Dicionário de Política (Volume 1)
diretamente aos partidos e são utilizados sem…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
diretamente aos partidos e são utilizados sem controle preferencial na escolha para um sem-número de
se prestam ao robustecimento da burocracia, da cargos, haverá possivelmente uma corrida à inscrição submissão dos eleitos à cúpula partidária e da criação nos partidos, ou, em todo caso, a favor e serviços dos
de uma verdadeira e autêntica classe dependente da dirigentes de partido. A Partitocracia entrará então
política (e, mais especificamente, dos administradores num círculo muito produtivo para o seu destino,
dos fundos). podendo, às vezes, recrutar até os mais ambiciosos e
O sistema de financiamento público dos partidos sem escrúpulos dentre os competentes. Contudo, as
italianos representa, neste contexto, um dos mais mais das vezes, não é assim, e o recrutamento
eficazes partitocrático se desenvolve entre os homens do instrumentos de fortalecimento da
Partitocracia e das cúpulas partidárias, em detrimento partido e os seus fiéis vassalos, sem atender a
da difusão da política e da independência dos eleitos qualquer título profissional. O sistema é muitas vezes
(dentro de limites um tanto restritos, mas possíveis). criticado até pelos que dele desfrutam; enreda-se em
Submetida a escândalos, mas a rede de conluios se revela bem mais referendum em junho de 1978, a lei n.°
195, de 9 de abril de 1974, transformou-se no forte que as resistências ou as polêmicas.
catalisador de um tão vasto e difuso quão heterogêneo III. REMÉDIOS PARA A PARTITOCRACIA. — Por muito
sentimento antipartidário, que conquistou sem
dificuldade 43,7 por cento de votos favoráveis à sua forte que possa ser o domínio dos partidos, muitas revogação. vezes lhe escapam decisões importantes; as poderosas
multinacionais, por exemplo, são capazes de passar
O outro instrumento clássico da Partitocracia é o da
por cima deles, de fugir ao seu controle, levando
distribuição dos cargos fundada na adesão ao partido.
avante seus próprios programas, devido ao seu peso
É importante sublinhar que são duas as variáveis que
econômico e político e à capacidade técnica que
influem para que este instrumento seja mais ou menos
podem mobilizar. Este exemplo mostra um aspecto
eficaz. Antes de mais nada, quanto mais vasto for o
importante: a Partitocracia é capaz de se apropriar dos
âmbito de intervenção do Estado nos setores social e
meios existentes, mas, se não os souber criar, com o
econômico, tanto mais numerosas serão as posições
andar do tempo, acabará por provocar as condições da
disponíveis para os partidos (e quanto mais débeis
sua própria crise. Mas esta crise pode tardar em
forem as instituições, tanto mais fácil será para os
chegar e coincidir, afinal, com a disgregação do
partidos intervir e colonizá-las). Por isso, um Estado
sistema em seu conjunto.
intervencionista e instituições débeis, como, por
exemplo, um aparelho burocrático mantido à mercê Com isso, os poucos remédios identificáveis para a
do Governo, são um terreno favorável à Partitocracia Partitocracia, ou seja, para o domínio dos partidos tal
e às suas atividades de expansão e fortalecimento. qual se apresenta no início da década de 80, quase
sempre requerem que os mesmos partidos estejam de
A outra variável é a do uso de critérios de adesão
acordo em levá-los a efeito, em pô-los em prática; por
partidária mais que o de critérios de competência e
isso, têm poucas possibilidades de sucesso. Só uma
profissionalismo. É raro que o simples fato de
casual e afortunada coincidência de fortes pressões
pertencer a um partido avantage totalmente a
provenientes da sociedade civil e de movimentos de
competência; mas é, evidentemente.
autonomia
908 PATERNALISMO
oriundos das instituições colonizadas pelos partidos privados da substituição do pessoal político. Seus
(órgãos públicos da economia, bancos, ministérios, aspectos mais visíveis e suas degenerações mais
Parlamento, meios de comunicação de massa) podem graves se evidenciarão onde a sociedade civil for mais
criar uma situação onde a intervenção dos partidos débil e as instituições menos autônomas. Infelizmente,
seja censurada, severamente regulamentada e é este o caso italiano. drasticamente limitada, e os responsáveis por
violações paguem politicamente (com a derrota nas BIBLIOGRAFIA. — S. BERGER, Politics and antipolitics
urnas) e penalmente. in western Europe in the seventies, in "Daedalus",
Outro caminho está na mudança das regras de jogo Winter 1979, pp. 27-50; J. JULLIARD, Contre la politique
político, isto é, em reformas institucionais que professionnelle, Seuil Paris 1977; A. PANEBIANCO, Le
provoquem situações de incerteza e de competição risorse della partitocrazia e gli equivoci della
incessante entre os partidos. É o que De Gaulle quis e partecipazione, in '"Argomenti radicali", abril-maio
conseguiu fazer contra os partidos franceses e contra 1978, n.° 7, pp. 26-41; G. PASQUINO, Contro il
seu jogo político em 1958, no início da V República. É finanziamento pubblico di questi partito. in "Il Mulino",
o que, numa situação originariamente muito favorável, março-abril 1974, pp. 233-55; Id., Crisi del partito e
fizeram, no contexto norte-americano, as reformas de governabilità. Il Mulino, Bologna 1980; A. PIZZORNO, I democratização dos processos de seleção dos soggetti del pluralismo. Classi Partito Sindacati, Il
candidatos e de financiamento das campanhas, Mulino, Bologna 1980; Correnti. Frazioni e fazioni nei
chegando ao extremo oposto da decomposição dos partito politici italiani. ao cuidado de G. SARTORI, Il partidos. Este também é um caminho por onde é Mulino, Bologna 1973; M. WEBER, Il lavoro
possível enveredar, já com a aprovação de todos os intellettuale como professione (1919), Einaudi. Torino
partidos, que se tornaram conscientes da gravidade e 1971
dos danos da situação (mas isto é certamente raro), já
contra todos os partidos, não sendo muito claro, no [GIANFRANCO PASQUINO]
caso italiano, de quem possa surgir,
democraticamente, a necessária e autorizada iniciativa.
