Dicionário de Política (Volume 1)
guerras e, conseqüentemente, pelos diversos meios que
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
876 PACIFISMO
guerras e, conseqüentemente, pelos diversos meios que
do capitalismo, de que conhecemos duas diversas
propõem como necessários para as eliminar. Para o
versões, a de Rosa Luxemburg e a de Lenin. Segundo
Pacifismo ético-religioso, as causas das guerras hão de
esta interpretação da história, a paz internacional não
ser buscadas sobretudo na própria índole ou natureza
poderá ser alcançada senão com a eliminação do
do homem; portanto, o remédio só pode ser de caráter
capitalismo. Moções de orientação pacifista podemos
espiritual. A versão secularizada desta interpretação
encontrá-las em todas as ordens do dia aprovadas
individualista da guerra encontramo-la nas várias
pelos diversos congressos da Segunda Internacional;
teorias psicológicas, e agora também psicanalísticas,
"As guerras entre os Estados capitalistas — lê-se na
que vinculam a guerra à agressividade instintiva do
declaração final do Congresso de Stuttgart, de 1907
homem e propõem como remédio modos alternativos, — são em geral resultado da sua concorrência no menos nocivos, de satisfazer e desafogar o instinto de
mercado mundial"; vem a seguir a conclusão de que
agressão.
"as guerras cessarão com o desaparecimento do
O Pacifismo econômico, que obteve grande êxito capitalismo". A Terceira Internacional, empenhada em
com os defensores do livre comércio, sustentava que a defender as conquistas da revolução soviética, foi causa principal das guerras era o protecionismo obrigada a deixar para tempos melhores o Pacifismo econômico que obrigava os Estados a buscar pela finalístico, limitando-se a desmascarar o falso conquista o que não conseguiam obter com o livre Pacifismo da Sociedade das Nações, infamada como comércio. A idéia de Cobden de que, mediante a Santa Aliança dos Estados capitalistas. Pacifismo abertura das fronteiras econômicas, o comerciante jurídico, ou da paz pelo direito, é, enfim, o que atribui substituiria pouco a pouco o guerreiro, era uma idéia as guerras à permanente anarquia da sociedade que emparelhava com a filosofia da história de internacio nal e vê como único remédio a eliminação Spencer, para quem as leis fatais da evolução teriam da soberania absoluta de cada um dos Estados e a transformado as antigas sociedades militares, que criação de organizações internacionais cada vez mais viviam da guerra e na guerra, em pacíficas sociedades amplas e cada vez mais centralizadas, até que venha a industriais. Já Voltaire escrevera que a guerra, um dos constituir-se o Superestado ou o Estado universal. flagelos mais terríveis da humanidade, é obra "da Segundo este ponto de vista, é preciso distinguir bem fantasia de trezentas ou quatrocentas pessoas a noção de conflito da noção de guerra. A guerra é espalhadas pela superfície do orbe terráqueo, com o apenas um modo, caracterizado pelo uso da força nome de príncipes ou governantes". Que a guerra era organizada, de resolver os conflitos internacionais: há devida ao "capricho dos príncipes" e, portanto, a razões econômicas, políticas e sociais que servem para causas essencialmente políticas, e que, por explicar a origem dos conflitos, mas só a soberania conseguinte, a única esperança de eliminar a guerra absoluta dos Estados e a fraqueza de um direito como estava no abandono do despotismo pela democracia, o internacional, que é paritário e não hierárquico, foi também, como se viu, a idéia de Kant. Esta forma explicam por que é que os conflitos entre os Estados de Pacifismo, que se pode chamar político pela sua não podem ser resolvidos, com o andar do tempo, causa ou democrático pelo remédio, esteve em voga senão pela guerra. Em 1947 foi elaborado por um sobretudo nos movimentos democráticos do século comitê um plano de constituição do Estado universal; passado. Mazzini, no estatuto da Nova Europa, outros projetos e comissões se lhes seguiram nos anos proclamava que "a humanidade não estará sucessivos, mas sem qualquer resultado para a política verdadeiramente constituída senão quando todos os dos Estados e com pouca repercussão na opinião povos que a compõem, havendo alcançado o livre pública. exercício da sua soberania, se associarem numa
federação republicana" (art. 19). No âmbito das IV. PACIFISMO PASSIVO E PACIFISMO ATIVO. — diversas correntes socialistas, a guerra foi sempre Segundo outro critério de distinção, as dou trinas considerada um produto, não tanto de um certo tipo de pacifistas podem dividir-se em passivas e ativas, regime político, quanto de uma determinada forma de conforme considerem a meta final, a paz, como produção, como é justamente a capitalista, cuja resultado de uma evolução fatal da sociedade humana sobrevivência depende da constante conquista de ou como conseqüência do esforço inteligente e novos mercados; isso traz como conseqüência, de um organizado do homem com vistas a um fim desejado. lado, as guerras de conquista colonial e, de outro, as Reproduz-se, assim, no âmbito do pensamento guerras ainda mais terríveis entre as mesmas potências pacifista, a mesma distinção que divide os movimentos coloniais pela repartição das colônias, de acordo com socialistas da Segunda Internacional, inspirados numa as teorias da fase imperialista concepção
PARLAMENTO 877
determinista da história, daqueles que vão buscar a isto é, até o autor e usuário das técnicas e das várias
força e o nome à teoria leninista do partido formas de organização social. Uma vez que a
revolucionário. Grande parte das correntes pacifistas viabilidade está em relação inversa com a
do século passado eram guiadas pela idéia de que a complexidade e a eficácia em relação direta com a
guerra estava destinada a desaparecer, tal como o profundidade, poder-se-á também dizer que qualquer
Estado, com o desenvolvimento da sociedade destes três caminhos para a paz será tanto mais viável
industrial (teorias liberais), com a ampliação e quanto menos eficaz, e vice-versa. Isto permite
consolidação dos Estados nacionais e populares colocá-los numa ordem decrescente de viabilidade e
(teorias democráticas), ou com a desaparição gradual numa ordem crescente de eficácia, partindo do
das sociedades divididas em classes. O Pacifismo desarmamento, que é o caminho mais viável, mas
passivo esgotara sua função, quando conseguiu também o menos eficaz, até à reforma moral do
demonstrar que a guerra já não era necessária para o homem, que é certamente o caminho mais eficaz, se
desenvolvimento da humanidade. O Pacifismo ativo bem que, no plano real, o menos viável. quis demonstrar, em vez disso, que a guerra é um
acontecimento negativo e danoso que tem de ser IBLIOGRAFIA B.- AUT. VÁR., La paix. 2 vols. Éditions impedido. A característica das correntes pacifistas de de la Librairie encyclopèdique, Bruxelles 1961-62; G. hoje, da era da guerra atômica, é a de se haverem BOUT-HOUL, La guerra, Elementi di polemologia transformado em Pacifismo ativo: em face do perigo (1951), Longanesi, Roma 1961: G. del VECCHIO, Il da destruição de todo o vestígio humano sobre a terra,
a paz é um bem sumamente importante, ao qual é OIA fenomeno della guerra e l'idea della pace. Bocca,
Torino 1911; E. R . I movimenti pacifisti dell'800 e
preciso tender com esforço tenaz e unânime.
