Dicionário de Política (Volume 1)
Caudilhismo
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os constitucionalistas, a rainha Isabel e a regente Estado Pontifício somente ao Lácio), nem a tomada
Cristina), e aqueles que, pelo contrário, sustentavam de Roma constituíram verdadeiros traumas. ser aceitável pelo católico qualquer forma política, O termo foi usado até o fim do século XIX, quando
desde que não contrastasse com a liberdade da Igreja se falava, mais do que tudo, de padres patriotas e
e com o poder do magistério desta; afirmam padres moderados, desejosos de uma cooperação entre
outrossim que seria impossível ou, de qualquer forma, Igreja e Estado. prejudicial voltar aos velhos regimes. O termo, porém, não pode ser aplicado aos
Para não confundir as diversas épocas, é preciso modernistas (os seguidores de Murri não são, de fato,
acrescentar que para o católico liberal do século XIX liberais) nem ser usado para o regime fascista, onde
o Estado não somente não deve usurpar os direitos da entre a minoria do clero antifascista existem
Igreja, mas deve conservar uma característica cristã na integralistas católicos e elementos dispostos a
sua legislação: dessa forma, manter o matrimônio colaborar com os socialistas: e dom Sturzo estará
indissolúvel e deixar à Igreja o direito de sempre na antítese da política liberal. regulamentá-lo e de celebrá-lo; punir o adultério, a O termo de católico liberal ressurgiu após o
blasfêmia, etc; o Estado, ao invés, garantirá igualdade advento da República, mas num sentido impróprio,
de direitos aos membros de outras confissões isto é, para indicar o católico que como tal se
religiosas, como também aos incrédulos. comporta na sua vida religiosa, mas não aceita as
Na Bélgica, especialmente, católicos liberais foram diretrizes emanadas pelas hierarquias eclesiásticas no
todos aqueles que aceitaram de bom grado uma sentido de votar por um determinado partido que
Constituição que importava na separação da Igreja do garanta os interesses da Igreja. Estado, deixando uma livre competição entre
católicos e seus contrários (quase como símbolo, as [ARTURO CARLO JEMOLO] universidades de Lovaina e de Bruxelas). Na França
se considerou tal o padre La-cordaire, em Caudilhismo. contraposição com os integralistas intransigentes, e
enquanto compreensivo dos movimentos nacionais. Com o termo Caudilhismo nos referimos ao regime
Na Itália, o Catolicismo liberal se afirmou, na imperante na maior parte dos países da América
questão do poder temporal, considerando-se católicos espanhola, no período que vai dos primeiros anos da
liberais todos aqueles que queriam que o Papa consolidação definitiva da Independência, em torno de
renunciasse ao poder temporal, para se poder 1820, até 1860, quando se concretizaram as aspirações
constituir a unidade nacional; a figura eminente foi o de unificação nacional. O termo, de origem espanhola,
padre Cario Passaglia, religiosamente ortodoxo, que é o adotado no uso corrente e científico, em referência
sustentou a proclamação do dogma da Imaculada a esse fenômeno. Concepção. Considera-se expoente do Catolicismo O Caudilhismo é caracterizado pela divisão do
liberal italiano Alexandre Manzo-ni, e há quem poder entre chefes de tendência local: os caudilhos. considere também César Cantú, veemente opositor do Estes líderes, geralmente de origem militar, oriundos,
matrimônio civil, e Stefano Jacini, ministro de em sua grande maioria, da des-mobilização dos
Vittorio Emanuele Il e admirador de Cavour, mas nas exércitos que combateram nas guerras de discussões do Parlamento de 1871 contrário à independência, de 1810 em diante, provinham, em
transferência da capital para Roma. Não é certos casos, de estratos sociais inferiores ou de grupos
considerado, ao invés, católico liberal Marco étnicos discriminados (mestiços, índios, mulatos,
Minghetti, expoente do liberalismo e da atuação do negros). Para grande parte deles, o Caudilhismo, com
programa cavouriano, e ao mesmo tempo católico sua organização paramilitar, constituiu um canal de
fervoroso. mobilidade vertical. Valiam-se do seu magnetismo
As gradações, na realidade, são muitas. Observe-se pessoal na condução das tropas, que haviam recrutado
que nem o clero nem o laicado puderam compreender geralmente nas áreas rurais e mantinham como reses
todos os católicos, divididos em dois grupos, o dos requisitadas, em ações guerreiras, seja contra o ainda
saudosistas dos velhos regimes e dos fautores das mal consolidado poder central, seja contra os seus
instituições liberais; mas houve também muitos que se iguais, com o apoio dos senhores locais. Esse poder
preocuparam somente da prática religiosa e dos carismático, exercido ao mesmo tempo de forma
destinos da Igreja, desin-teressando-se dos autoritária e paternalista, e retribuído com a adesão
acontecimentos políticos, tanto que nem os fatos de incondicional dos seus homens (e respectivas
1960-1961 (redução do mulheres), não possuía uma linha
CENSO 157
política definida e carecia, como se diria hoje, de das guerras civis, devido às novas formas sociais que
conteúdo ideológico. estavam surgindo, a própria palavra census acabou por
Durante os chamados "anos negros da anarquia", o perder o seu significado primitivo durante a época
Caudilhismo foi um obstáculo à realização das feudal, passando a significar uma contribuição in
aspirações das elites urbanas do comércio, natura ou em dinheiro, que incumbia ao senhor feudal empenhadas na construção de Estados nacionais de pela concessão de uma terra em feudo. Na