O que se requer pode, em parte, ser obtido mediante
normas rigorosas sobre a incompatibilidade dos Paternalismo.
cargos, sua renovação e rotatividade. A circulação do
pessoal político, a ruptura de esquemas ossificados e a
criação de situações em que seja impossível ter uma Na linguagem vulgar, Paternalismo indica uma
política social orientada ao bem-estar dos cidadãos e
carreira por tempo ilimitado na esfera política poderão
desestimular virtuais membros da Partitocracia e do povo, mas que exclui a sua direta participação: é
tornar, por isso, menos amplo o círculo dos uma política autoritária e benévola, uma atividade
dependentes da política. Isto pode não bastar por si só. assistencial em favor do povo, exercida desde o alto,
com métodos meramente administrativos. Para
O turnover do pessoal político só poderá constituir um
dos mecanismos que contribuem para destruir ou, de expressar tal política, nos referimos então, usando de
algum modo, reduzir as características mais odiosas da uma analogia, à atitude benevolente do pai para com
moderna Partitocracia, se ligado a uma constante e real seus filhos "menores".
competição entre os partidos políticos, que reproduza, Do ponto de vista conceptual, o pensamento liberal
na esfera da política, as condições que se atribuem (se identificou repetidas vezes, embora de formas
bem que erroneamente), na esfera econômica, à diversas, as características do Estado paternal, um
competição entre empresas e produtos e ao mercado Estado que, de vários modos, de acordo com as
de trabalho, ou seja, concorrência e mobilidade. O diversas épocas, sempre ameaçou o Estado "político"
turnover do pessoal político pode constituir um dos ou liberal. John Locke, no segundo Tratado sobre o
mecanismos que contribuem para destruir ou de governo, distingue três poderes: o paterno, o político e alguma maneira reduzir as características mais odiosas o despótico. Dava assim continuação à polêmica
da moderna Partitocracia. iniciada no primeiro Tratado contra Robert Filmer
De outro modo, a Partitocracia, mesmo com a crise que, no Patriarca, tinha defendido, partindo do direito
dos partidos, estará destinada a continuar como divino dos reis e da teologia natural, uma estreita
fenômeno característico de alguns sistemas políticos analogia entre o poder que os pais têm sobre os filhos
e o que tem o monarca sobre seus súditos. Para Filmer
contemporâneos, sobretudo daqueles que não contam
com a alternância no poder e estão a única diferença está na amplitude e extensão, pois
ambos governam segundo a própria vontade e não
segundo as leis ou o querer dos filhos e dos súditos.
Com sua tripla distinção dos Governos, Locke quis
defender o
PAUPERISMO 909
Governo político (ou liberal) contra os Governos semelhantes e iguais, que não se conhecem, é ainda o
paternal e despótico (ou absoluto). O poder do pensamento de Tocqueville, "ergue-se um poder
magistrado sobre os súditos, o do pai sobre a mulher e imenso e tutelar que se encarrega, por si só, de lhes
os filhos, e o do senhor sobre os escravos e servos, assegurar o desfrute dos bens e de vigiar sobre a sua
são entre si logicamente distintos: o primeiro se sorte. É absoluto, minucioso, sistemático, previdente e
baseia no consenso, o segundo na natureza (o direito- brando. Assemelhar-se-ia à autoridade paterna se,
dever do progenitor à criação da prole, limitado no como esta, tivesse por fim preparar o homem para a
tempo), o terceiro exclusivamente na força. No idade viril, mas não procura senão prendê-lo
Estado paternal Locke via a encarnação da monarquia irrevogavelmente à infância", afastando dele "todo o
senhorial, onde o rei "pai" era também proprietário do tédio de pensar, toda a canseira de viver". reino; mas, para ele, o direito de propriedade é um As três definições, embora diversas por haverem
direito privado, diferente do direito de soberania que sido escritas em tempos históricos diferentes,
é, ao invés, um direito público. apresentam certos elementos comuns: a defesa da
Enquanto Locke polemizava contra a monarquia liberdade política, que conduz à valorização do
senhorial, Immanuel Kant fazia-o contra o despotismo pluralismo político e social, e a recusa da solução dos
iluminado, contra o Estado de polícia, que atende ao problemas individuais e sociais com métodos
bem-estar dos cidadãos de modo exclusivamente administrativos e burocráticos, que alienam o
administrativo. No ensaio Sobre o dito vulgar: "isto indivíduo do sistema político. pode ser justo em teoria, mas não vale na prática",
onde demonstra que o Estado civil, considerado como
Estado jurídico, se fundamenta em três princípios a [NICOLA MATTEUCCI] priori (liberdade, igualdade e independência), Kant afirma que o princípio da liberdade pode ser assim Pauperismo expresso: "Ninguém me pode obrigar a ser feliz a seu
modo (isto é, como imagina o bem-estar dos outros
homens), mas cada um poderá buscar a sua felicidade O termo Pauperismo, derivado do vocábulo latino
pauper, apareceu na Inglaterra e entrou rapidamente
pelo caminho que lhe parecer bom, com tal que não
em uso nos alvores do século XIX, sendo empregado
leve prejuízo à liberdade que os demais têm de tender
para designar o fenômeno de generalização,
ao mesmo fim, podendo deste modo a sua liberdade
coexistir com a liberdade de qualquer outro, segundo recrudescimento e progressiva estabilização da
indigência que assinalou, de forma dramática, as
uma possível lei universal". Condena de igual modo,
primeiras fases da Revolução Industrial. Se o
com dureza, o Governo paternalista (imperium
surgimento do termo no contexto particular de uma
paternale), onde os súditos são filhos menores de idade, incapazes de um querer autônomo, como o pior sociedade invadida pelo processo de transformação
capitalista serve para situar historicamente o
despotismo que se possa imaginar, pois tolhe a
fenômeno por ele indicado, será, contudo, necessário
liberdade.