del 900 e le organizzazioni internazionali, in Questioni di storia contemporanea, vol. II, Marzorati, Milano
FINALÍSTICO V. PACIFISMO INSTRUMENTAL, INSTITUCIONAL E UYSSEN 1952; T. R, Les sources doctrinales de . — Este esforço pode estar voltado para l'internationalisme, 2 vols., P.U.F., Paris 1954-1958; M. os meios que se usam para fazer a guerra, para as SCHELER, Die Idee des Friedens und der Pazifismus, Der instituições que a tornam possível, ou para o próprio Neue Geist Verlag, Berlim 1931. homem. Daí a distinção entre Pacifismo instrumental,
institucional e finalístico. Cada uma destas três formas
[NORBERTO BOBBIO]
de Pacifismo ativo apresenta, por sua vez, duas faces.
No Pacifismo instrumental convém distinguir a ação
orientada à destruição ou à drástica limitação dos
instrumentos bélicos (doutrina e política do
Parlamento.
desarmamento), da ação tendente a substituir os meios
violentos pelos não violentos e, conseqüentemente, a
obter, por outros meios, o mesmo resultado (teoria e
prática da não-violência, em particular a doutrina do I. ESBOÇO HISTÓRICO. — Quando se fala de Satyagraha de Ghandi). Ao Pacifismo institucional Parlamento e de parlamentarismo, se faz normalmente
estão ligadas tanto as teorias que visam à constituição referência a fenômenos políticos cujo
do Estado universal, como as que visam à abolição do desenvolvimento histórico se insere na curva temporal
Estado, isto é, tanto o Pacifismo que dissemos que vai da Revolução Francesa até os nossos dias.
jurídico, como, em última análise, a doutrina Contudo, em quase todos os países europeus houve,
comunista e anárquica. No Pacifismo finalístico mesmo nos séculos anteriores, instituições políticas
juntam-se, enfim, quer o Pacifismo ético-religioso que genericamente denominadas "Parlamentos", embora
tem em vista a conversão e transformação moral do por vezes fossem também chamadas de "Estados
homem, o homem novo, quer o Pacifismo científico, Gerais", "Cortes", "Estamentos", etc. que tem em vista neutralizar ou canalizar em outras Afora o nome, existe algum vínculo de parentesco
direções o instinto de agressão; junta-se aí tanto o entre esses dois tipos de instituições? Existe algum
Pacifismo dos sacerdotes e dos moralistas, quanto o elemento que permita falar de continuidade entre os
dos homens da ciência. As três formas de Pacifismo Parlamentos chamados "medievais" e os Parlamentos
dispõem-se numa ordem progressiva de maior modernos, não obstante as enormes transformações complexidade e profundidade: a primeira finca-se no que se hão de dar por descontadas? É difícil dar uma
plano das técnicas específicas; a segunda estende-se resposta totalmente unívoca a tais questões. O exame
ao plano da organização social global; a terceira vai das características estruturais e das modalidades de
mais além, até o homem. desenvolvimento das funções específicas revela uma
grande distância entre os Parlamentos "medievais" e
os Parlamentos modernos, distância que
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reflete a diferença igualmente clara que existe entre o repercutem diretamente nos Parlamentos. À estrutura
Estado medieval e o Estado moderno. Contudo, se complexa e variada do Estado medieval, corresponde
descermos aos princípios fundamentais (o medieval a estrutura igualmente complexa dos Parlamentos
de que quod omnes tangit ab omnibus probetur e o (subdivisão em várias câmaras, presença simultânea de
moderno da participação) e ao núcleo funcional membros eleitos e de membros de direito), assim como
(representação, controle, elaboração de normas) que à maior homogeneidade nacional resultante, em geral,
caracterizam as instituições parlamentares tanto do surgimento do Estado moderno, corresponderá
velhas como novas, poderemos descobrir elementos uma maior homogeneidade também na composição
de continuidade que não são de desprezar. A própria dos Parlamentos.
experiência histórica européia justifica sem dúvida, Na verdade, é a estrutura caracteristicamente
até certo ponto, essa divergência de interpretações. policêntrica do Estado medieval que cria os
Ela apresenta, de fato, diversas seqüências de pressupostos para o nascimento das instituições
desenvolvimento: umas onde predomina a parlamentares. A descentralização da autoridade, que
continuidade, outras, ao invés, acentuadamente é resultado da organização feudal, faz surgir a
marcadas por transformações bruscas. Só para termos necessidade da ação compensatória de um elemento
alguns exemplos clássicos, pensemos na Inglaterra e unificador. Quem desempenha inicialmente esta
na França. Ressalvadas as diferenças justificadas pela função é o próprio entourage do soberano, isto é,
diversidade histórica, ocorre perguntar se será aquela assembléia bastante restrita de feudatários
possível conciliar, pelo menos parcialmente, tais leigos e eclesiásticos que toma umas vezes o nome de
interpretações. Ora, é necessária uma certa curia e outras o de consilium regis. É deste núcleo que
conciliação, porquanto, se é verdade que entre os nasceram muito provavelmente, mediante progressivos
Parlamentos medievais e os modernos há enormes alargamentos, os Parlamentos medievais. Uma etapa
diferenças, quer se considere sua composição, seus fundamental deste processo é assinalada pela
poderes ou duração, também é verdade que, pelo intervenção, primeiro irregular e de peso incerto,
menos um dos Parlamentos contemporâneos, e não depois de freqüência mais regular e eficácia maior,
certamente o de menor importância, nasceu, por nas reuniões destes organismos, de delegados dos
evolução, das instituições medievais. É preciso, centros urbanos, que vão adquirindo uma crescente
porém, ter presente que a chave de um confronto útil importância econômica e social. A instituição
entre as instituições políticas de uma curva temporal ampliada perde o caráter de órgão estritamente ligado
tão longa está em buscar, não tanto semelhanças ao soberano com funções de assistência e conselho;
muito precisas, improváveis por causa das mudanças em tais funções, cede pouco a pouco o seu lugar a
ocorridas no contexto político geral, quanto as organismos de caráter profissional (isto é, formados de
"correspondências" e analogias de estruturas e clérigos) e mais especializados que vão nascendo. O
funções. Tomemos, por exemplo, a função da Magnum Consilium se transforma em Parlamentum,
elaboração das normas. Os Parlamentos medievais saindo desta transformação com uma posição de maior
exerciam-na, fundamentalmente, como ação autonomia em face do poder régio. Relacionados com
"conservativa", de consolidação do direito esta nova posição, se desenvolvem os poderes
consuetudinário e de defesa dos privilegia em vigor. moderador e de controle. Este processo genético se
Nos Parlamentos modernos, ao contrário, esta função verifica, mais ou menos, em todos os países da
assume um caráter nitidamente "inova- • dor", visa à Europa, entre os séculos XII e XIV; as vicissitudes
produção de novas leis. Contudo, após havermos sucessivas dos Parlamentos serão as mais diversas.
