Dicionário de Política (Volume 1)

Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino · Capítulo 71 de 93

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Dicionário de Política (Volume 1)

A Revolução americana nos permite ainda homem,…

A Revolução americana nos permite ainda homem, produtor alienado e frustrado, que, na

identificar algumas das características do que agora Revolução vitoriosa, busca desenvolver plenamente as

usualmente se define como guerras de libertação suas potencialidades criadoras. É Marx, afinal, quem,

nacional. De fato, a Revolução americana é o primeiro fundindo perfeitamente os dois elementos exemplo de guerra de libertação anticolonial, movida

por um povo em busca

1124 REVOLUÇÃO

 

acentuados pelos iluministas — liberdade e felicidade se cai na Revolução. É mais freqüente que um povo,

— apresenta a perspectiva da sua consecução depois de haver suportado sem lamentos e quase com

simultânea pela libertação do homem produtor. indiferença as leis mais duras, as rejeite Desde então a Revolução despontará como panacéia violentamente, quando elas se tornaram mais leves. O

dos males de qualquer sociedade e atuará como regime derrubado por uma Revolução vale quase

símbolo poderoso e como estímulo na vitória sobre a sempre mais que o imediatamente anterior, e a

opressão e sobre a escassez de recursos. experiência nos ensina que o momento mais perigoso

para um mau governo é geralmente aquele em que

III. CAUSAS DA REVOLUÇÃO. — O debate sobre as começa a introduzir reformas... O mal que se tolerava

causas da Revolução é vasto e confuso. É preciso, pacientemente como inevitável afigura-se insuportável

antes de tudo, distinguir entre causas primárias e a partir do momento em que surja a idéia de se lhe

causas secundárias, isto é, entre as condições subtrair. A remoção parcial dos abusos e injustiças fundamentalmente necessárias para que surja a ocasião põe em maior evidência o que ainda resta, tornando

revolucionária e os "aceleradores" que fazem sua sensação mais irritante: o mal é menos grave, mas a deflagrar a Revolução. Ao considerar as causas reatividade é mais viva" (Tocqueville 1969, 765). primárias, Aristóteles põe a origem do impulso Enquanto Tocqueville vincula a explosão revolucionário no desejo ou no sentimento dos homens revolucionária à diminuição da opressão, que se dá de de serem iguais, ou então na convicção de serem forma muito lenta, e a uma leve melhoria das

diferentes e superiores e, não obstante, serem tratados condições de vida, que não corresponde, no entanto, às

de modo desvantajoso, de conseguirem menos que o expectativas populares, Marx põe de modo inequívoco

devido, independentemente do fato de tais desejos e a causa primária da Revolução no depauperamento

convicções serem justificados ou não. crescente do proletariado, advertindo que nem mesmo

No século XIX, os estudiosos da Revolução, como o aumento do temor de vida dos trabalhadores será

Tocqueville e Marx, insistem, pelo contrário, mais suficiente para evitar a Revolução. Com efeito,

claramente nas causas estruturais que nas psicológicas quando esse aumento não for proporcional ao obtido

analisadas por Aristóteles, particularmente na pelas outras classes, o grau de satisfação social dos incapacidade das instituições tradicionais em fazer trabalhadores, em vez de aumentar, diminuirá,

frente às novas necessidades sociais. Ambos sublinham provocando novo incitamento à destruição do sistema.

também a importância das respostas dadas pelas Recentemente, um sociólogo dos Estados Unidos

autoridades políticas à demanda de mudanças, e reformulou as duas teses de Tocqueville e de Marx,

ambos, mas mais acentuadamente Tocqueville, põem combinando-as entre si, e chegou à conclusão de que

em revelo a importância da percepção que os atores o momento em que é mais provável que se verifique

políticos têm da sua condição presente e das suas uma Revolução é quando, a um longo período de

oportunidades futuras. Marx e Engels fundem com crescente prosperidade e melhorias sociais, se segue

agudeza os dois componentes da ira revolucionária uma repentina recessão. Espalha-se então o medo de

— necessidades sociais e respostas do sistema — que todas as vantagens adquiridas se percam de um

conferindo-lhes o papel de promotoras insofreáveis dos lance. "O fator crucial está no temor vago ou

movimentos revolucionários, quando afirmam: "onde específico de que o terreno conquistado num longo

quer que se gere uma convulsão revolucionária, tem período de tempo se venha a perder rapidamente. Não

de existir como base qualquer necessidade social que se cria este temor, se existem oportunidades

as instituições envelhecidas não deixam satisfazer. Tal constantes para a satisfação de necessidades que

necessidade pode não se fazer sentir ainda com surgem-a cada momento: cria-se, quando o Governo

aquela força e amplitude que seriam necessárias para em função suprime, ou é acusado de suprimir, tais

lhe garantir um sucesso imediato, mas toda a oportunidades" (Davies 1962, 8). tentativa de a reprimir com violência só fará com que Numa perspectiva mais ampla, ou seja, para

ela renasça cada vez mais forte, até quebrar suas explicar qualquer tipo de violência política, a hipótese

cadeias" (Marx e Engels 1948, 8). de Davies foi mais tarde elaborada e aperfeiçoada com

Quando se passa, porém, especificamente às causas a hipótese que faz da "privação relativa'" a mola de

gerais e imediatamente identificáveis das convulsões toda a convulsão violenta da ordem política nacional revolucionárias, as posições de Tocqueville e de Marx e, portanto, também da species que é a Revolução. A não poderiam ser mais desiguais. O pensador político privação relativa consiste especificamente na francês afirma com vigor: "Nem sempre andando de "percepção de mal a pior

REVOLUÇÃO 1125

 

uma discrepância entre as expectativas que os o Estado, não é possível senão pela via da 'extinção' "

homens guardam em relação a certos valores e sua (Lenin 1968, 66). Embora, pois, sejam as mudanças

capacidade potencial de os alcançar. Os valores ocorridas na estrutura econômica e social que geram a

esperados são os bens e as condições de vida a que os necessidade de adaptações a nível político, o

indivíduos crêem ter pleno direito. Sua capacidade processo revolucionário implica em si, potencial de valores são os bens e as condições de fundamentalmente, a passagem do poder político de

vida que eles pensam ser capazes de conseguir e uma classe a outra, de acordo com o papel que

manter, com base nos meios sociais ao seu dispor. As desempenham no processo de produção; uma

condições sociais que aumentam o nível ou passagem que se refletirá depois, por sua vez, na

intensidade média das expectativas, sem aumentar a organização do processo de produção. capacidade potencial, aumentam a intensidade do Marx e Engels parecem sustentar amiúde que o

descontentamento" (Gurr 1970, 13). rompimento revolucionário com o passado é coisa

Mas nem todas as sociedades onde o desnível entre inevitável: como à organização feudal da sociedade

expectativas e capacidade potencial é muito elevado seguiu a organização capitalista, assim em seu auge o

ou está em aumento, apresentam as mesmas capitalismo cederá o lugar ao socialismo. Na Crítica à probabilidades de passar por uma Revolução. Em economia política, Marx sustenta que as formações muitas delas se verificarão explosões anômicas e sociais não se extinguem, enquanto não se

esporádicas de violência, imediatamente reprimidas; desenvolverem todas as forças produtivas que podem

em outras haverá conflitos prolongados entre as pôr em movimento; novas e mais elevadas relações de autoridades políticas nacionais e alguns grupos sociais, produção jamais substituem outras, antes que tenham

religiosos, étnicos ou regionais; só em poucas, amadurecido, no seio da velha sociedade, as condições pouquíssimas sociedades, terá lugar uma tentativa materiais da sua existência. A aparente contradição

revolucionária. Quando é que ocorre então uma que existe no pensamento marxista entre a Revolução? inevitabilidade histórica do processo revolucionário e

A doutrina marxista ortodoxa sublinha que a a necessidade de que existam condições objetivas e

Revolução é a locomotiva da história: apressa a queda subjetivas bem definidas para que ele se dê, tem uma

da velha ordem social e favorece o advento da nova, solução no papel atribuído ao partido comunista,

permite a passagem do poder das mãos de uma classe vanguarda organizada do movimento operário, de às de outra, até chegar às mãos do proletariado. A parteiro da história. As condições subjetivas, isto é, a

satisfação de certas condições objetivas e subjetivas é, preparação e determinação dos comunistas, contudo, necessária para condicionar (ou determinar) desempenham, com a sua capacidade de escolha do

o momento histórico em que se efetua a passagem momento "justo" para entrar em ação, um papel muito

revolucionária do poder. Ainda segundo o marxismo importante. Se, de fato, os comunistas agirem, quando

ortodoxo, são condições objetivas as contradições as condições objetivas não forem ainda aptas,

entre forças produtivas e relações sociais de provocarão um dano que fará recuar, muitos passos produção, por um lado, e organização do poder atrás, o movimento operário; mas, se tomarem a político, por outro. Quando se criam novas formas de iniciativa excessivamente tarde, perderão a produção e novos meios, e se alcançam níveis de oportunidade e adiarão assim a Revolução sine die. desenvolvimento econômico mais elevados, é Todos sabem como a definição ortodoxa de Marx provável que a superestrutura política se encontre em de uma situação revolucionária entendida em termos

atraso e bem depressa em contraste com tais econômicos e sociais, repetida depois por Plekhanov

mudanças, tornando-se incompatível com elas e e por Kautsky entre outros, deu origem a um grande,

sendo um obstáculo para mudanças futuras. polêmico e desabrido debate sobre a necessidade ou

A solução dialética desta antítese consiste no não do estádio da Revolução burguesa, solucionado

desmoronamento do tipo de poder já superado pelo no plano prático e teórico por Lenin e por Trotski.

desenvolvimento sócio-econômico e na sua Lenin reformulou a situação revolucionária, substituição por novas formas de controle político e acentuando mais os seus elementos políticos e pondo

por outros instrumentos de coerção, até que a em evidência como era precisamente a organização Revolução comunista tenha criado os pressupostos do Estado czarista e seus instrumentos de coerção que

para o desaparecimento de qualquer forma de controle punham limites à mudança econômica no sentido de político. "A substituição do Estado burguês pelo um desenvolvimento capitalista da Rússia pré-

