Dicionário de Política (Volume 1)
I. Ambigüidades Conceptuais. — A noção de…
Tecnocracia.
I. AMBIGÜIDADES CONCEPTUAIS. — A noção de resíduos discrecionários. Um último traço de
Tecnocracia está entre às mais ambíguas de todo o ambigüidade da noção de Tecnocracia é o que se
corpo conceptual das modernas ciências sociais. refere ao enquadramento social dos tecnocratas. Eles
Entrada na linguagem científica no início dos anos 30, são vistos, ora como uma categoria profissional, ora
a palavra Tecnocracia designava, originariamente, os como um grupo social, ora como uma nova classe
químico-físicos e o papel que eles vinham assumindo social. É evidente que, na medida em que os
no processo de desenvolvimento da sociedade de tecnocratas são uma ou outra coisa, seus então. A partir daí, ela foi também utilizada para comportamentos variam sensivelmente, seja em ordem
evocar por vezes o poder ou a influência de outras aos sentimentos de grupo e de identidade, seja em
variadas categorias sócio-profissionais, desde os ordem ao prosseguimento de metas solidárias. Com
engenheiros aos economistas, dos diretores de efeito, se a Tecnocracia for entendida como uma
produção aos cibernéticos, dos burocratas aos categoria profissional, é provável que cada um de
Estados-maiores das forças armadas e aos altos seus membros irá manter, pelo menos no tocante a
conselheiros científicos das autoridades determinadas opções importantes, orientações governamentais. Em primeiro lugar, portanto, a diferentes, e por isso mesmo uma ampla ambigüidade está na identidade dos atores evocados disponibilidade no prosseguimento de finalidades
pela noção. contrastantes. Vice-versa, se os tecnocratas se têm ou
Um segundo elemento de ambigüidade está na são tidos como uma classe social, daí derivará a
amplitude histórica do fenômeno tecnocrático. Não tendência para uma identidade bem mais marcada do
faltam, na verdade, estudiosos que, baseados no que suas metas políticas. requisito da competência que constitui um dos
fundamentos essenciais do "poder dos técnicos", II. UMA TENTATIVA DE DELIMITAÇÃO. — Perante um tendem a interpretar como prefigurações de uma conceito tão inflacionado e que abrange uma
civilização tecnocrática os grandes princípios teóricos pluralidade de fenômenos e de dimensões de muitos pensadores políticos de outros tempos. escassamente assimiláveis, o intérprete pode tomar
Assim acontece, por exemplo, em Platão, em cuja dois caminhos diferentes: ou abandonar o uso do
sofocracia são colocados em destaque pontos de vista conceito ou defini-lo excluindo segmentos da
especificamente tecnocráticos. O mesmo se diga da realidade, subentendendo-se que outros segrias
Nova Atlântida de Francis Bacon, descrita como uma conceptuais já existentes ou em vias de criamentos
enorme instituição de pesquisa científica, onde grupos poderão ser incluídos em outras categoção. A
de especialistas dos vários ramos do saber trabalham definição do conceito de Tecnocracia coloca pelo
para ampliar o domínio do homem sobre a natureza. menos três pontos de vista frente aos problemas de
Um terceiro elemento de ambigüidade diz respeito à delimitação: a) histórico; b) estrutural; c) funcional.
essência e à natureza do kratos de que são detentores Sobre o primeiro ponto, parece oportuno limitar o
os tecnocratas. Na verdade, ela vai desde a tese que
uso de tal instrumento conceptual de análise dos
configura tal poder como mera capacidade de fenômenos de poder, próprios das influenciar, mediante um papel de consultoria técnica,
e desde as decisões dos órgãos públicos, até a tese que
individualiza na Tecnocracia um regime social
caracterizado pela emancipação do poder das suas
tradicionais conotações políticas e pela tomada de uma
configuração diferente, despolitizada e de "competência". Por outras palavras, segundo esta
última tese, assiste-se a um esvaziamento da função dos
executivos na administração pública por obra dos
"peritos", que tomam o lugar dos políticos, enquanto
que a decisão de caráter político, e por conseqüência
aberta à descrição, cede terreno em favor de uma
decisão entendida como resultado de cálculos e de
previsões científicas e portanto inteiramente privada de
1234 TECNOCRACIA
sociedades contemporâneas de alto nível de programa de eficiência. Ao contrário do técnico — desenvolvimento industrial. Mais precisamente, é eis a diferença de fundo —, o tecnocrata não é um
natural a referência a um sistema social que não apenas especialista. Para melhor dizer, também o tecnocrata
superou a revolução da máquina, mas enfrentou a parte da competência e tem em vista a eficiência.
segunda revolução industrial, que é a organização. A Mas, enquanto o técnico se qualifica como um perito
sociedade da organização (programação e do particular, o tecnocrata é definido como um perito planejamento) é, na verdade, o verdadeiro ambiente do geral. Se o primeiro é um especialista, o segundo é
que constitui o genus tecnocrático, enquanto que a um perito em idéias gerais, caracterizado por uma
terceira revolução (a da automação ou do computador) polivalência de funções por um conhecimento global
comporta mais a emergência de novas espécies das variáveis da ação. tecnocráticas. Seguindo algumas exposições de Por que se fala de polivalência funcional e de
bibliografia sobre a matéria, pertencem a este contexto conhecimento global das variáveis? Para responder é
diretores e organizadores da produção, protagonistas da
necessário considerar as condições estruturais que
revolução empresarial (managerial revolution) descrita
estão na base do fenômeno tecnocrático. Uma lista
por James Burnham e antecipada com singular lucidez dessas condições pode incluir, em primeiro lugar, a
pela profecia de Augusto Comte, em pleno século XIX, crescente utilização dos conhecimentos científicos e
sobre a "prépondérance des directeurs"; a
técnicos nos processos industriais. Em segundo lugar, é
tecnoestrutura de que fala John Kenneth Galbraith, ou
necessário lembrar a urgência de incluir a ação do
seja, "o staff dos técnicos, dos programadores e de homem sobre a natureza a fim de transformá-la em sua
outros peritos", que constitui a "inteligência diretora — própria vantagem (fenômeno da indústria), dentro de
o cérebro — da empresa" e na qual está localizado "o
um sistema de previsão e num conjunto de planos
efetivo poder de decisão"; e também os cibernéticos,
gerais e/ou de programas empresariais voltados para a
preconizados por Zbigniew K. Brzezinski como racionalidade do desenvolvimento econômico, primeiros atores da nascente sociedade tecnetrônica: evitando crises e recessões. A terceira condição é a
"uma sociedade cultural, psicológica, social e
tendência para a concentração empresarial e para a
economicamente plasmada pelo forte influxo da
expansão macroeconômica da empresa. Finalmente, no
tecnologia e da eletrônica e particularmente pelos novelo das condições estruturais deve ser colocada a
calculadores e pelos novos meios de comunicação"; e, prática da subscrição de ações com a distribuição que
finalmente, a "classe teórica", composta por
daí deriva do capital entre uma inumerável e anônima
economistas, sociólogos, psicólogos, cientistas,
massa de investidores da poupança.
programadores e pesquisadores, para a qual Daniel
Bell anuncia uma predominância na "sociedade pós- A presença de tais condições e sua interação dão
industrial", mesmo que em relação a ela nos lugar a uma importante modificação nas relações
interroguemos se não se assemelha, pelo menos em entre setores empresariais e instrumentos de
parte, ao "poder espiritual" dos positivistas franceses produção. De uma parte, na verdade, a ação racional
do século XIX. do homem sobre a natureza é impensável sem o
desenvolvimento e a ascensão de grupos e de
Sobre o segundo ponto, fala-se de Tecnocracia em categoria cujo título de promoção social — a
sentido próprio quando nos referimos a sistemas competência — é incompatível ou pelo menos
sociais nos quais as relações efetivas de poder dentro estranho a uma concepção patrimonial da natureza. A
das estruturas produtivas não obedecem, tanto à lógica
intervenção sobre esta última com o fim de a
da propriedade como titularidade do direto, quanto a transformar parte' logicamente, não da posse da coisa uma lógica de controle das estruturas e de (res), mas do conhecimento. É por isso que sobre o preponderância do momento de jacto sobre o assunto, na sociedade industrial avançada tende-se a
momento de jure. A respeito do terceiro ponto, o
instituir um movimento de separação entre bem
problema estaria em estabelecer com precisão as econômico e título de propriedade. Essa separação foi
diferenças que existem entre técnico e tecnocrata e no decorrer do tempo favorecida, quer pela
quando é que um é susceptível de transformar-se no concentração empresarial, quer pelo acionismo de
outro.
massa. Este, na verdade, dispersa a titularidade do
direito de propriedade por uma miríade de acionistas,
III. TECNOCRACIA E SOCIEDADE INDUSTRIAL. — Por em sua maior parte sem nenhuma relação funcional
técnico se entende normalmente um especialista, ou com a empresa e privados de qualquer poder de
seja, um ator social dotado de competência num decisão em termos empresariais. A concentração, por
determinado setor da experiência coletiva e que sua vez, age na mesma direção, sobretudo em executa seu papel segundo um
TECNOCRACIA 1235
virtude das exigências de divisão do trabalho dentro da uma autonomia funcional e estrutural, inclusive nas
grande empresa. interpenetrações correntes.