explicado estas variedades funcionais, referindo-as Como base nestes desenvolvimentos históricos, há uma
aos diversos ordenamentos jurídicos, um dupla necessidade. Por um lado, há a urgência de o
descentralizado e estático e o outro centralizado e poder central do rei consolidar o consenso do país,
dinâmico, a que correspondem tais variedades, associando e, conseqüentemente, vinculando às
emergirá, não obstante, um certo parentesco básico. decisões políticas os poderes periféricos, tanto feudais
O contexto político, que dá origem às instituições como urbanos, sem cuja colaboração se tornaria quase
parlamentares e lhes imprime a marca fundamental, impossível a execução de qualquer programa político.
é o do Estado medieval, caracterizado por uma Paradoxalmente é, portanto, o próprio poder régio
estrutura muito descentralizada e articulada, um que, pelo menos no início, enquanto não dispõe de
verdadeiro mosaico de situações e "privilégios" instrumentos administrativos próprios e eficazes busca
particulares. A atividade política central do Estado uma certa participação das partes politicamente
não se elevou ainda a uma posição de grande relevo importantes do país. Por outro lado, entra em jogo a
e se desenvolve sem muita continuidade. Estas necessidade sentida pelos
características
PARLAMENTO 879
poderes periféricos de garantir os próprios privilégios modernizadora relativamente aos múltiplos embaraços
e de exercer certo controle sobre o emprego que o postos pela organização feudal às atividades
poder régio faz das suas contribuições pessoais e econômicas. financeiras (lembremos o aforismo inglês no taxation Neste período, só o Parlamento inglês sai vitorioso
without representation do confronto com o poder régio. A partir da ) .
É claro, porém, que, se existe entre as duas "Revolução Gloriosa" (1688), torna-se bem claro o
posições ama certa área de convergência, esta possui, curso ascendente do Parlamento britânico. Foi até a
entretanto, limites bem definidos, para além dos quais vitalidade deste Parlamento, tornado modelar para a
os interesses das partes tornam a divergir. A aspiração literatura e para a prática política, que veio a constituir
natural das assembléias parlamentares é a de poderoso fator de renovação das instituições institucionalizar, de tornar regulamentada a própria parlamentares, nos fins do século XVIII. Tal
presença política. Ao poder régio, pelo contrário, os renovação é, contudo, caracterizada por importantes
Parlamentos só interessam, enquanto são assembléias transformações. Desempenha aqui um papel relevante,
facilmente controláveis, que se limitam a prestar seu como experiência e exemplo, o Parlamento americano.
assentimento e a conceder contribuições, sem aspirar a Implantado ex novo num sistema político que não um verdadeiro e autêntico exercício conjunto do possuía as tradições medievais, apresenta
poder. características de total novidade (abolição da divisão
O nascimento e desenvolvimento das instituições por classes, base bastante ampla de sufrágio, estrutura
parlamentares dependem, portanto, de um delicado mais homogênea). Mas a mudança mais radical veio equilíbrio de forças entre o poder central e os poderes quiçá da França. É justamente o desvio parlamentar periféricos. Onde o poder central goza de uma francês que constitui o pressuposto essencial da significativa preponderância, graças à disponibilidade transformação. O ressurgir, em fins do século XVIII, autônoma de bases do poder, as instituições dos Estados gerais que, deixados no esquecimento, parlamentares vingam mal e dificilmente prosperam. não se tinham podido desenvolver e modernizar, vem Mas tampouco na situação oposta, ou seja, onde são, pôr a nu o inadequado dos Parlamentos tradicionais e ao contrário, os poderes periféricos que prevalecem, assinalar, por isso mesmo, a sua morte, para deixarem existem condições para a consolidação dos lugar a uma instituição parlamentar inteiramente nova. Parlamentos; falta, na verdade, um estímulo que leve O século XIX é o grande período do
as várias forças do país a se unirem de forma desenvolvimento dos novos parlamentos. Alguém o
duradoura. Neste caso, a linha de desenvolvimento definiu como século de ouro do parlamentarismo
mais freqüente é a da fragmentação política, As europeu. Na Inglaterra, na França (excetuados os
assembléias parlamentares tornam-se então, na prática, períodos imperiais), na Bélgica, na Holanda e na
assembléias de enviados de entidades políticas Itália, o Parlamento constitui-se o centro do debate autônomas, sem consciência unitária de uma político, estendendo progressivamente a sua influência representação nacional. O caso da Alemanha é talvez ao Governo que havia sido até então expressão do
o que mais se aproxima deste esquema de poder régio. A monarquia constitucional cede o lugar desenvolvimento. ao regime parlamentar, que tem como fulcro a
A prova da dificuldade de tal equilíbrio no-la dá o "responsabilidade" do governo perante o Parlamento.
geral declínio que, nos séculos XVI e XVII, atinge as Naturalmente, esta transição acontece não sem instituições parlamentares nascidas na Idade Média. É inquietações e conflitos: suas etapas estão marcadas o momento em que o Estado feudal cede lugar à por votos de censura parlamentar, por dissoluções monarquia chamada "nacional" e "moderna". O poder antecipadas das câmaras por parte do rei com o fim de monárquico, para cumprir as tarefas de unificação e de lhes bloquear o desenvolvimento, e por verdadeiras defesa nacional de que se incumbiu, se transforma, crises constitucionais. Mas, no começo do século XX, munindo-se de instrumentos administrativos de o conflito entre o Parlamento e a monarquia já se havia crescente eficácia, em face dos quais as assembléias resolvido, em quase todos os países europeus, a favor parlamentares se vêm a encontrar, o mais das vezes, do primeiro.