acordo com o modelo liberal de inspiração européia especificação de census capitis continuava a designar (conflito centro-periferia). a numeração das pessoas por interesses fiscais; mas
Contudo, durante o período do Caudilhismo, se tais Censos eram irregularmente mantidos pelos
estabeleceram, em alguns casos, ditaduras pessoais Estados feudais (a censa del sale, por exemplo). Após unificadoras, quer por obra e força individual de a queda do ANCIEN RÉGIME e a constituição de caudilhos de grande influência, quer por meio de regimes burgueses, as divisões sociais não se
pactos entre caudilhos. O Caudilhismo se exaure baseavam mais na origem nobre, burguesa ou rústica,
quando tais regimes cederam o lugar, não sem luta, mas no fato de pertencer a uma classe com
aos Governos centrais de inspiração liberal. determinado tipo de renda. A nova sociedade
O Caudilhismo representou em certos casos a burguesa se ia constituindo sobre bases estritamente
defesa das estruturas sócio-econômicas tradicionais, censitárias, mais facilmente adaptáveis às como também o artesanato e a indústria incipiente, necessidades do desenvolvimento econômico. A
contra as elites burguesas que atuavam na exportação sanção política de tal sistema surgiu com a formação
de matérias-primas, constituindo a típica burguesia de um sistema parlamentar representativo, que excluía
"compradora". das eleições todos aqueles que não atingissem um
Na América Latina, o termo caudilho ainda certo Censo, excluindo-os, por isso, da possibilidade
continua a ser usado, como o de cacique, para de se fazer representar politicamente. O Censo
designar chefes de partido local ou de aldeia, com eleitoral era o custo da contribuição necessária para
características ser considerado eleitor. Este sistema estendeu-se a demagógicas. O epíteto foi
expressamente rejeitado pelos ditadores militares do todos os países da esfera de influência européia
nosso século, pelas conotações naturais e inorgânicas durante o século XIX. Na Itália, o sistema censitário
que implica na região, contrariamente ao que teve uma primeira versão duradoura no Statuío
acontecia na Espanha, onde os partidários do Albertino, 1848, mantendo-se inalterado mesmo com
franquismo chamavam oficialmente o seu chefe de a formação do Reino; os eleitores eram cerca de
Caudillo. 620.000. Este número foi depois ampliado em 22 de Mas não se aludia neste caso à tradição
latino-americana, mas ao lema das forças anti- janeiro de 1882. Exigia-se a instrução elementar
republicanas durante a Guerra Civil (1936-1939): obrigatória e um Censo anual de L. 19,80; os eleitores
"una fe, una pátria, un caudillo". aumentaram para 2 milhões. Seria longo acompanhar
Presentemente, parte dos estudiosos da ciência todas as vicissitudes da legislação nesta matéria.
política crêem que o Caudilhismo é particularmente Bastará recordar que, em 30 de junho de 1912, era
significativo para a compreensão da gênese do concedido o sufrágio a toda a população masculina
militarismo na América Latina. maior de trinta anos (8.700.000 eleitores) e que,
finalmente, a 16 de dezembro de 1918, o direito a voto
era reconhecido a todo o varão maior de idade. Após
[MABEL OLIVIERI] as restrições fascistas do T. U. de 15 de fevereiro de
1948, foi restabelecido o sistema proporcional, agora
corrigido, sendo instituídos 31 colégios eleitorais e
Censo.
conce-dendo-se o direito a voto a toda a população
maior de idade, tanto masculina como feminina. Um
Sistemas visando ao conhecimento da quantidade sistema eleitoral censitário continua geralmente a
de bens possuídos pelos cidadãos estavam em uso já alargar seus limites, de acordo com o aumento da
no antigo Egito e nos reinos do Oriente: um meio consciência política das categorias e classes sociais, e
destinado a mostrar bastante aproximadamente quais não representa senão uma etapa rumo ao sufrágio
os recursos do Estado, tendo em vista sobretudo a universal, conquistado pela maior parte dos países
imposição de tributos. O duplo significado da palavra ocidentais no início do século XX. latina census traduz bastante bem a dualidade das alternativas censitá-rias: controle dos bens possuídos e [MAURO AMBROSOLI] posição social em relação a esses bens. Havendo esta
prática caído cada vez mais era desuso a partir da
época
158 CENTRISMO
Centrísmo. monocolor majoritário, De Gasperi preferiu aliar-se
aos outros partidos menores do centro, a fim de
I. O CENTRÍSMO EM GERAL. — Centrismo deriva contrabalançar, não só as alas extremas da
composição parlamentar, como também eventuais
claramente de centro. Em linhas gerais, o centro,
veleidades autoritárias, integralistas e clericais,
segundo a visão geométrica tradicional da política, que
surgidas do seio do seu próprio partido. A tarefa dos
se baseia na dicotomia "mudança-con-servação", e é a
Governos centristas da primeira legislatura
posição intermédia por excelência (v. ESPAÇO
republicana consistiu em iniciar a reconstrução do
POLÍTICO). Quando o grau de polarização das partes
após-guerra, mas também em restabelecer a
que se defrontam se eleva a ponto de pôr em grave
autoridade tradicional do Estado e em isolar a
perigo a mútua existência física, é então que nascem
esquerda e a direita, com o fim de assegurar a
os agrupamentos, as coalizões, as tendências de
sobrevivência do sistema democrático-parlamen-tar,
opinião, os partidos de centro, as atitudes e políticas
cen-tristas. As motivações que determinam o para a qual seria perniciosa, na opinião dos
moderados, a vitória de qualquer das duas extremas.