Neste quadro de separação substancial entre Tal querela projeta seus reflexos no significado e
titularidade do direito individual de propriedade e no alcance que são atribuídos ao poder dos diretores.
instrumentos de produção — não obstante o caracter Assim, quem postula o primado do dado econômico
privativo da propriedade não possa ser formalmente tenderá a configurar a Tecnocracia como um modelo
negado —, o ator que ganha destaque de poder ê de exercício do poder susceptível de substituir in loto, aquele que toma de fato as decisões que interessam ao através de uma escalada por etapas mais ou menos
desenvolvimento econômico. Em última análise, o breves, a gestão política do poder. E vice-versa: quem
título de propriedade cede lugar às circunstâncias de parte do pressuposto de uma autonomia dos diversos
fato: entre o direito de propriedade e a função de setores do sistema social dificilmente reconhecerá a
"controle" tende a prevalecer a segunda. A relação de possibilidade da extinção da dimensão política do
tipo capitalista que liga os instrumentos de produção poder. ao "patrão" se alenta enquanto se consolida a relação
No que toca a este primeiro aspecto, a percepção
de tipo funcional que une os instrumentos aos crítica do fenômeno tenocrático é "perturbada" pela
diretores da produção. ótica ideológica. Neste sentido, permanece a
Neste contexto, generalista é aquele que no nível ambigüidade que atrás denunciamos. Deve-se
funcional está mais alto no âmbito do processo de acrescentar a isto que o fenômeno tenocrático
produção industrial. O tecnocrata é o diretor supremo compreende, por sua vez, uma ideologia tccnocrática
desse processo (entenda-se que o técnico, seja ele com a qual é necessário contar. Os princípios
engenheiro, economista ou outro, pode ser promovido fundamentais dessa ideologia são, além da a tecnocrata, mas isso implica o abandono da lógica predominância da eficiência e da competência, a
de especialização). Eis a razão por que, entre outras concepção da política como reino da incompetência, da
coisas, se fala de polivalência de funções e de corrupção e do particularismo, o tema do desinteresse
conhecimento global das variáveis: o empresário, de das massas a respeito da res publica com a fato, superintende tanto a direção do pessoal técnico e conseqüente profissionalização do decision-making, a executivo quanto a administração dos negócios e a tese do declínio das ideologias políticas e a
organização das complexas relações entre produção, substituição de uma espécie de koiné tecnológica. distribuição e consumo. É claro que ele se serve da
Finalmente, existe a questão da transferibilidade do
ajuda dos especialistas em vários níveis mas é ele
conceito para a realidade dos sistemas sociais
quem reelabora e coordena os resultados da colaboração
caracterizados por uma organização econômica de
de seus assessores, integrando-os nos mecanismos de capitalismo de Estado. Em teoria, ninguém proíbe que
decisão em termos de política empresarial.
a cisão entre uma situação de direito e uma situação de
fato, observada nos sistemas de propriedade privada
IV. QUESTÕES ABERTAS. — A influência do dos meios de produção, seja estendida também ao
manager no sistema social moderno é uma "função" capitalismo de Estado. No máximo, pode-se defender
do crescente relevo da área econômica. Nestes termos até que o Estado é um proprietário bastante mais
bastante gerais, é mais do que plausível falar de anônimo do que a multiplicidade de acionistas das
Tecnocracia. O discurso torna-se mais difícil quando grandes corporations neocapitalistas. Permanece, se trata de precisar o alcance de tal poder. A todavia, o grande escolho da interpretação do papel
dificuldade é em larga medida o resultado da contínua das forças políticas nesses sistemas sociais. Fica por
interferência da perspectiva ideológica na perspectiva verificar, particularmente, a plausibilidade da
crítico-científica. Sabe-se que o papel da economia na hipótese de extinção do poder político em favor de
experiência coletiva está no centro do debate entre um poder técnico-administrativo: poder político
escolas e correntes ideais: caminha-se desde a evidentemente forte e organizado, em grau de impor
tendência que vê na economia o dado central e ao sistema social e de manter, em seguida, uma gestão
determinante da realidade social a que todos os demais econômica de capitalismo de Estado. podem, em última análise, reportar-se, até a tese que
rejeita tal primogenitura e a mais ou menos explícita V. POLÍTICA E COMPETÊNCIA. — Todo o quadro das reductio ad unum que dela deriva, para reconhecer às questões abertas pode ser resumido por e reduzido a
várias dimensões do viver comum — a política, a uma questão de fundo: qual a relação entre
econômica e a social — competência e política? Para tentar
1236 TECNOCRACIA
uma resposta, é importante lembrar que em todo petência pode substituir e cancelar no complexo jogo
decorrer de uma ação, incluindo a ação social, das relações sociais e de poder? Pode-se, por outro
existem os meios e os fins. Em sentido estrito, o lado, imaginar uma competência tão asséptica que
regime tecnocrático pode ser definido como aquele fuja de todo condicionamento de interesses? "Pode-se
em que o tecnocrata indica, na base da competência, pecar por ignorância", observa Vilfredo Pareto, "mas
tanto os meios como os fins da ação social. O regime pode-se também pecar por interesse". A competência
político, ao contrário, é tanto aquele em que o político técnica pode fazer com que se evite o primeiro mal,
indica, em relação a seus critérios, os meios e os fins, mas nada pode contra o segundo. Em que ponto,
como aquele no qual é dada ao competente a portanto, o competente se distinguiria do político no
indicação dos meios entre os quais o político escolhe que toca a interesses essenciais? em relação a fins politicamente determinados. No resto, o problema do poder não é apenas o
É evidente que, numa sociedade industrial mais problema de como e a que título chegar ao poder. É
desenvolvida em linha científico-tecnológica, o papel também e sobretudo o problema de como conservá-lo
da competência na indicação dos meios ganha e se manter nele. Ora, admitindo-se também que o
especial relevo. Com este pressuposto e sublinhando- critério de acesso ao poder e que sua fonte de
se que também no campo social os meios são um legitimidade seja a competência, fica em aberto a
elemento de importância extraordinária (tendo em segunda questão. E por isso nos perguntamos: como
vista que as metas mais belas do mundo estão se comportaria o competente numa situação de
destinadas a transformar-se numa quimera se e conflito entre uma decisão aconselhada pela
enquanto faltarem meios e instrumentos para realizá- competência, mas que em virtude de algumas
las), trata-se de ver se o caráter "industrial", ou seja, a implicações poderia comportar o risco de perder a
ação do homem sobre a natureza, esgota toda a posição de poder, e uma decisão que lhe permitisse
experiência coletiva da época contemporânea, ou se conservar o poder mesmo que não correspondesse às
pelo menos dela exprime a predominância em termos exigências da "racionalidade científica"? Por outras
indiscutíveis. Somente nestas condições, na verdade, palavras, os competentes governariam como pode-se pôr a hipótese de um poder tecnocrático em competentes ou não perdoariam por sua vez o modo
sentido estrito, pois só assim o tecnocrata é o "político" de gerenciar o poder? A "preponderância
"generalista" no sentido mais completo e exclusivo de dos diretores" comporta o desaparecimento do poder
uma tal realidade. Ao contrário, se juntamente com a político ou apenas uma alocação e uma configuração
ação do homem sobre a natureza permanece a ação do diferentes do mesmo? homem sobre o homem, isto é, a política em todas as
suas formas, incluindo a guerra, então a indústria não BIBLIOGRAFIA — R. ALLEN , Che cosa è la esgota, não obstante seu desenvolvimento, o quadro
tecnocrazia?'. Giraldi e Noto, Milano 1933; D. BELL,
social da humanidade contemporânea.
The post-industrial society: technocracy and politics,
Na tensão entre indústria e política, entre in "Survey", n.° 78,1971; J. BILLY, Les techniciens et le
competência e política, reflete-se o dilema relativo ao pouvoir, P.U.F., Paris 1960; Z. K. BRZEZINSKI. Dilemmi ofício da generalidade. Quem é o generalista? O internazionali in un época tecnetronica. Etas Kompass, tecnocrata, segundo sua aspiração onicompreensiva, Milano 1969; J. BURNHAM, La rivoluzione del tecnici ou, em última análise, e apesar de tudo, o político? (1941), Mondadori, Milano 1947; J. L. COTTIER. La
Embora se torne cada vez menos fácil responder à technocratie. nouveaus pouvoir. Editions du Cerf,
pergunta, o dilema nos remete ao problema dos fins. Paris 1959; V. DAGNINO, Tecnocrazia, Bocca. Torino Generalista é, na verdade, aquele que, apoiando-se 1933; F. DEROSSI, L'ilIusione tecnocratica. Etas Libri, nas diferentes variáveis, mesmo instrumentais, indica Milano 1978; C. FINZI, Il potere tecnocratico, Bulzoni, os fins em todas as suas formas, neles compreendida Roma 1977; D. FISICHELLA, Il potere nella società a manipulação. Mas basta a competência para decidir industriale, Morano, Napoli 1965; Id.. Política e sobre os fins? Ou estes não exigem de preferência mutamento sociale, D'Anna, Messina-Firenze 1981; J. opções de valor, opções de cultura, até considerações K. GALBRAITH, Il nuovo stato industriale (1967), metafísicas e mesmo paixões, positivas e negativas? Einaudi, Torino 1968; Industrialisation et Sede de justiça, inveja, amor, desejo de conquista, technocratie. ao cuidado de G. GURVITCH, Colin, ódio, gosto da liberdade, espírito servil são impulsos, Paris 1949; J. MEYNAUD, Technocratie et Politique, atitudes e motivações que a com- Études de Science Politique 1960; li., La tecnocrazia.
