do protecionismo e do Imperialismo. Este alemão, tão poderoso quão incertos eram os seus
obstáculo ideológico não existe, pelo contrário, nos limites, destruiu definitivamente, segundo este ponto
teóricos da corrente federalista, justamente porque de vista, o equilíbrio europeu e abriu uma fase de
estes contestam praticamente a soberania absoluta. crescente desordem internacional. Em tal contexto, ao
Com isso, os teóricos federalistas puderam, entre outras declínio do poderio britânico correspondeu a sua
coisas, pôr em evidência que o Imperialismo não está incapacidade de manter o livre comércio em escala
organicamente ligado ao capitalismo, mesmo que, num mundial, enquanto que a opção de enfrentar a
determinado contexto histórico, os interesses incipiente crise do Estado nacional com uma resposta capitalistas tenham desempenhado um papel decisivo imperialista desembocou fatalmente, exauridos os