Estado proletário não é possível sem Revolução revolucionária. Trotski chegou a propor a lei do violenta. A supressão do Estado proletário, ou seja, a desenvolvimento combinado, segundo a qual, da

supressão de todo desigualdade do desenvolvimento, que

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é a lei mais geral do processo histórico, nasce, para os IV. GUERRILHA E REVOLUÇÃO. — O problema da

países atrasados, a necessidade imperiosa de fazer

avançar possibilidade e do modo de criar as condições a sua cultura arcaica. A lei do

desenvolvimento combinado quer significar, portanto, revolucionárias objetivas, ou, quando menos, de "aproximação de diversas fases, combinação de acelerar a sua formação, voltou recentemente ao diversos estádios, mistura de formas arcaicas com as centro das teorias revolucionárias, após a vitoriosa

formas mais modernas". Segundo defende Trotski, esta experiência cubana. A Revolução castrista, Revolução lei, considerada em seu conteúdo material, faz com vitoriosa num país carente de uma verdadeira e

que só se possa conceber a Revolução socialista nos autêntica classe operária organizada e dotado de uma

países que primeiro desenvolveram uma organização estrutura econômica de tipo capitalista só parcialmente

capitalista, quando esta chegar ao amadurecimento desenvolvido, teve seu teórico em Che Guevara. Este

completo, ao passo que, "nos países chamados à sustentou que um grupo pouco numeroso de

civilização em segundo, terceiro ou décimo turno", se guerrilheiros, ou "foco", pode criar com a sua

impõe a necessidade de que a ruptura revolucionária atividade de luta e de propaganda uma situação

ocorra antes da completa maturação capitalista, se eles objetivamente revolucionária, desde que existam três

tiverem de superar o atraso (Trotski 1964, 20). Esta a condições iniciais: insuficiente legitimação da elite

tarefa dos revolucionários. governativa aos olhos da nação, existência de tensões

que possam ser resolvidas com os meios habituais e

Tendo assim identificado as causas de origem geral

pelos canais normais, e percepção por parte dos

ou primárias da Revolução em relação ao sistema opositores de que todos os meios legais para obter social em que se verificam, devemos agora perguntar

mudanças sociais e políticas foram bloqueados. Se

quais são os acontecimentos que provocam

existirem estas três pré-condições, a atividade do

diretamente o desencadear do processo revolucionário:

"foco" acabará por provocar a radicalização da luta

os "aceleradores". Definimos como aceleradores os entre a elite governativa e a oposição, e o "acontecimentos que tornam possível uma Revolução

esvaziamento progressivo da base de sustentação do

ao pôr a nu a inabilidade da elite em manter o

regime, até o seu desmoronamento definitivo e à

monopólio da força" (Johnson 1966, 99). Podemos,

chegada dos guerrilheiros ao poder. Mas este último

portanto, distinguir diversos tipos de aceleradores. O passo depende essencialmente da habilidade dos que primeiro é constituído pela cisão profunda no seio da

compõem o "foco": enquanto devem existir as

elite dominante e pelo recurso da elite excluída à

condições iniciais para que o "foco" tenha

mobilização popular. O segundo dá-se quando

probabilidades de sucesso, serão as qualidades dos

ocorrem acontecimentos que afetam a disciplina, a

seus membros, a sua dedicação, a sua astúcia de

organização e a lealdade das forças armadas e da

combatentes, a sua capacidade de conquista da

polícia. O acontecimento principal é evidentemente a

população que os levarão ou não à conquista do

guerra, mas também no tempo de paz as sublevações

poder.

podem exercer o papel de aceleradores: o momento em

A maior contribuição de Guevara para a teoria e

que as forças armadas se recusam a disparar sobre a

prática revolucionárias está na sua insistência sobre o

multidão, marca geralmente o fim do regime e muitas

vezes o próprio início da Revolução. Outro tipo de papel do "foco" como agente no parto da Revolução e

na importância por ele atribuída à capacidade e

acelerador está nas provocações feitas às autoridades

demonstração dos guerrilheiros, que podem desafiar

por pequenos grupos de conspiradores e de

impunemente o Governo e o seu braço armado, o

guerrilheiros (v. infra); a sua eficácia depende

notavelmente das respostas das autoridades, tanto em exército, até que a própria legitimidade do regime, por

um lado, e a validade e eficiência dos seus

termos puramente militares, como em termos de

instrumentos de coerção, por outro, sejam postos

aceitação das solicitações e de satisfação das

exigências da população. É importante revelar que, fortemente em dúvida. Outro dos aspectos

importantes do pensamento revolucionário de

em qualquer dos três casos, é a atitude e solidez das

Guevara, inspirado e confirmado primeiro pela

forças armadas que condicionam, até o ponto de

experiência da Longa Marcha chinesa e, depois, pelos

quase o predeterminarem, o êxito de uma Revolução.

Com o apoio das forças armadas, a Revolução sairá vinte anos de luta vietnamita, está na reavaliação do

papel dos camponeses no processo revolucionário. É

vitoriosa. O mesmo pode acontecer com a sua

constante em todos os pensadores que teorizam sobre a

abstenção; mas as probabilidades de sucesso de uma

GUERRILHA (V.) como meio de criar as condições

tentativa revolucionária hostilizada pelas forças

armadas são limitadíssimas.

REVOLUÇÃO 1127

 

objetivas para a conquista do poder, a exigência de econômicas deste processo são-nos dadas pela lei do

que tal movimento seja guiado por uma vanguarda de desenvolvimento desigual (v. supra), que faz com que homens consagrados à Revolução que sejam capazes, as contradições existentes nos países mais atrasados do

se necessário, de bater em retirada diante das forças ponto de vista econômico sejam mais flagrantes e

do poder central e da hostilidade da população, mas menos controláveis que as existentes nos países mais

que estejam sempre prontos a retomar a luta. avançados. Se, porém, a Revolução se der primeiro nos

países mais atrasados e neles se instaurar a ditadura do

proletariado, nem por isso chegarão antes ao

V. REVOLUÇÃO PERMANENTE. — A teoria da socialismo que os países mais avançados. Mais, a

Revolução permanente foi enunciada por Trotski pela evolução de cada um dos países para o socialismo

primeira vez cm 1905, nas suas considerações sobre o dependerá, em última análise, muito mais do

malogro da experiência dos sovietes de Petersburgo, e desenrolar da Revolução socialista internacional que

depois muitas vezes repetida com propósitos das forças produtivas nacionais. polêmicos contra a cristalização teórica do socialismo Esta última observação nos conduz diretamente ao

num só país, como queria Stalin. A teoria da exame da incidência de uma Revolução vitoriosa no

Revolução permanente contém dois elementos contexto internacional e da reação da comunidade não principais. De um lado, ela é a interpretação, a socialista quanto à instauração do socialismo num só

explicação e a justificação do advento da Revolução país. Opondo-se à visão stalinista da necessidade de

num país não altamente industrializado, e da proceder ao fortalecimento do socialismo na União

"superação" do estádio formal da Revolução Soviética antes da sua expansão no campo

democrático-burguesa. Neste sentido, está internacional, Trotski sustenta que o socialismo não só estreitamente ligada tanto aos aspectos mais não pode ser construído, se não for instaurado nos

propriamente teóricos da Revolução, quanto aos países industrialmente mais avançados, mas corre até

aspectos concretos da práxis revolucionária. Do outro, os risco de fracassar miseravelmente, se se tentar a sua

a Revolução permanente constitui o oposto do construção num único país, aliás carente das bases

socialismo num único país; é a teorização e vigorosa materiais necessárias. exposição da necessidade da expansão, pelo menos aos Enfim, a teoria da Revolução permanente encerra,

países industrializados, da Revolução socialista, é a

na versão de Trotski, três elementos de grande

mesa de ensaio da solidariedade do movimento importância para a elaboração de uma teoria

operário internacional (v. TROTSKISMO). revolucionária, elementos que estão intimamente

Pelo que respeita ao primeiro aspecto, a teoria da ligados entre si: papel condutor do proletariado

Revolução permanente afirma que num país industrial, mesmo em situações de grave particularmente atrasado e onde a burguesia nacional subdesenvolvimento econômico; necessidade de que

esteja ausente, seja incapaz ou esteja subjugada aos em tais situações o proletariado, guiado pela

interesses do capital estrangeiro, será o proletariado vanguarda organizada no partido comunista, instaure a

que, unido à massa dos camponeses, se porá à frente ditadura, se quiser transformar a sociedade; e férrea

do movimento revolucionário de emancipação exigência de que a Revolução não se detenha só num nacional. O processo, contudo, será conduzido pelo país, mas seja "exportada" também e principalmente

proletariado, ou, melhor, pela vanguarda proletária para os países industrializados, sob pena de não ser

organizada no partido comunista; só raras vezes os possível instaurar o socialismo no país onde a

camponeses estarão em condições de se organizarem Revolução acabou com o domínio das classes

autonomamente e de fazerem nascer um verdadeiro e tradicionais. autêntico partido revolucionário. Durante o curso da

Conquanto as características essenciais da

Re volução, o proletariado bem se aperceberá de que

Revolução chinesa, movimento predominantemente

não pode ficar nas simples reformas democráticas e

formado por camponeses que pôde gozar da

tem de atingir o direito de propriedade, até contribuição decisiva de um exército popular, uma

transformar a Revolução democrático-burguesa em

Revolução portanto assimilável, ao mesmo tempo, a

ditadura do proletariado. Segundo Trotski, esta

uma guerra civil (contra as tropas de Chiang-Cai-Chec

transformação não só é possível, como é também

e seus sequazes) e a uma guerra de libertação nacional

necessária e está teoricamente de acordo com a visão (contra o invasor japonês), façam dela uma categoria à

marxista e com a realidade histórica concreta. Na

parte, alguns dos seus elementos que concernem à

situação russa, a passagem da Revolução de fevereiro

consolidação e gestão do poder só podem ser

à de outubro exemplificaria, do melhor modo possível,

plenamente compreendidos se relacionados com a

a transição da Revolução burguesa à ditadura do teoria da Revolução permanente de Trotski, cuja

proletariado. As bases

contribuição, não

1128 REVOLUÇÃO

 

obstante, jamais foi mencionada pelos chineses, que, líderes revolucionários, que terão de fazer funcionar o pelo contrário, o rejeitam de forma clara e explícita. sistema de tal maneira que pelo menos a maioria dos