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TEOCRACIA 1237
italiana di sociologia", Il, 1963; H. PASDERMADJIAN, La em Deus para bem da humanidade ("Os dois maiores
deuxième révolution industrielle. P.U.F., Paris 1959; G. P dons de Deus concedidos aos homens pela divina
PRANDSTRALLER, I tecnici come classe, Edizioni dell'Ateneo. clemência — conforme está escrito no Corpus juris Roma 1959; J. D. STRAUSSMAN. The limits of technocratic civilis — são o Sacerdócio e o Império: aquele cuida politics. Transaction Books, New Brunswick 1978 das coisas divinas e este, por sua vez, rege e vigia as
coisas humanas; um e outro, derivando de um só e
[DOMENICO FISICHELLA] mesmo princípio, são o ornamento da vida humana"),
e à identificação da Igreja como único organismo
instituído diretamente por Deus. Isso permite, embora
mantendo firme a distinção gelasiana entre auctoritas sacrata pontificum e regalis potestas, seja
Teocracia. reconhecida à primeira uma nítida superioridade sobre
a segunda, porque o fim próprio da Igreja (a salus
Com o termo Teocracia designa-se um ordenamento animarum) é proeminente em relação ao fim
político pelo qual o poder é exercido em nome de uma perseguido pelo Estado, que é o bem-estar material autoridade divina por homens que se declaram seus dos homens. representantes na Terra, quando não uma sua Destas afirmações derivam algumas conseqüências
encarnação. Bem característica do sistema teocrático é teóricas de grande alcance e em particular a tese que
a posição preeminente reconhecida à hierarquia atribui ao pontífice a totalidade do poder, seja sacerdotal, que direta ou indiretamente controla toda espiritual seja temporal: "Nós sabemos pelas palavras
vida social em seus aspectos sacros e profanos. A do Evangelho — escreve Bonifácio VIII na Bula Unam subordinação das atividades e dos interesses temporais saneiam (1302) — que nesta Igreja e no seu poder aos espirituais, justificada pela necessidade de existem duas espadas, uma espiritual e outra temporal. assegurar antes de qualquer outra coisa a salus . . as duas estão em poder da Igreja, a espada
animarum dos fiéis, determina a subordinação do espiritual e a espada material; uma na verdade deve laicato ao clero: a Teocracia, que etimologicamente ser empunhada pela Igreja e a outra pela Igreja
significa "Governo de Deus", traduz-se assim em também; a primeira, pelo clero; a segunda, pela mão hierocracia, ou seja, em Governo da casta sacerdotal, à do rei ou dos cavaleiros, mas segundo o comando e a qual, por mandato divino, foi confiada a tarefa de condescendência do clero, porque é necessário que
prover, tanto a salvação eterna, como o bem-estar uma espada dependa da outra e que a autoridade
material do povo. temporal esteja sujeita à autoridade espiritual". É
Não faltam, na história, exemplos de regimes portanto o pontífice, como depositário da plenitudo
teocráticos: o Tibete de Dalai Lama, o Japão Imperial, potestatis, quem delega o exercício da autoridade o Egito faraônico, e em termos bastante conspícuos a temporal ao soberano (daqui o significado da
organização política do povo hebreu durante o período coroação do imperador pelas mãos do Papa), o qual, sacerdotal. Pelo que tange à civilização ocidental, a por conseqüência, pode usar o próprio poder apenas
tentativa mais séria de dar vida a um modelo político- dentro dos limites que lhe foram dados pelo bispo de
teocrático deu-se entre o final do século XI e o início Roma. do século XIV, por obra do papado.
A subordinação ratione finium do poder temporal
A idéia de uma subordinação necessária da Civitas ao poder espiritual dá vida a um sistema de relações
terrena à Civitas collestis, isto é, do Estado à Igreja, entre Igreja e Estado, no qual a este último é vedada
foi já difundida no pensamento patrístico e foi ingerência no que diz respeito às pessoas e aos bens
teorizada por Santo Agostinho no De civitate Dei. eclesiásticos pertencentes à esfera das realidades
Entretanto, somente na Idade Média é que condições espirituais que recai in potestate Ecclesiae. Dessa históricas concretas permitiram à Igreja dar um forma, caem por terra todas as intervenções da
desenvolvimento orgânico à instituição augustiniana e autoridade civil na organização interna da Igreja que
tentar uma atuação prática. caracterizaram
Na queda do Império Romano e nos anos obscuros
da dominação dos bárbaros, na verdade, a Igreja
apareceu como a única instituição realmente
universal, bem mais forte do que o Império Romano
do Ocidente, que bem depressa seria lacerado pelos
conflitos entre os Estados Nacionais que dentro dele
se foram formando. Isso conduziu rapidamente ao
esquecimento da concepção tradicional, segundo a
qual sacerdotium e imperium têm igualmente origem
1238 TEOCRACIA
os últimos séculos do Império Romano e, mais tarde, o BIBLIOGRAFIA. — H. X. ARQUILLIÈRE, L'augustinisme
Império carolíngio (v. CESAROPAPISMO) : a eleição do politique. Essai sur la formation des théories politiques du Moyen-
pontífice, a nomeação dos bispos, a administração dos Âge. Vrin, Paris 1934; P. A. D'AVACK, Trattato di diritto
bens eclesiásticos voltam a ser problemas da exclusiva ecclesiastico, Giuffrè, Milano 1979; G. DE LAGARDE, La
competência da Igreja. Sempre, pela mesma razão, se naissance de l'esprit laique au déclin du Moyen-Áge, Nauwelaerts,
afirma o princípio de que as propriedades da Igreja Louvain-Paris, 1956-1963, 5 vols.; S. Z. EHLER e J. B.
estão isentas de qualquer imposto fiscal a favor do MORRALL. Chiesa e Stato attraverso i secoli. Vita e Pensiero,
Estado, que os eclesiásticos estão isentos da obrigação Milano 1958; H. ROMMEN, LO Stato nel pensiero cattolico,
de prestar serviço militar e, se envolvidos em Giuffrè, Milano 1964; F. RUFFINI, Relazioni tra Stato e Chiesa,
controvérsias civis ou penais, têm o direito de ser Il Mulino, Bologna 1974.
julgados por tribunais da Igreja.
[SILVIO FERRARI]
No sistema teórico que acabamos de apresentar,
porém, se ao Estado é vedada toda ingerência em
matéria eclesiástica, à Igreja, contudo, não é proibido
intervir no campo temporal (potestas directa Ecclesiae in temporalibus). De fato, uma vez aceita a premissa de que "o poder espiritual é superior a todo poder Teoria dos Jogos. terreno em dignidade e nobreza", segue-se a
conseqüência de que "quando o poder terreno erra, I. A TEORIA DOS JOGOS E SEUS ALGORITMOS. — A
será julgado pelo espiritual" (Unam sanctam); daqui o
Teoria dos jogos consiste fundamentalmente na
direito do pontífice depor os soberanos e de liberar
seus definição de um modelo de comportamento "racional", súditos do vínculo de obediência (é
de modo a permitir a maximização da utilidade frente
universalmente conhecido o episódio de Henrique IV
a um conflito de interesses.
deposto do trono por Gregócio VII e obrigado a
dirigir-se a Canossa para obter o perdão do Papa). Da Esta teoria, formulada em 1944 por J. von Neumann
mesma forma, a afirmação da superioridade da lei e O. Morgenstern e precedida pelos estudos de E. Borel,
eclesiástica sobre a civil é coerente com os princípios que em 1921 se ocupara de análogos problemas, tende
expostos acima, sendo que a segunda é considerada a substituir as hipóteses excessivamente abstratas das
sem valor todas as vezes em que entra em choque com teorias econômicas tradicionais por uma análise mais
o direito canônico. realista apoiada em fenômenos econômicos e sociais.
Na tese tradicional, a confiança no poder
Finalmente, o Estado é obrigado a colocar suas
autocorretivo do sistema econômico, condicionada por
forças a serviço da Igreja, tanto para combater seus
representações de tipo mecanicista, induzia a
inimigos externos (é neste contexto que se inscrevem as
transcurar as decisões individuais com a variedade das
cruzadas sugeridas pelos pontífices contra os "infiéis"),
motivações psicológicas e a sabedoria da ação
como para assegurar no seu seio a ortodoxia,
segundo um plano preestabelecido.
reprimindo todo episódio de heresia e de dissenso
religioso. O comportamento econômico é portanto descrito na
A reforma protestante, ao romper a unidade Teoria dos jogos como a opção, por parte de dois ou
mais "jogadores", de uma estratégia num conjunto,
religiosa européia, marca o ocaso definitivo do
sistema teocrático: aos seus princípios está ligada a finito ou infinito, de estratégias possíveis, tendo em
teoria da conta que o resultado final dependerá das combinações potestas indirecta Ecclesiae in temporalibus,
que foi elaborada no século XVI por Bellarmino Suarez das respectivas opções feitas pelos adversários no
próprio jogo que será concluído com a distribuição dos
e se tornou a doutrina oficial da Igreja em matéria de
relações com os Estados. Com base nesta teoria, a lucros (positivos ou negativos). Igreja conserva o poder de julgar e condenar a Naturalmente, existem vários modelos e a análise
atividade do Estado e dos soberanos todas as vezes em deles permite uma pluralidade de conclusões de
que a mesma puser de qualquer maneira em perigo a caráter técnico e "teórico". Será suficiente limitarmo-
salvação das almas. O grande interesse pelas almas nos à apresentação do modelo fundamental da Teoria
torna-se justificação (e o limite embora difícil de dos jogos, que é o do jogo entre duas pessoas com
definir) das intervenções do Papa em matéria soma zero, entendendo-se pessoa em sentido mais
temporal. amplo de participante, individual ou coletivo (grupo,
coalizão), no jogo; a expressão "soma zero" indica que
a soma
TEORIA DOS JOGOS 1239
algébrica dos lucros é igual a zero, ou seja, por outras escolha de uma estratégia é igual a um e a
palavras, que uma pessoa ganha o que a outra perde. probabilidade de escolha das outras é igual a zero. Em
Este modelo pode ser considerado fundamental outras palavras, a estratégia do primeiro jogador será
pelo fato de através dele serem representáveis, com identificada pelo vetor de probabilidade p = (p1, p2, ... oportunas convenções de transformação, várias outras pn). Analogamente, a estratégia do segundo jogador será situações, como aquela em que há uma pluralidade de identificada pelo vetor de probabilidade q = (q1, q2, . . pessoas que posteriormente se unem em coalizões . qn). segundo regras que serão analisadas a seguir, e a do Suponhamos que v1 é o valor máximo a obter com jogo entre duas pessoas com soma não-zero, que se uma determinada estratégia P por parte do primeiro transforma no modelo fundamental com a entrada de jogador, qualquer que seja a estratégia adotada pelo
um jogador fictício cujos lucros empatam a segundo: é claro que ela será a estratégia ideal para o
compensação total dos outros. primeiro jogador. Suponhamos, de outra parte, que v2
Para descrever o efetivo desenvolvimento do jogo seja o mínimo valor possível de obter com uso de uma
de duas pessoas a soma zero valem as seguintes determinada estratégia Q por parte do segundo jogador,
considerações: suponhamos que o primeiro jogador qualquer que seja a estratégia adotada pelo primeiro;
pode escolher entre parece claro que essa será a estratégia ideal para o n estratégias e o segundo entre m;
a cada par de estratégias escolhidas pelos dois segundo jogador. O teorema fundamental da Teoria
jogadores corresponde o lucro ou a vantagem do dos jogos afirma que v1 e v2 existem em todos os primeiro jogador e, naturalmente, tratando-se de um jogos e são iguais, e seu valor constitui precisamente o
jogo a soma zero, o segundo obterá a mesma soma valor do jogo. É necessário acrescentar que pode
com sinal negativo, ou seja, sofrerá uma derrota. O existir mais de uma estratégia ideal. jogo pode ter uma representação matricial com uma Consideremos agora a contribuição mais interessante
matriz formada por n linhas e b colunas. da Teoria dos jogos no que diz respeito à eventual
O comportamento dos jogadores será sem dúvida extensão de sua aplicação ao campo político-social, ou
condicionado pela exigência de maximizar os lucros e seja, à análise dos jogos de n pessoas. Convém
minimizar as perdas. Para obter este resultado, o observar preliminarmente que o conceito de jogo de n
primeiro jogador procura em cada linha a mínima pessoas pode ser aplicado para a compreensão do
compensação e sucessivamente procura movimentar- caso de dois jogadores que fazem um acordo, quando
se no âmbito da escolha da linha em que se encontra o o jogo é a soma não-zero, para conseguir um resultado
máximo de tais mínimos. O segundo jogador procede mais vantajoso para ambas as partes, mediante uma
de forma simétrica: buscará primeiro os máximos em repartição da aposta em jogo, e do caso em que o jogo
cada coluna e escolherá depois a coluna em que se é dirigido contra a "natureza", ou seja, contra uma
encontra o mínimo de tais máximos. situação que foge ao controle direto dos participantes
coligados do jogo.