observar que esse quadro histórico foi ultrapassado
Com o advento da democracia parecia que o perigo
pela prática lingüística que se valeu do vocábulo para
do Estado paternal tivesse sido eliminado; mas Alexis designar não só a chaga da miséria aberta com a de Tocqueville mostra, no último capítulo do seu livro Revolução Industrial, como também, mais Democracia na América, como tal ameaça é mais genericamente, o problema da pobreza em sua grave e impendente que nunca. O Estado paternal é
dimensão social, surgida como tal com o nascimento
possível numa sociedade atomizada de massa, onde o do capitalismo moderno. individualismo encerrou o indivíduo no círculo
É na Inglaterra elisabetana que se apresenta, de
estreito dos interesses familiares e domésticos, e onde
fato, pela primeira vez, o problema do Pauperismo,
predomina, com paixão exclusiva, a corrida ao bem-
como conseqüência do vasto movimento de cerco das
estar e ao gozo dos bens materiais. O novo Estado
terras que pôs na rua amplas camadas de camponeses,
paternal se diferencia, segundo Tocqueville, do antigo
até então no gozo de uma série de direitos
despotismo, porque "estaria mais estendido, seria mais
consuetudinários sobre as propriedades alheias. O
brando e envileceria os homens sem os atormentar":
aparecimento de turbas de indigentes que desolavam as
tornou-se possível graças precisamente a um
cidades e os campos ingleses surgiu aos olhos das
compromisso entre o despotismo administrativo e a
autoridades como um fato grave, não tanto pela
soberania popular. Sobre uma multidão incontável de
intensidade inicial do fenômeno, quanto pelas
homens
deletérias conseqüências que se temia pudesse trazer
aos costumes
910 PAZ
o reiterado espetáculo da vagabundagem, lesando Craig, Sadler e Laing, na Inglaterra. Dela surgiu clara
aquele espírito de dedicação ao trabalho que, sendo a necessidade de uma ampla obra de previdência e
resultado da ética protestante, constituía o pressuposto assistência para os indigentes, que seria promovida
em que se sustentava a nascente sociedade capitalista. pelo Estado; tenazmente combatida pelos mais
Daí a severidade da legislação elisabetiana sobre a assanhados defensores da teoria liberal clássica, ela
matéria: organicamente recapitulada no Ato n.° 43, havia de ser empreendida a partir dos fins do século
conhecido como Poor Law, cominava graves penas à passado em diversos países europeus, em virtude da
mendicância e instituía, com o fim de a evitar, um pressão exercida sobre os Governos pelas associações
complexo sistema assistencial que se manteria em sindicais e políticas da já então organizada classe
vigor até 1834. operária. Com a entrada na cena política das
Mas é só no fim do século XVIII que o fenômeno organizações de classe, o problema do Pauperismo
do Pauperismo irrompe com toda a sua gravidade, perdeu a dramaticidade que o caracterizara nos
como conseqüência do surgimento na França e da princípios do século XIX, sem por isso deixar de se
definitiva consolidação na Inglaterra do sistema impor à atenção dos estudiosos. Provam-no as
liberal em todos os setores da economia, pesquisas sobre a pobreza levadas a cabo por Charles particularmente no da indústria manufatureira. De Booth em 1892, por B. Seebohm Rowntree em 1899,
fato, a proletarização das classes rústicas e artesanais 1936 e 1950, por A. L. Bowley em 1928, e por D.
que o regime do laissez-faire tinha arrancado Caradog Jones em 1934. violentamente à terra e ao comércio, a súbita imissão
no mercado do trabalho de mulheres e crianças
provocada pela introdução do maquinismo, a vaga de [MIKELLA LARIZZA]
aumento demográfico que se registrou nessa época na
Europa, foram fatores que geraram um grande
Paz.
aumento na disponibilidade de mão-de-obra. Isto,
num sistema onde a determinação dos salários era
deixada ao livre jogo das leis da oferta e da procura, I. PAZ INTERNA E EXTERNA. — Na sua acepção mais
não podia senão levar à sua depressão a níveis de geral, Paz significa ausência (ou cessação, solução,
fome, e a uma constante presença na sociedade de etc.) de um conflito. Por Paz interna entendemos a
amplas faixas de desocupados: problemas que foram ausência (ou cessação, etc.) de conflito interno,
ulteriormente exacerbados pelo já iniciado processo de conflito entre comportamentos ou atitudes do mesmo
concentração capitalista e pelas freqüentes crises de ator (por exemplo, entre dois deveres incompatíveis,
superprodução que começavam a afligir a indústria entre dever e prazer, entre razão e paixão, entre o
moderna. interesse próprio e o interesse de outrem). Por Paz
externa entendemos a ausência (ou cessação, etc.) de
Da dramaticidade do fenômeno do Pauperismo na
conflito externo, o conflito entre indivíduos ou grupos
primeira fase de desenvolvimento do capitalismo
diversos. No conceito de Paz externa, inclui-se
industrial dão testemunho as várias tentativas
também a Paz interna de um grupo, Paz que é externa
realizadas pelos Governos para o conter: pense-se nas
para os indivíduos que o compõem. O tema da Paz
medidas introduzidas pelo Governo inglês, no fim do
interna pertence à moral e seu estudo é incumbência
século XVIII, para adaptar os salários ao aumento do
habitual dos moralistas; o tema da Paz externa
custo de vida, especialmente no chamado
pertence ao direito e sua discussão é incumbência
Speenhamland System, ou naquelas mais radicais e
habitual dos juristas. De passagem podemos
orgânicas propostas pelo Comité de mendicité na
acrescentar que o nexo existente entre os dois
França revolucionária. São também prova disso as
significados de Paz tem sido muitas vezes acentuado no
inquirições sobre a miséria levadas a efeito na
próprio plano axiológico, especialmente pelas
primeira metade do século passado (basta pensar nas
filosofias espiritualistas, que consideram a Paz interior
promovidas pelo Governo inglês com vistas à revisão
como a "verdadeira" Paz de que depende a Paz
da Poor Law, ou nas conhecidíssimas de Villermé e
exterior, ou, de qualquer modo, como condição
Buret), bem como o aceso debate suscitado nessa
necessária e suficiente para se obter a Paz entre os
mesma época em torno dos princípios da economia
indivíduos ou os grupos.