em situação de inferioridade. É também desfavorável II. DEFINIÇÃO DE PARLAMENTO. — Se da dimensão
ao Parlamento a sua subdivisão em classes: isso
histórica voltarmos os olhos para a situação atual, nos
permite ao poder régio aproveitar-se dos contrastes
existentes entre os diversos componentes do encontraremos diante de uma variedade de formas Parlamento, apoiando-se ora nuns, ora noutros. Em parlamentares igualmente desconcertante. O nome é
particular, é freqüente que a burguesia nascente preste sempre o mesmo, o de Parlamento, mas a substância é
diversíssima de
seu apoio à monarquia absoluta, que se apresentava
como uma força
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caso para caso. Na base destes contrastes há múltiplos crucial, porque é nele que encontra especificação
fatores, nomeadamente a própria proliferação das operativa o princípio representativo característico da
instituições parlamentares em grande número de instituição parlamentar. Enquanto nos Parlamentos novos Estados aparecidos neste século e "pré-modernos" coexistem critérios diversos de caracterizados por realidades políticas sumamente determinação dos componentes — para um setor do
variadas, e a diversa incidência das grandes novidades Parlamento o princípio eletivo, para outro a
políticas (democracia de massa, partidos organizados, participação de iure, para outro ainda a transmissão regimes totalitários, etc.) neste período. hereditária — nos modernos, o processo normal de
Para nos orientarmos no meio desta variedade de designação é o da investidura eletiva. É uma
formas, precisamos, como ponto de referência, de uma homenagem prestada, pelo menos formalmente, ao definição, certamente ampla e elástica, mas capaz de princípio dominante da soberania popular. Restam individualizar alguns elementos comuns que não sejam ainda, é verdade, formas de nomeação "do alto" ou de meramente nominais. Parlamento pode definir-se participação de iure (por exemplo, na Itália fazem assim: uma assembléia ou um sistema de assembléias parte do Parlamento cinco senadores nomeados pelo baseadas num "princípio representativo", que é Presidente, bem como os presidentes da república diversamente especificado, mas determina os critérios cessantes), mas em grau limitadíssimo e sem peso da sua composição. Estas assembléias gozam de decisivo. atribuições funcionais variadas, mas todas elas se O processo eleitoral é suscetível de múltiplas
caracterizam por um denominador comum: a variações de grande significado político (v. SISTEMAS participação direta ou indireta, muito ou pouco ELEITORAIS). Uma vez que são os mecanismos relevante, na elaboração e execução das opções eleitorais que determinam a natureza da ligação entre políticas, a fim de que elas correspondam à "vontade a sociedade e o Parlamento, é deles que depende em
popular". Convém precisar que, ao dizermos boa medida o "peso específico" da instituição "assembléia", queremos indicar uma estrutura colegial parlamentar e o seu grau de autonomia em relação às
organizada, baseada não num princípio hierárquico, demais estruturas políticas. Eles determinam, além
mas, geralmente, num princípio igualitário. Trata-se, disso, as relações de força entre os diversos grupos
por isso, de uma estrutura de tendência policêntrica. políticos e, parcialmente, também o clima político,
Como toda a definição, também esta apresenta o contribuindo para a definição da natureza e limites do
problema de certos casos-limites. Existem, por papel do Parlamento no processo político. Possuem exemplo, particular relevo, entre os diversos elementos, a instituições políticas que respeitam
formalmente estes cânones e que se poderiam chamar, extensão da base eleitoral, o nível de competitividade portanto, Parlamentos, mas que, por trás da fachada e a presença ou não de fatores de distorsão nos
exterior, apresentam uma realidade muito diferente, critérios de avaliação do resultado eleitoral. não podendo, por isso, ser consideradas como tais. E Da grande revolução política do último século — a
não se deve esquecer que tais ambigüidades possuem da universalização do voto, brusca ou progressiva
um claro significado político. segundo os casos — as instituições parlamentares
saíram em toda a parte transformadas. As mudanças se
A definição escolhida compõe-se de duas partes: a
referem sobretudo às características do pessoal
primeira atende à dimensão morfológica e estrutural
parlamentar (desaparece a figura do político
do fenômeno; a segunda, ao invés, à sua dimensão
independente, sendo substituída pelo homem de
funcional.
partido, pelo político de profissão) e à dimensão da
III. ASPECTOS ESTRUTURAIS DO PARLAMENTO. — A unidade de referência da vida parlamentar (o
parlamentar isolado e o grupo pouco estruturado são
análise morfológica distingue dois níveis: o ambiental
suplantados pelo partido ou grupo solidamente
ou estrutural e o individual. Ou seja, um organismo
organizado e disciplinado). Isto vale naturalmente
colegial como o Parlamento é suscetível de ser
como quadro geral, porque, examinados um a um, há
estudado e classificado, tanto do ponto de vista do
Parlamentos como a Câmara dos Comuns inglesa, de
pessoal que o compõe, quanto do das estruturas
rígida disciplina partidária, o Parlamento italiano, que
dentro das quais ele age.