O resultado assim obtido é vantajoso para ambos
os jogadores e tal vantagem é indicada pelo fato de O interesse particular dos jogos de n pessoas não
que todo afastamento das estratégias escolhidas está tanto nas estratégias que as coligações podem
implica um dano maior para o segundo jogador e uma escolher mas mais nos critérios possíveis de
eventual perda para o primeiro. O valor do jogo, que e distribuição dos lucros. Na Teoria dos jogos que
definido neste caso como "estritamente determinado", examinamos, a solução de um jogo de n pessoas não é
corresponde portanto ao mínimo dos máximos e ao definida por uma atribuição particular, ou seja, por
máximo dos mínimos: fala-se na verdade de valor uma particular repartição de lucros, mas por um
minimax conjunto de atribuições ou "vetores". É o conjunto das do jogo.
atribuições que satisfaz as condições fixadas por von
Nem sempre, como é fácil imaginar, existe um valor Neumann e Morgenstern para a solução dos jogos de
minimax do jogo, um "ponto de sela", e em tal caso se
n pessoas e só esse conjunto portanto pode ser
usa um algoritmo diferente que permite achar ainda definido como uma solução. As atribuições que dela
uma solução, quer dizer, recorre-se às chamadas
estratégias mistas, que consistem numa combinação
linear convexa de estratégias puras, ou seja, numa
média ponderada convexa com pesos não-negativos e
de soma unitária: os pesos são interpretáveis como a
probabilidade de escolher as estratégias correspondentes ou as freqüências relativas com que
as estratégias são escolhidas no decorrer de uma
longa série de partidas. Uma estratégia pura é um caso
particular de estratégia mista em que a probabilidade de
1240 TEORIA DOS JOGOS
fazem parte obtêm-se através de uma distribuição Downs). Os jogos de n pessoas, na verdade, podem
simétrica dos lucros entre os membros da coalizão dar uma idéia simplificada mas fiel das votações de
vencedora. maioria, cujas características se deduzirão,
No caso mais elementar de um jogo de três pessoas, abandonando, ao menos provisoriamente,
o conjunto de atribuições que se pode definir é o considerações de tipo ideológico-político, a partir das
seguinte: propriedades do modelo em questão.
Se propositadamente se ignorarem, num primeiro
1 1 1 1 1 1 momento, as possibilidades de acordos ou de , , 0 , 0, 0, , compromissos de vários tipos, a alternância das 2 2 2 2 2 2 soluções privilegiadas ou dominantes implicará a
exclusão conseqüente da coalizão de minoria dos
A primeira condição a que nos referimos é que no
benefícios econômicos e sociais em que se baseia a
conjunto acima indicado nenhuma atribuição é aposta em jogo, quer dizer, de qualquer forma de
"dominante" e, naturalmente, nenhuma é dominada. A redistribuição da renda da coletividade ou de
segunda condição é que toda atribuição que não faça
repartição de uma contribuição externa.
parte do conjunto é dominada pelo menos por uma
Todavia, uma avaliação mais precisa das
atribuição incluída no conjunto. É fácil esclarecer com
conseqüências das votações da maioria, a introdução
um exemplo as propriedades das atribuições
de uma "métrica" por assim dizer no espaço das
"privilegiadas": admitamos, na verdade, que uma
coalizão de maioria, por exemplo, a que é formada decisões, tornou-se possível a partir da consideração da
eventualidade de que as opções da coalizão vencedora
pelos jogadores
2 e 3, proponha a atribuição variável. Neste caso, na verdade, o jogo não será mais 0, , 2 digam respeito a investimentos de produtividade 1 1
2 de "soma constante", sendo que a utilidade global
referente à coletividade variará de acordo com a
coalizão que se formar de vez em quando: é claro que
O excluído da coalizão, isto é, o jogador n.° 1, poderia a coalizão vencedora escolherá o investimento que lhe
procurar romper o isolamento propondo proporcionar uma vantagem imediata, não levando em
a atribuição ao jogador n.° 2 1 3 conta o dano que derivar daí para a coletividade pela , , 0 falha de investimento em atividades mais produtivas. 4 4 Os inconvenientes de uma votação de maioria, na e este último poderia ser induzido a abandonar a análise em termos de Teoria dos jogos, estão no fato coalizão inicial com o jogador n.° 3, porque vai tirar de que nenhuma solução particular, ou seja, nenhuma evidentemente uma vantagem na nova coalizão. repartição ou redistribuição particular, incluindo as do
Toda esta segunda atribuição que não existe no conjunto privilegiado, tem mais probabilidade do que
conjunto referido poderia ser dominada pela qualquer outra do mesmo conjunto: pode acontecer,
atribuição que existe no próprio 1 1 assim, que soluções desvantajosas para a coletividade , 0, sejam mais freqüentes do que outras mais 2 2 convenientes; por outras palavras, conclui-se, a partir conjunto. É claro que cada membro da coalizão que das propriedades estudadas pela Teoria dos jogos, que adota a repartição incluída no conjunto "privilegiado"
a freqüência de uma solução não é função da
relutaria em abandonar a coalizão, porque as
conveniência da mesma solução. A votação por
conseqüências são facilmente previsíveis. Por esta
maioria não garante portanto soluções políticas ideais
razão, o conjunto das atribuições onde existe uma
em termos econômicos, mas tenderá a provocar
repartição simétrica das vantagens é considerado mais
investimentos públicos independentemente de sua
estável do que os outros, apesar de alguns teóricos
produtividade em relação ao emprego alternativo dos
discutirem as noções de "solução" e de "estabilidade"
recursos disponíveis.
quando o número dos participantes no jogo é muito
alto. Os inconvenientes da votação por maioria tenderão
a atenuar-se na medida em que forem admitidos ou
II. tolerados acordos ou compromissos que tornarem A TEORIA DOS JOGOS COMO
INSTRUMENTO DE possível, de qualquer maneira, a participação nas ANÁLISE POLÍTICA. — É
evidente como uma configuração deste tipo no espaço decisões da coalizão de minoria, que tenderão a
da utilidade pode constituir um sistema de referência transformar a decisão por maioria em decisão por
privilegiado para a análise das várias formas de unanimidade.
representação política (de cuja conveniência pode na
verdade dar uma "medida"), e não surpreende portanto
que ela seja utilizada amplamente nas várias "teorias
econômicas da democracia" (cf. por ex., J. M.
Buchanan, G. Tullock e A.
TEORIA DOS JOGOS 1241
As considerações precedentes sugerem a que dela se serviu em psicologia para avaliar os limites
possibilidade de uma transformação, ou, em todo da percepção, e Apostei, que fez aplicações da mesma
caso, de uma redução do coeficiente ideológico na na epistemologia lingüística. Criticar na Teoria dos
avaliação e na escolha dos procedimentos eleitorais e jogos um utilitarismo tão cauteloso, que se expõe
das formas de representação política. A segmentação paradoxalmente à surpresa de êxitos dramáticos
do corpo eleitoral em colégios, por exemplo, cuja impostos por adversários que programaticamente
composição pode ser determinada por vários critérios, ignoram o "risco calculado" como categoria
que vão desde o critério da atividade profissional até estratégica, significa colocar em discussão a
o critério geográfico, ou eventualmente o da escolha "ideologia" de um contratualismo generalizado e
casual, não deveria mais ser questão de opções prudente com limites de percepção política bem
condicionadas por uma tradição de cultura política, definidos. mas deveria depender da probabilidade de que É provavelmente mais correto analisar as
procedimentos específicos determinem a formação de propriedades e o "estatuto" de uma racionalidade que
coalizões com as conseqüências de que acima se define na oposição à fé nos equilíbrios econômicos
falamos. e sociais garantidos pela homeostase marginal e que
Considerações análogas valem para a escolha de prefere confiar no uso projetual e judicioso da sorte.
um sistema bicameral, no qual a setorialidade da É exatamente a serialidade decisional, a que se
representação numa Câmara deveria ser compensada reduz a Teoria dos jogos de n pessoas, que fornece pela sistemática casualidade da representação na um motivo de particular interesse na medida em que
outra, no sentido de que a propensão para as coalizões tende a conquistar uma autonomia estrutural que
entre grupos de interesses seria contrabalançada pela neutraliza uma intervenção programática e que permite
dificuldade em fazer acordo entre os representantes de uma integração do reducionismo iluminista da própria
casuais grupos de eleitores e, de outra parte, os altos Teoria dos jogos. custos decisionais implícitos na atividade de um corpo
Reconhecer na aposta "uma forma simbólica"
representativo em base casual seriam compensados
fundamental da atividade psíquica, descobrir a
pelo funcionamento mais previsível da Assembléia
possibilidade de descrever todo o evento mental como
constituída em base setorial.