Centrismo pressupõem todas elas a dificuldade da
Depois dos Governos do Comiialo di Liberazione
escolha; todavia, podem ser assim esquematiza-das:
Nazionale, os Governos centristas levaram a cabo o
escolhe-se o Centrismo, ou porque se crê que ambas as
que alguns denominaram "restauração", repetindo a
posições opostas apresentam elementos positivos tais
exclusão, através dos partidos que mais diretamente as
que justifiquem uma síntese ou mediação, ou porque
representavam, P.C.I. e P.S.I., daquelas forças
se considera que ambos os contendores estão errados;
populares que a Itália liberal e a Itália fascista, embora
então, a via justa está em situar-se ao centro, isto é,
com sistemas totalmente diversos, sempre tinham
acima das facções. Sob o aspecto valorativo, não cabe
procurado manter cuidadosamente à margem da vida
a menor dúvida de que o Centrismo corresponde ao
política nacional. Além disso, o Centrismo, como
moderan-tismo. Mas, enquanto para os centristas in
solução moderada, permitiu que a Democracia Cristã
médio est virtus, para os opositores, Centrismo é
assumisse o papel de partido hegemônico dentro do
sinônimo de indecisão, de imobilismo, de
sistema. Como partido-coalizão, era o partido não só
oportunismo, etc. Atendendo finalmente ao caso da
Itália, podemos muito bem afirmar que, desde o de grupos de origem católica, como também de boa
parte dos descendentes daquilo que se poderia
sentido giolittiano "nem reação, nem revolução" ao
justamente chamar "partido dos notáveis" liberais. O
mais recente "progresso sem aventuras", nos
resultado de tal hegemonia não podia ser senão o da
encontramos assaz freqüentemente com uma sólida
estabilização do sistema sobre bases moderadas,
vocação centrista, ao longo de um século da nossa
acusando-a os opositores de imobilismo, de ser o fim
vida política.
de todo o propósito reformador e de toda a
II. O participação popular. Na tentativa de pôr termo a tal CENTRISMO COMO FÓRMULA DE GOVERNO . —
Mas o uso do termo Centrismo não se limita apenas a impasse, chegou-se ao ocaso do Centrismo como
isto. Entre outros casos, queremos lembrar que hoje, fórmula de Governo, dando lugar ao centro-esquerda,
sob esse nome, se entende aquela forma particular de onde o Partido Socialista, livre do compromisso com
coalizão quadripartida entre a Democracia Cristã, o os comunistas, ocupava o lugar do componente
Partido Liberal, o Partido Socialista Democrático e o liberal. Contudo, esta nova coalizão, devido ao
Partido Republicano, que constituiu a maioria sob a moderantismo intrínseco que viciava a Democracia
qual se mantiveram quase todos os Governos do após- Cristã, acabou por não ser senão uma limitada
guerra até o início dos anos 60, época em que se ampliação das fontes de legitimação do Governo,
formou tanto que hoje muitos escritores políticos, lembrados o centro-esquerda. O Centrismo foi
excogitado por De Gasperi, para excluir do Governo da experiência dos anos 50, a acusam com bastante
os extremistas da esquerda, comunistas e socialistas, freqüência de "neocen-trismo". ligados por um pacto de unidade de ação, e os
extremistas da direita, neofascistas e monárquicos. III. O CENTRISMO COMO MODO DE
O ciclo do Centrismo iniciou-se com a vitória FUNCIONAMENTO DE UM SISTEMA DE
eleitoral da Democracia Cristã na consulta popular de PARTIDOS. — Apercebemo-nos até aqui de dois usos
18 de abril de 1948, onde ela alcançou 48,5% dos correntes, preponderantemente jornalísticos, do termo
sufrágios e, além disso, a maioria absoluta das de que estamos tratando: é sinônimo de moderantismo
cadeiras no Parlamento. Não obstante a possibilidade e designa uma fórmula política que desempenhou um
de organizar um Governo papel decisivo na história recente da Itália. Mas o uso
do termo Centrismo pode ser também
CESARISMO 159
encontrado nos escritos de sociologia e ciência somente o pluralismo extremo, também chamado
políticas. Neste campo, o Centrismo refere-se a um pluralismo polarizado, isto é, aqueles sistemas que
contexto bastante específico, isto é, ao sistema dos apresentam multiplicidade de partidos, entre os quais
partidos. A descrição mais adequada é a que resulta de prevalecem, a nível de Governo, os de centro. É neste
uma amplíssima pesquisa dedicada aos sistemas âmbito que se desenvolvem todas as formas de
partidários, de alcance mundial, realizada por substituição do Governo. Enquanto os sistemas
Giovanni Sartori (1966). Mas não se pode negar a bipartidários apresentam um completo rotativismo
Maurice Duverger o ter falado antes (1964) deste entre os dois partidos principais, e nos sistemas de
Centrismo, se bem que referindo-se exclusivamente multipartidarismo moderado se estabelecem coalizões
ao contexto francês. alternativas, no multipartidarismo extremo a mudança
Pelo que se refere a este último, será útil lembrar se limita a um rotativismo marginal entre os partidos
que ele começa por não aceitar as interpretações menores, chamados de vez em quando, pelo partido
anteriores sobre o sistema de partidos na França, maior, a desempenhar o papel de comparsas.
hipóteses que se podem agrupar fundamentalmente Enquanto for possível, o partido de centro de maior
em duas teses essenciais: para uma, o sistema francês peso procurará tomar conta da cena, tentando, com a
está organizado segundo um esquema dualístico; a ajuda dos demais componentes da coalizão, reduzir ao
outra julga-o caracterizado por uma confusa mínimo o espaço dos partidos de extrema que, por via
multiplicidade. Para Duverger, não obstante a da sua atitude de recusa e de oposição radical, são
aparente relevância do discriminador direita-esquerda, definidos por Sartori como anti-sistemas. Entre as
a luta política não se desenvolve baseada nessa características negativas dos sistemas em questão, são
contraposição. Na grande maioria dos regimes. de mencionar sobretudo duas: a ineficiência e a
Diretório, Primeiro Império, Monarquia de Julho, instabilidade. Segundo Império, Terceira, Quarta e Quinta
República, a política francesa é determinada pelos BIBLIOGRAFIA- M. DUVERGER, L’éternel
grupos de centro, isto é, por uma vasta área onde con-
morais. Essai sur le centrisme français. em "Revue
fluem os moderados das duas formações tradicionais e
Française de Science Politique", vol. XIV, fevereiro de
em cujo âmbito se podem dar oscilações, mas sempre
1964; Id., Sociologie polilique, P. U. F., Paris 1966; G.