conhece também a disciplina partidária mas
O ambiente parlamentar é uma realidade bastante enfraquecida pela oposição das correntes, e o Senado
complexa na verdade; é resultante de múltiplos americano, onde as figuras individuais se elevam fatores. Em primeiro lugar, numa sucessão lógica e não amiúde à posição de destaque político. em ordem de importância, estão os processos de O nível competitivo do processo eleitoral pode
recrutamento e seleção do próprio pessoal. Trata-se muito bem ser definido como elemento discriminante
certamente de um elemento entre duas categorias de Parlamentos:
PARLAMENTO 881
Parlamentos que assumem um papel fundamental na renova-se num terço de dois em dois anos; por isso,
vida política e Parlamentos reduzidos a um papel de cada terço permanece no cargo, seis anos. A duração é
adorno ou de fachada. O Parlamento reproduz, com um fator que influi particularmente na capacidade de
efeito, se bem que com certa distorsão, prolongando-a atividade política das assembléias; de fato, pelo período da sua duração, a dialética das forças parlamentares continuamente sujeitos à obsessão da
políticas que o momento eleitoral pôs em relevo; é a reeleição têm dificuldades em esboçar um trabalho de
forma dessa dialética e sua vivacidade que longo prazo, que pode trazer consigo também uma
caracterizam a ação política do Parlamento. Onde, impopularidade momentânea. Ela influi igualmente
como nos regimes de partido único, o mecanismo nas reações do Parlamento aos estímulos políticos
eleitoral desencoraja ou até suprime a pluralidade e a externos e, em último termo, na sua independência
competição, o Parlamento, não sendo animado pela política. Mas a "duração" de uma assembléia não
dialética maioria-oposição, funciona, antes de tudo, depende, substancialmente, apenas da extensão do
como caixa de ressonância propagandística dos intervalo entre duas eleições sucessivas, mas quiçá
órgãos reais do Governo (o executivo, o partido). mais ainda da presença de um núcleo mais ou menos
Onde a dialética política é aceita, o andamento da grande de parlamentares que não mudam de uma
competição eleitoral influirá também no caráter que eleição para outra. Este núcleo, quando dotado de
ela assumirá no seio do Parlamento. A diferença, por uma certa consistência, constitui fator significativo de
exemplo, entre oposição responsável e oposição continuidade, já que assegura a transmissão de toda
irresponsável está ligada não só a fatores de tradição aquela bagagem de costumes, convenções e regras não
histórica, como também ao espaço e às possibilidades escritas que tanta importância têm na caracterização
de afirmação que o momento eleitoral atribui às de um Parlamento. É a estes parlamentares
várias forças políticas. "permanentes" que convém atender antes de tudo,
Desaparecidas, quase por toda a parte, as câmaras para distinguir as estruturas de poder que também
nobiliárquicas hereditárias, e sendo também assaz existem por trás da fachada paritária das assembléias
raras as câmaras constituídas por nomeação, a duração parlamentares. temporaneamente limitada do mandato é uma das Outro elemento significativo na morfologia do
características fundamentais dos Parlamentos Parlamento está no número das assembléias. Os contemporâneos. Que se trata de um elemento de Parlamentos contemporâneos são geralmente importância política demonstram-no as lutas que, na monocamerais ou bicamerais, isto é, são compostos
história parlamentar, se travaram em torno da questão de uma ou de duas câmaras. O bicameralismo, dos limites de duração, especialmente na Inglaterra, e herança tradicional dos Parlamentos medievais e do
do poder de dissolução antecipada por parte do "Estado de classes" (Ständestaat), adquiriu hoje, após executivo (lembremos a crise política da III República o desaparecimento das câmaras nobiliárquicas, um
Francesa, provocada, em 1877, com a dissolução significado diverso do do passado. Geralmente, no antecipada do Parlamento). Do ponto de vista político, bicameralismo moderno, o princípio político que serve
são de importância sobretudo a regularidade e de base a uma e outra câmara é o mesmo, ou seja, o da confiabilidade dos períodos eleitorais e, soberania popular, mas são diversas as modalidades conseqüentemente, da duração da "legislatura". O institucionais que nas duas câmaras lhe hão de garantir poder de dissolução atribuído geralmente ao a atuação prática. As duas câmaras representam, executivo, correspondente ao poder que o Parlamento portanto, elementos complementares que se integram tem de retirar a confiança ao Governo, não perturba a num mesmo esquema. O sistema bicameral é até vida parlamentar, enquanto permanece um poder agora o mais comum, se bem que, depois da última limitado e é usado com discrição. Onde se recorre a ele guerra, em vários países como Nova Zelândia,
com excessiva facilidade e de modo reiterado, ele se Dinamarca e Suécia, se introduziu o converte em instrumento capaz de explicar a monocameralismo. No âmbito do sistema bicameral, autonomia política do Parlamento (cf. a experiência de há muita variedade. Nos Estados federativos ou de
Weimar). ampla autonomia regional, o bicameralismo constitui
A duração média das assembléias parlamentares uma constante, como o demonstram os Estados
gira em torno de 4-5 anos. A Câmara dos Unidos, a União Soviética, a Áustria, a Suíça, a Representantes americana, com um mandato de apenas Alemanha Federal e tantos outros exemplos. Nestes dois anos, é uma exceção. Em alguns casos, para casos, a segunda câmara é concebida como instrumento
conciliar as necessidades contrastantes da continuidade de integração da representação, considerada a
e da periodicidade da "responsabilidade política", foi estrutura particular do sistema político; ela deve
adotada a fórmula da renovação parcial: o Senado representar as unidades americano
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federadas em sua singularidade, enquanto a primeira quando não ficam reduzidos, sem mais, a uma função
as representa de modo indiferenciado. Em outros puramente aclamatória. casos, a segunda câmara é concebida como elemento de A primeira dimensão estrutural que é preciso
equilíbrio, como contrapeso das tendências políticas considerar é a da articulação operativa das
da outra câmara; constitui, pois, fator de reflexão na assembléias parlamentares. Nesse termo
atividade decisória do Parlamento. Revelam-se mais compreendemos todos aqueles elementos organizativos
adequadas ao desempenho deste papel as assembléias internos que foram instituídos para permitir e facilitar
de dimensões numéricas reduzidas e de longa duração. o desenvolvimento das atividades parlamentares. A coexistência de duas câmaras não está isenta de Neste campo, uma das estruturas parlamentares mais
problemas: a presença da segunda câmara adquire antigas e comuns é a da presidência, principal órgão
uma conotação negativa, se provocar uma injustificada de arbitragem e regulamentação dos trabalhos
lentidão nos trabalhos parlamentares e der lugar a parlamentares. Em alguns Parlamentos, o presidente é
uma situação de xeque, devido ao fato de se figura de indiscutível imparcialidade — o speaker
afirmarem nas duas câmaras maiorias politicamente britânico é o modelo, em outros, como na Câmara dos
inconciliáveis. Por isso, para uma avaliação da forma Representantes americana, assume uma posição mais
bicameral, são particularmente importantes as relações partidária. A presidência possui um significado
que existem entre ambas as câmaras no desenrolar das particular, já que dela dependem, em geral, os várias funções parlamentares. Tais relações podem instrumentos administrativos e jurisdicionais da
apresentar aspecto de "divisão do trabalho", de autonomia parlamentar. A autoridade de que goza
"cooperação" e de "oposição" moderada ou pode ser tida como índice desta autonomia. E não se intransigente. Estas relações dependem tanto de deve esquecer que o princípio da autonomia fatores institucionais constantes (como a atribuição a parlamentar, isto é, da não interferência dos outros
cada uma das câmaras de competências específicas), órgãos políticos nos interna corporis, princípio penosa
quanto da mutável situação política (relações de força e tenazmente afirmado no confronto com o poder
política, consistência das maiorias, clima dialético monárquico, constitui tradicionalmente um dos
maioria-oposição). A história do bicameralismo inglês fundamentos da experiência parlamentar. Em sua
pode servir para ilustrar as diversas relações possíveis outra função, a da coordenação e direção do
entre as câmaras. Ao período de oposição frontal que andamento dos trabalhos parlamentares, a presidência
desembocou no Parliament Act de 1911, limitativo é geralmente coadjuvada por um organismo composto
dos poderes dos Lordes, sucedeu um regime, ora de por representantes dos vários grupos políticos
colaboração, com os conservadores no Governo, ora parlamentares.