clássica.
No que toca à Paz externa, o campo em que aqui
Esta discussão teórica, se teve como porta-bandeiras
nos movemos e em que se movem geralmente os
os representantes do então nascente pensamento
estudos acerca da Paz deve ser também delimitado.
socialista, envolveu também expoentes de diversas
Quando contrapomos a Paz externa à Paz interna, nos
tendências políticas, como De Bonald, Bigot de
referimos à Paz que se segue
Morogues e De Gérando, na França,
PAZ 911
a qualquer tipo de conflito entre indivíduos ou grupos. história da época moderna que vai do iluminismo ao Daí usarmos as expressões "apaziguar" ou "fazer as marxismo, passando pelo historicismo e pelo pazes", referindo-nos a duas pessoas que litigam entre positivismo, parte da pergunta sobre o significado da si, e falarmos de Paz sindical, religiosa, etc, ou guerra e da luta, em geral, pelo desenvolvimento da genericamente de Paz social. A Paz de que aqui civilização humana. Não houve fenômeno social que, pretendemos falar é, em vez disso, a Paz para a qual mais que a guerra, tenha levado o filósofo a está geralmente voltada a chamada "peace research" interrogar-se sobre o sentido da história e sobre o que se tem desenvolvido nestes últimos anos. Trata-se contraste entre duas respostas antitéticas, a otimista e a da Paz que põe termo ao tipo de conflito particular que catastrófica, bem como sobre a resposta que, é a guerra, em todas as suas acepções. De resto, é este abandonando a história do mundo (Weltgeschichte) ao o sentido predominante, não só na linguagem literária, contra-senso, isto é, ao domínio da neo-razão, à filosófica e jurídica, como também na linguagem contingência, ao acaso, encontra um sentido apenas na comum, onde Paz é usada habitualmente como história da salvação individual (Heilgeschichte). antônima de "guerra" e não, genericamente, como Uma prova a contrario se pode achar numa oposta ao conflito, e muito menos à violência, como antítese, em muitos aspectos semelhantes à antítese sustenta, ampliando o significado do termo, um dos guerra-paz, a antítese ordem-desordem, onde, ao mais acreditados expoentes da "peace research", Johan inverso, o termo forte é "ordem", análogo de Paz, e o Galtung. termo fraco é "desordem", análogo de "guerra". De
II. A -GUERRA. — Acerca da PAZ COMO NÃO fato, enquanto é correto definir "desordem" como
falta de ordem, seria não apenas impróprio, mas
definição de Paz, a primeira consideração que importa
contrário ao uso comum, definir "ordem" como falta
fazer é a de que a Paz não pode ser definida senão em
de desordem. Isto ocorre evidentemente, porque, em
relação e em estreita ligação com a definição de
seu uso mais comum, "ordem" é nas relações internas
"guerra". Convém atentar no seguinte: enquanto, entre
de um Estado o que a Paz é nas relações internacionais,
dois termos opostos, um é freqüentemente definido
conquanto não seja incorreto falar de paz interna e de
por meio do outro, como "movimento" (ausência de
ordem internacional. Nas relações internas, o estado
repouso) ou "repouso" (ausência de movimento), no
de coisas duradouro não é a desordem, mas a ordem,
caso dos dois opostos Paz-guerra, é sempre o primeiro
tanto que, ao invés do que ocorre na história das
que é definido por meio do segundo e nunca ao
relações entre Estados, tradicionalmente concebida
contrário. Por outras palavras: enquanto "guerra" é
definida positivamente com o elenco das suas como uma história de guerras, isto é, de sucessivas
desordens, a história de um Estado é normalmente
conotações características. Paz é definida
concebida como uma história de sucessivos
negativamente como ausência de guerra, em síntese,
ordenamentos, onde os momentos de ruptura ou de
como não-guerra. Dos dois termos em questão se diz
que o primeiro é o termo forte, o outro, o termo fraco. desordem, de mudanças devidas a conflitos violentos,
são momentos excepcionais. No campo das relações
Não é difícil encontrar uma explicação para tal internacionais, é historicamente relevante e
persistência em definir só negativamente a Paz. preeminente a desordem-guerra; no das relações
Quando dois termos opostos não são definidos ambos internas, é historicamente relevante e preeminente a positivamente, isto é, independentemente um do Paz-ordem. outro, ou ambos negativamente, isto é, um
É evidente que, se caracterizarmos a Paz como não-
dependentemente do outro, ou seja, quando dos dois
guerra, a definição de Paz depende da definição de
termos um é sempre o termo forte e o outro sempre o
fraco, o termo forte é o que denota o estado de fato guerra. As definições de guerra são tais e tantas, é tão
existencialmente mais relevante. Quem se detiver variada a diferença de tonalidades entre umas e
outras, que teremos de nos contentar aqui apenas com
sequer por um instante a considerar a história da
indicações gerais. De resto, sabemos muito bem que
filosofia política não poderá ter dúvidas a tal respeito:
existe uma copiosa filosofia da guerra, como fenômeno as diversas definições de um conceito dependem da
positivo, mas não existe uma vasta filosofia da paz. sua maior ou menor extensão, fixada por sua vez, com
grande margem de arbítrio, pelo investigador. As
Poder-se-ia até afirmar que grande parte da filosofia
conotações de "guerra" mais freqüentes são estas: a) é
política, especialmente da época moderna, é uma
constante meditação sobre o problema da guerra, nela um conflito; b) entre grupos políticos respectivamente
compreendida, já se entende, a guerra civil. Mais: a independentes ou considerando-se como tais; c) cuja
solução é confiada ao uso da violência organizada.
ampla filosofia da
Existe situação de conflito.