de somenos importância. A fisionomia do Centrismo
GIOLITTI, Memorie della mia vila (1922), nova ed.
francês está, pois, marcada pela preponderância dos
Garzanti, Milano 1967; A. MASTROPAOLO, Elezioni, in
moderados da direita e da esquerda que receiam, dada
Il mondo contemporâneo, Storia dlialia, ao cuidado de
a aspereza dos antagonismos políticos, ser dominados
N. TRANFAGLIA, La Nuova Itália. Firenze 1978, vol. I;
e eliminados, se uma das alas extremas vier a
G. SARTORI, Europeànpoliticalpariies; the case of
governar. Resta acrescentar que, em seus escritos mais
polarized pluralism. in política! parties and political
recentes, Duverger acabou por estender o Centrismo a
development, ao cuidado de J. LA PALOMBARA e M.
todos os sistemas, incluídos aqueles que define ao
WEINER, Princeton University Press 1966; Id., Parties
mesmo tempo como dualísticos: neste caso, Centrismo
and party systems. A framework for analysis,
é usado para indicar a predominância dos moderados
Cambridge University Press 1976; A. TASCA, Nascita e
no interior de- cada uma das duas formações
avvento del fascismo, La Nuova Itália, Firenze 1950.
antagônicas, tomadas separadamente, e sendo excluída
toda possibilidade de aliança entre elas.
[ALFIO MASTROPAOLO]
Mas voltemos a Sartori que não fala tanto de
Centrismo quanto de sistemas de partidos cujo Centro. — V. Espaço Político. funcionamento se baseia no centro. Em sua exposição,
nem sequer aparece o termo Centrismo. Distingue, de Cesarismo. preferência, entre os sistemas de partidos europeus e
anglo-saxões, um pluralismo simples, ou I. CESARISMO, FASCIMO E BISMARCKISMO. — O bipartidarismo, um pluralismo moderado, típico dos
termo Cesarismo tem sua origem histórica no regime
países escandinavos e das pequenas democracias
instaurado na Roma antiga por Caio Júlio César. A
continentais, e um pluralismo extremo, fazendo
idéia de um poder forte, que soubesse desvincular-se
referência explícita à França da Quarta República, à
Alemanha de Weimar e à Itália contemporânea. Nessa dos interesses dos grupos e dos indivíduos e aliar-se
estreitamente ao exército com o fim de articular uma
tipologia, o critério numérico se emparceira com o
analítico (v. S ).Aqui nos interessa ISTEMAS DE PARTIDO política equilibrada que correspondesse mais aos
interesses
160 CESARISMO
globais da comunidade, se apresenta repetidas vezes especificidade do termo Cesarismo, referindo-o
na literatura medieval e moderna. especialmente a situações sociais caracterizadas pela'
Com um sentido moderno, o termo tem sido usado criação, se bem que por motivos variados, de um certo
para designar os regimes instaurados na França pelos equilíbrio entre as forças políticas e sociais em campo.
dois Bonapartes, embora as condições históricas Por isso, no jogo político que se desenrola num Estado
diferissem profundamente das condições típicas do cesarista, nenhuma dessas forças, diferentemente do
antigo Cesarismo. Segundo Marx, trata-se de uma que ocorre nos regimes fascistas, se acha nunca
"analogia histórica superficial", visto não se levar completamente vencida. Neste sentido, segundo
devidamente em conta que, na antiga Roma, a luta de Gramsci, todo Governo fruto de coalizão entre várias
classes se desenrolava no âmbito de uma minoria forças possui um certo grau inicial de Cesarismo, que
privilegiada (os cidadãos livres), enquanto, com o poderá desenvolver-se até atingir formas mais plenas,
desenvolver-se da moderna sociedade industrial, o caracterizadas pela figura heróica do chefe
campo da luta de classes se alargou, vindo a carismático.
compreender praticamente toda a sociedade. No caso Mais interessante ainda é a relação com o
dos dois regimes napoleônicos, seria, portanto, mais bismarckismo. À primeira vista, os dois fenômenos
apropriado falar de BONAPARTISMO (v.). parecem bastante semelhantes entre si. É indubitável
Apesar disso, o teimo Cesarismo alcançou notável que o bismarckismo também se caracteriza por uma
sucesso, havendo merecido a atenção de Gramsci. relativa autonomia do Estado em face das forças
Numa rubrica de suas Note sul Machiavelli, é chamada sociais, constituindo, neste sentido, uma forma de
cesarista "uma situação em que as forças em luta se Cesarismo. Mas convém observar que, historicamente,
equilibram de maneira catastrófica, isto é, se o regime de Bismarck atuou numa situação de
equilibram de tal forma que a continuação da luta não transição, que levaria a uma sociedade industrial
pode findar senão com a destruição recíproca" moderna, na qual, portanto, não se achavam ainda
(Gramsci, 1966, p. 58). Então, o Cesarismo designa a bastante desenvolvidas forças sociais fundamentais,
"solução arbitrai, confiada a um grande personagem, como a burguesia e o proletariado (Poulantzas, 1971,
de uma situação histórico-política caracterizada por p. 209).