espectativa de sorte, conforme sugeriu Lacan,
É claro finalmente que expressões estruturalmente significa recuperar o sentido ameaçado do discurso
elusivas como "bem comum" ou "interesse geral" "estratégico". podem tornar-se, nesta perspectiva, operacionalmente
Encontrar uma regularidade tirada do cálculo e de
utilizáveis num discurso político rigoroso.
uma certa maneira do arbítrio do sujeito num sistema
simbólico significa redescobrir a autonomia da
METODOLOGIA CIENTÍFICA. — A Teoria dos projetual e pessoal. jogos ou das decisões, originariamente projetada III. A TEORIA DOS JOGOS E A articulação dos signos em relação a um suporte como um conjunto de algoritmos destinados a dominar Os "mais" e os "menos", que no exemplo escolhido
por Lacan representam "presenças" e "ausências",
a complexidade das realidades econômicas e sociais,
transformou-se também em sua formulação atual num "plenitude" e "esvaziamento" (augustinianos e poderoso instrumento metodológico em todos os topológicos) e assinalam os pontos de uma "cabeça ou setores de pesquisa em que a insuficiência da coleta cruz" elementar e teórica, se dispõem em tríades,
caracterizadas por várias disposições dos signos e
de dados através de processos tradicionais de simples
registro se torna mais sensível e mais profundamente cujas "condições de comparecimento" são provocadas postula a exigência de substituição nesses métodos pelas tríades que as precedem, ou seja, pelo das noções de "estratégia" e de "decisão". Isso se desenvolvimento da cadeia alienatória.
As analogias com a evolução do sistema de
torna possível quando o pesquisador é considerado
um dos jogadores e o outro, o adversário, é a coalizões da Teoria dos jogos de n pessoas são
"natureza", a realidade a explorar, de modo que os sugestivas e parecem autorizar o emprego, com as
experimentos e as tentativas de solução dos vários devidas correções, da temática da "coação repetida"
na interpretação da tendência de auto-sustentação das
problemas podem ser considerados como estratégias
que tendem a maximizar os lucros e a minimizar as oscilações das alianças em caso de ausência de
perdas de informação. intervenções acidentais e obviamente estranhas à
própria Teoria dos jogos.
Para dar um exemplo da utilização da Teoria dos
jogos neste sentido podemos citar Piaget,
1242 TEORIA DOS JOGOS
Uma interpretação "teórica" do "barulho decisório" socialismo à sua morte política" (Terrorismo e
do sistema das coalizões ocorrentes poderia permitir comunismo antiKautsky, cap. II). talvez a descoberta de regularidade e correlações em O recurso ao terror por parte de quem já detém o
alternância de acordos e desacordos que não admitem poder dentro do Estado não pode ser arrolado entre as
um êxito "dialético". formas de Terrorismo político, porque este se
qualifica, ao contrário, como o instrumento ao qual
BIBLIOGRAFIA. — J. M. BUCHANAN e G. TULLOCK, recorrem determinados grupos para derrubar um
The calculus of consent. University of Michigan Press. Governo acusado de manter-se por meio do terror. É
Ann Arbor 1962; A. DOWNS, An economic theory of este, indubitavelmente, o caso do movimento
democracy, Harper and Row, New York 1957; J. populista russo no século passado que, em sua fase
LACAN, Le séminaire. Seuil, Paris 1978; J. VON mais radical, fez do terrorismo seu principal
NEUMANN e C. MORGENSTERN. Theory of games and instrumento de luta. Diante da lentidão no
economic behavior, Princeton University Press. crescimento da ação revolucionária, através da qual o Princeton 1953; A. RAPOPORT, Fights, games and princípio "do movimento do povo" (a propaganda
debates, University of Michigan Press. Ann Arbor utilizada pelos intelectuais frente aos camponeses e à
1960; Id.. Strategia e coscienza (1964), Bompiani, nascente classe operária) se desenvolveu, o
Milano 1969. movimento clandestino orientou sua ação recorrendo
a atividades terroristas dirigidas, seja para atingir os
[ERNESTO MOLINARI] centros do poder constituído (o maior êxito, que
também será o último, do movimento "Narodnaja
volia", que quer dizer "vontade do povo", é
representado pelo assassinato do czar Alexandre Il no
dia 1.º de março de 1881), seja para mostrar ao povo a
TERRORISMO POLÍTICO
força conseguida pelo mesmo movimento. O atentado político que é, portanto, uma forma de aplicação do
I. TERRORISMO E TERROR. — Apesar de terrorismo não se extingue com este, mas representa o
correntemente o terrorismo ser entendido como a momento catalisador que deve desencadear a luta prática política de quem recorre sistematicamente à política, abrindo caminho à conquista do poder. violência contra as pessoas ou as coisas provocando o Esta forma clássica de terrorismo apresenta
terror, a distinção entre esta última e o terrorismo algumas características fundamentais; 1) a representa o ponto de partida para a análise de um organização: o terrorismo, que não pode consistir em
fenômeno que, ao longo dos séculos, viu um ou mais atos isolados, é a estratégia escolhida por constantemente aumentar seu peso político. Como um grupo ideologicamente homogêneo, que terror entende-se, de fato, um tipo de regime particular, desenvolve sua luta clandestinamente entre o povo
ou melhor, o instrumento de emergência a que um para convencê-lo a recorrer a: 2) ações Governo recorre para manter-se no poder: o exemplo demonstrativas que têm, em primeiro lugar, o papel
mais conhecido deste uso do terror é, naturalmente, o de "vingar" as vítimas do terror exercido pela
do período da ditadura do Comitê de Saúde Pública, autoridade e, em segundo lugar, de "aterrorizar" esta
liderado por Robespierre e Saint-Just durante a última, mostrando como a capacidade de atingir o
Revolução Francesa (1793-1794). Mas já quase três centro do poder é o resultado de uma organização
séculos antes Maquiavel lembrava que "para retomar o sólida e 3) de uma mais ampla possibilidade de ação:
Estado (ou seja, para conservar o poder) era necessário através de um número cada vez maior de atentados
periodicamente espalhar aquele terror e aquele medo (veja-se a sua sucessão nos anos de 1878 a 1881 na
nos homens que o tinham utilizado ao tomar o poder" Rússia) que simboliza o crescimento qualitativo e
(Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, III, também quantitativo do movimento revolucionário.
I). Em resumo, a prática terrorista adapta-se a uma
Analogamente, diante da crítica de Kautsky, situação sócio-política particularmente atrasada, na
segundo o qual o exercício do poder da parte dos qual é necessário despertar a consciência popular e bolcheviques na Rússia revolucionária outra coisa não fazer com que o povo passe do ressentimento passivo
é senão uma forma (deteriorada) de terrorismo, à luta ativa através Trotski replica que, se por terrorismo se entendem as
medidas de luta em relação às tentativas contra-
revolucionárias, não estaremos senão diante de uma
forma de ditadura revolucionária e, enquanto tal,
necessária porque, "quem renuncia à ditadura do
proletariado, renuncia à revolução social e leva o
TERRORISMO POLÍTICO 1243
daquele que poderia ser definido como um verdadeiro mas qualquer pessoa que, por acaso, se encontre no
atalho no processo do crescimento revolucionário. lugar da explosão) que representa o elemento
distintivo entre o terrorismo revolucionário e aquele
II. TERRORISMO E REVOLUÇÃO. — Neste último que se poderia definir como contra-revolucionário ou,
mais claramente, fascista. Enquanto, em princípio, a
ponto em particular concentra-se a teoria marxista, idéia revolucionária aceita o atentado político, mas
para julgar esta prática política: se é verdade que
recusa o terrorismo, porque pode atingir além do
Marx, comentando a vitória contra-revolucionária de
inimigo também o aliado (como veremos mais adiante
Viena, em 1848, afirma que "para abreviar,
quando mostraremos uma importante exceção), o
simplificar e concentrar" a agonia da sociedade aspecto indiscriminado dos resultados da ação é o
burguesa existe apenas um único meio: o "terror
elemento determinante para fins da escolha terrorista,
revolucionário" ("Neue Rheinische Zeitung", n.° 136,
por parte dos grupos contra-revolucionários, os quais
de 7 de novembro de 1848), é também clara a recusa
desejam criar uma tal situação de incerteza e de medo
da parte de Lenin em adotar o terrorismo, que nos que cheguem a produzir condições propícias para um
seus escritos associa, quase sempre, ao "anarquismo"
golpe de Estado "pacificador" e libertador. Em
e ao "blanquismo". Enquanto Marx se refere, de
síntese, enquanto o terrorismo revolucionário (se e
preferência, a uma particular estratégia ao recurso
quando aceitável) está com as massas, o terrorismo
inevitável na luta violenta para a conquista do poder contra-revolucionário é contra as massas. O terror, por
(posição naturalmente compartilhada também por
isso, não pode ser considerado uma forma de luta de
Lenin), Lenin costuma separar o terrorismo, enquanto
classes. Em vista disso, até mesmo a tradição terrorista
tal, da guerrilha propriamente dita. O terrorismo é a
irlandesa deveria ser considerada, principalmente em
estratégia a que recorrem grupos de intelectuais, termos burgueses e separatistas, mais do que
separados das massas, nas quais, na realidade, não
propriamente revolucionários, mesmo quando esta
confiam e às quais estão organicamente ligados, de
posição não significa liquidar um determinado
modo que a sua ação acaba por caracterizar-se no
movimento, mas a apelação para uma revisão do
sentido de uma desconfiança em relação à mesmo. insurreição, quando faltam condições necessárias para
como III. O TERRORISMO INTERNACIONAL. — Até agora o substancialmente desencadeá-la. A esta forma de luta, que é definível
individualista, Lenin
contrapõe a guerrilha, que consiste em ações de tipo terrorismo foi analisado enquanto fenômeno limitado
militar, que se caracterizam, em primeiro lugar, pelo ao âmbito do Estado. Com características em parte
fato de serem realizadas por proletários e, em segundo diferentes, apresenta-se o mesmo fenômeno quando
lugar, pela capacidade de formarem os quadros e inserido num contexto político internacional, em
prepararem os dirigentes da autêntica insurreição. particular no caso das guerras de libertação nacional.