No âmbito da sociedade chinesa, é, ao invés, invocada que os apóiam estejam mais satisfeitos com as atuais a teoria da Revolução ininterrupta para fomentar uma condições de vida do que as do período pré-constante mobilização das massas e um contínuo revolucionário; em segundo lugar, pela introdução de estado de tensão que debele as tendências, presentes tais transformações que tornam impossível o retorno em toda a sociedade que se institucionalize, à ao passado. burocratização e à involução. À luz disso, a Revolução Como, porém, muitos dos funcionários, que têm de

cultural proletária há de ser justamente interpretada aplicar as decisões e avaliar-lhes os resultados, são não como tentativa de impedir a burocratização da raro subjetivamente, embora não o sejam sociedade chinesa e de lhe devolver o ímpeto objetivamente, contra-revolucionários, e existem revolucionário. Dentro do sistema internacional, a freqüentes discordâncias quanto ao ritmo, modos e Revolução ininterrupta está de preferência orientada a tipos de transformações a introduzir, dentro dos sustentar e estimular a ação dos vários movimentos de próprios grupos revolucionários, toda a Revolução oposição anticolonialista e antiimperialista, a fim de vitoriosa tem de enfrentar as tentativas de contra-que eles façam constante uso da luta armada e sem revolução. Muitas vezes, os contra-revolucionários são compromissos. Mao parece ter introduzido duas apoiados e financiados, pelo menos na primeira fase, variações na teoria trotskista da revolução desde o exterior; mas, a esta tentativa contra-permanente: uma constante consideração e revolucionária manifesta, bem depressa se sucede revalorização do papel dos camponeses, conseqüência outra mais traiçoeira. São as classes destituídas e direta da sua experiência pessoal na Revolução alguns grupos de ex-revolucionários, que não se chinesa, e uma maior acentuação das bases sociais e sentem capazes de ir mais além, que se unem e da mentalidade dos revolucionários, antes e depois da concordam em deter o curso da Revolução, Revolução, quanto ao nível de desenvolvimento apresentando amiúde como motivo da sua atitude e da econômico autêntico e verdadeiro. Mantém-se firme a sua escolha a necessidade de defender a Revolução e noção da imprescindível expansão internacional da de consolidar suas conquistas. Revolução, mesmo que Mao não tenha mais em mira, A contra-revolução daí resultante ocorre de

nem só nem principalmente, os países industrializados, maneira lenta e rastreante, mas não chega quase nunca

e tenha pensado sobretudo, com Lin Piao, no cerco das a destruir todas as transformações efetuadas pelo

cidades por parte do campo. regime revolucionário. A reforma agrária poderá ser

atenuada, mas as terras não serão retomadas aos

VI. CONTRA-REVOLUÇÃO. — Já vimos como as camponeses; algumas indústrias poderão ser

tentativas revolucionárias visam à substituição das novamente confiadas a empresários privados, mas o

classes que detêm o poder e à mudança conseqüente das controle do Estado sobre as demais não será posto em

relações sócio-econômicas. Fizemos, além disso, discussão; e mesmo que a participação das massas na ressaltar como é de supor, pois a história o comprova, atividade política seja desencorajada, elas serão agora

que essas mudanças políticas e sócio-econômicas não um elemento com que é preciso contar. Os contra-

sejam introduzidas sem forte resistência das classes revolucionários capazes se apercebem de que, se

depostas, o que chega a provocar guerras civis com quiserem vencer, têm de aproveitar o estado de

subseqüente intervenção dos estrangeiros no conflito descontentamento das massas, inevitável na fase

interno. Uma vez que, na luta pelo poder, os próprios imediatamente seguinte à Revolução, mas sabem

revolucionários contribuíram para a desagregação do também que tal descontentamento está bem longe de

Estado ou foram favorecidos por um processo de significar que as massas pretende/n voltar pura e

decadência já em andamento, o aparelho de que se simplesmente à velha ordem. Compreendem por isso

apoderam é gravemente carente e incapaz de influir no que, para obter apoio da maioria da população,

tecido sócio-econômico do país. Contudo, desde o devem aceitar muitas das mudanças e métodos que a

momento em que os revolucionários se propõem Revolução introduziu. introduzir profundas mudanças sócio-econômicas, Além de não subestimar a adesão das massas a

terão de proceder imediatamente à reorganização do algumas das transformações de origem revolucionária,

aparelho estatal, pelo menos nos setores os líderes contra-revolucionários administrativo e econômico. A competência que

possuem os revolucionários é muitas vezes limitada;

de qualquer modo, os revolucionários devotados e

fiéis jamais constituem número suficiente para

preencher os postos de relevo. Então o curso da

Revolução é influenciado por dois fatos de certa

importância: antes de mais nada, pela capacidade dos

REVOLUÇÃO 1129

 

devem também fazer-se portadores dos interesses das sociedades industriais avanjadas como nas sociedades classes desapossadas; todavia, instruídos pelos erros em vias de desenvolvimento, não são de modo algum

cometidos no passado, tratarão de lhes pôr remédio, limitadas, pelo contrário. lutando por uma gestão mais moderna do poder e As contradições do desenvolvimento econômico

mais compatível com os interesses das massas já capitalista, em primeiro lugar, contradições criadas

mobilizadas. Enfim, para ter sucesso, a contra- pela introdução de tecnologias avançadas que levam à

revolução tem de formar uma estranha estrutura de automação e à marginalização de estratos crescentes

elementos velhos e novos, de tendências aristocráticas de trabalhadores, as contradições das economias

e de afagos populistas. Seja qual for a forma como se socialistas, que até agora se mostraram incapazes de

realize, a contra-revolução jamais poderá, contudo, resolver os problemas não só do homem consumidor

resultar num total e completo retorno a um passado mas também do produtor, mas mais ainda as

que foi sepultado com a ruptura revolucionária. contradições nas relações entre países ricos e países

A contra-revolução pode ser entendida não só como subdesenvolvidos não dão sinais de diminuir. Para

movimento subseqüente a uma Revolução vitoriosa, além das contradições inerentes aos processos de

com o objetivo de destruir suas vantagens, mas produção e de distribuição, é evidente em muitas

também como um movimento orientado tanto a sociedades uma crise política de vastas proporções,

impedir que se dê uma Revolução, quanto a pôr referente aos temas da legitimidade, da obediência e

obstáculo a mudanças de grande envergadura que da representatividade. ameaçam seriamente as bases do poder de certos A depressão econômica unida às raízes de uma

grupos dominantes. Numa sociedade que não tenha diminuição de legitimidade e de uma crise de

ainda atingido a fase revolucionária, estas tentativas representatividade constitui, até hoje, o melhor

de impedir mudanças profundas traduzem-se em veículo da Revolução. É, de resto, bastante difusa a

repressão violenta e são freqüentemente definidas com opinião que põe na alternativa reformas-Revolução a a palavra reação. escolha inelutável que enfrentam atualmente os

A contra-revolução, que é um processo, o mais das Estados "capitalistas". Há os que julgam que o espaço

vezes, complexo e prolongado, não se há de confundir, reformista para a "melhoria" dos sistemas capitalistas

enfim, com o momento culminante do regresso à e para a sua adaptação às novas exigências e aos

velha ordem, pelo menos no que respeita ao tipo de novos problemas é ainda bastante grande. Há outros,

autoridade política, e muitas vezes só quanto a isso, ao invés, que sustentam que o capitalismo como

retorno que se denomina restauração. Com este termo sistema de organização, produção e distribuição de

nos referimos de preferência a acontecimentos recursos, chegou já ao fundo das suas últimas reservas

históricos bem precisos, ou seja, em geral, à e está perto da ruína. A alternativa reformas-reinstauração do antigo rei ou da casa reinante deposta Revolução não satisfaz, no entanto, pois não deixa e, em particular, à volta dos borbônicos ao trono da lugar às eventualidades historicamente indiscutíveis de

França depois da derrota de Napoleão, em estagnação prolongada de alguns sistemas sem conseqüência da vontade expressa pelas grandes reformas nem Revoluções. Fica ainda por estudar a

potências no Congresso de Viena. possibilidade de que certas reformas tendentes a

fortalecer o sistema existente se transformem e operem

VII. O FUTURO DA REVOLUÇÃO. — Se olharmos o objetivamente como veículos, como cavalos de Tróia

futuro da Revolução à luz das nossas categorias, da Revolução. O profundo ligame que existe entre teremos de nos fazer algumas perguntas concernentes reformas e Revolução, já percebido por Tocqueville, às probabilidades das convulsões revolucionárias, merece um exame mais profundo relativo à situação suas causas, lugar onde podem ocorrer e modos de dos sistemas políticos capitalistas e socialistas da desenvolvimento. Seja que se vêem as causas da segunda metade do século XX. Revolução na suspensão improvisa de um Visto as reformas não terem necessariamente um melhoramento econômico geral, como faz efeito estabilizador, posta de lado a possibilidade, não Tocqueville, no crescimento desigual da renda de a certeza ou quase-certeza, de que sejam algumas classes ou camadas em relação a outras ou no precisamente os países industriais avançados que têm depauperamento do proletariado, como faz Marx, ou de experimentar novas Revoluções, é preciso dizer

então na diferença entre as expectativas e a que, se a depressão econômica, a perda de

capacidade potencial, como faz Gurr, as legitimidade e as crises de representatividade probabilidades de que um ou todos estes constituem as três causas fundamentais de uma acontecimentos se verifiquem, nas Revolução, são iguais as probabilidades de que ela se

verifique em países em vias de

1130 REVOLUÇÃO

desenvolvimento, onde o Governo busca, ao mesmo os resultados alcançados nos países que as sofreram,

tempo, o desenvolvimento econômico, novas frentes mormente no século XX; do outro, à consciência

de legitimidade e novos critérios de adquirida de que os sistemas modernos, dada a representatividade. complexidade dos seus mecanismos de