um equilíbrio de forças de perspectivas catastróficas", O conceito foi, todavia, reexaminado e reformulado
que, de quando em quando, segundo condições de modo interessante, nestes últimos tempos, pelo
histórias, assume um determinado significado político, sociólogo brasileiro Hélio (aguaribe. Para Jaguaribe,
mais ou menos progressivo. O próprio Gramsci pode-se falar, relativamente aos chamados países
distingue o Cesarismo de Napoleão I, que possui um "subdesenvolvidos", de um modelo de caráter progressivo como conso-lidador de um novo desenvolvimento de tipo neobismarckiano. Neste
tipo de Estado, do de Napoleão III, que é, ao contrário, modelo, o papel do Estado é fortalecido, de modo que
regressivo, porquanto não representa ruptura em proteja o mercado nacional da penetração de empresas
relação ao passado, mas é antes uma evolução do tipo estrangeiras e exerça uma função de mediação entre os
antigo. diversos antagonismos, acelerando o desenvolvimento
Os acontecimentos do. fim do século XIX e da do país. Com isto, se tornaria mais fácil a formação e
primeira metade do século XX introduziram outros desenvolvimento de uma burguesia nacional. Esta
dois conceitos que muitos relacionam não raro com o tenderia, em seguida, a assumir como própria a gestão
de Cesarismo: bismarckismo e fascismo. Trata-se, do poder político, inaugurando assim o regime
contudo, de fenômenos notavelmente diversos entre democrático-representativo de tipo clássico.
si. Para Saitta, o que distingue o fascismo do regime Poder-se-ia então dizer que o fenômeno bis-
dos Bonaparte é que aquele "surge e se realiza tão-só marckiano pode mais exatamente referir-se aos
onde existem condições efetivas para a passagem do momentos iniciais do desenvolvimento de uma
antigo regime de base individualista para o novo sociedade, quando certas forças sociais não atingiram
regime de massa". O fascismo estaria então unido à ainda seu pleno crescimento. Usando uma
presença de organizações de massa, tendentes a terminologia de tipo marxista, pode-se afirmar que ele
subtrair ao Estado um número cada vez maior de corresponde a uma fase de transição em que, ao
funções. Neste sentido, se poderia ainda afirmar que o passar uma sociedade da dominância de um modo de
fascismo não é senão o Cesarismo da sociedade produção para a de um outro, coexistem em tal
capitalista desenvolvida, opinião que, aliás, parece ter situação classes e grupos sociais característicos de
sido a de Gramsci. Mas talvez fosse particularmente épocas diferentes. Segundo isso, o regime de
útil conservar certa Bismarck seria típico de uma sociedade em transição
do feudalismo para o
CESARISMO 161
capitalismo, ao passo que o modelo neobismarckiano afirmação do que se chama democracia totalitária, isto
de Jaguaribe se referiria, em vez disso, aos países que é, de um tipo de organização política em que perde
têm de afrontar um processo de transição de uma progressivamente a importância uma série situação de dependência colonial ou neo-colonial para significativa de poderes intermédios, situados entre o
uma situação de maior autonomia e independência. O Estado e o indivíduo, com o inevitável aumento do
Cesarismo propriamente dito, segundo as indicações poder estatal. de Gramsci, parece antes característico de sociedades Na realidade, é o próprio desenvolvimento da
que já desenvolveram suficientemente suas sociedade ocidental que envolve em si um processo potencialidades e dão, por isso, continuidade a uma de atomização e de crescente influência do Estado na
articulação de classes sociais que podemos definir, em vida dos cidadãos. É aqui que se há de buscar a
linhas gerais, como moderna. gênese do fenômeno cesarista moderno que,
justamente por isso, está, segundo Tocqueville,
II. CAUSAS DO CESARISMO. — Quanto à estreitamente ligado, quer à democracia plebiscitaria,
identificação das causas que podem levar a um regime quer ao socialismo. cesarista, é útil recordar ainda as considerações de É também nas tendências gerais de democratização
Gramsci. A causa geral pode encontrar-se co-mumente e burocratização da sociedade moderna que Weber
numa situação de equilíbrio entre classes e grupos descobre as causas do Cesarismo. Mas, para ele, as
sociais que se opõem entre si. Esta situação pode ser tendências cesarístas, sobretudo quando ocorrem em
naturalmente provocada por causas de natureza muito estruturas institucionais de tipo liberal-democrático,
diversa. Nota-se, antes de tudo, que o antagonismo desempenham a indispensável função de controlar o
entre os grupos não possui regularmente um caráter poder crescente da burocracia. Eliminada como
absoluto tal que não permita, em certos momentos, inadequada a hipótese da eleição direta dos burocratas
que as duas forças, antes antagônicas, se harmonizem e dado por suposto o inevitável aumento da
até certo ponto, superando assim a contradição importância da burocracia, fruto de um processo mais
anterior. Um exemplo clássico desta situação nos é geral de racionalização iniciado pelo capitalismo
oferecido, em grandes traços, pela luta da burguesia e moderno, a única solução está na presença de um líder
da aristocracia na fase de transição para o capitalismo. — um presidente eleito pelo povo ou um chefe
Em segundo lugar, a situação de equilíbrio pode ser parlamentar vencedor nas eleições —, "homem de
devida a causas momentâneas. Uma força, embora seja confiança das massas" e por isso capaz de exercer
predominante num determinado contexto, pode estar, domínio sobre os funcionários burocráticos e de lhes
por vezes, dividida em facções discordes entre si. limitar o poder. Em suma, o Cesarismo surge como
Sendo assim, permite que uma outra força, de menor uma exigência que tende a manifestar-se até nas
relevo mas mais compacta, desafie o poder tradicional. democracias parlamentares, como equivalência, a
Enfim, uma situação de equilíbrio também pode ser nível político, do papel do empresário capitalista.