912 PAZ
sempre que as necessidades ou os interesses de um a Paz não conte habitualmente senão com um conceito
indivíduo ou de um grupo não podem ser satisfeitos negativo, isso não exclui que na linguagem técnica,
senão com dano de outro indivíduo ou grupo: um caso especialmente técnico-jurídica, o termo Paz tenha
típico é o da concorrência de vários indivíduos ou também um significado positivo. Trata-se então de um
grupos à posse de um bem escasso. Mas os motivos conceito não genérico, mas específico, com que se
de conflito podem ser também psicológicos, uma entende não tanto a ausência de guerra (Paz como não-
ofensa, por exemplo; neste caso, o objeto que guerra), mas o fim, a conclusão, ou o desfecho
desencadeia o conflito não é um bem, mas a própria juridicamente regulado de uma guerra. Em seu
pessoa do outro. Por "grupo político" entendemos um significado negativo, a Paz é um estado de coisas
grupo organizado, cujo objetivo é manter ou genérico (o estado de não-guerra); em seu significado
conquistar o máximo poder possível entre e sobre positivo, a Paz é um estado específico, previsto e
homens que convivem. Máximo poder possível é o regulado pelo direito internacional, um estado que
daquele que pode dispor do monopólio da força física, acaba por ser criado em conseqüência de um acordo
para conseguir que suas ordens sejam cumpridas: nos com que dois Estados cessam as hostilidades e
referimos aqui não só à conservação, mas também à regulamentam as suas relações futuras. "Estabelecer a
conquista do máximo poder, para abranger no conceito Paz" não significa apenas cessar as hostilidades e
de guerra também a guerra civil. Finalmente, deixar de fazer a guerra, mas significa também
entendemos por violência: a) o uso da força física; b) instaurar um estado de coisas juridicamente ordenado,
intencionalmente orientado ao efeito desejado pelo com tendência a uma certa estabilidade. Enquanto
sujeito ativo; c) não aceito por parte do sujeito guerra, em sua significação positiva, e Paz, em sua
passivo. Não é violência, no sentido corrente da significação negativa, podem ser entendidas como
palavra, a chamada violência psicológica, ou o uso de dois termos contraditórios, de modo que, entre um e
meios de manipulação da vontade, para conseguir um outro, tertium non datur, isto é, se entre dois Estados fim desejado; causar sofrimentos, mesmo graves, sem há guerra, não há Paz, e, se há Paz, não há guerra,
intenção; causar sofrimentos, mesmo graves, em quem guerra e Paz, em sentido positivo, podem ser
consente. Acrescentamos violência "organizada", interpretados como dois termos contrários, de tal
porque o conceito de guerra não é tão amplo que modo que entre um e o outro tertium datur, podendo compreenda explosões de violência, mesmo entre existir entre a guerra, em sentido positivo (como
grupos políticos, que sejam esporádicas, não vimos, a guerra é sempre definida nesse sentido), e a
duradouras, acidentais. Paz, também em sentido positivo, uma zona intermédia,
No conceito de guerra assim definida, incluem-se como a trégua ou o armistício, que não são nem guerra
quatro tipos: a guerra externa entre Estados nem Paz, ou não são guerra, mas também não são
soberanos, a guerra dentro de um Estado ou guerra ainda Paz. Por outras palavras, guerra (em sentido
civil, a guerra colonial ou imperialista, e a guerra de positivo) e Paz (em sentido negativo) ocupam toda a
libertação nacional. Usando outra terminologia extensão das relações possíveis entre os Estados;
empregada por Aron, teríamos: a guerra interestatal, a guerra, em sentido positivo, e Paz, em sentido positivo
guerra infra-estatal, a guerra superestatal ou imperial, (onde Paz já não é definida negativamente como
e a guerra infra-imperial. ausência de guerra, mas positivamente como
conclusão juridicamente regulada de uma guerra), são
Definida assim a guerra, a Paz, entendida como não-
dois termos extremos que, como tais, não ocupam toda
guerra, pode ser definida como uma situação em que
a extensão das relações possíveis entre os Estados,
não existe entre os grupos políticos relação de
antes deixam um espaço livre para um termo médio
conflito caracterizado por uma violência durável e
indispensável para a completar. Isto deve-se ao fato de
organizada. Daí deriva que: a) dois grupos políticos
que o conceito positivo de Paz, que é um conceito
podem estar em conflito entre si sem estar em guerra,
técnico e não genérico, é mais restrito do que o
já que o estado de paz não exclui todo o conflito, mas
negativo, ocupando como tal um espaço menor.