Nenhuma destas três causas é, todavia, suficiente funcionamento, só poderiam experimentar uma

para dar lugar à convulsão revolucionária. Elas Revolução depois de um ampla desagregação global,

constituem as condições objetivas; mas, se faltarem que tornaria ainda mais difícil a introdução de

as condições subjetivas, a ocasião revolucionária melhoramentos em vastos setores da população. passará. Sublinha-se, pois, a importância da Além disso, a análise dos sistemas modernos

vanguarda revolucionária organizada em partido revela que há sempre em andamento mudanças

político ou em "foco" e ativa na propaganda e na graduais, mas constantes. Estas, como sustentam os

elaboração ideológica, já que o aburguesamento e a críticos, só poderão fortalecer o "sistema" (no

apatia são justamente os maiores obstáculos ao entanto, como é óbvio, tem-se em conta a opinião dos

despertar das massas. Contudo, a vitória da que vêem um debilitamento global, uma crise

Revolução se vai tornando mais difícil por via do inevitável na organização dos sistemas modernos,

crescente poder dos meios de coerção e controle de sem aventar a hipótese de Revoluções iminentes), que dispõem os Governos da época industrial. mas, na grande maioria dos casos, provocam a

Enquanto o exército constituía, com a polícia, o único adaptação às novas situações, sem perturbações

instrumento com que o Governo podia contar para desagradáveis para a população. A perspectiva

reprimir os impulsos revolucionários, sua reformadora parece vitoriosa, tanto desagregação significava ipso jacto o fim da comparativamente, como em si. resistência do Governo. Os atuais engenhos Os excessos e insucessos de muitas das Revoluções

tecnológicos, que podem ser manejados por um aumentaram a consciência de que, em alguns casos,

número relativamente limitado de pessoas, fazem, de elas são uma violência à história, talvez inevitável,

um lado, diminuir as probabilidades de cisão entre os mas, em todo caso, violência. Poderão continuar a ser

detentores do monopólio do poder militar e aumentar, necessárias em variados casos de uma opressão

de outro, as probabilidades de que as explosões insuportável, em que a libertação das forças

revolucionárias sejam violentamente reprimidas. A progressistas tenha de passar por um claro

necessidade, em suma, de os revolucionários terem rompimento com os esquemas do passado. Contudo,

que mobilizar toda a população para enfrentar o o grande ato de criatividade política, que se chama

exército, não poderá senão resultar numa luta Revolução, não só se tornará mais raro, como será

prolongada e extremamente sangrenta. também sujeito a um controle mais estreito dos

O próprio sistema internacional se ressentirá próprios revolucionários, mais atentos às

fortemente do contragolpe que a passagem de um conseqüências e aos resultados da Revolução que ao

Estado de uma forma de Governo a outra, e seu auge visível: o sucesso na mudança completa das presumivelmente de um bloco a outro, representará anteriores relações políticas, sociais e econômicas. para as relações internacionais na era atômica. Mas

nem por isso as Revoluções, entendidas ao mesmo

BIBLIOGRAFIA- H. ARENDT, On revolution. The

tempo como profundas transformações na esfera

Viking Press. New York 1963; J. BAECHLER, Les

política, na esfera social e na esfera econômica, se

phénomènes révolutionnaires, Presses Universitaires de

tornaram impossíveis. Contudo, mudou radicalmente

France, Paris 1970; R. BLACKEY, Modern revolutions

o clima intelectual em que o fenômeno se apresenta.

and revolutionists. A bibliography. Clio Books, Santa

E esta mudança se reflete tanto no comportamento

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dos atores em campo, como na atitude dos estudiosos.

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síntese, se acha hoje em crise a esperança de

1973; J. C. DAVIES, Toward a theory of revolution, in

mudanças palingenéticas, totais e totalmente

"American sociological review", XXVII, 1962, pp. 5-

positivas, não só entre os estudiosos conservadores,

19; When men revolt and why. ao cuidado de J. C.

como também entre os de orientação progressista.

DAVIES, Free Press. New York 1971; ECKSTEIN, The

Isso é devido essencialmente, de um lado, ao cotejo

impact of revolution: A comparative analysis of Mexico

dos resultados superiores em termos de democracia

and Bolívia, Sage Publications, Profissional Papers in

política, igualdade social e desenvolvimento

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econômico, obtidos nos países que não

EDWARDS, The natural history of revolution, University

experimentaram mudanças revolucionárias, com

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ROMANTISMO POLÍTICO 1131

 

Englewood Cliffs 1974; K. GRIEWANK. Il conceito di rivolu- harmônico (os românticos sentem até, mais do que os

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Firenze 1979; T. R. GURR, Why men rebel. Princeton possuem também uma potência positiva quanto ao University Press. Princeton 1970; C. JOHNSON, Revoludies. artificioso, àquilo que é construído de forma

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Bari 1976; K. MARX e F. ENGELS,Rivoluzione e controrivoluzione tempo, o senso do pecado e do mal se tornam um

in Germania (1851-1852), Ediz, Rinascita, Roma 1949; L. elemento constitutivo da mentalidade romântica), mas

PELLICANI, Dinamica delle rivoluzioni. Sugar, Milano 1974; Id., é o vital que traz em si, junto com a possibilidade da

I rivoluzionari di professione, Vallecchi, Firenze 1975; Sociologia culpa e da degeneração, a possibilidade da redenção e

delle rivoluzioni. ao cuidado de L. P ELLICANI, Guida, Napoli do renascimento. Não é possível aqui nem mesmo

1976; Revolution and social change, fascicolo special di mencionar as discussões sobre a gênese do romantismo

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rivoluzioni sociali (1979), Il Mulino, Bologna 1981; C. TILLY, raízes se hão de ir buscar ao sectarismo pietista do

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1978; A. DE TOCQUEVILLE, Scritti politici, ao cuidado de N. aos conventículos maçônicos rosacrucenses da área

MATTEUCCI, UTET, Torino 1969; L. TROTSKY, Storia della católica (franceses, renana, bávara), ou seja, mais Rivoluzione russa (1932-1933), Sugar, Milano 1964; R. C. simplesmente, bastará lembrar o Rousseau de Nova TUCKER, The marxian revolutionary idea, Norton, New York Heloísa e das Confissões, ou certos escritores ingleses, 1969; J. WODDIS, New theories of revolution. International suíços e italianos (Alfieri). O que é comum a todos

Publishers, New York 1972. esses antecedentes é a atitude polêmica em face do

racionalismo que, com suas convenções e leis, pôs

[GIANFRANCO PASQUINO] ordem nos fenômenos do mundo, mas, ao mesmo

tempo, não soube descobrir um significado que

transcendesse a descrição superficial do fenômeno:

daí a redução das relações inter-humanas a "leis"

mecânicas como as do mundo físico; daí a

impossibilidade de explicar a vida que vibra até no

Romantismo Político. inorgânico e que dele se lança a formar o organismo,

tanto natural como social.

I. P O direito natural, na sua forma extremista ROBLEMAS GERAIS . — Romantismo político ou

política romântica é uma expressão que nunca foi (Rousseau), queria o restabelecimento de uma lei

adotada como divisa ou denominação de um originária; esta, tudo considerado, podia manifestar-se movimento político, qualquer que fosse; foi-lhe, claramente, através do testemunho concorde do

quando muito, atribuída com intenções satíricas e coração e da razão, nos homens que a civilização

polêmicas pelos adversários ou, para fins de urbana, mercantil e palaciana não tinha ainda conceituação, corrompido radicalmente. Os conventículos religiosos pelos historiadores. O termo

"romântico" nasceu em ambientes literários e com queriam repor em sua grandeza o verdadeiro

significados não unívocos. A. W. Schlegel, em suas cristianismo, com seus mistérios e com a experiência

lições em Berlim sobre a história da literatura da ascese individual, contra uma religião reduzida a

romântica (1802-1803), incluiu sob esse título todas as um mero moralismo. Estas e outras inspirações

manifestações literárias sucessivas à queda do Império análogas passam para o romantismo que, no entanto,

Romano, desde a mitologia germânica até T. Tasso ou busca também algo muito mais inefável: a linguagem mais além. Se tão ampla acepção não foi, em geral, originária, repleta de potencialidades semânticas,

seguida, o romantismo assumiu e conservou o depois perdidas; o espírito do povo ou o caráter significado de "moderno", que implicava a rejeição do nacional; o íntimo de uma personalidade, coletiva e

convencionalismo acadêmico e superficial, de individual, capaz de estimular ainda aventuras de ação imitação preponderantemente francesa. Por "moderno" e sentimento; uma "nova mitologia", fundamento, por não se entendia um modelo qualquer, mesmo literário sua vez, de uma nova poesia. (embora a redescoberta de Shakespeare, e, sob um Este conjunto de aspirações e de estilos mentais

outro aspecto, a de certos escritos de Rousseau ou dos tinha também reflexos políticos — de oposição ao

ingleses, exercessem uma grande influência), mas despotismo iluminado, ao Governo principalmente a sensibilidade por conteúdos aos quais

a mentalidade anterior não prestara nenhuma atenção:

o elementar, o primitivo, a força incontrolada, que

possuem certamente uma potência negativa quanto ao

1132 ROMANTISMO POLÍTICO

 

jacobino e, depois, napoleônico, ao sistema de livro de R. Haym, A escola romântica (1870), no qual Metternich — mas não era um movimento político a dimensão política está praticamente ausente do

nem era como tal considerado, pelo menos no plano primeiro romantismo, e as lições napolitanas de De

europeu. Em 1829, por exemplo, G. Mazzini Sanctis (1872-1874). É preciso chegar ao declarava o romantismo um "vocábulo de tal modo Cosmopolitismo e Estado nacional de F. Meinecke indeterminado que cada um lhe pode colar facilmente (1908) — onde se achava implícito também o trabalho

sua própria quimera"; pouco depois (1836) o de interpretação e de pesquisa de Dilthey — para que

considerava já esgotado: "a doutrina romântica é a apareça, no título de um capítulo, a expressão

doutrina da individualidade: c, por isso, capaz de Romantismo político e para que vejamos expostas,

destruir as velhas tiranias literárias, mas incapaz de embora sumariamente, as idéias de Novalis, F.