Neste quadro, o recurso ao terrorismo contra as
Com esta posição pode-se identificar também o
formas de ocupação do inimigo, por exemplo, assume
desenvolvimento dos princípios da guerra de guerrilha,
o mesmo papel positivo, apesar de limitado, do
especialmente na segunda metade do século XX, no
terrorismo russo do século passado, na medida em que
que se refere particularmente à relação entre
(atingindo exclusivamente o inimigo) representou o
terrorismo e sabotagem. Enquanto a sabotagem, desde
instrumento para o despertar da consciência popular e
que o objetivo seja bem escolhido (não uma fábrica
para uma primeira agregação de forças. Surge assim o
por exemplo, mas uma central elétrica), se constitui
valor fundamental da prática terrorista, o
numa arma muito eficaz, o terrorismo, quando não
"demonstrativo", que, embora baseado em ações de
representa simplesmente uma forma de justiça
tipo espontâneo e individualista, é normalmente a
sumária por causa da indiscriminação de suas
condição inicial para a tomada de consciência, que
conseqüências, pode provocar vítimas inocentes e
deverá mais tarde chegar a formas mais orgânicas de
também o rompimento da relação com as massas.
luta por grupos. A ação terrorista supera assim os
Ernesto "Che" Guevara julga o terrorismo "uma arma
limites ideológicos, antes indicados quando ela não é
negativa que não produz em nenhum caso os efeitos
fim de si mesma mas, através da escolha de um objetivo
desejados, podendo até induzir o povo a uma atitude
particularmente significativo (que não
contrária a um determinado movimento revolucionário, levando a uma perda de vidas entre
seus executores muito superior àquilo que rende
como vantagem" (A guerra de guerrilha, cap. III, § 5).
É exatamente o aspecto indiscriminado do ato (a
bomba que mata não somente o inimigo de classe,
1244 TERRORISMO POLÍTICO
impõe, portanto, dirigir a ação exclusivamente contra tanto que, para este tipo de acontecimento, parece
as pessoas), ela representa um primeiro elemento de mais correto fazer referência ao terror como
ligação com as massas de um lado e, de outro lado, instrumento a que recorre um Governo regular, na
um potencial dissuasivo em relação ao inimigo. Com ocasião no poder, conforme a distinção anteriormente
respeito a este último, quando o terrorista, contando proposta.
com a ajuda da população, consegue atingir o alvo Com referência ao terrorismo internacional, é
sem ser capturado, produz um efeito desmoralizador conveniente enfatizar, ainda num plano geral, como
sobre as tropas de ocupação, importantes para ele se encontra novamente em oposição a uma forma
enfrentar um adversário "invisível". Neste sentido, de terror, aquela que foi suscitada pelo perigo
pode-se dizer que o terrorismo, internacionalmente representado por uma eventual guerra atômica: o
orientado, representa, em vez de uma alternativa da terrorismo é, talvez, a única arma à qual pode recorrer
guerra de guerrilha, uma sua prefiguração, claro quem pensa em subverter a ordem internacional
indício do crescimento do movimento popular. apoiada no chamado "equilíbrio do terror". Num
No contexto internacional, pode-se até verificar o mundo em que a guerra declarada e conduzida
caso, aparentemente contraditório, de que o conforme as normas do direito bélico internacional
terrorismo se revele a única forma de ação possível, parece revelar-se impossível, a mudança da ordem
quando os grupos terroristas não possam ser internacional pode ser conseguida somente através de
reconduzidos a nenhuma unidade territorial, ou formas irregulares de luta. Ao "terror" conservador de
melhor, a nenhum Estado. Este é o caso mais original quem representa, de qualquer modo, a autoridade cm
e mais atual da guerrilha, sendo também aquele que nível internacional contrapõe-se o terror de quem quer
envolve mais diretamente a problemática da política subverter esta situação. É claro que isto não se refere a
internacional. De fato, com referência ao terrorismo Estados terroristas, mas apenas a grupos terroristas,
palestino e à ação de um "comando" que, por grupos particulares que poderiam ser identificados ou
exemplo, provoca a explosão de um avião de linha não com um Estado de origem, embora seja
num país da Europa ocidental, esta mesma ação perde importante deixar bem claro que com este último
seu componente tradicional de luta no âmbito de um significado o terrorismo coloca-se como um momento
Estado e, ao mesmo tempo, provoca o aparecimento da de encontro entre política interna e política
impossibilidade de imputar a mesma ação a elementos internacional ou, mais claramente, entre revolução e
de um Estado. Neste caso, os terroristas combatem guerra, representando ao mesmo tempo um contra um Estado de que não fazem parte e não contra instrumento da primeira e uma alternativa da segunda.
um Governo (o que faz com que sua ação seja O terrorismo da Palestina é o retrato, tanto de um
conotada como uma forma de guerra), mesmo quando Estado revolucionário, quanto de uma forma de luta
por sua vez não representam um outro Estado. Sua política internacional, que foge aos esquemas
ação então aparece como irregular, no sentido de que clássicos da guerra entre Estados. O fenômeno
não podem organizar um exército e não conhecem terrorista em nível internacional passa assim a adquirir
limites territoriais, já que não provêem de um Estado. uma relevância que não tinha o terror dentro do
Neste contexto parece bem diferente o recurso à Estado, porque, enquanto neste último caso o terror
represália utilizado pelo Governo de Israel (raids no não representa senão das possíveis formas de luta, no
Líbano), que é correntemente definido como terrorismo internacional ele constitui, ao contrário, a
"terrorista". Análogo é o caso de um bombardeamento única saída aberta para os que não se identificam com
"terrorista" durante uma guerra regular (pensemos no a estrutura da ordem internacional existente. bombardeamento de Dresden em fevereiro de 1945 e
nos bombardeamentos dos Estados Unidos no norte BIBLIOGRAFIA. — Terrorism: interdisciplinary do Vietnã). Nestes casos, o direito internacional perspectives, ao cuidado de J. ALEXANDER e S. M. bélico propõe como critério para distinguir entre FINGER, John Jay Press. Ne» York 1977; ASSOCIATION "lícito" e "ilícito" (terrorista) o objetivo militar ou BELGE JURISTES DEMOCRATES, Réflexions sur la civil da própria ação, critério que. além de ser de définition et la répression du terrorisme, Editions de difícil aplicação, não encontra paralelo na praxe dos l'Université de Bruxelles, Bruxeles 1974; Dimensioni Estados. O aspecto terrorista deste tipo de ação deve del terrorismo politico. dirigido por L. BONANATE, ser buscado na forma indiscriminada dos resultados, Angeli, Milano 1979; F. GROSS, Violence in Politics. que não permitem nenhuma distinção, Mouton, Paris-L'Aja 1973; M. C. HUTCHINSON, The
Concept of revolutionary terrorism, in "Journal of conflit resolution", XVI, setembro. 1972;K. KAUTSKY, Terrorismo e comunismo (1919), Bocca, Torino 1920; A.
TOLERÂNCIA 1245
SOTTILE, Le terrorisme international. Sirey. Paris distribuição da propriedade" — isto é do patrimônio
1939; T. P. THORNTON, Terror as weapon of political — "e que é definida, de forma apropriada, como
agitation. in Internai war, ao cuidado de H. timocrática, embora muitos a chamem simplesmente
ECKSTEIN, The Free Press. New York 1963; L. politia". Assim, quando o nível de fortuna é baixo, a TROTZKY, Terrorismo e comunismo (1920), Sugar, discriminação de renda atinge uma minoria da
Milano 1977; J. WACIERSKI, Le terrorismo e população, a classe mais pobre, excluindo-a de comunismo (1920). Sugar, Milano 1977; J. direitos ativos e passivos. então é possível falar, WACIORSKI, Le terrorisme politique, Pedone, Paris segundo Aristóteles, de uma Timocracia democrática 1939; E. V. WALTER, Terror and resistence, Oxford em contraposição à Timocracia oligárquica. na qual a University Press. New York 1969; P. WILKINSON, maioria dos cidadãos é excluída do Governo da coisa
Terrorism and the liberal state. Macmillan. London pública, ficando o poder concentrado nas mãos de
1977. poucos com altas rendas. A politia deve basear-se
numa renda média (Politica, IV, 9, 1294' b). Em
[LUIGI BONANATE] conclusão, enquanto para Platão a Timocracia é uma
forma corrupta de Governo, para Aristóteles ela tende
a confundir-se com a politia, constituição correta, e
Timocracia. isto corresponde perfeitamente ao seu ideal de
Governo misto, de democracia moderada, em que os
cargos públicos são distribuídos com base na renda.
Platão e Aristóteles foram os primeiros a teorizar
com base no termo Timocracia duas diferentes formas Exemplos históricos de Timocracia assim entendida
de constituição política. são numerosíssimos no decorrer dos séculos e bastará
lembrar, na Antigüidade, a Constituição de Sólon em
A) Forma de Governo que se baseia no desejo e na
Atenas e mais tarde, no século IV a.C, a de Antípatro
importância da honra (timé), definida por Platão como
e em Roma a dos escravos. Mais próximo de nós
"constituição ambiciosa de honrarias" (Rep., VIII,
lembraremos que todas as primeiras Constituições
545b), e é corrupção, da mesma forma que a
modernas liberal-democráticas se baseiam no critério
oligarquia, a democracia e a tirania, da forma correta
de renda de tal forma que, para eleger ou para ser
de Governo que é a ARISTOCRACIA (v.). Na
eleito, para gozar de direitos políticos plenos ou em
Timocracia, ou, como diz ainda Platão, na timarquia
parte, era necessário possuir uma determinada renda.
(Rep., ibidem), que é classificada entre a aristocracia,
O sufrágio universal levou ao abandono definitivo do
Governo dos melhores (filósofos), e a oligarquia,
sistema timocrático.