só o conflito que se traduz em violência durável e
organizada; b) dois grupos políticos não se hão de Fique bem claro que este conceito positivo de Paz,
considerar em estado de guerra, se nas suas relações sendo um conceito técnico do direito internacional, não
se verificam casos de violência esporádica, como são, tem nada a ver com o conceito positivo de Paz que se
por exemplo, os incidentes de fronteira. insere às vezes no discurso teológico e filosófico,
onde por paz, em sentido positivo, se entende a
III. PAZ "NEGATIVA" E PAZ "POSITIVA". — Embora "verdadeira" paz, não uma Paz qualquer, não a Paz
seja habitualmente definida como ausência de guerra, ditada pelo embora, por outras palavras,
PAZ 913
vencedor, mas a Paz com justiça, como se lê, por como estado de guerra universal e perpétua. Como
exemplo, na Gaudium et spes do Vaticano Il (n.° 78): tal, o estado de natureza é uma condição de que a "A Paz não é a simples ausência da guerra, ela é humanidade precisa absolutamente de sair; para isso,
definida com toda a exatidão: obra da justiça, opus pax est quaerenda. Contraposto ao estado de iustitide, pax". Enquanto que o conceito técnico- natureza, entendido como estado de guerra, o estado
jurídico de Paz é positivo no sentido de que não se de Paz é a sociedade civilizada. Este modelo
limita a definir a Paz como ausência de guerra, mas hobbesiano é importante e historicamente leva em conta as condições formais sob as quais uma significativo, porque o confronto entre guerra e Paz, guerra pode ser concluída de modo definitivo, o respectivamente consideradas como mal e bem
conceito teológico-filosófico de Paz é positivo no absolutos, se tornou atual com o advento e contínua
sentido de que, rejeitando a definição negativa de paz ameaça de uma guerra termonuclear. O equilíbrio do
como ausência de guerra, a caracteriza como um terror é, num certo sentido, o retorno ao estado de estado de coisas que é portador de um valor positivo natureza, isto é, um estado de que é preciso
como a justiça, capaz, por si só, de tornar tal estado necessariamente sair. Isto explica o crescente interesse
desejável. Mas aqui a definição de Paz já não é uma que existe pelos problemas da Paz (da Paz
definição meramente lexical, mas uma definição tradicionalmente entendida como ausência de guerra) persuasiva, isto é, uma definição que diz, não o que a na era da guerra atômica. Em face de tal perigo, existe
Paz é, mas o que deveria ser para ser considerada uma certa tendência a considerar de novo a guerra, à
como um bem. Na definição técnico-jurídica de Paz, maneira de Hobbes, como um mal absoluto,
não há nada que permita distinguir uma Paz justa de consideração que levou, em conseqüência, a avaliar a
uma Paz injusta; na definição teológico-filosófica, só Paz como um bem absoluto. Só com o perdurar do
a Paz com justiça merece ser propriamente chamada equilíbrio do terror que, contra as apreensões dos
Paz, enquanto a Paz injusta é apenas um simulacro de chamados "apocalípticos", afastou aparentemente o Paz, uma Paz aparente, uma Paz impropriamente dita. perigo da guerra, e com o suceder das guerras parciais
em quase todas as partes do mundo, guerras não
IV. A PAZ COMO VALOR. — Esta discussão sobre o atômicas, é que se reapresentou o problema do valor
da Paz e do desvalor da guerra, mas não já em termos
conceito de Paz positiva no sentido teológico- de bem e de mal absolutos. Dissemos "se
filosófico, repetido, se bem que inconsideradamente, reapresentou", porque, pensem e digam o que
por alguns estudiosos da Paz, nos abre caminho para quiserem a tal respeito os críticos no âmbito da
o exame do segundo problema que queríamos tratar: pesquisa sobre a Paz, que descobriram que a Paz,
o da Paz como valor. Da oposição de termos como a
entenda-se a Paz negativa, não foi sempre o valor
de guerra-Paz, é costume fazer um uso último, a filosofia política, ao longo dos séculos da classificatório, dizendo, por exemplo, que todos os sua história, quase nunca fez da antítese guerra-Paz o
seres de um universo (neste caso, o universo são as uso axiológico que dela fez Hobbes, isto é, jamais
relações entre grupos políticos) se englobam na
considerou a guerra como um desvalor absoluto e a
extensão de um ou de outro dos termos (no exemplo Paz como um valor absoluto. todas as relações entre grupos políticos são ou
relações de guerra ou relações de Paz), ou então um V. O VALOR DA PAZ EM SI. — Na recusa de uso axiológico, ao dizer que um dos dois termos tem
considerar a guerra como um mal absoluto e a Paz
valor positivo e o outro um valor negativo, que é um como um bem absoluto, podemos distinguir, no curso
desvalor (mais uma vez, tertium non datur). Não há do pensamento político dos últimos séculos, duas
dúvida de que, na antinomia guerra-Paz, o primeiro tendências: a) a tendência segundo a qual nem todas
termo é geralmente entendido como um estado de
as guerras são injustas e, correlativamente, nem toda a
coisas a que se atribui um valor negativo, o segundo Paz é justa, razão por que a guerra nem sempre é um
como um estado de coisas a que se atribui um valor desvalor, e a Paz nem sempre um valor; b) a
positivo. tendência segundo a qual tanto a guerra como a Paz
É paradigmático o caso da filosofia política de não são valores absolutos ou intrínsecos, mas
Hobbes, sendo lícito falar de um "modelo relativos ou extrínsecos, resultando daí que, de acordo
hobbesiano" que dominou, por sua simplicidade e com o princípio de que o valor do meio depende do
rigor, toda a filosofia política posterior, mesmo valor do fim, uma guerra pode ser boa, se o fim a que
quando polemicamente rejeitada. Como é sabido, tende é bom, e a Paz só é boa, quando o resultado que
Hobbes parte do estado de natureza, considerado dela se origina é bom.