favorecida pelas relações que intermedeiam dentro do
Portanto, desde este ponto de vista, o Cesarismo —
bloco do poder dominante: entre os grupos principais que, para Marx, remontava sobretudo à estrutura
das classes que dominam e as chamadas forças de social da França do século XIX — torna-se uma
apoio que estão sujeitas à sua influência hegemônica. característica permanente, conquanto variável, da
Neste caso, é preciso ter presente que uma mudança de
sociedade moderna.
posição das forças de apoio pode modificar a relação
Pelo que respeita aos aceleradores que permitem ao
das forças principais em campo. A situação favorável
processo encontrar um canal concreto, será útil adotar
ao Cesarismo é assim globalmente definida por
o conceito gramsciano de crise orgânica. Esta se
Gramsci: "quando a força progressiva A luta com a
verifica quando, numa organização, se geram, a
força regressiva B, pode ocorrer, não só que A vença
diversos níveis, graves contrastes entre representantes
B ou B vença A, mas também que nem vença A nem
e representados.
B e, anulando-se ambas reciprocamente, intervenha de
fora uma terceira força, C, e domine o que resta de A e De fato, em certos momentos, os grupos sociais se
de B" (Gramsci, 1966, p. 58). desligam dos seus partidos tradicionais, não mais
reconhecidos desde então como expressão da sua
Numa outra óptica, mais propriamente política, foi
classe ou grupo social. Quando ocorrem estas crises
identificada por Tocqueville, como fator do
de representação, a situação fica imediatamente aberta
Cesarismo, a predominância cada vez maior da
a vários canais, freqüentemente representados por
sociedade sobre o indivíduo e a conseqüente
chefes carismáticos. Este tipo de crise é, na
terminologia gramsciana, sobretudo uma crise de hegemonia da classe dirigente. Crises deste gênero são amiúde resolvidas com uma
162 CESAROPAPISMO
reestruturação das forças políticas, que restabeleça simples razão de que ela, em certo modo, já existia ou
eficazmente a relação entre representados e estava em formação, quando o regime se estabeleceu. representantes. Fenômeno evidente deste processo é Talvez por esse motivo, o peronismo se limitou à
comumente a formação de novos partidos ou coalizões clássica função da "arbitragem", que parece própria de
de partidos, e o desmoronamento e dissolução de todas as esfumaturas do Cesarismo. outros. Mas esta solução pode não bastar, quando
inserida na já conhecida situação de equilíbrio estático. Neste caso, a reestruturação das forças BIBLIOGRAFIA.- I. CERVEUJ,- Cesarismo" e políticas deve ser ainda mais radical, podendo ser "Cavourismo". A propósito di Heinrich von Sybel.
efetuada com êxito por um regime cesarista. Alexis de Toc-queville e Max Weber, in "La Cultura",
X, 1972, pp. 337-91; A. DANSETTE, LOULS Napoléon à
III. O CESARISMO HOJE. — Agora já podemos la conquéte du pouvoir. Hachette, Paris 1961; J.
compreender o Cesarismo como um regime político DUCLOS, De Napoléon III à de Gaulle, Editions que se caracteriza por forte aparato estatal — ao Sociales, Paris 1961; A. GRAMSCI, Noie sul menos em relação ao resto da sociedade —, e que Machiavelli, sulla politica e sullo Stato moderno.
conseguiu gozar de considerável autonomia em Einaudi, Torino 1966; H. JAGUARIBF, Economic and confronto com as forças sociais. Para Trotski, por politicat development, Harvard Umversity Press, exemplo, a essência do bonapartismo "consiste nisto: Cambridge (Mass.) 1968, L. MANGONI, Cesarismo. apoiando-se na luta de duas facções, bonapartismo e fascismo, in "Studi Storici", XVII, salva a nação
com uma ditadura burocrático-militar". Assim, com 1976, n.° 3, pp. 41-61; K. MARX, Il diciolto brumaio di
seus próprios instrumentos, o poder cesarista pode-se Luigi Bonaparte (1852), Edúori Riuniti, Roma 1964;
fazer de mediador entre os interesses contrastantes das N. POULANTZAS, Potere político e classi sociali (1968), forças Editori Riuniti, Roma 1971; A. SAITTA, Dal Jascismo sociais; embora não ataque nunca
completamente os interesses dos grupos que gozam de alia resistenza. La Nuova Itália, Firenze 1961; A. uma posição dominante na estrutura social, jamais lhes STAWAR, Liberi saggi marxisti (1961). La Nuova Itália,
consolida o poder. Neste sentido, a época Firenze 1973; L. TROSTSKU, Serial 1929-1936, contemporânea apresenta também alguns exemplos de Einaudi, Torino 1962. Cesarismo, se bem que em sua feição neobismarckiana. [CARLO GUARNIERI]
Ao primeiro tipo pertence o gaullismo, que se
inseriu num contexto histórico rico de tradições
Cesaropapismo.
cesaristas como o francês: "Assim como Luís
Bonaparte contou com a adesão do povo francês,
quando conseguiu legitimar, por meio de plebiscito,
seu golpe de Estado de 2 de dezembro de 1851, assim O termo Cesaropapismo indica um sistema de
relações entre Estado e Igreja em que o chefe do
também De Gaulle fez com que o aprovassem em
Estado, julgando caber-lhe a competência de regular a
plebiscito, a 28 de setembro de 1958" (Duelos).
doutrina, a disciplina e a organização da Societas
Ao segundo tipo se assemelham muitos dos
fidelium, exerce poderes tradicionalmente reservados à
regimes modernos do "Terceiro Mundo". Neste
suprema autoridade religiosa, unificando (pelo menos
contexto, é o forte poder estatal que promove, "desde
em via tendencial) na própria pessoa as funções de
o alto", o desenvolvimento de uma sociedade moderna
imperator e de pontifex. Decorre daí um traço
e a formação dos correspondentes grupos e classes,
característico do sistema cesaropapista: a
sem contudo se identificar nunca completamente com subordinação da Igreja ao Estado, que atingiu formas nenhum deles em particular. Como exemplos
às vezes tão acentuadas de levar a considerar a
concretos, pensemos no Egito de Nasser e na Argélia
primeira como um órgão do segundo.