criar uma nova literatura". Schlegel e A. Müller, que continuaram, porém, sendo

Na França, nos anos em que foi mais viva a objeto de uma atitude crítica, quer pelo seu

discussão sobre o romantismo, não surgiu nenhum universalismo, que tornava suas idéias inaptas para se

"partido romântico; isto também devido a que inserir no Estado moderno, quer pelo seu

personagens que, na tendência literária, figuravam "naturalismo".

como românticos, apresentavam diferentes e opostas Mas já algumas décadas antes que Meinecker

atitudes políticas. E até na Alemanha, onde quase redigisse sua obra, a crise européia de 1870-1871 e o

desde o início o movimento tinha alimentado uma surgimento de várias escolas decadentistas, onde

vigorosa reflexão política, foi preciso chegar aos anos continuava o fermento da tradição romântica, tinham

de 1839-1840, para que, numa série de artigos posto em questão tanto a ideologia do progresso como a

publicados por A. Ruge e Th. Echtermeyer sobre os do Estado nacional-liberal. Inicialmente na França,

"Hallische Jahrbücher" e numa caracterização que depois em muitos outros países da Europa, o mal-

continuava sendo predominantemente literária, se estar social, o crescimento de movimentos de

superassem as costumeiras acusações contra os inspiração cristã e a insatisfação quanto ao

românticos convertidos ao catolicismo (A. Müller, F. parlamentarismo, tornavam de novo atuais muitas

Schlegel, etc.) e se tentasse um discurso mais idéias românticas. Mas também então não se usou o

elaborado que sistematizou, baseado cm esquemas termo, continuando assim a confusão sobre o modo de

parcialmente hegelianos, uma série de juízos antigos e julgar o movimento cultural que ele expressava: houve

recentes; a importância, por exemplo, do motivo do quem o considerasse como historicidade, significado

"retorno", um retorno "refletido", isto é, não espontâneo do processo orgânico gradual contra o doutrinarismo

e normal (uma avaliação crítica que se manterá da raison raisonnante, como reivindicação da

constante na tradição historiográfica liberal; na Itália, consciência coletiva contra o individualismo (Taine,

por exemplo, ainda se encontra em A. Omodeo); a Renan, Barrés) e quem, pelo contrário, acentuasse os

derivação do subjetivismo romântico do princípio elementos individualístico-demoníacos, imoralistas e

protestante; o romantismo com uma das explosões estetizantes: o espírito romântico seria o herdeiro da

periódicas do irracional contra a razão, onde se podiam Reforma e da Revolução, o antilatino (Maurras).

encontrar unidos mesmo grupos que se hostilizavam Na Alemanha, nos primeiros trinta anos do século

violentamente, como os pietistas, de um lado, e a XX, houve quem, como C. Schmitt, impugnasse

"Jovem Alemanha", do outro. Contudo, nestes artigos, fortemente a própria idéia de que do espírito

não se levavam a sério as doutrinas especificamente romântico pudesse derivar uma "política", e quem,

políticas do romantismo alemão: aventava-se a sua pelo contrário, sob este termo, se esforçasse por reunir

periculosidade, mas, ao mesmo tempo, se manifestava os traços de uma atitude social solidária, ao mesmo

claramente que não valia a pena enfrentá-las em debate; tempo nacional e universal (O. Spann e sua escola).

mesmo quando, em 1840, a ascensão ao trono de Tem-se estabelecido com freqüência uma certa

Frederico Guilherme IV parecia dar um caráter oficial identidade entre romantismo e direita política; mas,

às ideologias românticas, a esquerda liberal-mesmo prescindindo do fato de que entre os teóricos

democrática tentou delas se livrar de forma satírica, de direita estavam os fautores de uma política

imitando o método com que os iluministas, no século "científica" e os elitistas, é mister observar que os

anterior, haviam combatido o trono e o altar. fascismos europeus, em sua propaganda, evocaram

O caráter não político ou, ao máximo, metapolítico antes o "clássico" dos grandes impérios (ou, em suas

do romantismo se acentuou nos anos seguintes a franjas tecnocráticas, a moderna organização militar-

1848; bastará aqui lembrar o grande industrial) do que a pitoresca e vital desordem da vida

pré-absolutista.

ROMANTISMO POLÍTICO 1133

Falou-se, também, de romantismo fascista,

entendendo-se por esta expressão o culto dos feitos II. O ROMANTISMO POLÍTICO NA ALEMANHA.

heróicos e da morte gloriosa, o uso de cerimônias que — Com este termo se entende o movimento que

difundisse nos participantes o sentido» místico de uma começou a se manifestar na última década do século

comunhão com a terra e os mortos. Tratava-se, porém, XVIII, que teve entre os seus representantes os irmãos

de técnicas de mobilização de massa, praticadas Schlegel e Novalis, A. Müller e F. Bader,

também nas formações políticas opostas. E, por outro Schleiermacher e Schelling. e que se havia já

lado, determinadas faixas das várias escolas neo- politicamente exaurido em torno de 1840. Do ponto de

românticas e decadentistas foram sempre vista sociológico, estes provinham, em grande parte, "revolucionárias": se os futuristas vacilaram entre o daquela classe de eclesiásticos e funcionários que

fascismo e o comunismo, os surrealistas se mantiveram constituía uma das estruturas de apoio do Estado

sempre na extrema esquerda; e existe, sem dúvida, territorial. Enquanto seus antepassados se limitaram a

uma ênfase romântica no. célebre mote das desempenhar funções subordinadas e basearam sua manifestações de maio na França, em 1968: "a honra no serviço, os românticos, em suas primeiras

imaginação no poder". declarações e em suas opções pessoais de vida, se

Querendo tentar uma definição do Romantismo situam num plano completamente diferente. "Temos

político, é preciso partir da relação indivíduo-todo. que ir além do Estado, porque todo Estado é obrigado a Uma das atitudes mentais mais fixas nos românticos tratar homens livres como engrenagens de uma das várias épocas e de vários matizes é o esforço por máquina", é assim que se lê no chamado Aeltestes

substituir uma relação social "mecânica", isto é, Systemprogramm do idealismo (1796). E esta posição é inspirada em critérios meramente funcionais, por uma muito mais típica do que a atitude para com a relação "orgânica", em que os indivíduos e grupos Revolução Francesa, pela qual, inicialmente, os manifestem o seu caráter, embora cooperando, antes, românticos têm imensa simpatia, por verem nela exatamente por cooperarem com os outros. Os aquela ascensão de uma geração jovem e aquela românticos não aceitam a distinção, elaborada no ruptura dos velhos quadros, que na Alemanha parecia período do absolutismo, mas em seguida retomada pelo tão longe e extremamente remota. A influência da liberalismo, entre público e privado; nem aceitam uma moral kantiana e especialmente a da primeira fase de relação de mera subordinação, porque isto seria não só Fichte orientam mais para uma regeneração moral e "atomístico" como despótico. Não importa que existam cultural do que diretamente política: este é um outro "garantias": elas são vãs, se fundadas somente em leis aspecto importante, no sentido de que, no primeiro escritas e são suscetíveis de soçobrar na anarquia ou na período, o romantismo é completamente indiferente ao tirania. Um contexto social, onde o indivíduo se sinta debate sobre as formas institucionais e os problemas

satisfeito, exige um vínculo de amor que é, ao mesmo sociais, enquanto que ele é sumamente importante na tempo, sentimento de dependência: a articulação entre França. Nestes anos, a questão nacional também não os grupos torna naturais e claros os deveres que se teve muita relevância. Pensava-se mais, ainda dentro de exigem de cada um: a família, a classe, o município, a uma visão cosmopolita, numa renovação do gênero Igreja, o Estado são outros tantos contextos, humano, à qual os alemães darão sua contribuição intercomunicantes e relativos, entre os quais o que revolucionando as idéias, como os franceses tinham existe não é tanto o equilíbrio mas a harmonia. Pode feito na área política. A viragem se deu no início do bem ser que surjam conflitos; mais, pela presença do novo século. Tem-se falado, freqüentemente, de uma "mal" — dirão certos românticos —, pela "desilusão" dos alemães pelo êxito da Revolução "contradição" que brota da raiz autônoma de cada um Francesa e pela política realística de potência desses núcleos — dirão outros — tem de haver conduzida pela República e. em seguida, pelo Império, conflitos; eles fazem parte de um ritmo eterno, com relação à Alemanha. É típica, a respeito, uma frase desconhecido em seus particulares, que rege a vida do de Görres (1800), na qual, ao reconhecimento da gênero humano. necessidade daquilo que acontecera se junta uma

constatação prenhe de conseqüências: "A França, para

Estes motivos teóricos, de formas mais ou menos

diferenciadas, acompanham toda a história do garantir sua Romantismo político até o nosso século. Neste último,

porém, tais motivos se misturaram com elementos de

origem a mais diversa, tornando-se impossível

continuar a usar a expressão em sentido específico. Na

apresentação esquemática das doutrinas românticas

convirá, portanto, atermo-nos às elaborações por que

passaram no século passado, mencionando apenas as

inquietações que transmitiram ao nosso século.

