Dicionário de Política (Volume 1)

Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino · Capítulo 35 de 93

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Dicionário de Política (Volume 1)

Hebraica. Questão — V. Anti-semitismo.

Hegemonia.

força armada, mas na tradição e na história. Assim,

I. O USO DO TERMO NAS RELAÇÕES para Gioberti, a Itália anterior ao Ressurgimento pode

INTERNACIONAIS. — Parte da literatura política contrapor a sua Hegemonia ao domínio do estrangeiro,

designa com o termo Hegemonia — decalque latino e Roma, sede histórica do papado, goza da Hegemonia

da palavra grega egemonia, que significa "direção moral numa Itália que tem no Piemonte saboiano o

suprema", usada para indicar o poder absoluto seu braço armado. conferido aos chefes dos exércitos, chamados Contudo, outros autores preferem defender para o

precisamente egemónes, isto é, condutores, guias — a conceito de Hegemonia um significado mais supremacia de um Estado-nação ou de uma estreitamente ligado à sua etimologia, o de domínio comunidade político-territorial dentro de um sistema. fundado na força das armas. É esse o caso dos

A potência hegemônica exerce sobre as demais uma historiadores alemães da tradição baseada na doutrina

preeminência não só militar, como também da razão de Estado, sobretudo Ranke e Dehio, que freqüentemente econômica e cultural, inspirando-lhes e elevaram a categoria da Hegemonia a cânone

condicionando-lhes as opções, tanto por força do seu interpretativo fundamental, pondo-a como centro da

prestígio como em virtude do seu elevado potencial de sua reflexão sobre a história da Europa e do mundo, em

intimidação e coerção; chega mesmo a ponto de antítese com o conceito de equilíbrio. Sendo vocação

constituir um modelo para as comunidades sob a sua intrínseca ao comportamento de qualquer Estado e da

Hegemonia. máxima expansão da própria potência, a história das

O conceito de Hegemonia não é, portanto, um relações internacionais não é senão um perpétuo

conceito jurídico, de direito público ou de direito alternar-se de equilíbrios instáveis e de tentativas

internacional; implica antes uma relação interestatal hegemônicas por parte de Estados, que se situam dentro

de potência, que prescinde de uma clara ou fora de sistemas internacionais pouco a pouco regulamentação jurídica. Segundo este critério, poder- consolidados: desde as cidades-Estados gregas à Itália

se-ia definir a Hegemonia como uma forma de poder dos principados e à Europa das grandes monarquias.

de fato que, no continuum influência-domínio, ocupa Neste processo, tiveram uma importância decisiva as

uma posição intermédia, oscilando ora para um ora potências periféricas ou até os espaços coloniais

para outro pólo. externos: as contínuas tentativas hegemônicas que se

Alguns autores como Triepel sublinham seu caráter sucederam no continente europeu desde Carlos V a

de "influência particularmente forte", exercida sem o Hitler deram-se graças principalmente à contribuição

recurso direto às armas e à força e, por isso, não das grandes potências externas, que ocupavam uma

privada de um certo fundamento de legitimidade. Neste posição insular ou periférica (Inglaterra, Rússia, sentido, Hegemonia é uma subespécie de um conceito Estados Unidos). Elas foram capazes de favorecer

mais geral, o de direção, libertando-se quase vastas coalizões contra o Estado que ameaçava impor a

totalmente do seu significado original de supremacia sua supremacia, ocasionando assim o triunfo do

político-militar. É análogo o sentido em que Gioberti princípio do equilíbrio sobre o da Hegemonia e

usa este conceito em Primado moral e civil dos ampliando progressivamente as dimensões do sistema

italianos, o de uma "preeminência (...) não legal, nem internacional. jurídica, propriamente falando, mas de eficácia moral",

É também dentro dos limites da acepção político-

como primado ético e cultural, baseado não na

militar do termo que se situa a categoria de

hegemonismo de origem chinesa. O hegemonismo

consiste num conjunto de comportamentos, diplomáticos e militares, imputados ao