de oposição moderada, quando eram os trabalhistas Dado o número dos seus componentes, quase -
que governavam; hoje vigora ainda entre as duas sempre elevado devido às exigências da
câmaras uma certa divisão de trabalho no tocante a representatividade e ao volume crescente do trabalho,
algumas funções. as assembléias parlamentares tendem a articular-se em
Quanto à estrutura interna das assembléias comissões, isto é, em organismos mais restritos e, por
parlamentares, o panorama mundial mostra uma isso, mais eficazes no plano operativo. Os critérios
grande variedade nos graus de complexidade. Poder- segundo os quais é organizado o sistema das
se-á encontrar a explicação destas diferenças no comissões, variam de um Parlamento para outro. processo genético associado a cada Parlamento e nas Relativamente ao critério de distribuição do trabalho, condições políticas em que ele se desenvolveu. Há, de há comissões especializadas e comissões não
fato, câmaras que são o resultado de um longo especializadas; quanto à duração, há comissões processo de institucionalização, câmaras para as quais permanentes e comissões ad hoc, criadas unicamente este processo está ainda no início ou sofre a resistência para o desempenho de uma determinada tarefa. Um das condições políticas ambientais, e, enfim, câmaras elemento importantíssimo é a estabilidade do pessoal: que nasceram já com uma estrutura complexa. A quanto maior ela for, tanto maior tenderá a ser importância das características estruturais é grande, já também a coesão política e, conseqüentemente, o peso que delas depende, em grande parte, a funcionalidade das comissões. São disso um ótimo exemplo as do Parlamento e a possibilidade de ele ter uma comissões parlamentares da III República e certas participação significativa no processo político. Em comissões do Senado americano que, pelo alto grau de linhas gerais, os Parlamentos caracterizados por permanência dos componentes, se tornaram escassa diversificação política e baixo grau de verdadeiros baluartes políticos, dificilmente articulação operativa interna não podem aspirar a um expugnáveis desde fora. O relevo que as comissões papel político de grande peso, adquirem numa assembléia parlamentar tem um
notável significado político, já que o modelo decisório
típico delas é comumente diferente do
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da assembléia: acordo e negociação no primeiro caso, São todos estes elementos da morfologia parlamentar
critério majoritário no segundo. Por isso, quanto mais que concorrem para a formação do complexo sistema
importantes forem as comissões, tanto mais a de oportunidades e limitações, de recompensas e
dialética parlamentar estará marcada por esse modelo punições, de motivações e desestímulos, dentro do qual
decisório e tanto menos se caracterizará por um clima se define a ação do ator parlamentar individual. A
de choque frontal. ação parlamentar, entretanto, é resultado não só destes
Mas a estrutura real de uma assembléia parlamentar elementos ambientais, como também das
também é definida por elementos que se situam numa características pessoais dos que compõem as
outra dimensão: aquela que concerne aos grupos assembléias. A classe de onde provém, a qualificação
políticos presentes nos Parlamentos. Os parlamentares profissional, a carreira política já vivida e, finalmente,
não agem, com efeito, de modo atomístico, mas no plano psicológico, o tipo de percepção do próprio
geralmente enquadrados em unidades superindividuais papel são as características que podem ter um
organizadas: esta é uma constante na grande maioria significado político. Sob este aspecto, também é
dos Parlamentos atuais. Um fenômeno que é fruto da possível descobrir importantes transformações na
grande revolução política que trouxe à ribalta os história parlamentar do último século. Dos partidos organizados. Os partidos modernos possuem, Parlamentos aristocráticos aos Parlamentos da
em geral, a sua base organizacional fora do âmbito democracia de massa, o passo relativo à mudança das
parlamentar; mas tornam-se também presentes nas características dos parlamentares foi muito grande.
assembléias parlamentares mediante estruturas Fenômenos como a ampliação do sufrágio, o organizativas apropriadas, como os grupos alargamento da base política, a expansão da parlamentares. Do ponto de vista da estrutura do intervenção estatal na vida social e o advento dos
Parlamento, são elementos importantes o número dos partidos organizados de massa, tiveram todos clara
partidos, as possibilidades de alianças e coalizões repercussão em tais características. A figura do
interpartidárias, o grau de coesão interna, ou seja, político independente, proveniente das classes altas e
aqueles fatores que são a base da dinâmica diletantes, é substituída cada vez mais pela do político
interpartidária. Dada a grande incidência da variável de profissão, que faz carreira nas fileiras do partido e
partidária, podemos dizer que há pelo menos tantos é geralmente originário da classe média. Estes fatores
tipos de Parlamentos quantos são os tipos de sistemas influem no papel que os atores parlamentares poderão
partidários. Há Parlamentos onde o sistema de partido assumir; para um amplo setor, que da atividade
único elimina toda a forma de dialética política, assim política tira também a sustentação econômica, o papel
como onde o bipartidarismo apresenta uma vigorosa de gregário torna-se o único possível. contraposição de linhas políticas alternativas; e
também onde o pluripartidarismo oferece uma IV. FUNÇÕES PARLAMENTARES. — Do ponto de complexa amálgama de formas de conflito e acordo vista funcional, os Parlamentos são instituições
entre as variadas forças políticas. Assim, a par dos geralmente polivalentes. A variedade de funções
Parlamentos onde a relação maioria-minoria é desempenhadas tem uma explicação no papel equilibrada, há também aqueles onde ela pende a favor característico dos Parlamentos, que faz delas os da maioria que goza de uma superioridade instrumentos políticos do princípio da soberania esmagadora, ou então de uma minoria que está em popular. É deste papel que nasce para o Parlamento o
condições de reduzir a maioria à impotência. Outra direito e o dever de intervir, embora de formas
variável está na maior ou menor dependência dos diversas, em todos os estádios do processo político.