914 PAZ
Desde os tempos das guerras hegemônicas entre os partidos revolucionários, por falta de um juiz
Estados europeus até hoje, o problema da guerra justa imparcial também nas relações internas do Estado.
mudou de natureza após um período obscuro que Qualquer grupo político tende a considerar justa a
corresponde mais ou menos ao período das duas guerra que faz e injusta a Paz que é obrigado a
grandes conflagrações européias. Há, de fato, dois suportar. E, quanto ao tribunal da história, seu critério
modos fundamentais de justificar a guerra, isto é, de de julgamento não é a justiça ou a injustiça, mas o
distinguir uma guerra que se aprova como justa, de sucesso.
uma guerra que se desaprova como injusta. Uma é a
guerra como resposta a uma violação do direito VI. A PAZ COMO MEIO. — A segunda tendência, que
estabelecido ou como sanção, com base no princípio propende a dar à guerra e à Paz um valor que se afasta
aceito no próprio seio dos Estados soberanos, segundo do modelo hobbesiano, segundo o qual a guerra é um
o qual "vim vi repellere licet"; então guerra justa por mal absoluto e a Paz um bem absoluto, é a que
excelência seria a guerra de defesa ou mesmo a de considera a guerra e a Paz como valores
reparação de uma ofensa, e injusta a guerra de instrumentais; conseqüentemente, se o valor do meio
agressão. Outra é a guerra como instauração de um depende do valor do fim, são válidos os princípios de
direito novo contra o velho tornado injusto, isto é, que "um fim bom justifica um meio mau", "um fim
como. ato criativo de direito, com base noutro mau injustifica também um meio bom". Neste
princípio não menos tradicional, o de que ex facto contexto, as duas teorias predominantes até aos
oritur ius; então guerra justa por excelência seria a nossos dias, sobretudo no campo da filosofia da
guerra revolucionária ou de libertação nacional, e história, primeiro na iluminista, depois,
injusta a guerra imperialista. Enquanto durante a sucessivamente, na idealista, na positivista e na
guerra do equilíbrio europeu a teoria da guerra justa, marxista, são as que consideram a guerra como mal
que apaixonou teólogos, moralistas, filósofos e juristas, necessário e a Paz como bem insuficiente.
se resolvia na justificação da guerra como sanção e, A teoria da guerra como mal necessário tem sido
conseqüentemente, como restauradora do status quo ou certamente a de maior difusão em todas as filosofias
da ordem internacional constituída, atualmente o da história que, de uma forma ou de outra, meditaram
interesse pelo problema da justificação da guerra está sobre o significado da guerra para a civilização
sobretudo voltado para as guerras que tendem a humana. Está estreitamente ligada às teorias do
modificar o status quo e a instaurar uma nova ordem progresso, segundo as quais, em diversa medida e sob
internacional. diversos aspectos, o progresso da humanidade vem ou
Do mesmo modo que a guerra pode ser justa e, sempre veio através da guerra. O nexo entre a
como tal, não ser mais um valor negativo, também a concepção da guerra como mal necessário e as teorias
Paz pode ser injusta e, como tal, não ser mais um valor do progresso apresenta-se sob três formas principais. A
positivo. O princípio segundo o qual se pode distinguir guerra é necessária para o progresso moral da uma Paz justa de uma Paz injusta, é o mesmo que serve humanidade, porque desenvolve energias que em para a legítima defesa, que se requer seja tempo de Paz não têm possibilidade de se manifestar, e
proporcionada à ofensa, isto é, o princípio da chamada incita os homens ao exercício de virtudes sublimes,
justiça corretiva, segundo o qual deve existir proporção como a coragem heróica, o sacrifício de si mesmo em
entre delito e castigo, entre transgressão e reparação prol de um ideal, o amor à pátria, sem as quais
do direito. Será, portanto, injusta uma Paz que nenhum grupo social teria condições de sobreviver. A
imponha aos vencidos um castigo, uma reparação de guerra é necessária para o progresso social da
danos, uma perda de territórios, ditados pelo espírito de humanidade, pois torna possível a unificação de povos vingança e não pelo propósito de restabelecer a ordem diversos em comunidades cada vez mais vastas,
lesada. Frases famosas como "solitudinem faciunt, contribuindo assim para o fim último da história que é
pacem appellant", "a ordem reina em Varsóvia", a a unificação do gênero humano. A guerra é necessária
"paz dos cemitérios", exprimem bem a idéia de que a para o progresso técnico, porquanto a inteligência Paz não é sempre justa e, como tal, nem sempre é um criadora do homem responde com maior vigor e
benefício, mesmo para o vencedor. resultados mais surpreendentes aos desafios que o
Vão será dizer que, na realidade concreta, é difícil contraste com a natureza e com os demais homens lhe
estabelecer quando é que uma guerra é justa e quando apresenta de quando em quando; a guerra é
é que uma Paz é injusta. Isto por falta de um juiz certamente um dos maiores desafios que um grupo
imparcial superior às partes na ordem internacional e, social tem de enfrentar para sobreviver. segundo as teorias classistas do Estado, como as A outra face da concepção da guerra como mal
geralmente aceitas pelos necessário é o da concepção da Paz como
PAZ 915
bem insuficiente. Considerar a Paz como bem de infligir à outra um golpe mortal". A Paz de insuficiente significa que a Paz não pode, por si só, satisfação tem lugar, quando, de um grupo de Estados,
garantir uma vida social perfeita, onde os homens nenhum deles nutre ambições territoriais ou de
vivam felizes e prósperos. A Paz é considerada qualquer outro tipo para com os outros, e as suas
geralmente como condição, apenas como uma das relações se baseiam na confiança recíproca, que é condições para a realização de outros valores, justamente o oposto do temor recíproco. É esta a Paz habitualmente considerados superiores, como a que vigora, depois da Segunda Guerra Mundial, entre justiça, a liberdade e o bem-estar. Se pode dizer da os Estados da Europa Ocidental. Paz, como aliás se diz do direito enquanto técnica Mas esta classificação, como todas as classificações,