de Boumedienne. No regime do general Perón na
Argentina, Na base do Cesaropapismo está a idéia, pelo contrário, os aspectos
predominante no mundo romano, de que a religião
neobismarckianos parecem mais reduzidos. De fato,
interessa antes de tudo à coletividade e
embora situado num contexto tido ainda como não
secundariamente ao indivíduo: nesta perspectiva,
inteiramente "desenvolvido", o regime peronista não
contribuiu de forma determinante para a formação de religião e política aparecem como duas entidades uma estrutura de classes relativamente moderna, pela indissolúveis, tanto que o jus sacrum é considerado
parte integrante do jus publicum, e o chefe do Estado é também chefe da Igreja.
Esta concepção não obstante seja diretamente
contrária ao princípio judaico-cristão que atribui à
religião uma importância, em primeiro lugar.
CHAUVINISMO 163
pessoal, ligada a Salus animarum de cada indivíduo e da Igreja da Inglaterra — foram progressivamente
sobrevive ao edito de Teodósio, que proclama o limitados, inicialmente em favor do Parlamento e mais
cristianismo religião do Estado, e, embora submetida a recentemente em favor de organismos eclesiásticos,
ásperas críticas por parte dos pontífices e dos padres reduzindo-se, enfim, a muito pouco. Maior resistência,
da Igreja, determina o modelo de relações entre Estado ao contrário, demonstrou o sistema do Cesaropapismo
e Igreja em vigor até o desaparecimento do Império na Europa oriental, onde mais forte se fez sentir a
romano do Ocidente (476) e do Oriente (1453). Neste experiência da Igreja bizantina: na Rússia, os czares
sistema — que representa a mais completa expressão mantiveram sempre uma posição proeminente na
histórica do Cesaropapismo —, o Imperador contínua orientação da Igreja ortodoxa. fazendo valer para com o cristianismo os poderes que
precedentemente exercia em relação aos cultos OLEMAN BIBLIOGRAFIA .- P. R. C NORTON. pagãos. Ele, portanto, emana normas e sanciona os Roman State and Christian Church. A collection of decretos dos concílios ecumênicos; convoca os legal documents Io A. D. 535. I. P. C. K., London tribunais eclesiásticos e determina-lhes a competência; 1966; S. Z. E HLER , J. B. M ORRAL , Chiesa e Stato cuida da exata aplicação das leis canônicas, controla a
correta administração dos bens da Igreja e, em muitos EDIN attraverso i secoli, Vita e Pensiero, Milano 1958; H.
J , LM Chiesa ira Oriente e Occidente, ín Storia
casos, prove a nomeação dos titulares dos ofícios
della Chiesa. Jaca Book, Milano 1978, vol. III; H.
eclesiásticos (entre os quais os bispos).
RAHNER, Chiesa e struttura política nel cristianesimo
Em um modelo de Cesaropapismo se inspiram primitivo, Jaca Book, Milano 1979; F. RUFFINI,
também os imperadores do Sacro Romano Império. Relazioni tra Stato e Chiesa. Il Mulino, Bologna 1974. Reconstituída a unidade religiosa do" Ocidente, Carlos
Magno reivindica para si a função não somente de [SILVIO FERRARI] "defender com as armas" a Igreja de seus inimigos
externos, mas também a de "fortificá-la no seu interior
através do maior conhecimento da fé católica" (carta
ao Papa Leão III, 796), deixando, por sua vez, para o Chauvinismo. pontífice, só a tarefa de orar pelas vitórias do
Imperador. Nesta base volta a reviver um sistema de
relações entre Estado e Igreja em que os imperadores Com este termo indica-se uma atitude de
francos se reapoderam dos poderes já exercidos pelos exasperado e cego patriotismo, que leva sempre a
imperadores romanos no campo legislativo, jurídico e seguidas polêmicas negadoras dos direitos de outros
administrativo. povos e nações. A palavra tem origem no nome do
soldado Nicolas Chauvin, valoroso combatente das
Um pressuposto essencial do modelo do
guerras napoleônicas, famoso por sua fidelidade ao
Cesaropapismo desaparece com a dissolução do
Imperador, mesmo durante o período da Restauração,
Império e a formação dos Estados nacionais: cada
cuja figura é sempre mencionada como exemplo de
soberano de fato visa controlar a atividade das Igrejas
fanatismo patriótico, através de caricaturas, canções e
nacionais, mas não pode avançar nenhuma pretensão
anedotas, especialmente após a representação da
em relação à Igreja universal. É ainda possível
comédia La cocarde tricolore, épisode de la guerre
encontrar tendências de Cesaropapismo na ação de
d'Alger (1831), de autoria dos irmãos Gogniard. Esta
algum imperador (Filipe, o Belo, e Ludovico, o
comédia teve grande sucesso na França, especialmente
Bávaro) ou nas construções teóricas de algum escritor
durante o reinado de Luís Felipe, e o termo ganhou
(em particular, o Defensor Pacis de Marcílio de
fama também em outros países para indicar toda a
Pádua); mas já as tentativas da autoridade estatal de
forma de extremo nacionalismo
interferir nos interna corporis da Igreja assumem uma nova configuração, dando vida a um diferente sistema Na Inglaterra, porém, usa-se o termo gingoísmo
de relações entre os dois poderes (v. J (jingoism), que deriva do nome da deusa japonesa URISDICIO -
NALISMO fingo, que figura como interjeição numa canção ).
popular de cunho nacionalista, em voga no tempo da
Características de Cesaropapismo adquire, guerra russo-turca de 1878.
imediatamente após a reforma anglicana, o sistema de
relações entre Estado e Igreja na Grã-Bretanha: mas os
poderes do soberano — que conserva ainda hoje o [GIORGIO BIANCHI]
título de supreme governor
Cidade-Estado. — V. Pólis.