órgãos partidários parlamentares em relação aos Segundo o estádio e as modalidades de tal órgãos partidários externos e, vice-versa, no papel que intervenção, haverá atividades de estímulo e de
o componente partidário parlamentar desempenha iniciativa legislativa, de discussão e de deliberação, de dentro do partido global. Do máximo de inquérito e de controle, de apoio e de legitimação. Tão desvinculação, como é a do Parlamento americano, se variadas atividades podem ser globalmente passa a uma situação qual a inglesa, onde o compreendidas no quadro das quatro funções parliamentary party está estreitamente ligado ao parlamentares fundamentais: representação, partido, gozando, porém, dentro dele de uma posição legislação, controle do Executivo e legitimação. É
de grande destaque político. Em geral, nas natural que, conforme a posição que cada Parlamento democracias parlamentares européias, existe um ocupa no sistema político, varie a importância das elevado grau de dependência dos órgãos partidários diversas funções; certamente há funções que, em
externos, que são o verdadeiro centro motor da determinadas situações políticas, podem se atrofiar e política. ficar reduzidas ao simples aspecto formal.
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Dentre as funções parlamentares, é a representativa clima político e a receptividade a novas demandas.
a que possui uma posição que poderíamos chamar Aqui se revela de particular importância o espaço preliminar. Isso porque, em primeiro lugar, ela é uma político que o Parlamento atribui à oposição, já que é constante histórica em meio das transformações esta a força institucionalmente mais adequada ao sofridas pelas atribuições do Parlamento, e, em desenvolvimento de uma ação estimuladora em tal segundo lugar, porque nela se baseiam todas as demais sentido. funções parlamentares, cujas características dependem,
A par da função representativa, o Parlamento
em boa parte, das formas do seu desenvolvimento. Por
desempenha também a função de legitimação. Os
ser fundamental, esta função assume um significado
discriminante entre um Parlamento e outro. Parlamentos, na verdade, não só transmitem demandas
e pedidos, como também, em geral, manifestações de
A representação política é uma função assaz
consenso e dissenso, de apoio político ou de
delicada; de fato, faltando determinadas garantias
contestação, em face das estruturas de Governo. É
institucionais, é capaz de cair no oposto, a
natural que as mensagens políticas de um e de outro
"manipulação", ou seja, de se transformar de fluxo de
tipo se misturem: a própria forma das demandas é já
opiniões e opções políticas que se movem de baixo
amiúde um indício do grau de apoio público ao
para cima, em fluxo descendente de modelos e opções
sistema político. Intermediário do apoio ou dissenso, o
políticas impostos desde o alto. A posição intermédia
Parlamento ajuda a conferir ou a subtrair legitimidade
do Parlamento, entre o público e os órgãos do
política ao Governo. Nos regimes que limitam
Governo, pode convertê-lo em instrumento de qualquer
fortemente o papel político autônomo do Parlamento,
dessas duas possibilidades. Em certos casos, a
esta função legitimadora constitui a principal
representatividade dos Parlamentos está tão reduzida,
justificação para a manutenção das instituições
tão cerceada e deformada, que se pode dizer que ela é
parlamentares. Nestes casos, é claro, a estrutura
apenas uma fachada destinada a esconder a realidade,
parlamentar é reforçada em seus aspectos mais
que é, ao invés, a de um verdadeiro encapsulamento
adequados às exigências de legitimidade do regime. A
do corpo político e de uma mobilização do consenso
pluralidade de opiniões cede lugar à unidade de
de cima para baixo. É o que se verifica nos regimes
expressão política.
autocráticos de todos os tipos, os quais, embora
rejeitem substancialmente o princípio da soberania Todas as demais atividades parlamentares estão
popular, dele conservam, no entanto, para efeitos de estreitamente ligadas à função representativa: elas
cobertura política, a aparência externa, mediante são, na realidade, os instrumentos da sua atuação. Com
instituições parlamentares desvitalizadas. No âmbito o tempo e de acordo com o regime político, estes
dos Parlamentos que atuam como verdadeiros instrumentos parlamentares sofrem notáveis instrumentos representativos, o elemento distintivo mudanças. A interferência do Parlamento no processo
está na "imagem" característica da sociedade política político se torna mais ou menos direta, mais ou
que eles são capazes de personificar. Em tal situação, a menos determinante. variável partidária tem naturalmente um peso decisivo. A atividade legislativa é, de todas, sem dúvida, a
Uma das distinções mais importantes pelas mais típica do Parlamento moderno, tanto que ele é conseqüências que implica para as outras atividades definido por antonomásia como "poder legislativo".
parlamentares é a existente entre Parlamentos Convém lembrar que, por trás desta identificação, está
aglutinadores da demanda política e Parlamentos aquela complexa corrente de pensamento conhecida
pouco aglutinadores, ou seja. entre Parlamentos que sob o nome de doutrina da separação dos poderes.
concedem ampla margem a todas as instâncias mesmo Esta doutrina, onde os aspectos descritivo e prescritivo
particulares, e Parlamentos capazes de selecionar e se misturam, atribui ao Parlamento a função
sintetizar as demandas, "agregando-as" em alternativas legislativa, entendida como elaboração de normas políticas de certa amplitude. Um delicado problema de gerais; deixa-se ao Executivo a atividade de Governo, equilíbrio político é o de conciliar esta exigência de ou seja, a incumbência de atender ao caso concreto e
agregação com a exigência, também importante, de particular dentro do quadro geral estabelecido pela
manter no Parlamento um elevado grau de legislação. Mas as transformações políticas do último transparência do pluralismo existente na sociedade, isto século ofuscaram bastante a clareza destas distinções.
é, de evitar o risco de uma representação demasiado Influíram particularmente dois fatores. Recordemos,
redutiva. Neste campo da função representativa, são em primeiro lugar, o declínio do poder da realeza, que
também elementos importantes a sensibilidade às trouxe como conseqüência a gravitação do executivo
transformações do dentro da esfera parlamentar, tornando-se às vezes o
dominador, outras o dominado, mas perdendo sempre
aquele destaque que o separava do
PARLAMENTO 885
Parlamento, quando o Executivo era expressão do discreto, favorecem as formas negociáveis e poder real. Em segundo lugar, convém referir a conciliatórias de decisão. Isto será tanto mais válido
transformação do próprio instrumento legislativo. A quanto mais densa for a textura de recíprocas
lei, na moderna situação criada pela crescente concessões que o pessoal das comissões, superando as
intervenção da autoridade política na vida social, diferenças de alinhamento político, conseguir criar
perdeu o seu primitivo caráter de raridade e com sua estabilidade. O grau de eficiência do sistema
estabilidade e, convertida em forma comum de ação de comissões é ainda importante, porque dele depende,
política, se transformou em algo necessariamente em grande parte, a possibilidade de o Parlamento
particular e mutável. interferir nas iniciativas legislativas externas (do
Em contraste com a antiga distinção, pode-se Executivo, dos partidos) para as modificar e emendar.