1134 ROMANTISMO POLÍTICO

 

existência perante os perigos que a ameaçavam de garantir a paz internacional, sem, porém, lesar a

todos os lados, fez o que faz nesses casos o filho da individualidade das "nações" e das unidades estatais

natureza (...). Com essa manobra se salvou do abismo menores. De forma mais sistemática, mas também que ameaçava tragá-la, mas se colocou com isso no mais fechadas, prelúdio já da Restauração, idéias

mesmo plano dos demais Estados e a sua revolução semelhantes foram expostas por A. Müller, em seus

perdeu aquele interesse cosmopolita universal pelo qual Elemente der Staatskunst (1809). Longe do ela, no início, se tornara a causa de todos os povos". universalismo de seu velho amigo Schlegel, também

Verifica-se, pela primeira vez na história da Europa Schleiermacher não tolera que o Estado absorva em si

moderna, o conflito entre a idéia de uma revolução todas as funções: antes de tudo, ele não tem

que pretendia ser universal e se tinha encarnado numa competência sobre a alta cultura e, além disso, só

nação, e a necessidade de sobrevivência dos outros pode "estimular" a atividade dos cidadãos, não

povos como entidades autônomas. Todas as "reduzi-los a escravos", fixando-lhes tarefas inteligências um pouco atentas estavam convictas de obrigatórias. Se se reduzirem ao essencial as teses dos

que a Alemanha só poderia sobreviver se se reformasse românticos, não será difícil encontrar muitas analogias

radicalmente: mas, enquanto os políticos escolheram a entre eles e os "liberais"; é comum a ambos a

via de uma '"revolução do alto", os românticos convicção dos "limites" da autoridade do Estado, a

começaram a falar de um novo tipo de Estado. hostilidade contra o espírito de conquista, a defesa,

Novalis, já em 1798, evocara um estado enfim, da área do social contra a supremacia do "individualizado" em que a "massa" fosse animada político. A diferença decisiva é que, para os liberais, a

pelo "princípio vital", isto é, pelo monarca. forma do social está subordinada ao interesse do

Schleiermacher não admitia que o Estado fosse indivíduo e depende em todo momento do seu livre

considerado um mal necessário, um instrumento cuja consenso, enquanto que, para os românticos, o social

única função fosse a repressão dos vícios humanos, é algo anterior ao indivíduo, algo que o vincula. A sua

mas o apresentava como uma instituição destinada a ânsia de estabilidade e de ordem social não é mero

assegurar o gozo de uma vida integral, como a espírito de reação, embora na prática tenha levado

entidade coletiva pela qual todos haviam de estar freqüentemente a apoiar tendências realmente prontos a sacrificar-se. Enquanto alguns expoentes do reacionárias; é uma desconfiança invencível contra as

movimento, quando falam da nova forma de Estado, pretensões do poder, isto é, da burocracia ou das

pensam ainda na r.ó^-Z antiga, há quem indique um assembléias, de intervir em todas as esferas da vida e

outro modelo, mais tipicamente "nacional", isto é, o de manipulá-las e modificá-las. As "revoluções" a que

modelo medieval germânico, onde a autoridade do tinham assistido não lhes pareciam promovidas pelas

poder temporal era limitada e guiada por uma forças vivas do próprio corpo social, mas resultantes do

autoridade espiritual, a da Igreja. A primeira e mais esforço violento do poder (não importa se encarnado

famosa expressão deste pensamento se encontra no num comitê revolucionário ou em um monarca) para

escrito de Novalis Die Christenheit oder Europa desviar a sociedade do seu curso espontâneo, a fim de

(1799). Embora Novalis não pensasse em fazer reviver enfraquecer sua resistência. Para os românticos, os

as forças históricas da velha Europa — a Igreja e o ordenamentos, quer políticos quer sociais, não se

Império — e, na peroração final, sugerisse apenas um constroem à base de elaborações racionais: são mais "concilio europeu" que promovesse a renovação do que tudo o resultado de uma evolução que é religiosa, de que as demais reformas seriam uma histórica, mas, sobretudo, história "natural". Quer que

pacífica conseqüência, fica claro que, com o seu se invoque a Índia, mãe das religiões, como faz F.

manifesto, se acusava o individualismo burguês, ao Schlegel, quer a tradição mosaica, como faz A.

qual, em última análise, se imputava a Müller, o que se quer demonstrar é uma espécie de responsabilidade das guerras e das revoluções que permanência dos membros fundamentais do abalaram o mundo. Estes motivos são mais ou menos organismo que são as comunidades humanas; a o esboço sobre o qual se articulam tratados mais família, as classes sociais, a nobreza, o clero, a

elaborados, tais como as Lições (1804-1805) de F. monarquia são instituições que sempre existiram; elas

Schlegel, onde se reafirma a necessidade de uma se sustentam e asseguram o livre jogo das forças tanto

organização corporativa (ständisch) da sociedade, bem éticas como vitais, se os homens que delas fazem

como a supremacia da classe clerical, à qual cabe uma parte se identificam com as mesmas, desempenham

espécie de poder de vigilância ("negativo") sobre o coerentemente o tipo humano ligado a essas funções e

comportamento da autoridade laica. Também Schlegel não acham possível mudá-lo com outros. Só existindo

fala de uma organização, o império, que deverá este vínculo estável entre os homens, de um lado. e as

ROMANTISMO POLÍTICO 1135

 

instituições e as "coisas", do outro, é que se pode falar III. O ROMANTISMO POLÍTICO NA FRANÇA.

de "representação" no sentido político, porque os — Fora da Alemanha, o romantismo alemão exerceu

deputados não serão portadores das opiniões mutáveis grande influência cultural, enquanto que a influência

de um grupo de indivíduos, mas dos interesses de política direta foi muito menor. Antes de tudo porque

corpos sólidos e permanentes. era difícil colher os elementos de oposição presentes

Não deve maravilhar que, quando nem a nos escritos dos românticos e considerados um mero

restauração atendeu às suas expectativas, as reflexões suporte ideológico da restauração. Depois, porque, por

políticas dos românticos assumissem um tom cada vez intermédio da senhora de Stael e do círculo de Coppet

mais apocalíptico e de condenação inapelável do (e, em seguida, por outras mediações), se foi impondo presente. Também a confiança na função positiva do uma imagem do romantismo essencialmente sincrética,

livre jogo das forças naturais falhou. A Müller, em onde motivos de origem também francesa, já

1819, escrevia que a perene antinomia das forças elaborados no fim do século XVIII (por exemplo, a

humanas pode produzir somente desordens e caos, se relação recíproca literatura-sociedade. a necessidade de

não intervier, para manter a ordem, Deus ou a Igreja uma arte comprometida, sinal dos tempos, e indicadora

por ele inspirada. Isto levava a uma espécie de das funções a desempenhar), se misturavam com

quietismo resignado, tanto mais que começava a se análogas doutrinas alemãs (Herder, A. W. Schlegel);

difundir a idéia de que a Europa já teria entrado na onde, especialmente, a idéia de "progresso" — que

fase descendente de sua história; se, vinte anos antes, evocava Lessing, mas também toda a tradição

Novalis havia escrito que a Revolução era a crise da iluminista reduzia a bem pouco aquela aspiração ao

puberdade, agora tanto F. Schlegel como Baader restabelecimento de uma autêntica escala de valores, começaram a falar de um "futuro eslavo". tão importante na Alemanha. Talvez seja lícito afirmar

que, enquanto na Alemanha as instituições pré-

A contribuição teórica mais interessante se encontra

revolucionárias, embora em via de rápida

nas polêmicas contra o constitucionalismo liberal, que

transformação, pareciam oferecer uma continuidade e

os românticos qualificam abertamente de ideologia da

mostravam uma vitalidade que permitia crer na

burguesia financeira; a posição de alguns deles assume

possibilidade de reconduzi-las às suas funções

agora precisas conotações sociais, em defesa dos

essenciais, na França, a revolução e o império tinham

pobres ou, como começava a dizer Baader, dos

fortalecido enormemente aquele Estado centralizador e

"proletários". Em alguns escritos que este compôs após

burocrático que era, para os românticos, a imagem do

a revolução de julho, e que são certamente inspirados

mal da época moderna. Na França, a nobreza não

no "L'avenir" de Lamennais, é desenvolvida uma

conseguia exercer um papel político senão

severa crítica contra a moderna economia industrial:

enfraquecendo a coroa; o mesmo fizeram o clero e o

fala-se de crises recorrentes, de diminuição dos

laicado católico mais ativos, logo que repararam que,

salários, da progressiva concentração dos lucros, de

malgrado a atribuição à Igreja de grande

uma conjuração permanente dos industriais contra os

reconhecimento e de vantagens materiais, a monarquia

trabalhadores dependentes. As dietas — nas quais só

não podia tornar-se ultramontana e conservava o que

participa, pelo princípio censitário, a burguesia

restara da tradição gálica.

abastada — legiferam visando ao interesse exclusivo

dos ricos: de que admirar-se, pois, se essas massas, às Embora houvesse, em termos particulares, certa

quais a própria burguesia deu o nome solene de confluência e, às vezes, uma colaboração mais ou

peuple, recorrem à insurreição armada? Para poupar à menos duradoura, não podem ser confundidos os Alemanha as convulsões de que já era vítima a França, tradicionalistas (Bonald, Maistre, o Lamennais da

Baader propunha confiar a representação dos primeira fase) com os românticos (Chateaubriand, o

trabalhadores ao clero, que poderia assim voltar à sua Lamennais dos anos posteriores a 1824, P. Leroux e

função "originária" de representante - dos pobres. Se seus discípulos). Os românticos franceses puderam ser

recordarmos que, para o próprio Baader, o também tradicionalistas, mas com motivações intelectualismo e o progressivo afastamento do povo essencialmente diferentes das dos outros pensadores da

são a causa da decadência das Igrejas ocidentais, nesta contra-revolução; a estes uma teoria natural do poder e

sua proposta temos que ver algo mais do que um da ordem pouco ou nada interessava; aspiravam, mais

artifício paternalístico; ele visa a uma verdadeira do que tudo, a um sistema político e social que

renovação da Igreja e, através dela, da ética social. dispusesse de um amplo consenso; a oscilação entre a

direita e a esquerda, pela qual foram freqüentemente

acusados de superficialidade ou fraqueza de caráter,

era simplesmente a tentativa de entrar em

1136 ROMANTISMO POLÍTICO

 

contato, para dirigi-las, com forças mais vitais do que industrial, o "maquinismo", unem as forças "sem unir

as controladas pelo aparelho governamental- os corações" e tornam impossível a força moral da eclesiástico, que eles consideraram clara e associação. À polêmica contra a burguesia e o freqüentemente ineficiente. Muda, às vezes, a direção cosmopolitismo "judaico" dos bancos segue-se a

da polêmica, mas o núcleo ideológico é bastante polêmica contra o comunismo e o internacionalismo: a

estável. O Lamennais democrático, por exemplo, propriedade é um estímulo natural, enquanto as nações

continua, contra os Bourbons ou os Orleans, a mesma são "notas" do grande concerto da harmonia cósmica:

campanha feita contra Napoleão ou os "liberais" da quanto mais o homem se eleva, tanto mais aumenta "a

primeira restauração. Ostenta indiferença perante os originalidade distintiva" do "sistema" a que pertence.