164 CIÊNCIA POLÍTICA
Neste sentido mais específico de "ciência", a
Ciência Política. Ciência política vem cada vez mais se distinguindo da
pesquisa, voltada não mais para a descrição daquilo
"que deve ser", pesquisa esta à qual convém mais
I. CIÊNCIA POLÍTICA EM SENTIDO AMPLO E SENTIDO
ESTRITO. — A expressão Ciência política pode ser propriamente dar o nome de "filosofia política", usado
comumente. Aceitan-do-se esta distinção, as obras dos
usada em sentido amplo e não técnico para indicar
clássicos do pensamento político são, em sua maior
qualquer estudo dos fenômenos e das estruturas
parte, obras nas quais mal se distingue aquilo que
políticas, conduzido sistematicamente e com rigor,
pertence à filosofia, enquanto os "cientistas políticos"
apoiado num amplo e cuidadoso exame dos fatos
contemporâneos tendem a caracterizar as próprias
expostos com argumentos racionais. Nesta acepção, o
obras como "científicas", para acentuar aquilo que as
termo "ciência" é utilizado dentro do significado
distingue da filosofia. Embora não seja o caso de
tradicional como oposto a "opinião". Assim, "ocupar-
deter-se sobre o conceito de "filosofia política",
se cientificamente de política" significa não se
enquanto diferente da Ciência política, é conveniente,
abandonar a opiniões e crenças do vulgo, não formular
pelo menos, advertir que voltam a fazer parte da noção
juízos com base em dados imprecisos, mas apoiar-se
de filosofia política como estudo orientado
nas provas dos fatos. Neste sentido, a expressão não é
deontologicamente, tanto as construções racionais da
nova, mas usada largamente no século passado,
ótima república, que deram vida ao filão das "utopias",
especialmente na Alemanha; não é supérfluo recordar
quanto as idealizações ou racionalizações de um tipo
que os célebres Lineamenli di filosofia del dirilto de
de regime possível ou já existente, características das
Hegel (1821), cujo subtítulo é Scienza dello stato
obras dos clássicos do pensamento político moderno
(Staatswissenchaft) in compêndio. Na Alemanha, na
(como Hobbes, Locke, Rousseau, Kant, Hegel). Mais
primeira metade do século passado, desenvolveu-se
do que distinguindo entre projeção utópica ou
uma importante tradição de ciência do Estado, através
idealizante e análise empírica, Sartori individualiza a
de cientistas dedicados aos estudos da organização
diferença entre filosofia política e Ciência política, na
estatal (da administração pública), como Roberto von
falta de operatividade ou aplicabilidade da primeira,
Mohl e Lorenz von Stein. Na França e na Itália teve
pois "a filosofia não é. .. um pensar para aplicar, um
maior aceitação a expressão Ciência política, como
pensar em função da possibilidade de traduzir a idéia
mostra a célebre coleção de obras italianas e
no fato", enquanto a ciência "é a teoria que reenvia à
estrangeiras, intitulada Biblioteca di scienze poli-tiche,
pesquisa, tradução da teoria em prática", afinal um
dirigida por Attilio Brunialti, que antepôs um ensaio
"projetar para intervir" (La scienza política, p. 691).
de sua autoria sobre Le scienze politiche nello stato
Poderia objetar-se que, em relação à operatividade,
moderno (vol. I, 1884, pp. 9-74).
não significa que os ideais tenham sido na história das
Em sentido mais limitado e mais técnico,
mudanças políticas menos "operativos" do que os
abrangendo uma área muito bem delimitada de
conselhos dos "engenheiros" sociais.
estudos especializados e em parte institucionalizados,
com cultores ligados entre si que se identificam como
II. CARACTERÍSTICAS DA CIÊNCIA POLÍTICA
"cientistas políticos", a expressão Ciência política CONTEMPORÂNEA. — Embora a constituição da Ciência
indica uma orientação de estudos que se propõe
política em ciência empírica como empreendimento
aplicar à análise do fenômeno político, nos limites do
coletivo e cumulativo seja relativamente recente,
possível, isto é, na medida em que a matéria o
podem ser consideradas obras de Ciência política, ao
permite, mas sempre com maior rigor, a metodologia
das ciências empíricas (sobretudo na elaboração e na menos em parte, e na sua inspiração fundamental,
também no sentido limitado e técnico da palavra,
codificação derivada da filosofia neopositivista). Em
algumas obras clássicas, como as de Aristóteles.
resumo, Ciência política, em sentido estrito e técnico,
Maquiavel, Montesquieu, Tocqueville, enquanto elas
corresponde à "ciência empírica da política" ou à
tendem à formulação de tipologias, de generalizações,
"ciência da política", tratada com base na metodologia
de teorias gerais, de leis, relativas aos fenômenos
das ciências empíricas mais desenvolvidas, como a
políticos, fundamentadas, porém, no estudo da
física, a biologia, etc. Quando hoje se fala do
história, ou seja, apoiando-se na análise dos fatos.
desenvolvimento da Ciência política nos referimos às
tentativas que vêm sendo feitas com maior ou menor É verdade, todavia, que a Ciência política, como
sucesso, mas tendo em vista uma gradual acumulação disciplina e como instituição, nasceu na metade do
de resultados e a promoção do estudo da política século passado; ela representa um como ciência empírica rigorosamente compreendida.