Dicionário de Política (Volume 1)
Galicanismo. o conflito entre Felipe o Belo…
Galicanismo. o conflito entre Felipe o Belo e Bonifácio VIII (1296-
1303) e a crise provocada pelo Grande Cisma (1378-
I. D 1438); a fase de seu apogeu, com a constituição de uma EFINIÇÃO . — O termo Galicanismo é recente.
Aparece nas controvérsias político-religiosas do doutrina e de sua aplicação (desde o fim do século
século XIX tratando da autoridade pontifícia e das XVI até a época da Revolução Francesa); e,
relações entre a Santa Sé e a França, porém numa finalmente, a fase na qual vê-se o prolongamento do
época em que o assunto perdeu muito da sua desenvolvimento das teorias precedentes, durante o
importância. Sob esta denominação juntam-se várias período revolucionário e imperial (1789-1815). Não
teorias sobre a divisão dos poderes da Igreja e o devem ser esquecidas as manifestações de relacionamento entre a autoridade secular e a sede de Galicanismo do século XIX e seus traços, que
Roma, que se formaram aos poucos, no curso de um podemos ainda encontrar no início do século XX.
longo período histórico, tendo a característica comum No século XV, após sua paulatina estruturação na
de ser, antes de mais nada (mas, não exclusivamente), época da disputa que contrapôs Felipe o Belo a
francesas e de propor certos limites ao excesso do Bonifácio VIII, a propósito da jurisdição reivindicada
poder pontifício. pelo Papa contra o rei (1296-1303), e ainda mais na
Apesar desta tentativa do século XVII e XVIII, a crise do Grande Cisma e do movimento conciliar
doutrina galicana nunca mais foi claramente definida (1378-1449), o Galicanismo adquiriu, finalmente, suas
e a lista de suas proposições essenciais ("as liberdades características essenciais: a estreita união entre o rei e
e as franquias da a Igreja (que não é isenta de graves dificuldades); a Igreja galicana", esta última
expressão que se refere geograficamente à França era, independência do rei no temporal em relação ao Papa;
porém, antiqüíssima) nunca foi fixada oficialmente, a subtração da Igreja a certas intervenções romanas em
nem sequer oficiosamente. nome da liberdade e das franquias da Igreja galicana e
— como que em contrapartida — o reconhecimento de
Algumas vezes distinguiu-se, por clareza de
certos direitos do rei sobre bens da Igreja: tutela
exposição, um "Galicanismo episcopal" (ou
(garde), regalia (régale), impostos; recusa de "receber''
eclesiástico), preocupado em afirmar os direitos dos
sem exame, para aplicação na França, a legislação
bispos em face do primado romano, e um "Galicanismo
pontifícia e, inversamente, a possibilidade de o rei
político" (às vezes subdividido em "Galicanismo régio"
legislar em matéria de disciplina eclesiástica;
e "Galicanismo parlamentar"), que desenvolvia o tema
finalmente, superioridade do Concilio sobre o Papa.
de uma certa autonomia da Igreja de França em
relação à de Roma e, ao mesmo tempo, lembrava a Estas máximas (e outras, como a condenação do
estreita vinculação desta Igreja com a monarquia. O tiranicídio) apareceram aos poucos, suscitadas pelas
Galicanismo é, antes de tudo, um produto da história, circunstâncias do momento, mas não formaram,
resultante, em suas várias formas, de situações todavia, um corpo doutrinai bem definido. Será
conflitantes. Portanto, não pode ser examinado senão preciso aguardar o fim do século XVI para que
colocando essas formas dentro deste processo histórico. apareçam os primeiros tratados sobre as "liberdades
Mesmo sem nos determos em épocas no âmbito das galicanas". quais não é possível — sem forçar o significado das
palavras — encontrar um Galicanismo mesmo II. O GALICANISMO ENTRE O FIM DO
embrionário, podemos distinguir três épocas na sua SÉCULO XVI E O INÍCIO DO SÉCULOXVII. — Na história: a do aparecimento progressivo das atitudes e França, a oposição dos Parlamentos em aceitar os das teses galicanas (séculos XIV e XV), com seus dois decretos do Concilio de Trento (1545-1563) fornece momentos mais importantes: aos galicanos a ocasião para definirem as suas