problemas de técnica e estrutura constitucional: cada Embora sendo, no debate político, de posições

Governo é para ele sempre tendencialmente despótico. abertamente democráticas, Michelet redescobre grande

A única proposta política sobre que insiste parte dos motivos do romantismo conservador, do qual

incansavelmente é a de uma organização do povo, o separa, de resto, a fé no progresso, e a recusa de

culminante numa confederação de comunas; continua eliminar a revolução da tradição nacional; ele realiza,

aqui, em forma nova, a polêmica inicialmente "contra- portanto, uma início do nosso século, com Barrés e

revolucionária" contra o conceito de "nação", que, com Péguy. aliás, para Lamennais significa apenas "patriotismo

local", foco de guerra. Não falta também, em Palavras IV. O ROMANTISMO POLÍTICO NA ITÁLIA. —

de um crente (1834) e em tantos outros escritos, o tom Na Itália não existiu uma literatura da contra-revolução

religioso-apocalíptico: "Satã agora se encarna não só em nenhum nível. Os acontecimentos bastante

nos reis-tiranos, mas também nos ricos que exploram o significativos da resistência popular antifrancesa (que 'pobre' " (o capitalismo, segundo ele, é o herdeiro do em certas regiões do Sul se tornaram uma autêntica

protestantismo e do iluminismo). guerrilha) não foram utilizados, no campo ideológico,

Estes golpes contra a burguesia moderna da pelos governos da restauração. Não era absolutamente

indústria e das finanças são freqüentíssimos também um romântico aquele K. L. v. Haller, cuja Restauração

nos escritos do grande historiador e fecundo escritor J. da ciência política teve quatro reimpressões entre 1816

Michelet. Seu romantismo é culto do "povo": neste, e 1854; Maistre voltou para Turim e aí morreu no

das origens célticas em diante, e não na monarquia, é isolamento; Chateaubriand e o Lamennais da primeira

que ele vê a continuidade da história da França. fase, embora traduzidos, não tiveram grande aceitação.

Especialmente na segunda metade de sua vida, ele Entre as classes cultas, a reação antinapoleônica

dizia que os seus mestres "italianos" (Virgílio e Vico) assumiu logo um aspecto "liberal". Os anos que

o tinham protegido contra o nebuloso germanismo; decorreram entre o 1814 e o 1821, isto é, antes que a

mas devia muito a J. Grimm e a Herder (traduzido repressão que seguiu aos motins, eliminasse qualquer

pelo seu amigo E. Quinet); embora talvez ignorasse A. intercâmbio público de idéias, foram chamados os Müller, tem expressões análogas quando fala do anos da "tempestade romântica"; mas por muito conúbio do camponês com a terra, do francês com o importante que tenha sido este breve período, que viu a

solo da França. Era um tema corrente, nas primeiras atuação audaciosa do "conciliador" e a apaixonada

décadas do século XIX, a admiração pelo "brigante" aventura intelectual de Di Breme, não é possível

calabrês, o "clefta" grego e o guerrilheiro espanhol: encontrar nele um pensamento político de alguma

somente povos que a civilização ainda não nivelara forma original. A influência decisiva do círculo de

pareciam capazes de paixões e de atos heróicos. Estas Coppet e de Sismondi difundiu a aspiração a uma simpatias não são estranhas a Michelet; mas ele está atualização radical da cultura; querendo estabelecer

também convencido de que a individualidade rebelde uma analogia com a Alemanha, é preciso estabelecê-la

do Sul da Europa não está à altura do mundo moderno; mais com a de 15-20 anos atrás do que com a é necessário o "trabalho de um povo sobre si mesmo", contemporânea, da restauração: de resto, também no o que só acontecera na França, para ela poder indicar o fim da década de 1820, quando as revistas francesas e

caminho do progresso que é também o da liberdade. inglesas realizaram uma ampla obra de informação

Mas Michelet quer salvar também o papei da sobre o pensamento alemão, Mazzini se "barbárie" e declara aceitar, para o povo e para si, o

apelido de "bárbaros", isto é, "cheios de seiva nova",

amados da terra, à qual dedicam "calor e força viva".

O "instinto" de que o "povo" é dotado lhe assegura

uma imensa vantagem pára agir e o induz a aceitar

sem dificuldade as desigualdades funcionais, colocadas pela própria natureza, e não opressivas, se

transfiguradas pelo amor e pelo serviço — a família e

o exército, por exemplo. Pelo contrário, a civilização

ROMANTISMO POLÍTICO 1137

 

inspirou em Schiller e Herder, em Fichte ou em dificilmente refutáveis: declarava, por isso, que a

Lessing mais do que nos Schlegel. premissa de um novo vínculo entre os homens era o

G. Mazzini é considerado como o representante amor, sentimento ao mesmo tempo natural e

mais típico do romantismo democrático europeu. Serão espiritual, cujas mensagens não precisam de ser

mencionados aqui, não o seu pensamento em geral, demonstradas senão por via negativa, indicando a que

mas apenas seus aspectos especificamente românticos. conseqüências desastrosas leva a mente calculista,

Estes não são nem a idéia da unidade nacional nem os quando é tomada como princípio de ação coletiva; e

planos conspiradores e insurrecionais. Antes de tudo, era, aliás, baseado no seu fracasso prático que ele

pomos em evidência a sua desconfiança (posta de condenava tanto o liberalismo como os programas

lado aquela "ciência falaz" que é a economia) em socialistas. Quanto à Itália, a vitória de partido

relação à "política", termo com que ele designa o moderado tinha, segundo Mazzini, tornado vãos os

proceder oportunista ligado ao "fato" e não aos esforços heróicos dos revolucionários; e as "princípios": à política se opõe a "religião" "elemento dificuldades do Estado unitário após 1860 foram por

universal e imortal". Coerentemente, ele não ama o ele imputadas à deficiência dos princípios sobre cuja

"Estado", fala contra vontade da "democracia" e base se constituíra. O revisionismo do ressurgimento,

prefere chamá-la "associação", que, na sua a crítica ao liberalismo e a insatisfação do presente se linguagem, indica juntas sociedade e comunidade. O alimentaram, ainda por algumas décadas após sua

povo "com seus instintos de agir e com a sua imensa morte, de seus escritos. força de tornar em realidade o verdadeiro", é chamado

a ser o sujeito da história; mas, por deficiência de V. O ROMANTISMO POLÍTICO NA RÚSSIA.

"educação", não vê claramente os objetivos e os meios Já se disse que o romantismo é concorde em

para atingi-los. Note-se que Mazzini não apela para polemizar, tanto à direita como à esquerda, contra os

uma barbárie sã e fecundadora, mesmo porque, valores moderno-burgueses. No Ocidente, esta crítica se embora não renunciando a falar freqüentemente do mantinha dentro de uma civilização da qual se

suceder-se dos povos na história universal, ele olha a admirava pelo menos o esplendor do passado; às forças

evolução da "humanidade", "verbo vivente de Deus" às quais, em cada caso e em cada área geográfica, se

que, na humanidade, se "encarna sucessivamente" atribuía o papel de representantes do espírito nacional através dos princípios que marcaram a história (monarquia, clero, nobreza, povo), se continuava a universal. atribuir vitalidade e, se restauradas ou renovadas, um

Este sentido de um contínuo progresso não está papel positivo. Mas já na mente de alguns românticos

separado do convite a interrogar a "tradição da surgira a idéia de que a "Velha Europa" dificilmente

humanidade". Aqui há pelo menos uma oscilação sairia da crise e que, entre povos antigos, apenas entre a procura dos valores permanentes da história, atingidos pela civilização moderna, os eslavos, se

segundo os quais o novo seria um despertar do antigo, encontraria talvez o herdeiro. Foi exatamente na

e o anúncio, como mensagem da "Bíblia da Rússia, no movimento eslavófilo, entre os intelectuais, humanidade", de um progresso "ao qual ninguém pode na maioria de origem aristocrática, que se alimentaram fixar limites". A sua opção é mais nesta segunda da mais recente cultura alemã, francesa e inglesa, que

direção; portanto ele não propõe uma pura e simples conheciam os filósofos idealistas e os românticos, os

volta aos valores que caíram em desuso por culpa de tradicionalistas e os socialistas utópicos, foi lá que a uma civilização corruptora. As fases de decadência busca do caráter e, portanto, do papel presente e

talvez sejam aquelas em que um valor esgotou sua futuro do próprio povo, se colocou em antítese com a

potencialidade, cessou de inspirar "fé" e abriu tradição ocidental, uma tradição que, a partir de

caminho ao egoísmo. Não é o egoísmo em si que pode Pedro, o Grande, as classes altas, sob o impulso da ser reavivado, mas o espírito progressista que dele fez coroa, se esforçaram por assimilar. Os eslavófilos não

um valor e que se manifesta através da proposta de se limitaram a deplorar a degeneração de estruturas

um princípio novo. intelectuais e políticas que no passado tinham

desempenhado sua função; criticaram-nas em bloco,

Passando dos esquemas da história universal às

alertando o Governo e o povo para não fazerem seus

questões contemporâneas, a crítica de Mazzini vê o

não somente princípios estranhos ao espírito eslavo,

defeito do presente — inclusive da Revolução

mas também princípios que, no Ocidente, tinham tido

Francesa — na falta de um autêntico espírito

um clamoroso fracasso. E já que, por razões óbvias, o

religioso; é muito conhecida sua polêmica contra a

processo de modernização do império russo não podia

teoria dos "direitos", a que apunha a teoria "dos

parar, se reproduziu, numa forma

deveres". Ele bem sabia que, por via racional, os

argumentos do "egoísta" são

1138 ROMANTISMO POLÍTICO

mais grave, aquele dissídio que se verificou na corrupta. Eram implacáveis suas críticas contra as

Alemanha e na França logo após 1814: o dissídio entre vulgaridades do mundo burguês, a "mentira" do

a estrutura política aristocrática e os românticos, que parlamentarismo, a despersonalização induzida pela

criticavam não tanto a autoridade, quanto o conteúdo economia capitalista. O povo russo, ainda "jovem",

que ela assumia. E os eslavófilos puderam aparecer, tinha que percorrer a sua estrada, salvando do declínio

reproduzindo todos os matizes do romantismo a si mesmo e conjuntamente a verdadeira civilização.

ocidental, como liberais e reacionários, populistas e Isto explica por que, na segunda metade do século, o

aristocráticos, ortodoxos e heréticos. originário pacifisco se muda em expansionismo e a

Os eslavófilos — não é possível aqui analisar as eslavofilia conflua, em parte, para o pan-eslavismo.

diferenças entre cada uma das personalidades; Mas isto fica apenas mencionado. mencionamos só os nomes de Caadaev, Kireevskji, Muito importante é a elaboração das idéias

Chomjakov e K. Aksanov — estavam de acordo em eslavófilas dos dois maiores escritores russos da

ver como sujeito principal da história russa não o segunda metade do século XIX, Tolstoi e Dostoievski.