afirmar que hoje se governa legislando. O Executivo, De fato, onde, como na Inglaterra, o Executivo
responsável pela função de governar, atua também no mantém fortemente sob controle o processo setor da legislação. A atividade legislativa tornou-se, legislativo, nota-se claramente sua oposição às
portanto, em todas as suas fases (iniciativa, discussão, transformações que, tais como a introdução de
deliberação), resultado da intervenção conjunta do comissões especializadas e estáveis, fortaleceriam os
Parlamento e dos órgãos do Governo. Já desde a poderes do Parlamento. primeira fase, a da iniciativa, se insere o Executivo na A fase que se desenrola na assembléia segue
clássica função parlamentar. O Governo tem de esquemas bastante mais rígidos e formais que os da
intervir desde o início, se quiser realizar o seu comissão. Em geral ela compreende, antes de tudo,
programa político. Mas quanto mais forte for o uma discussão global sobre o projeto legislativo,
Executivo e maior for a posição de autoridade de que depois o exame de cada um dos artigos e das emendas
goza perante o Parlamento, tanto mais a iniciativa propostas, e, finalmente, a votação do projeto em seu
legislativa de origem parlamentar se reduzirá a uma conjunto. Na etapa da discussão, como na final da
atividade residual. A título de exemplo, comparemos, votação, não falta geralmente a intervenção, direta ou
de um lado, a marginalidade das iniciativas indireta, de forças políticas externas. O Executivo
parlamentares no Parlamento inglês, de outro a pode intervir diretamente, declarando qual é a sua
relativa importância de tais iniciativas no Parlamento vontade política, apresentando emendas, retirando
italiano. Outro aspecto importante desta primeira fase suas próprias propostas de lei, ou introduzindo a
do processo legislativo é o da coordenação e questão de confiança durante a votação. De igual
programação do trabalho parlamentar. Trata-se de modo, tal como os grupos de pressão de qualquer
fixar as prioridades políticas, de escolher entre as gênero, também o Executivo pode intervir de modo
iniciativas legislativas concernentes ao mesmo assunto indireto, ou seja, por meio das suas bases de apoio
ou de as integrar. O Executivo, como centro principal parlamentar. Nos regimes parlamentares, a base do
da iniciativa política orgânica, aspira geralmente a uma Executivo é quase sempre constituída pela maioria
participação destacada também neste campo. O seu parlamentar; nos regimes presidenciais ocorre não raro
êxito depende do grau de controle que consegue faltar esta base majoritária, ou então ela tem um
exercer sobre a maioria parlamentar que o apóia e do caráter meramente ocasional, como acontece peso institucional da oposição, quando existente. geralmente nos Estados Unidos com os presidentes
A fase de deliberação se desenvolve segundo republicanos. Para os múltiplos grupos de pressão que
moldes que variam de um Parlamento para outro. O caracterizam a vida política moderna, a base
projeto legislativo em questão é geralmente submetido parlamentar está, em geral, em grupos informais de
a repetidos exames. O elemento de diversificação mais deputados que se comprometem a favorecê-los durante
significativo está na importância que têm neste o período legislativo. processo a assembléia plenária e as comissões, sempre A função parlamentar que se segue, em ordem
que existam. Há um mínimo de interferência das lógica, é a do controle do Executivo e das atividades
comissões, quando estas expressam apenas seu dos seus setores burocráticos. Devemos, além disso,
parecer, e um máximo, quando lhes é delegado o lembrar que esta é uma das funções primordiais dos
poder de decidir com eficácia vinculatória para todo o Parlamentos. Se foi um pouco eclipsada pela exaltação
Parlamento. A dialética entre as diversas forças da função legislativa no século XVIII (a sublimidade
políticas, que caracteriza esta fase de deliberação, é das leis gerais e libertadoras), hoje se revelou de novo
fortemente influenciada pelo ambiente institucional a sua extrema importância. Isto se deve à diminuída
em que se desenvolve. As comissões parlamentares, grandeza das leis, inflacionadas e, com freqüência,
criando um ambiente mais restrito e totalmente privadas de uma eficácia prática
886 PARLAMENTO
direta, e à crescente importância de uma série de atos a função de controle, estamos usando expressões
governativos que. se bem que teoricamente de sintéticas que não irão esconder uma realidade que é
natureza executiva, isto é, limitados pelo quadro feita de partes e papéis diversos. A tradição
legislativo existente, são substancialmente de natureza parlamentar ocidental, não obstante todas as suas
decisória e constituem atividades de grande inovação variações, se baseia na dialética entre duas partes
política. Na base destas novas formas de ação política, diversas: maioria e oposição. A maioria, vinculada ao
está a crescente responsabilidade do Governo no que Governo, tem seu papel determinante na atividade
se refere ao andamento da vida econômica, que fez legislativa. A oposição se limita aqui a uma função
dele, ao mesmo tempo, empresário igual aos outros, crítica, com interferências modificativas, caso tenha
mediador nos conflitos sindicais e programador de força para tanto. Na atividade de controle, pelo
todo o desenvolvimento da sociedade. contrário, a parte principal cabe justamente à oposição
O Parlamento, que limitasse a sua intervenção que, pela sua posição política, é muito mais instada a
apenas à fase legislativa, deixaria escapar uma examinar criticamente a ação do Governo do que a
importantíssima parcela do processo político. O real maioria que o apóia. Há certamente países onde falta
peso político do órgão representativo deveria ser um razoável equilíbrio entre maioria e oposição, um
avaliado, portanto, tendo também em conta a eficácia equilíbrio que constitua a base de uma dialética
da sua atividade de controle. política viva, e o Parlamento se exprime a uma só voz;
São vários os instrumentos por meio dos quais o mas é difícil que a intervenção do Parlamento nos
Parlamento exerce esta função. Nos regimes momentos cruciais do processo político seja ali parlamentares, a negação da confiança é a forma mais determinante.
drástica de ação do Parlamento sobre o Governo. Mas V. CONCLUSÃO. — Sendo estas as atividades em
é uma forma bastante rara, primeiro, por sua própria
gravidade, depois, por causa dos vínculos partidários que participa o Parlamento, poder-se-á dizer ainda
que ligam o Executivo à maioria parlamentar; as hoje que ele goza de um poder decisivo ou pelo
menos significativo no processo político? Não se
maiores possibilidades ocorrem com Governos de
coalizão deverá falar, em vez disso, do "ocaso do parlamento"? ou então minoritários. Nos regimes
presidenciais, onde a permanência do Executivo não São questões repetidamente levantadas em face de
depende do Parlamento, as condições de intervenção certas realidades políticas que parecem demonstrar que
o Parlamento foi suplantado por outras instituições.
são necessariamente diversas: o Parlamento pode