Governo dos ricos, constituição fundada sobre a renda
(Rep., VIII, 550 c-d), prevalecem os ambiciosos de afirmação pessoal e de honrarias. É precisamente a [GIAMPAOLO ZUCCHINI]
partir da Timocracia que se passa à oligarquia quando
os poucos que estão no poder já não se contentam,
altivos, do prestígio alcançado e, violando as leis,
Tirania. — V. Ditadura, II.
"procuram endinheirar-se e quanto mais se dedicam a
esta atividade menos estimam a virtude" (Rep., VIII, 550 d-e). Tornando-se assim pessoas de negócios e
avaros, exaltam os ricos, a quem oferecem cargos Tolerância. públicos e enchem de louvores, enquanto desprezam
os pobres. "E então legislam estabelecendo como limite- I. DEFINIÇÕES. — O princípio de Tolerância base da constituição oligárquica uma certa quantidade prepara e em parte antecipa o princípio da liberdade
de riqueza, maior onde é mais forte a oligarquia e política e, em alguns aspectos, transfere a teoria do
menor onde é menos forte; e prescrevem que não tenha laisser faire da política econômica para a atividade cargos públicos aquele que dispuser de uma fortuna política geral. Um dos componentes relativistas,
inferior à renda anual estabelecida" (Rep., VIII, 551 a- historicistas e pluralistas do pensamento liberal
b). Uma forma de constituição timocrática foi conduz ao reconhecimento de posições contrastantes
historicamente identificada por Platão na Constituição dentro de um sistema conflituoso disciplinado por
da Lacônia. "regras de jogo" convencionadas. A teoria da
B) Em Aristóteles, a Timocracia é a forma de Tolerância religiosa difundiu além disso uma acepção
Governo fundada sobre o patrimônio. Lê-se na Ética diferente do princípio de Tolerância, que consiste na
( V I I I . 10, 1160 a 35) que as formas corretas de abstenção de Governo são três: "a monarquia, a aristocracia e uma
terceira, que depende da
1246 TOLERÂNCIA
hostilidades para quem professa idéias políticas, morais punidos pelo tribunal secular enquanto transgressores ou religiosas julgadas censuráveis. Nesta acepção, a da lei civil. Tolerância significa renúncia em impedir alguns males O irenismo da tradição humanista do século XVI
justificada pelo risco de que se forem impedidos à abriu caminho para a teoria da Tolerância civil para força se tornariam piores. A Tolerância para com os com os diversos tipos de fé defendida, entre outros, por dissidentes é portanto aceita como um mal necessário Erasmo e Thomas Morus. Após a execução de Miguel quando não é possível reprimir o dissenso, ou seja, Servet, Castellion publicou, sob o pseudônimo de um mal menor quando o custo da repressão resultaria Martinus Bellius, em polêmica contra Calvino, o excessivo. É evidente que em tal caso o conceito de tratado De Haereticis an sint persequendi (1554); na Tolerância constitui um grau preparatório do princípio França, o liberalismo religioso foi defendido por Jean de liberdade: a Tolerância institui, na verdade, um Bodin no Traité de la République (1576) e no espaço de liceidade ou pelo menos de imunidade nas Colloquium Heptaplomeres (1593) e o partido dos decisões individuais, mas o qualifica como concessão "Politiques", defensor das finalidades temporais do revogável e não ainda como direito irrevogável. "A Estado comprometidas pelos conflitos religiosos, palavra Tolerância — sustentava Mirabeau à propugnou a Tolerância civil para com os reformados Assembléia Nacional francesa — me parece de certo em compensação pelo seu empenho leal em prol dos modo tirânica, uma vez que a autoridade que tolera interesses nacionais. poderia também não tolerar"; e lord Stanhope na
Na Alemanha, nos últimos anos do século XVI e
Câmara alta britânica: "houve tempo em que os
nos primeiros do século XVII apareceram escritos
dissidentes invocavam a Tolerância como uma graça; sistemáticos sobre a Tolerância dos luteranos hoje, os mesmos a invocam como um direito, mas virá Camerarius e Gerhard e do católico Becanus. Mas os um dia em que a desdenharão como um insulto". Por
principais tratados sobre a teoria da Tolerância se
isso, Francesco Ruffini, referindo-se à definição de
acham no século XVII nas obras de Grócio, Bayle,
"cultos tolerados", empregada no primeiro artigo do Milton e Locke. Fundamental para a teoria moderna da Estatuto Albertino para designar as religiões Tolerância religiosa é a Epístola de tolerantia, escrita acatólicas, notava: "a Tolerância, que é uma
cm 1685 por John Locke durante seu exílio na Holanda
admirável virtude privada, soa odiosamente nas
e publicada como anônima em 1689.
relações públicas; não será certamente o último
exemplo disso o significado técnico que ela conserva Na Epístola Locke estabelece os respectivos deveres
hoje em dia no direito eclesiástico católico como da Igreja, dos particulares, da magistratura eclesiástica reconhecimento forçoso e oportunístico do que de e civil para com o princípio de Tolerância: verdade não se pretende de maneira nenhuma aprovar. a) Nenhuma Igreja é obrigada, em nome da A palavra Tolerância pressupõe a existência de um Tolerância, a manter em seu seio quem se obstina a Estado confessional, ou seja. de um Estado que crê pecar contra a doutrina estabelecida; mas a que é necessário fazer profissão de um determinado excomunhão não deve ser acompanhada de violências culto como pessoa coletiva; como se ele também, tal ou danos contra o corpo e contra os bens daquele que é como as pessoas físicas, tivesse uma alma a salvar" (A expulso. liberdade religiosa, § l.°/l)- b) Nenhum particular pode danificar ou diminuir
os bens civis de quem se declara estranho à sua
religião, porque os direitos do homem e do cidadão
II. REFLEXOS POLÍTICOS DA TEORIA DA TOLERÂNCIA não pertencem à esfera religiosa.
RELIGIOSA . — É costume indicar Marcílio de Pádua c) A autoridade eclesiástica não pode estender-se (Defensor pacis, 1324) como um precursor da teoria às questões civis que são de esfera diferente e das política da Tolerância. Ele sustenta que a Sagrada quais a Igreja está separada; Igreja e Estado são ordens Escritura convida a ensinar, a demonstrar e a diferentes pela sua origem e pelos fins que se propõem. convencer, não a obrigar e a punir, porque, sendo a d) Quanto à magistratura civil, o direito de consciência incoercível, a fé imposta através da
governar e a perícia política não contêm cm si um
coerção não traz nenhuma vantagem para a salvação
conhecimento certo das coisas e muito menos da
espiritual. Esta tese havia sido já reivindicada pelos religião verdadeira. O magistrado civil deverá, por isso
primeiros cristãos e foi depois retomada com especial mesmo, abster-se de toda ingerência nas opiniões vigor por Spinoza no Tractatus theologico-politicus
religiosas dos súditos e na celebração dos cultos,
(1670, cap. XX). Marcílio, além do mais, admitia que
seguindo o princípio de que aquilo que é lícito no
os infiéis e os hereges subtraídos à perseguição dos Estado não pode ser proibido na tribunais eclesiásticos pudessem ser
TOLERÂNCIA 1247
Igreja e de que, vice-versa, as coisas ilícitas no Independentes da problemática da Tolerância
Estado não podem ser lícitas na Igreja, mesmo religiosa são as teorias críticas da sociedade
quando adotadas nos usos sagrados. contemporânea, que tendem a esclarecer os aspectos
Segue-se daí, segundo Locke, que o magistrado repressivos no panorama da Tolerância. Segundo
civil não deverá tolerar uma Igreja disciplinada de Robert Paul Wolff, por exemplo, a Tolerância é a
modo que quem a ela adere passe "ao serviço e à virtude da moderna democracia pluralista. Mas o
obediência de um outro soberano", porque, em tal pluralismo democrático, tal qual pode ser observado
caso, dar-se-ia lugar a uma sobreposição de na América contemporânea e em outras sociedades
jurisdições. Locke nega todo direito de Tolerância industrializadas, apresentaria uma série de analogias
religiosa aos ateus, negadores da religião; mas com as sociedades feudais e corporativas enquanto se
algumas tendências relativistas ("toda Igreja é mostraria tolerante para com os grupos constituídos e
ortodoxa para si mesma e errônea ou herética para os não para com os indivíduos cujo comportamento se
outros") e a clara afirmação da liberdade de desvia das normas do grupo. Segundo Herbert
consciência e da separação entre Estado e Igreja Marcuse, a função liberal da Tolerância teria sido
fazem da Epístola um documento fundamental do alterada pelas mudanças verificadas nas sociedades
LAICISMO (V.) . democráticas avançadas, que minaram as bases do
liberalismo econômico e político. A Tolerância
III. DESENVOLVIMENTO MODERNO DO PRINCÍPIO DE deveria portanto concretizar-se numa prática
TOLERÂNCIA. — O princípio de tolerância se afirmou subversiva e liberante e contrapor-se à Tolerância
plenamente no século XVIII com o iluminismo e o decadente mascarada pela REPRESSÃO (V.) . racionalismo (é bastante conhecido o Traité sur la tolérance de Voltaire, de 1763, escrito por ocasião da BIBLIOGRAFIA. — J. LECLER, Storia della tolleranza condenação do protestante Jean Calas; nesse tratado nel secolo della riforma. Morcelliana, Brescia 1967. 2 Voltaire se propõe demonstrar que a intolerância vols.; J. LOCKE. Saggio sulla tolleranza. in Scritti editi religiosa não é justificada nem pela tradição judaica e e inediti sulla tolleranza. ao cuidado de C. A. VIANO. clássica nem pela doutrina evangélica). E no século UTET . Torino 1961; A. MESSINEO. Tolleranza e XIX foi um componente essencial do pensamento intolleranza, in "Civiltà cattolica". caderno 2.411, ano político liberal. Foi acolhido pela própria Igreja, nas 101. 2 de dezembro de 1950, vol. IV; F. RUFFINI, La encíclicas de Leão XIII, com muitas limitações e libertà religiosa (I." ed. 1901), Feltrinelli, Milano como um mal menor. Também em 1950, o padre 1967. Messineo contrapunha à teoria liberal da Tolerância,
fundada sobre o agnosticismo e o subjetivismo [VALERIO ZANONE] religiosos, a teoria restritiva da Tolerância como
atitude prática "que leva a suportar com indulgência e
longanimidade uma ação ou um fato lesivos do nosso
Totalitarismo.