Estado, mas o "povo", ou também "a terra"; a O primeiro desenvolve uma elaborada e sutil critica à

"impoliticidade" em que o povo eslavo tinha sido idéia ocidental de que são os homens que dirigem a

mantido era considerada por eles como um benefício, história: o seu ponto de chegada foi a não violência e a

como uma livre escolha que ele mesmo tinha feito: a utopia da vida camponesa. O segundo, que conhecera

escolha daqueles valores éticos instintivos que se as misérias do intelectual pequeno-burguês, deixou

expressavam na comunidade agrícola, na ausência do cair o arcaicismo de tantos eslavófilos; os seus

conceito "romano" de propriedade pessoal e da personagens, "homens do subsolo" ou "demônios", são

obsessão da afirmação individual. Herdeiro da Grécia contemporâneos impregnados da cultura ocidental, e é

arcaica e, depois, de Bizâncio, separado daquela Igreja esta a raiz de seu desespero e de seus delitos, enquanto

católica que tinha recebido de Roma o espírito jurídico a redenção se encontra nas almas simples, religiosas,

e imperial, o povo russo era, é verdade, menos na volta ao povo. A consciência de que já estava em

civilizado do que os ocidentais, mas isso porque nunca jogo o destino de toda a humanidade leva Dostoievski

tinha cultivado ambições "amorais", que se para um messianismo religioso-político, em que à manifestem quando as forças interiores se Rússia era confiada a tarefa "da solução definitiva das enfraquecem e fica como única fonte de legitimação o contradições européias"; ele falou também de

sucesso. O povo russo nunca foi belicoso, exceto "socialismo russo", tentando uma alternativa para o

quando teve de salvar sua identidade; sua nobreza socialismo operário classista: era também este um

nunca esteve animada pelo particularismo feudal; seus motivo típico dos românticos do século passado e do

comerciantes ignoravam o espírito capitalista, o seu nosso. clero de bom grado entregava a César o mundo, desde Se os eslavófilos, entre os anos de 1830 e 1860,

que com ele ficasse a parte de Deus. Esta tomaram tantos temas do romantismo alemão

"impoliticidade" não significava indiferença pelas (Schelling era o mestre reconhecido por muitos deles),

coisas terrenas; implicava antes que o que cada um no fim do século XIX e no início do século XX as

desempenhava no âmbito dos próprios deveres de obras da grande literatura russa voltaram a propor ao

classe era já "social", porque inspirado naquela Ocidente muitos dos temas do romantismo, "devoção" que é o único cimento possível da vida vigorosamente atualizados e filtrados também através

coletiva. Os funcionários e os militares eram da experiência positivista. Junto com Nietzsche, os

"servidores do Estado", não donos do povo: russos estiveram entre os maîtres à penser da geração prerrogativas e privilégios eram a recompensa do que, antes de 1914, se propusera encontrar uma

serviço por eles desempenhado. Quanto ao monarca, alternativa para a sociedade industrial e liberal

ele nunca devia ter medo de seu povo, que nunca se européia do século XIX. revoltou contra ele, mas devia protegê-lo, isto é,

permitir-lhe continuar a viver segundo sua própria VI. AS CARACTERÍSTICAS TÍPICAS DO ROMANTISMO

inspiração. O ideal, ostentado, da monarquia popular POLÍTICO. — Querendo evidenciar os traços políticos estava cheio de implicações antiburocráticas e do romantismo, é preciso, antes de tudo, frisar que não

antiabsolutistas — daí se entende a desconfiança com existiu um movimento ou partido político romântico,

que Nicolau I olhava o povo. no mesmo sentido em que, no século passado e no

Os eslavófilos julgavam que os valores russos não nosso, existiram os movimentos liberais, democráticos,

podiam ser exportados; temiam, pelo contrário, o socialistas e nacionalistas. Mas é preciso logo

abraço mortal de uma Europa velha e acrescentar que

ROMANTISMO POLÍTICO 1139

 

existiu (e em parte ainda existe) uma democracia "cidadão"); o soldado é aquele que defende, enquanto

romântica, inspirada no povo, na solidariedade e na o intelectual tem um papel só como guarda da

fraternidade, bem distinta da contratualista; um tradição, como sacerdote ou profeta, no sentido que

socialismo romântico, brotado do tronco da primeira esta função t i n h a explicitamente nas religiões

e oposto ao economista ou materialista; um primitivas, isto é, a função de mediação entre a

nacionalismo romântico, distinto do de origem mobilidade da vida humana e a permanência das

darwiniana. Existiu, enfim, um conjunto de doutrinas forças cósmicas. (não seria correto falar só de sentimentos) que Decorre daí a tenaz hostilidade romântica contra o

fecundou, em medida e com êxitos diversos, de época mundo sem Deus, contra quem vê e avalia a atividade

para época, e de lugar para lugar, os vários somente em termos de produção e de resultados; daí a

movimentos políticos e que, às vezes, transformou segurança de que a redescoberta de um significado

sua orientação. será a verdadeira garantia de um equilíbrio social

Os românticos de várias escolas levaram a sério e salutar, enquanto cada um se sentirá a si mesmo

recolocaram no seu lugar de honra aquilo que como necessário; a idéia de que o progresso, seja qual freqüentemente, na praxe política e na teoria, tinha for, transforma radicalmente ou suprime estas

sido paulatinamente marginalizado. A aspiração a funções é exatamente aquilo que a mentalidade

uma condição, presente ou futura, na qual o romântica não pode aceitar. Ela pode, portanto, ser desenvolvimento de cada personalidade se realize revolucionária quando toma posições contra um

sem implicar injustiças ou conflitos destrutivos (e não sistema que não tem relações com as "potências

simplesmente seletivos), não é certamente estranha ao elementares", conservadora, quando julga que tais

liberalismo, ao socialismo, e nem mesmo ao relações têm ainda vigor e que é preciso defendê-las nacionalismo. Mas o desembocar destas doutrinas em contra a modernização espiritual. formulações predominantemente jurídicas ou Nem esta atitude é exclusiva da linha-mestra do econômicas, ou de política de potência, fez com que romantismo; também muitos pensadores políticos,

elas, aos olhos dos românticos, transformassem o que ostentavam aceitar sem hesitação o progresso

instrumento em fim e fracassassem em seus técnico (Sorel, Pareto, Spengler, só para citar os

resultados. A grande força crítica do romantismo, maiores), desenvolveram temas românticos, quando

reconhecida também pelos seus adversários (que abordaram a temática da decadência de um

talvez vejam nela somente a expresão de uma "ironia" movimento ou de uma civilização. Também estes

ou de um "subjetivismo" que, desde que se faça valer descobriram que a raiz da decadência está no declínio

contra o "real", aceita também ser utopismo) está em do ético (não importa como chamassem este último,

ter captado e enunciado exigências como a que se se "idéia do sublime", "persistência dos agregados"

mencionou ou, se se quiser, em ter explorado as ou "espírito faustiano"), que poderia ser remediado

desilusões, intelectuais e sentimentais, da mentalidade somente recuperando aquela prontidão para o

pós-iluminista. sacrifício, de que a "civilização faz perder o hábito. E

Conforme se disse, é sobre o tema da relação assim como dos românticos da primeira metade do

indivíduo-todo que as peculiaridades do romantismo século XIX se podia dizer que tinham o fascínio, ou

são mais fáceis de ser adaptadas. Ele foge a qualquer até a vocação da derrota, assim no século XX o senso

projeto de engenharia social "moderna" em nome da da irresistível difusão da Zivilisation induziu a

continuidade entre passado e presente, entre natureza cultivar a imagem da catástrofe heróica (até como

e civilização, entre terra e alma (termos típicos do revolta individual: veja-se, por exemplo, Der

vocabulário romântico). Ele julga falaz todo propósito Waldgang de E. Jünger) que pode servir de alimento

de tornar feliz o homem aqui e agora, se a para a nostalgia de um renascimento futuro. organização que é proposta ignora ou sacrifica

alguma daquelas funções nas quais se manifestam as

necessidades básicas do homem. Na sociedade e na

história, o romantismo vê um movimento circular BIBLIOGRAFIA. — AUT. VÁR.,Romantisme et politique contínuo entre as funções mais elementares e Colin, Paris 1969; R. ARIS, History of politica thought. primitivas e as mais elaboradas e civilizadas. As in Germany from 1789 to 1815. Russel & Russel, New primeiras se transformam nas segundas, as segundas 2 York 1965; J. BAXA, Einführung in die romantische adquirem significado e valor enquanto estão 2 Staatswissenschaft, Fischer, Jena 1931; H. relacionadas com as primeiras; dessa forma, o BRUNSCHWIG, SOCIÉTÉ et romantisme en Prusse au produtor econômico é sempre aquele que alimenta 2 XVIII' siècle. Flammarion. Paris 1973; C. CESA, (daqui a simpatia, ou a nostalgia, pela classe Fichte, i romantici. Hegel, in Storia delle idee politiche. camponesa e pelas origens camponesas do economiche e sociali, ao cuidado

1140 ROMANTISMO POLÍTICO

 

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