social orientada à realização da Paz, que esta impede também não é totalmente satisfatória. Em primeiro
o maior dos males, a morte violenta, mas não visa a lugar, entre os diversos tipos de Paz de potência,
alcançar o maior dos bens. O bem que a Paz defende é faltam, quando menos, outros dois, presentes em todas
o bem da vida. Mas a vida será o maior dos bens? as classificações, isto é, a Paz de extermínio, que é
Além de não existir, em absoluto, o maior dos bens, a algo bastante mais resolutivo que a Paz de império, e a
vida é um bem posto continuamente em confronto Paz confederativa (v. CONFEDERAÇÃO), que é algo com outros, como a liberdade, a honra pessoal, a bastante mais vinculante que a Paz de equilíbrio, se
honra do grupo, o bem-estar da coletividade, etc, e, bem que seja um tanto diversa da Paz de império,
nesse confronto, nem sempre leva a melhor. Quando porque a superação da pluralidade de seres em
outro bem, como a liberdade, é considerado como possível conflito ocorre com base não na força, mas
superior à vida (recorde-se o "antes mortos que num acordo. Em segundo lugar, a distinção entre Paz
vermelhos" com que responderam à provocação de de potência e Paz de impotência é forçada. Poder-se-ia
Bertrand Russell "antes vermelhos do que mortos"), a dizer, com igual direito, que a Paz do terror é a paz do
Paz não é mais um valor supremo e, em certas máximo de potência, da superpotência, e não de
circunstâncias, poderá até converter-se em desvalor. impotência, e que o equilíbrio das potências é, ao
Todos aqueles que consideraram a guerra como causa mesmo tempo, o equilíbrio das impotências. O
do progresso, consideraram a Paz como causa, se não equilíbrio do terror não é senão a forma extrema da
do retrocesso, ao menos do não-progresso; viram nela Paz de equilíbrio. Tanto uma como a outra têm isto em
a chave explicativa daquelas civilizações que no comum: que o estado de ausência de guerra se apóia
século passado foram chamadas, em contraposição às na igualdade entre os Estados e não na desigualdade,
da progressiva Europa, de "estacionárias". como ocorre, ao invés, tanto na Paz de hegemonia
quanto na de império. A definição que Aron dá do
VII. TIPOLOGIA DA PAZ. — São inumeráveis as equilíbrio do terror é idêntica à que Hobbes deu do
formas ou tipos de Paz de que encontramos notícia na estado de natureza, quando observa, justamente no
história, e não são menos numerosos os critérios início da descrição deste estado, que nele os homens
segundo os quais vários autores tentaram sua são todos iguais, no sentido de que cada um pode levar
classificação. A título de orientação, limitar-me-ei a ao outro o maior dos males, a morte. O estado de
recordar a classificação feita por Raymond Aron, uma natureza assim concebido é o estado de equilíbrio do
das mais conhecidas. Aron distingue três tipos de Paz, terror permanente, isto é, um estado que, quando não
que ele chamou de "potência", de "impotência" e de degenera em guerra aberta, se rege pelo terror
"satisfação". A Paz de potência é subdividida, por seu recíproco. A diferença entre o estado de natureza e a turno, em três subespécies, que são a Paz de sociedade civilizada é a de que, no estado de natureza,
"equilíbrio", de "hegemonia", e de "império", o temor é recíproco, ao passo que, na sociedade
conforme os grupos políticos estiverem em relação de civilizada, o temor é de todos em relação a um. A
igualdade, ou de desigualdade baseada na passagem do estado de guerra potencial ao estado de preponderância de um sobre os outros (como acontece Paz atual não é outra coisa senão a passagem do
no caso dos Estados Unidos em relação aos outros estado de temor recíproco ao estado de temor de todos
Estados da América), ou então baseada num em face de um só. Quando o temor é recíproco, como
verdadeiro e autêntico domínio, exercido pela força, acontece quer na Paz de equilíbrio no sentido
como a chamada "pax romana". A Paz de impotência tradicional, quer na Paz assente no equilíbrio do terror,
seria um evento novo e assentaria naquele estado de a relação entre os Estados é simultaneamente de
coisas que, com o surgir da guerra atômica, se potência e de impotência, no sentido de que cada um é
chamou de "equilíbrio do terror", definido como um potente estado que "reina entre unidades políticas, cada uma
das quais é capaz
916 PAZ, PESQUISA CIENTIFICA SOBRE A
na medida em que o outro é impotente e vice-versa. atividade de pesquisa alcançou nos últimos vinte anos
Só na Paz de império (que corresponde à sociedade é tal que talvez não seja de modo algum prematuro
civilizada de Hobbes), onde a relação entre poder e começar a falar de uma verdadeira e autêntica ciência
não poder deixou de ser recíproca para ser de uma só da Paz ou irenologia. direção, é que, à potência de um, o soberano,
corresponde a impotência de todos os restantes. Com I. ORIGENS E DESENVOLVIMENTO. — As origens do isso quero dizer que não existe uma Paz de potência e movimento da pesquisa científica sobre a Paz
uma Paz de impotência, mas Paz onde a potência e a remontam aos anos que antecederam a Segunda Guerra
impotência se acham diversamente distribuídas. Mundial, anos em que um certo número de psicólogos
Da Paz de potência, que é ao mesmo tempo e psicólogos sociais (M. Conway, E. Glover, J. F.
também de impotência, se distingue a Paz de Brown) e de estudiosos das ciências políticas (H. D.
satisfação, onde a ausência de guerra depende, não do Lasswell, Q. Wright) demonstraram crescente
temor, mas da falta de conflitos que, por sua interesse pela aplicação dos métodos de pesquisa das
gravidade, só podem ser resolvidos pela força. ciências sociais ao estudo dos fenômenos da guerra e