sentimento e dos nossos direitos". Segundo esta
interpretação, pois que se "se tolera o mal e o erro,
não se tolera o bem e a verdade", a Tolerância não I. As TEORIAS CLÁSSICAS DO TOTALITARISMO. — deveria comportar a paridade jurídica dos cultos Na Itália, começou-se a falar de Estado "totalitário"
sustentada pela concepção do liberalismo agnóstico. É por volta da metade da década de 20 para significar, no
inegável que a plena explicação do princípio de nível de avaliação, as características do Estado fascista
Tolerância é incompatível com o dogmatismo em oposição ao Estado liberal. A expressão está religioso, o qual, professando a certeza da verdade presente na palavra "Fascismo" da Enciclopedia recebida por graça, impõe o aut-aut entre verdade e Italiana (1932), quer na parte escrita por Gentile, quer falsidade e a divisão dos homens entre eleitos e na parte redigida por Mussolini, onde se afirma a
réprobos. novidade histórica de um "partido que governa
Os mais recentes desenvolvimentos do pensamento totalitariamente uma nação". Na Alemanha nazista, o
da Igreja, entretanto, contidos nas declarações do termo, ao contrário, teve pouca voga, preferindo-se
Concilio Vaticano Il e nas encíclicas de João XXIII e falar de Estado "autoritário". Entretanto, a expressão
de Paulo VI, estão explicitamente orientados para o começava a ser usada para designar todas as ditaduras
princípio de Tolerância na medida em que, monopartidárias, abrangendo tanto as fascistas quanto
reconhecendo e exaltando a dignidade natural da as comunistas. Neste sentido a empregou George H.
pessoa humana — que não foi perdida nem em Sabine no verbete presença do erro —, reafirmam que a busca da
verdade é um ato voluntário do conhecimento sobre o
qual a autoridade civil não tem poder de interferência.
1248 TOTALITARISMO
"Estado" da Encyclopaedia of the social sciences também vítimas escolhidas inteiramente ao acaso. O
(1934). Em 1940, num simpósio sobre o "Estado terror total que arregimenta as massas de indivíduos
totalitário" publicado nos Proceedings of american isolados e as sustenta num mundo que, segundo elas,
philosophical society, Carlton H. Hayes descreveu se tornou deserto torna-se por isso um instrumento
algumas características originais do Governo permanente de Governo e constitui a própria essência totalitário e especialmente a monopolização de todos do Totalitarismo, enquanto a lógica dedutiva e
os poderes no seio da sociedade, a necessidade de gerar coercitiva da ideologia é seu princípio de ação. ou
uma sustentação de massa, o recurso às modernas seja, o princípio que o faz mover. técnicas de propaganda. Em 1942, em The permanent No plano organizativo, a ação da ideologia e do
revolution, Sigmund Neumann colocou em destaque o terror se manifesta através do partido único, cuja
movimento permanente que se desprendeu dos formação elitista cultiva uma crença fanática na
regimes totalitários e que atinge, numa mutação ideologia, propagando-a sem cessar, e cujas
incessante, os próprios procedimentos e instituições organizações funcionais realizam a sincronização
políticos. Todavia, não obstante tais antecedentes, o ideológica de todos os tipos de grupos e de
uso da palavra Totalitarismo para designar, com uma instituições sociais e a politização das áreas mais
conotação fortemente derrogatória, todas ou algumas remotas da política (esporte e atividades livres, por
ditaduras monopartidárias fascistas ou comunistas se exemplo), e através da polícia secreta, cuja técnica
generalizou somente após a Segunda Guerra Mundial. operacional transforma toda a sociedade num sistema
Durante o mesmo período foram formuladas as teorias de espionagem onipresente e onde cada pessoa pode
mais completas do Totalitarismo, a de Hannah Arendt ser um agente da polícia e onde todos se sentem sob
(The origins of totalitarianism, 1951) e a de Carl J. constante vigilância. O regime totalitário não tem
Friedrich e Zbigniew K. Brzezinski (Totalitarian entretanto uma estrutura monolítica. Há, bem pelo
dictatorship and autocracy, 1956). contrário, uma multiplicação e uma sobreposição de
Segundo H. Arendt, o Totalitarismo é uma forma funções e de competências da administração estatal,
de domínio radicalmente nova porque não se limita a do partido e da polícia secreta, que dão lugar a um
destruir as capacidades políticas do homem, isolando- emaranhado organizativo confuso, bem distinto de
o em relação à vida pública, como faziam as velhas uma típica "ausência de estrutura". Esta ausência de
tiranias e os velhos despotismos, mas tende a destruir estrutura está de acordo com o movimento e a
os próprios grupos e instituições que formam o tecido imprevisibilidade próprios do regime totalitário e que
das relações privadas do homem, tornando-o estranho têm origem na vontade absoluta do ditador, o qual
assim ao mundo e privando-o até de seu próprio eu. sempre está em grau de fazer flutuar o centro do poder
Neste sentido, o fim do Totalitarismo é a totalitário de uma para outra hierarquia. A vontade do
transformação da natureza humana, a conversão dos chefe é a lei do partido e toda organização partidária
homens em "feixes de recíproca reação", e tal fim é não tem outro escopo senão o de realizá-la. O chefe é o
perseguido mediante uma combinação, especificamente depositário da ideologia: apenas ele pode interpretá-la
totalitária, de ideologia e de terror. A ideologia ou corrigi-la. Até a polícia secreta, cujo prestígio
totalitária pretende explicar com certeza absoluta e de cresceu extraordinariamente em relação ao que
maneira total o curso da história. Torna-se, por isso, gozava nos velhos regimes autoritários, tem um poder
independente de toda experiência ou verificação real menor, pelo fato de estar inteiramente sujeita à
fatual e constrói um mundo fictício e logicamente vontade do chefe, o único a quem compete decidir
coerente do qual derivam diretrizes de ação, cuja quem será o próximo inimigo potencial ou "objetivo".
legitimidade é garantida pela conformidade com a lei Segundo esta interpretação, a personalização do poder
da evolução histórica. Esta lógica coativa da é portanto um aspecto crucial dos regimes totalitários.
ideologia, perdido todo contato com o mundo real, Entretanto, Arendt não faz dela explicitamente um
tende a colocar na penumbra o próprio conteúdo terceiro pilar da noção de Totalitarismo (ao lado do
ideológico e a gerar um movimento arbitrário e terror e da ideologia), provavelmente para não
permanente. O terror totalitário, por sua vez, serve perturbar a solidez da concepção essencialista e
para traduzir, na realidade, o mundo fictício da teleológica do fenômeno que se manifesta por
ideologia e confirmá-la, tanto em seu conteúdo, conseqüência algo densa. quanto, e sobretudo, em sua lógica deformada. Isso
atinge, na verdade, não apenas os inimigos reais (o
que acontece na fase da instauração do regime), mas
também e especialmente os inimigos "objetivos", cuja
identidade é definida pela orientação político-
ideológica do Governo mais do que pelo desejo desses
inimigos em derrubá-lo. E na fase mais extrema atinge
TOTALITARISMO 1249
A segunda teoria clássica, a de Carl J. Friedrich e na personalização do poder totalitário e no papel
de Zbigniew K. Brzezinski, define o Totalitarismo crucial do chefe, que detém em suas mãos os
com base nos traços característicos que podem ser meandros da ideologia, do terror e de toda a
encontrados na organização dos regimes totalitários. organização totalitária. Esta segunda diferença está
Segundo esta colocação, o regime totalitário é ligada, em grau considerável, a uma terceira, que diz
resultante da união dos seis pontos seguintes: 1) uma respeito ao âmbito de aplicação da noção de
ideologia oficial que diz respeito a todos os aspectos Totalitarismo. Para Arendt são totalitárias apenas a
da atividade e da existência do homem e que todos os Alemanha hitlerista (de 1938 em diante) e a Rússia
membros da sociedade devem abraçar, e que critica, stalinista (de 1930 em diante); para Friedrich e
de modo radical, o estado atual das coisas e que dirige Brzezinski são totalitários, além do regime nazista e
a luta pela sua transformação; 2) um partido único de soviético, o regime fascista italiano, o regime
massa dirigido tipicamente por um ditador, estruturado comunista chinês e os regimes comunistas do Leste
de uma forma hierárquica, com uma posição de europeu. superioridade ou de mistura com a organização Mas existem pontos de acordo que também são
burocrática do Estado, composto por pequena notáveis. Em primeiro lugar, tanto Arendt quanto
percentagem da população, onde uma parte nutre Friedrich e Brzezinski vêem no Totalitarismo uma nova
apaixonada e inabalável fé na ideologia e está disposta forma de dominação política, pelo fato de ele ser
a qualquer atividade para propagá-la e atuá-la; 3) um capaz de conseguir um grau de penetração e de
sistema de terrorismo policial, que apóia e ao mesmo mobilização da sociedade que não tem precedentes nos
tempo controla o partido, faz frutificar a ciência regimes conhecidos do passado e representa neste
moderna e especialmente a psicologia científica e é sentido um verdadeiro salto de qualidade. Em segundo
dirigido de uma forma própria, não apenas contra os lugar, as duas interpretações concordam ao identificar
inimigos plausíveis do regime, mas ainda contra as três aspectos centrais do regime totalitário numa
classes da população arbitrariamente escolhidas; 4) ideologia oficial, no terror policial e num partido
um monopólio tendencialmente absoluto, nas mãos do único de massa. A polícia secreta que Arendt
partido e baseado na tecnologia moderna, da direção acrescenta a este elenco no plano institucional e o
de todos os meios de comunicação de massa, como a controle monopolista dos meios de comunicação e dos
imprensa, o rádio e o cinema; 5) um monopólio instrumentos de violência, assim como a direção
tendencialmente absoluto, nas mãos do partido e central da economia, acrescentados por Friedrich e
baseado na tecnologia moderna, de todos os Brzezinski, podem considerar-se, ao menos dentro de
instrumentos da luta armada; 6) um controle e uma certos limites, como especificações posteriores, que